Bemti busca por refúgios, afetos e possíveis recomeços em “Logo Ali”

 Bemti busca por refúgios, afetos e possíveis recomeços em “Logo Ali”

Bemti no Making Of da capa do disco Logo Ali. – Foto: Montagem

Quando um mineiro vira para você e diz que algo é logo ali, desconfie, muitas vezes isso te levará a uma longa caminhada e desde o primeiro momento que começou a destilar os primeiros acordes e composições, Bemti já sabia que não seria um caminho fácil.

Diante da sua própria jornada particular, conflitos e lidar com um mundo hostil, ele jamais imaginaria que após arquitetar seu disco nos maiores detalhes e ter a oportunidade de fazer o disco de sua vida, teria logo ali uma pandemia – que já ultrapassa a marca de 2 anos de duração e mais de 600 mil vidas perdidas no país.

“O título evoca o que dizem sobre não confiar quando um mineiro te diz que alto está ‘logo ali’, porque geralmente está muito longe, mas a gente precisa aguentar até chegar lá.

E aí acho bonito o simbolismo de tantas vozes e mãos terem colaborado no álbum – mesmo que à distância por causa da pandemia – porque são as pessoas que nos acompanham nessas jornadas que precisamos suportar individualmente.

Espero que quem escute o disco se sinta parte desse mundo sonoro onde estamos todos reunidos: um mundo instigante e apaixonante. O logo ali”, frisa Bemti

Discos são sopros de sonhos, de sentimentos emoldurados, de noites mal dormidas, de esperança por novos caminhos e possibilidades. O músico mineiro foi agraciado com a oportunidade de colocar seu filho preferido no mundo, foi através do edital Natural Musical que Logo Ali pode ganhar a luz do dia. Ele não mediu esforços, desde a elaboração, coesão de parcerias, narrativa e coalizão de vivências que para um menino humilde do interior de minas outrora fora um sonho distante.

E para isso ele não mediu esforços, como o projeto contemplado foi atrás da sinergia, tanto na escolha dos nomes como na preparação e direção artística. Com produção a 6 mãos ele se juntou a Luis Calil (Cambriana) e Pedro Altério para direcionar um álbum que muitas vezes se confunde com um filme, uma peça ou tudo ao mesmo tempo. Não dá para dizer que não é um projeto ambicioso mas dá gosto de ver a delicadeza e empenho em justificar cada camada, coerência, ousadia e melodia.


O músico mineiro Bemti lança “Logo Ali” pela Natura Musical
Bemti lança seu segundo disco, “Logo Ali”, com patrocínio da Natura Musical – Foto Por: Rafael Sandim

As Participações de Logo Ali

Além de Fernanda Takai, o disco conta com participações especiais do paraense Jaloo, da baiana Josyara, do artista português Murais  (Linda Martini) e do duo paulistano ÀVUÀ.

Entre os musicistas convidados estão Helio Flanders, Paulo Santos (do grupo Uakti) e Marcelo Jeneci, que co-produziu, toca e canta vocais de suporte na faixa “Livramento”. Já nas composições, há colaborações com artistas como Roberta Campos, Barro, Nina Oliveira e Pedro Altério, membro do 5 a Seco.

Outros destaques entre os músicos ficam por conta da baterista Bianca Predieri (Jadsa), da violista Kinda Assis (Teko Porã) e de Cauê Lemes, que toca piano de cauda e fez a pré-produção do disco. A mixagem do disco é assinada por Luis Calil e a masterização é de Florencia Saravia-Akamine.

Logo Ali foi majoritariamente gravado nos estúdios Ilha do Corvo em Belo Horizonte (com Leonardo Marques) e Gargolândia em Alambari (com Thiago Baggio, engenheiro de som indicado 5 vezes ao Grammy Latino).

Bemti Logo Ali

O disco acaba dialogando com nossos tempos mas sem perder a atemporalidade, cuidado esse que o músico teve ao selecionar as canções e tirar outras que talvez não elucidassem e convergissem com o momento de seu lançamento.

