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Giuliano Lagonegro vai as profundezas com seu samba-pop em “Naufrágio das Ilusões”

Giuliano Lagonegro lança Naufrágio das Ilusões, seu disco de estreia

Natural de São Paulo, Giuliano Lagonegro é compositor, cantor e instrumentista e hoje lança seu álbum de estreia em carreira solo. O músico durante quatro anos fez parte da Berggasse e ao lado da banda lançou o EP Não Ria Nem Jogue Fora, além dos singles “Narcizo”, “Eco” e “Olhos de Botão”.

O surgimento do projeto solo veio justamente em 2020, período da pandemia, onde passou a compor algumas canções que não cabiam muito dentro da sonoridade que o grupo paulistano, o que fez com que ele inicia-se esse processo de imersão e maturação. Agora, em 2022, ele disponibiliza o álbum Naufrágio das Ilhas, registro com dez faixas.

A gravação ocorreu no Estúdio Sala de Estar, teve produção fonográfica e direção artística de Pedro Valdetaro, mixagem e masterização de Pedro Serapicos. Antes do disco ganhar a luz do dia, como aperitivo o músico adiantou os singles “Pela Primeira Vez”, “Doce” e “Naufrágio das Ilusões”. Hoje o público conhece as outras 6 até então inéditas.

Segundo o músico, o disco busca destrinchar o naufrágio metafórico que se dá entre o final da adolescência e o início da vida adulta. O termo Naufrágio das Ilusões é de autoria do escritor Machado de Assis, no romance “Iaiá Garcia”, publicado em 1878. O termo é usado na última frase do livro, com um teor vitalista, dessa forma: “Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”. Trata-se de uma das frases mais enigmáticas de um dos maiores escritores da história do Brasil.


Giuliano Lagonegro lança “Naufrágio das Ilusões”. – Foto Por: Sofia Tegoshi

Giuliano Lagonegro Naufrágio das Ilusões

O músico opta por em sua introdução fazer mistério com uma vinheta de aproximadamente 35 segundos em que ele tem a companhia de um violão. Ela desemboca em “Doce”, que ele mesmo rotula como “samba-pop”, a canção discorre sobre amores, vícios, maremotos e perdição. A faixa feita para cantarolar junto ainda conta os arranjos de sopro de Lucas Melifona que entram como elemento surpresa em meio ao cadenciar da bateria e os backing vocals suaves de Malu Magri.

“Pela Primeira Vez” continua a narrativa sobre se embriagar de amor, onde o personagem se vê navegando em meio a tormenta. Curta, a faixa tem a companhia de Malu que contracena com Giuliano, em meio aos arranjos de Pedro Valdetaro, nos violões e clarinete, e Giuliana Maruca que com seu violino traz toda a dramaticidade para a faixa. A melodia chega até a lembrar um pouco a de Chico Buarque em “João e Maria“.

Os metais aparecem logo na introdução de “Luiza” trazendo a sensação de nostalgia, e naftalina, em suas melodias, em uma canção que narra em sua história a tentativa de superação. O destempero aparece em “Interlúdio”, as encrencas e distrações que compreendem o período de procurar novos ventos para seguir viagem. A faixa, inclusive, usa o recurso sensorial trazendo em sua mixagem o barulho do mar para mostrar que no momento a nau está sem rumo.

A seguinte é uma regravação de “Narciso”, faixa lançada em 2019 ao lado da Berggasse, em uma versão mais intimista em voz e violão. A canção faz referência direta ao mito de Narciso e a ninfa Eco. Seu tom obscuro e confessional acaba fazendo sentido dentro da narrativa e construção da história retratada no disco.

“Nostos”, que significa “regresso à casa pelo mar”, carrega uma atmosfera jazzística que elucida a derradeira queda e aceitação da situação. Uma faixa experimental teatral quase circense em sua essência.

Já caminhando para o final “Ontem À Noite” volta a trilhar o swing do samba triste em descompasso entre memórias, saudade e a poesia urbana. Falando em poesia, a seguinte “Da Fuga” opta por vociferar um texto sobre a perdição com direito a metáforas sobre amores, dissabores e pequenas mortes. Quem fecha é “Naufrágio das Ilusões” em tom fúnebre, cheia de elementos, como sopro e percussão, para dar ainda mais dramaticidade, em uma escalada de destempero regado a desilusão. Antes de terminar ele deixa a mensagem: “Que a vida lhe seja leve”.




A foto de capa do LP,  tirada no cemitério do Araçá em São Paulo, por Pedro Valdetaro e Sofia Tegoshi, é mais uma referência literária da obra. Giuliano ateve-se à construção da cena final de “Iaiá Garcia”. Na cena, Iaiá visita o túmulo de seu pai, Luís Garcia, e encontra uma coroa de flores deixada por sua madrasta, Stella e, dessa forma, o romance desemboca na icônica frase que dá nome ao disco: “Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”.

A edição final da capa foi feita por Tainá Pió.

This post was published on 26 de maio de 2022 10:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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