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Entre a vaidade e a verdade: Molho Negro expõe as contradições da era digital em “VIDAMORTECONTEÚDO”

Em VIDAMORTECONTEÚDO, o Molho Negro traduz o colapso da geração conectada em um disco que confronta a dopamina, a vaidade e o vazio digital.

Molho Negro chega ao seu sexto álbum de estúdio com VIDAMORTECONTEÚDO, primeiro lançamento em parceria com a DeckDisc. 13 anos não são 13 semanas — muito menos 13 dias. É inspirador ver projetos longevos no cenário independente brasileiro — ainda mais quando o foco é o som alternativo. Assim como Gabriel Thomaz, com seus Autoramas, João Lemos é um dos operários do rock nacional e mantém a postura íntegra em não renunciar a fazer o som que gostaria de ouvir, independente do quão longe ele pode ir.

Atualmente formada por João Lemos (vocal/guitarra), Raony Pinheiro (baixo) e Antonio Fermentão (bateria) — que grava seu primeiro disco com o grupo — o novo trabalho de estúdio é questionador e reflete a realidade de centenas de artistas ao redor do país. Discute temas sensíveis que geram inseguranças e que mexem com a autoestima de quem se dedica à arte como ofício (ou que gostaria que fosse sua única fonte de renda).

No meio disso tudo, os coaches, fórmulas mágicas, pressão por números, obrigação de ter que gerar conteúdo (‘Ou você morre fazendo arte, ou vive o suficiente para virar criador de conteúdo’) e autossabotagem aparecem no retrovisor. Não é à toa que VIDAMORTECONTEÚDO se faz necessário justamente por falar sem travas a respeito das doenças mentais. Partindo do ponto de millennials, mas sem deixar de conversar com outras gerações que têm que lidar com males como ansiedade e depressão desde muito cedo. Questiona até mesmo essa indústria movida a dopamina e relembra como podemos ser frágeis. Entre ambulâncias que tocam sirenes, tentativas de fuga de notícias pesadas, paranoias, cobranças, julgamentos externos e a necessidade de desconexão, o disco alterna entre momentos cortantes e outros em que suplica.



As experimentações também são um ponto-chave de conectividade que o disco permite. Aliás, se fosse resumir o álbum, diria que a frase pronta “desconectar para se conectar” ganha vários sentidos ao longo do seu andamento. Pois além de refletir sobre uma sociedade cronicamente online, também nos relembra sobre a importância de lapidar a arte. O que a faz gerar identificação e soar mais humana, menos algorítmica. O exercício de autoconhecimento e o observar do seu entorno, se fazendo necessários. Ou deveriam ser para conseguir produzir algo que nos fizesse sentir mais, consumir menos, ou como gosto de dizer: nos sentir menos consumidos.

‘Se não der em nada, tudo bem, a gente toca pra ninguém’, verso de ‘Sem Sinal’, é talvez um dos mais fortes do disco. Tanto para falar sobre a realidade do redimensionamento do rolê da música, mas também sobre a luta para existir, seja como CPF ou CNPJ.

Já “Espraiada” é das mais sensíveis, não só por ser extremamente confessional ou por optar por voz e violão, mas por traduzir sentimentos como inércia, apatia, solidão e se sentir fora do tom. O verso “Só o que vende é a vaidade” é daqueles desabafos de quem olha para o entorno e não consegue ver verdade no que é feito de plástico, edits e narrativas perfeitas para a rede social.

A angústia, a bateria social, a ansiedade de pertencer a algo, de ter que ter uma opinião, de precisar se informar sobre a vida de pessoas que nunca saberão da sua existência ou serão de fato presentes na sua vida, aliadas a comparações amplificadas por parte de realidades que nem sempre existem como são contadas, acabam afetando quem sucumbe a hiperconectividade. O disco, apesar de questionar até mesmo o funcionamento do cenário musical, também ressoa como uma cartela de escitalopram para aliviar a pressão da rotina de trabalho, retratar o desolamento e em certos momentos pedir até mesmo ajuda.

Gosto de sentir que o espírito de quem ama rock, punk, garagem, hardcore, continua presente lá, mas que assim como o consumo por novas referências, permite experimentações eletrônicas que, por sua vez, podem levar toda essa força de insistir em fazer música independente dos obstáculos e estender a mão para conversar com uma nova geração que não está mais interessada em rótulos de prateleira, mas em sentir que pertence a algo, ou que aquela música vai agregar algo na sua vida. Seja calmaria, ódio, felicidade, conflito, explosão.

O lado irônico continua presente na banda paraense, mas eles não fogem quando o assunto é falar sobre assuntos sérios. “Bombas & Refrigerantes” é reflexo disso e até resgata a frase “lembra quando a gente era tudo amigo” em uma música ironicamente dançante que faz uma série de analogias sobre mudanças, afastamentos e feridas abertas.

Depois de se desconectar, agora é chegada a hora de se conectar. E nada como shows viscerais e com presença para tudo se justificar. Se nos encontramos na música, ter assistido ao show do Molho Negro com o Jair Naves no Festival 5 Bandas, foi como um respiro de duas gerações de artistas que ainda prezam pela conectividade além das telas e notificações.

No dia 21/11, eles lançam VIDAMORTECONTEÚDO, produzido por Gabriel Zander e gravado no Estúdio Costella, na Casa Rockambole com Tisbe como convidada.

Molho Negro lança VIDAMORTECONTEÚDO em São Paulo

Sexta-Feira | 21 de Novembro de 2025
20h00 – Abertura da casa
21h00 – Tisbe
22h30 – Molho Negro
01h00 – Encerramento da casa

Onde: Casa Rockambole | Rua Belmiro Braga, 119 – Pinheiros – São Paulo/SP

This post was published on 31 de outubro de 2025 8:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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