“O ‘Logo Ali’ é um disco sobre amar e desamar atravessado pelo eterno fim e recomeço de todas as coisas, tendo o afeto, a arte e a criação como refúgios em tempos difíceis. Um disco sobre caminhar em direção a algo que está sempre quase chegando, que pode ser um futuro melhor ou o colapso definitivo”, conta o músico.

Entre as influências ele cita nomes como Milton Nascimento, Bon Iver, Arcade Fire, Baleia, Phoebe Bridgers, Tulipa Ruiz, Moses Sumney, Joni Mitchell, Björk, entre outros. Para quem pode acompanhar o indie do começo dos anos 00 é simplesmente um deleite ir identificando os caminhos, linguagens e escolhas artísticas mirando neste universo.

Uma curiosidade fica para o fato de Bemti ter preparado uma playlist com 5 horas e meia com referências para os outros produtores terem ideia de como ele gostaria que soasse.

Já a capa é uma “reinvenção expandida” do quadro “O Derrubador Brasileiro” (1879) de Almeida Júnior, notório artista do realismo brasileiro, famoso por registrar com “rigor acadêmico” cenas do cotidiano caipira.

Numa mistura de fotografia e arte digital, Bemti repousa com os pés descalços num cenário de floresta tropical semi-derrubada, encostado na viola caipira ao invés do machado da imagem original. Segundo o artista, uma “representação de cantar experiências pessoais envolto por uma sensação constante de mundo acabando: um apocalipse tropical diário”.

Bemti Logo Ali making of da capa
Bemti no Making Of da capa do disco Logo Ali. – Foto: Montagem

A Audição

Logo Ali é um disco que te transporta para vários lugares, com tenacidade consegue expandir a abertura pop que Bemti já buscava em Era Dois. A riqueza das participações, tanto dos feats, como da sua banda base, somados a pós-produção rebuscada mostram como a resiliência faz todo projeto milimetricamente planejado nos entregue um disco que a cada nova audição nos faça reparar em um novo detalhes. Com singles potentes que já expressavam uma linguagem cinematográfica.

Acredito que pelo peso do momento, o cenário de incertezas, rupturas, emoções à flor da pele, dificuldade de encontrar caminhos e possibilidades de existência em meio a um país que sofre com perdas físicas, materiais, de direitos e afetivas, ele soe como um abraço. Mas não no sentido de que a jornada vai ser fugaz e logo menos estará tudo bem mas sim, logo ali, pode demorar mas estamos no mesmo barco.

Empatia esta que permeia a obra e toda a sua coletividade engrandecem de uma forma que você nem precisa chegar até o final e já tem um veredito. É até engraçado dizer isso mas acaba sendo um som confortador em meio a tudo que temos vivido, seja na esfera pessoal, como de sociedade, sentir a destreza dos arranjos e a paz que exala ao cantar memórias que são tão dele mas que poderiam ser tão nossas. Se colocar como um ser comum em meio a sinfonia abstrata da vida é um mérito que trabalhos por mais grandiosos que sejam, nem sempre conseguem. Com a simplicidade e os sonhos de um menino, Bemti faz de sua obra, sua Petite Orchestra reverberar no horizonte.

Entrevista: Bemti

Conversamos com o Bemti para descobrir mais sobre todo o processo, sentimentos e o timing de lançar a obra épica da sua vida. No papo ele revela mais sobre os percalços, as batalhas, curiosidades, questionamentos, narrativas e muito mais detalhes sobre Logo Ali.

Antes de entrar no disco queria que contasse mais sobre o caminho até o lançamento deste. Da concepção do conceito, arquitetura de encontrar as parcerias, passando pela mudança para Belo Horizonte, série de adiamentos devido a pandemia e tantos outras situações que permeiam a chegada. Como é para você ver que finalmente o projeto de uma vida ganha a luz do dia?

Bemti: “Acho que só essa primeira pergunta já dava um livro por si só! Mas resumindo muito, a composição mais antiga que tá no disco (a “Eu te Dei Tudo Que Eu Sou”) é de dezembro de 2018. Ali eu já tinha uma ideia muito clara do tom que eu queria pro segundo disco, de falar sobre os afetos atravessados por um clima apocalíptico de um jeito muito brasileiro. Um tropical denso, pesado, bem longe do clichê-brasilidades mas brincando com ele.

