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Bike Records ajuda bandas independentes a lançar seu 1º vinil, conheça a iniciativa

Bike Records, iniciativa dos paulistas, contribui para a monetização dos artistas independentes

Com até o momento 17 datas confirmadas na Europa, além de outras a serem confirmadas, o Bike, de São José dos Campos (SP), é exemplo de autogestão dentro do cenário independente brasileiro. Com 5 discos lançados, o último sendo o ARTE BRUTA (2023), as idas ao exterior fazem parte da rotina, e a cada vez que voltam, encontram mais público.

Mais do que isso, no exterior eles tocam por casas dentro do seu segmento específico de som e isso garante que cada ida valha a pena. Quem conhece o funcionamento do mercado de música no exterior sabe o quanto eles apreciam conhecer bandas novas e comprar merchs. Todas as bandas que podem ir relatam o quão rápido eles se esgotam, independente de tocar em locais pequenos e médios.

Iniciando agora no mês de junho, serão mais de 20 shows entre Itália, Suíça, Polônia, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e Portugal. A agenda pode ser acompanhada em tempo real aqui.


Vinil do Manger Cadavre? saiu pela Bike Records. – Foto: Divulgação/Reprodução da Loja Online

Bike Records

O papo de hoje é sobre merchs, mas principalmente sobre a nova empreitada dos paulistas, a Bike Records.

Até o momento, o Bike além de já ter lançado seus discos em vinil, também realizou o lançamento do LP, Imperialismo, Manger Cadavre? – banda de metal da sua cidade natal.

No momento eles tem programado o lançamento do vinil de Néktar, trabalho mais recente da Ava Rocha, em vinil 180 gramas transparente. Novos lançamentos serão anunciados em breve.

A iniciativa também está disposta a ajudar outras bandas independentes a realizar o sonho de prensar um vinil e o vocalista Julito frisa na entrevista que a inbox do Instragram do Bike está aberta para isso.

Acesse a Loja Online clicando aqui


Vinil da Ava Rocha está a venda pela Bike Records – Foto: Reprodução/Loja Online

Entrevista: Julito sobre a Bike Records

Como é para vocês lidar com o processo de autogestão dentro da Bike?

Julito: “Todos nós tocamos em bandas independentes desde o início dos anos 2000 e nunca tivemos a pretensão de fazer parte do casting de uma major, nossa escola foi a dos shows de punk rock e hardcore que víamos no interior quando éramos adolescentes. Sempre tivemos como referência as bandas que produziam e vendiam seu próprio merch e discos, e completavam a renda com os cachês dos shows.

No início da Bike, em 2015, rolou um hype na onda da nova psicodelia e acabamos trabalhando entre 2016/17 com um produtor brasileiro que nos deu muita dor de cabeça logo na nossa primeira turnê na Europa, quando fomos para o Primavera Sound.

Depois disso, chegamos a conclusão de que a melhor coisa era nos autogerir e continuamos assim até praticamente 2023 quando começamos uma parceria com o Bruno, da Brain Productions, que até agora tem acrescentado na nossa correria em relação aos shows; mas seguimos cuidando de toda parte relacionada ao merch, plataformas digitais e redes sociais.”

O que vocês tem feito para monetizar a música na era do streaming?

Julito: “Os streamings geram cerca de 70 dólares por mês pra gente, o que é praticamente nada, e, além disso entra alguma coisa com o bandcamp, mas a maior parte vem dos shows e venda de merchandise.

São 5 discos gravados e prensados por nós e 2 já esgotados. Começamos pegando o cachê de um show no Sesc Pompeia e ao invés de dividir o dinheiro entre nós, pegamos tudo e prensamos o “1943”, e com a venda dele prensamos o segundo disco e assim sucessivamente.

No começo nós comprávamos as camisetas no Brás e depois estampávamos com o irmão do Diego (Xavier) lá no Estúdio Wasabi. Até hoje eu mesmo corto e faço os imãs de geladeira que vendemos e fazem sucesso na nossa banquinha por onde passamos: aqui não tem tempo ruim.

Uma banda de psicodelia esquisita do interior de SP sem fazer parte de alguma panela ou selo hypado tem que se virar como pode para continuar de pé e acho que nós somos o maior exemplo disso hoje em dia, nem sei se alguma banda contemporânea a nós já gravou 5 discos e lançou tudo em vinil por conta própria, imagino que não.

Além disso, a gente se adequa a todos os tipos de palcos do Brasil, das excelentes estruturas nas unidades da rede Sesc até os mais undergrounds palcos do interior do país. As bandas precisam entender que cada dia da semana funciona de um jeito, que cada cidade funciona de um jeito e entender que não existe um padrão nas casas de shows brasileiras para exigir algumas coisas.

Se você tá afim de tocar e mostrar seu som, vender seu merch e chegar de verdade nas pessoas, é necessário descer do salto e desbravar o que cada lugar tem pra oferecer.”

Vocês tem pensando em estratégias para os superfãs? Como observam essa nova abordagem das gravadoras?