Quando eu escrevi o projeto pro Natura Musical já tava lá que era um disco “sobre a iminência de
um evento que muda tudo, o fim do mundo ou um futuro utópico”, o Logo Ali era isso! Mas eu JAMAIS imaginei que o apocalipse ia chegar de fato no processo desse disco, então foram alguns sentimentos extremos.

O Logo Ali virou esse tempo ou lugar melhor que ninguém sabe quando chega, pra chegar a gente precisa aguentar e o disco tem muito essa ideia do “caminhar, seguir, suportar”. Entre as composições de antes da pandemia, eu descartei várias que não faziam mais sentido quando você ta sentindo na pele uma
deterioração tão grande assim da sociedade, dos vínculos, da rotina… por outro lado outras que eu já tinha começado a escrever ganharam uma força completamente nova (como “Habitat” e “Catastrópicos!”). E aí claro, têm as músicas que surgiram nesse último ano e meio (“Não Tava Nos Meus Planos”, “Livramento”…). Acabaram sendo três anos de composição desde quando o “era dois” tava pronto então foi MUITA música a ser considerada e acho que esse tempo a mais que o disco teve, se reflete no resultado final.

Mas em todo esse balaio de músicas aqueles conceitos iniciais estavam sempre presentes: a grandiosidade, o fim e recomeço de todas as coisas, o tropical denso, as brincadeiras sobre o que é “brasilidade” principalmente quando você tem uma viola caipira como elemento principal… No meio da pandemia me mudei pra Belo Horizonte mas desde 2019 eu já estava mais no interior de Minas do que em São Paulo e acho que o resultado final tem muito dessa minha reconexão com as minhas raízes também.

É absolutamente insano ver o disco pronto prestes a nascer depois do ano e meio mais difícil mentalmente e emocionalmente da minha vida (e imagino que pra muita gente também). Mas fazer esse
disco foi uma jornada muito importante pra mim e agora estou ansioso pra que ele seja um companheiro de jornada pra outras pessoas.

Falei várias vezes pra amigos que esse processo foi de longe o maior motivo que me manteve vivo, operante e criativo nesse último ano e meio, mesmo com todas as dificuldades absurdas que a pandemia provocou. Que bom que eu aguentei até chegar aqui, ver o disco pronto é meu Logo Ali.”

Você é roteirista, já integrou o Falso Coral, trabalhou com audiovisual, tem uma bagagem indie forte e tem conseguido imprimir a cada novo disco mais sobre as emoções e nuances do seu verdadeiro eu. Sente que conseguiu juntar em “Logo Ali” um pouco de tudo que viveu até aqui? Como foi esse processo de olhar para dentro mas ao mesmo tempo sentir o peso do mundo ao seu redor para construir um disco que por mais que esteja sendo lançado neste momento tão delicado tem composições atemporais.

Bemti: “Acho que o Logo Ali é de longe o trabalho mais complexo e ambicioso que eu já fiz na vida, em todas as áreas em que eu já trabalhei e trabalho. Eu brinco que o disco é o épico mineiro apocalíptico que eu nunca consegui fazer em formato de filme mas fiz em formato de álbum, então ele é esse combo musical-visual-estético onde eu quero dizer muita coisa além do que tá na superfície das canções.

Numa das músicas que ficaram de fora do disco (foram muitas) tem um pré-refrão que diz “Eu faço um totem de tudo que eu tenho” e o Logo Ali é isso: um totem da minha vivência recente repleta de incertezas mas também o resultado de toda minha trajetória como musicista, compositor, trabalhador de audiovisual, homem gay fazendo terapia no meio de uma pandemia e de um governo homofóbico de extrema direita…E quando a pandemia afogou a gente a minha maior preocupação se voltou pras letras, eu queria que quem escutasse esse disco daqui 1, 5, 20 anos pensasse “Tá, eu consigo ver nessa obra o contexto horrível onde esse disco nasceu, 2021 etc, mas eu consigo me identificar com esses sentimentos, triviais ou não, nesse meu tempo e lugar”.

Eu não seria capaz de fazer um disco cínico fingindo que ta tudo bem mas também seria incapaz de fazer coisas muito óbvias, tipo uma música chamada “Vírus”, “Solidão Extrema” ou algo assim.”

Para mim uma grande surpresa foi esse resgate do indie dos anos 00’s e também os arranjos, as camadas da produção e a pós produção. Queria que comentasse mais sobre tudo isso e sobre o momento que falou: ok, está pronto. E como foi a sensação que teve quando soube que o disco havia sido contemplado pelo edital da Natura Musical?

Bemti: “Quando eu recebi o email da Natura, saí pulando pela casa e tinha um encanador fazendo alguma coisa, foi engraçado. Mas acho que o próprio “tamanho” do som tem a ver com eu ter tido recurso pra executar esse tipo de som. Por mais que desde bem antes do Natura Musical eu queria que fosse esse disco grandioso (e eu realmente não abri concessões em relação ao lugar sonoro onde eu queria chegar, meu Bon Iver/Arcade Fire/Clube da Esquina particular), eu não sei como eu faria sem o edital ou sem qualquer outro tipo de apoio, porque tem MUITA gente envolvida no disco e todo mundo foi pago (importante).

O “era dois” foi um disco de baixíssimo orçamento feito basicamente a quatro mãos: eu e o Luis Calil. Agora o Calil divide a produção musical com o Pedro Altério e quando eu mandei o projeto eu imaginei que seria muito massa esse encontro entre os dois, porque são tipos de abordagens grandiosas diferentes: o Calil com o som alternativo absurdo que ele executa no Cambriana, o Pedro com umas canções gigantemente lindas, vindo da MPB mas também com muita influência do indie. Eu assino a direção musical porque eu fui o coordenador desse quebra-cabeça gigantesco (e quem sacar o álbum completo no Youtube vendo as fichas técnicas de cada música vai ter uma noção do tamanho do desafio que foi montar isso tudo), e sempre seguindo minha vontade de como eu queria que as coisas soassem mas também muito aberto a tudo que todo mundo envolvido trazia criativamente pro processo.

Pra dizer “ta pronto” acho que tem muito da minha experiência profissional como editor mesmo, de ver ou ouvir uma coisa mil vezes e não perder o fio da meada. Sou muito meticuloso nesse sentido, às vezes algo chega na décima quinta versão mas eu vou saber que a décima quinta versão que é a final. Quando chegamos nos micro-ajustes finos ali pra começo de Agosto, achei que o Calil e o Pedro iam me matar em algum momento, mas sigo vivo e to 100% satisfeito com tudo. Não mudaria nada.”

O disco fala sobre rupturas, recomeços, memórias, sentir o baque e ter que reagir, até por isso dialoga tanto com os relacionamentos que se findaram na pandemia como também com esse momento de não conseguir olhar uma perspectiva de futuro seguro no país. Acredita que esse apelo acabará contribuindo para a experimentação do ouvinte?

Bemti: “Espero de verdade que sim! Os primeiros feedbacks que eu tenho recebido têm vindo muito nesse lugar de “Me identifiquei pra caramba por causa do que eu tenho vivido e sentido”.

Agora fico pensando muito no discurso do Emmy da Michaela Coel (recebendo melhor roteiro por “I May Destroy You”, uma das melhores séries que eu vi nos últimos tempos):

“Tell the tale that scares you, I dare you”. Conte a história que te assusta, eu te desafio! O Logo Ali é a minha jornada através desses últimos tempos contada de um jeito íntimo e confessional mas aberto ao diálogo, ao outro, ao mundo. Tentando apontar caminhos de esperança através do afeto por mais que esses caminhos sejam nebulosos. E todo mundo que trabalha com música no Brasil sabe o quanto é ousado querer falar além da superfície, numa indústria que privilegia o raso do raso do raso. Mas de novo, eu não saberia fazer de outro jeito, eu não conseguiria daqui 10 anos olhar pra trás e ver que eu fiz em 2021 um disco que não reflete em nada esse contexto doloroso que a gente ta atravessando em tantos níveis.”