Julito: “A gente realmente não liga para as gravadoras, por mim elas nem existiriam. É a mesma merda de sempre, mas hoje ao invés de pagarem jabá para rádio e tv eles pagam para entrar em playlists e patrocinam links no YouTube, Instagram e outras redes.

Nossos superfãs são os que colam nos nossos shows, compram nossos discos em pré-venda e trocam ideia com a gente pessoalmente ou pelas redes sociais, e é pra eles que trabalhamos e criamos nossa música.”

Em que momento observaram a demanda e decidiram iniciar os trabalhos da Bike Records?

Julito: “Todos os álbuns do Bike foram pensados para ser lançados em vinil. Depois que lançamos e prensamos o Arte Bruta, chegamos a conclusão que poderíamos contribuir para a construção da “cena” lançando outros discos de artistas e bandas que gostamos e que de certa forma fazem parte da nossa trajetória, seja como amigos, dividindo palcos ou sendo referência pra nós.

Depois de anos levando bandas para tocar no BIKE convida, em São José dos Campos, registrar em vinil alguns álbuns contemporâneos a nós foi mais uma forma que encontramos para contribuir com essa construção.”

Os lançamentos, até aqui, englobam artistas de diferentes gêneros e propostas musicais, como tem sido esse processo de escolha de parceiros?

Julito: “A gente começou pelo Manger Cadavre?, que é uma banda de metal de São José dos Campos, conhecemos eles há anos e sabemos do corre que eles fazem, são 13 anos de correria da parte deles e sentimos que essa era a maneira que poderíamos ajudá-los.

O segundo lançamento será o Néktar, último da Ava Rocha. Conhecemos ela pessoalmente em 2022 tocando no Festival Picnik em Brasília e desde então fomos trocando ideia para fazer algo juntos. Quando ela lançou o Néktar joguei a ideia de lançar o vinil pela Bike Records e ela topou, simples e direto.

Depois dela vamos lançar o disco novo do Hoovaranas, que é uma banda incrível de música instrumental de Ponta Grossa (PR), já tocamos juntos algumas vezes e sempre que tocamos em Ponta Grossa o Éric nos hospeda na casa dele.

Pra mim uma cena se constrói dessa maneira, um ajuda o outro da maneira que pode, seja hospedando, ajudando a marcar uma turnê ou lançando discos.”

Sabemos que prensar vinil no Brasil ainda é muito caro por “n” fatores e nem todos cogitam muitas vezes fazer isso. Podemos esperar novos lançamentos pelo selo de vinis em breve? Qual o melhor caminho para outros artistas contactarem?

Julito: “É caro e um pouco burocrático, além de que demora um tempo pra ficar pronto e normalmente você tem que pagar 50% do valor antes mesmo do início da pré-venda, mas é um caminho legal e tem um mercado que está cada vez maior no Brasil.

As bandas podem falar com a gente direto pelo Instagram, um canal direto. Entre abril de 2024 e o início de 2025, vamos lançar 6 álbuns que já estão encaminhados e depois disso queremos aumentar pra um lançamento por mês. É um sonho e demanda muito trampo, mas acredito que vai acontecer.”

A venda de vinis no exterior é algo bastante forte, e no Brasil a demanda cresceu nos últimos anos, vocês estão prestes a embarcar em uma turnê pela Europa, como tem sido a dinâmica para eles não evaporarem tão rápido? Vocês irão levar uma quantidade e posteriormente produzir alguns por lá? Tem alguma dinâmica com selos ou parceiros locais visando isso?

Julito: “Sempre prensamos 300 unidades e boa parte é vendida na pré-venda, o que nos ajuda a pagar a segunda metade do valor da prensagem. A gente sempre leva o máximo possível nas turnês fora do Brasil, porque mercado é muito grande fora, ano passado nos EUA, por exemplo, chegamos no último show sem vinis.

No Brasil, vendemos a maior parte nos shows, mas também vendemos pela loja online e os gringos costumam comprar pelo bandcamp. No final, acabamos não deixando em muitas lojas porque é mais lucrativo pra nós vender direto para o público.”

Aliás, como tem sido essa estratégia no exterior, visto que muitas vezes entender praças e valores do merch, definem os rumos de uma turnê em termos financeiros, já que shows muitas vezes tem cachês menores do que é possível vender em merch…

Julito: “Tanto no Brasil quanto fora o merch é imprescindível, sem ele as contas não fecham. O preço fora do Brasil acaba sendo o mesmo se convertermos a moeda, aqui nosso discos variam entre R$160 e R$180, fora vendemos por 30 dinheiros, seja euro, dólar ou libra, ou seja, convertendo os valores ficam entre R$150 e R$200.

O grande lucro fora do Brasil são as camisetas que vendemos aqui entre R$70 e R$80 e la fora por 25 dinheiros, o que convertendo passa de R$120. O grande lance é que no Brasil R$160 é muita grana e lá fora pra quem compra 30dinheiros não é nada, porém é o preço médio dos vinis novos fora daqui.”

This post was published on 6 de junho de 2024 10:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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