A viola caipira acaba entrando como elemento mais uma vez mas se cruza com a nossa MPB, com o indie escadinavo e americano, às vezes até nos remetendo a baladas do Beirut, a ópera rock do The National, a contemplação do Bon Iver, os sintetizadores reverberantes do Royksopp e a estranheza melódica da Bjork. Como foi esse exercício de compor e também de permitir que os envolvidos criassem seus arranjos?

Bemti: “Olha, eu queria emoldurar essa pergunta quando alguém pergunta que tipo de som eu faço, é uma ótima descrição de onde meu som ta vindo.

Quando eu falo sobre compor pra outras pessoas, pra trilha, etc eu consigo ser mais objetivo, mas é muito abstrato pra mim falar sobre composição da minha obra autoral: as minhas músicas vêm. Ponto. E quando elas vêm, elas apontam caminhos de pra onde elas querem ir e esse processo pode ser complexo pra caramba.

Pra “Samba!” (que é uma mistura de Björk, LCD Soundsystem, Elza Soares, Vinícius de Moraes, Moses Sumney e várias outras coisas…) lembro de mandar um áudio de 11 minutos pro duo ÀVUÀ e pros produtores só mapeando milimetricamente com eu imaginava o arranjo da música. E eu sempre privilegio trabalhar com pessoas que tenham uma pegada incrível de improviso, como a Kinda Assis, que toca viola de um jeito como se fosse uma orquestra inteira.

Pra você ter uma ideia, a playlist oficial de referências do Logo Ali tem 5 horas e meia, dividida em bloquinhos pra cada música do disco! Se você apontar qualquer música dessa playlist eu vou falar porque ela ta ali e qual é o link com o Logo Ali.

O Pedro Altério falou muitas vezes que “É muito massa trabalhar contigo porque você sabe exatamente o som que você quer chegar” então acho que isso é meu mérito pessoal? Mas tudo começa ali comigo e com a viola caipira (ou só com a voz) e esse é um processo que inclusive eu quero transgredir num próximo disco. Partir de outro lugar.”

Você escolheu duas das canções mais intensas do disco para feats com Jaloo e Fernanda Takai (composição com Roberta Campos e ainda Hélio Flanders (Vanguart) no Trompete), como foi poder concretizar parcerias que sonhou tanto? Aliás, também tem o interlúdio com a Josyara, conte mais sobre esse desafio em quebrar o ritmo do disco mas sem perder a intensidade da narrativa. Conte mais sobre as parcerias e como te ajudaram a crescer como artista.

Bemti: “Eu queria muito que o resultado final do Logo Ali soasse como uma celebração, um lugar fantástico onde todas essas participações e colaborações estão contando essa história junto comigo, porque a maioria desses processos foram feitos à distância por causa da pandemia.

Assim como o repertório é uma seleção de 3 anos de composições, as participações são frutos de alguns anos de relações e vínculos e vontades de produzir algo junto. Toda pessoa que ta ali no disco, tanto as participações especiais quanto os compositores e colaboradores, têm uma história comigo e um motivo específico pra estarem ali.

É realmente impossível resumir esse ponto por causa da quantidade gigante de pessoas envolvidas (por isso o álbum completo no YouTube privilegia as fichas técnicas, pra quem quiser mergulhar nesse quebra-cabeça).

Um ponto importante é que a “coesão” do disco como um todo sempre foi uma prioridade, então fiz muita questão que essas diferentes vozes e mãos entrassem na história de um jeito muito natural. O disco não faz uma pausa e acende um holofote pra nenhuma delas entrarem, foi uma construção bem cuidadosa nesse sentido também. Sobre o interlúdio eu fico com uma opinião da minha produtora, a Ju, ela disse “Quando eu achei que o disco ia me dar um respiro eu quebrei minha perna”.

É uma peça de um minuto que separa os dois atos do disco mas que por si só carrega a intensidade de uma música inteira, e muito desse mérito vai pra Josyara e tudo que ela traz na interpretação dela (também foi um convite feito a dedo).”

“Não Tava Nos Meus Planos” talvez seja uma das mais intensas do disco e apoteóticas, aliás é uma parceria com Pedro Altério (5 a Seco) que produziu ao lado do Luis Calil o disco. Conte mais sobre o processo e o desmoronar dos sonhos que permeia a composição apoteótica.

Bemti: “A letra é uma composição minha e do Pedro e a composição da música é assinada por nós três. Essa é uma das músicas mais recentes do disco, compusemos no fim de Fevereiro de 2021 durante nossa imersão no estúdio Gargolândia, que fica em Alambari, interior de São Paulo.

Eu já tinha bastante do disco gravado em BH no estúdio Ilha do Corvo, mas essa imersão (junto com a Bianca Predieri, baterista, e o Cauê Lemes, pianista e pré-produtor) deu esqueleto e músculos pro disco e segmentou o caminho pro restante das gravações de volta em BH.

Sempre sonhei em fazer algo assim: fugir pra um estúdio no meio do mato e repetir cenas de documentário musical. Realmente é um clima que faz muita diferença pra criação e eu fui pra lá com a ideia fixa de compor dentro do estúdio algo que entraria no disco (nunca tinha feito isso antes, porque estúdios são caros).

A “Não Tava…” é uma das músicas que surgiram nesse processo e fruto daquele limbo logo antes da segunda onda de COVID-19 no Brasil. O momento onde tudo que dá pra fazer é respirar fundo e sobreviver enquanto mais uma vez tudo desmorona em volta de você. É sobre uma certa paz que vem da resignação, por mais triste que isso possa parecer.

Tanto é que “Samba!”, que ia ter clipe gravado e ser lançada no começo de Março depois do Carnaval, só saiu em Junho. Nessa época o disco tava previsto pra Junho depois de já ter sido adiado pela terceira vez e tá saindo agora em Setembro. Respirar fundo e sobreviver.”

O álbum tem toda essa atmosfera cinematográfica, teatral e poderia facilmente se transformar num curta, filme ou numa peça. E isso se traduz de certa forma em sua preocupação nos videoclipes lançados até aqui. Um projeto maior envolvendo isso, seria algo que abraçaria? Como enxerga essa possibilidade transmidiática e as possibilidades infinitas que um álbum permite mas que muitas vezes não são exploradas?

Bemti: “Eu com certeza abraçaria uma oportunidade dessas (por favor universo, pode mandar!) e to feliz que esse feedback já é uma unanimidade entre as pessoas que já escutaram o disco: “imaginei um filme”, “imaginei uma peça”…

Voltando no que disse antes, até pela minha formação de roteirista e a vontade frustrada de ter um longa épico mineiro, fico feliz que essa atmosfera está clara no disco. Ele é muito pensado pra ser uma história inteira (assim como foi o “era dois” mas com uma narrativa bem mais complexa e ambiciosa), então
espero que todas as pessoas que mergulharem na experiência de escutar ele inteiro algumas muitas vezes, criem sua própria imagem e roteiro do que é o “Logo Ali”.

Meus discos favoritos têm isso, essa qualidade de conseguir propor um mundo próprio que nasce a partir daquele universo estético muito bem costurado.

A pandemia colocou vários pés no freio no que eu queria fazer visualmente pro Logo Ali, eu tinha outras ideias de roteiro pros clipes mas tenho orgulho do que conseguimos lançar porque era o que dava pra ser executado com segurança e com o orçamento que tínhamos.

Todos esses materiais (clipes, o teaser, as capas do single, a capa do disco…) dão símbolos pro ouvinte se conectar e criar sua própria interpretação do que é aquele disco enquanto obra completa.

Qual universo o artista está propondo? Isso é muito precioso! Seria incrível ter recursos pra explorar mais possibilidades do Logo Ali (teremos pelo menos mais dois clipes) ou encontrar pessoas dispostas a transformarem essa obra em outras coisas.”

Há um tempo atrás você postou um desabafo no twitter sobre produzir arte. Qual mensagem gostaria de deixar para os artistas independentes que em meio a tantas dificuldades ainda persistem em fazer arte independente da dificuldade ou desafios que encontram para frente?

Bemti: “O bom é que eu desabafo tanto no twitter que eu realmente não sei qual foi esse desabafo especificamente. Sinceramente, nesse momento eu só consigo sugerir pros artistas independentes não largarem empregos seguros e criarem arte sem se pautar só pelo que parece tendência.

O que VOCÊ quer? Pega as referências que você admira e pensa “como será que eu chego nesse lugar?”. Eu acho que a arte se retroalimenta nessa necessidade de se expressar e no impacto que ela gera no outro, pode ser num contexto com um fomento incrível pra cultura ou que nem agora, terra arrasada, quase todas as casas de show que eu toquei nos últimos anos fecharam. O que sobra? Como dá pra falar pra alguém “não desistir” num contexto de pandemia e governo que odeia a arte?

Então é isso, cria mas se cuida. Não se força, respira e sobrevive. Eu acho um milagre o fato de eu estar lançando esse disco agora com esse apoio do Natura Musical: um homem gay que nasceu num barraco no meio do nada em Minas, tocando viola caipira cantando sobre afeto no apocalipse, com todas essas participações incríveis – inclusive de gente que eu sou fã desde criança – e esse monte de influências inusitadas.

Na foto é bonita essa “resistência”, esse disco existir e eu estar vivo é “resistência”. Mas o futuro é uma incógnita, estou lançando o trabalho mais ambicioso da minha vida com a possibilidade de ano que vem estar trabalhando em algo completamente diferente pra comprar comida.”

https://instagram.com/p/COO58mrngpl/

Você também pode mesmo durante a pandemia ter músicas em minisséries da Globoplay, como tem sido essa experiência? Aliás, como enxerga essas possibilidades da carreira musical tanto de conseguir renda via sync como de compor trilhas para atividades semelhantes? Sente que muitos músicos ainda deixam isso de lado? Como foi a repercussão com um público que provavelmente só conheceria seu trabalho através de inserções como essa?

Bemti: “Eu queria trabalhar muito mais com trilha! Foi incrível essa experiência de compor três canções pra série “Hit Parade” (Canal Brasil e Globoplay), porque são músicas interpretadas pelos personagens, então você tem que entrar no roteiro e encarnar o contexto e o personagem pra compor, e isso é muito legal!

Também ta rodando muito o filme “Valentina” que tem a versão trap de “Tango” (minha parceria com o Johnny Hooker) na trilha sonora e na sequência mais tensa do filme. O filme ta sendo muito premiado internacionalmente e vira e mexe recebo notificações do Shazam de gente pesquisando a música: Índia, Reino Unido, Polônia…essa janela que o audiovisual dá é muito preciosa.

Mas todos meus trabalhos com trilha e sync até agora foram muito pontuais, se fosse algo mais constante e numeroso aí sim daria pra pensar em “renda”. Manda jobs! Manda novelas!”

Para fechar com uma pergunta mais leve, quais novos discos mais te chamaram a atenção, tanto do Brasil como do exterior?

Bemti: “Da leva de 2021 eu to viciado no “Home Video” da Lucy Dacus (parte da gangue da Phoebe Bridgers, minha maior obssessão dos últimos dois anos), que é excelente e soa muito em alguns momentos como indie 00 sem ter a menor vergonha disso.

O debut da Arlo Parks é um tipo de pop-na-cara extremamente bem executado que eu amo, o novo do Chvrches ta incrível depois de dois discos discutíveis, queria muito experimentar algo desse som emotional-arena-synth-pop no próximo disco.

De artistas brasileiros me tocaram muito os novos da Tuyo, o “Drama” do (Rodrigo) Amarante, Jadsa…e cito também o single de despedida da Baleia, “Quase”. Eles estão no meu top 3 de bandas brasileiras favoritas e fiquei arrasado com esse fim. Espero honrar um pouco o tanto que eles já me influenciaram e emocionaram com o Logo Ali.”


Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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