O talento de Rubel tanto para produzir canções pop, como para roteirizar excelentes videoclipes, é algo notável e nesta quinta-feira (08/07) ele nos surpreende mais uma vez com seu novo single “O Homem da Injeção II”.

Com uma letra perspicaz de Breno Góes, o músico criou arranjo para as bases e teve a companhia de um time de notáveis para criar os demais, composto por Arthur Verocai – que teve seu trabalho tardiamente reconhecido – nas cordas e Antonio Neves, nos arranjos de metais.

Inteligente e naturalmente de protesto contra o desserviço das falas, atitudes e falta de comando do presidente perante a crise sanitária, a faixa soa como uma crônica ao melhor estilo do Notícias Populares sobre um fato recente: o protesto do “peladão da estátua”.

O caso fico nacionalmente conhecido pela repercussão midiática do cidadão ter subido em uma estátua histórica (do período colonial do país) sem roupas e gritando que só se retiraria caso fosse vacinado. Refletindo, feito um retrato, ou uma tirinha satírica, sobre a insanidade, o destempero e os delírios dos tempos de pandemia.

O Homem da Injeção Rubel

Crédito da Capa: Clarisse Tarran

Rubel “O Homem da Injeção II”

O interessante também foi a canção ser uma espécie de continuação de um samba de quase 100 anos atrás, transformando – e ressignificando – de maneira bem humorada aquela canção em um hino pró-vacina – da época da Pandemia da Gripe Espanhola. Citando, inclusive, personagens marcantes da luta de nossos tempos como a cartunista Laerte.

“O povo vendo que até o guarda
Tirando a farda, apoiava o civil
Foi saindo do sono perigoso e inerte
Como disse Laerte, a grande ficha caiu
Feito uma peça de Zé Celso no teatro oficina

Pedindo vacina, a ralé se despiu
E disse: “até que o pulha nos traga a agulha Será a vez da nudez no Brasil”

A história chegou ao palácio
Até o pancrácio que rege o país
Que achou engraçado ver tanto pelado
Mas quis acabar com esse diz que me diz

Tentou discursar na TV pra nação
Falando talqueis e taisquais sem sentido E um menino, rindo da televisão, disse Olha mamãe, o rei está vestido”, trecho de “O Homem da Injeção II”, de Rubel

“A música é inspirada na história real de um homem que ficou nu em uma praça pública do Rio de Janeiro e subiu em uma estátua exigindo vacina. É uma cena absurda e surreal, assim como o momento político que vivemos.

Há algum tempo, tenho vontade de escrever músicas que falem mais diretamente da nossa situação como país, e essa pareceria com o compositor Breno Goes é minha a primeira canção nessa direção política.

O título da música é uma referência ao samba de um dos primeiros compositores cariocas, Sinhô, chamada “O Homem da Injeção”, de 1930. A caminho para a biblioteca nacional, onde registraria a canção, no entanto, Sinhô faleceu precocemente, sem deixar nenhum registro da letra ou da melodia. A música se perdeu para sempre.

A letra supostamente falava de um serial killer que usava uma injeção para matar, mas gosto de imaginar que poderia, na verdade, ser uma alusão à gripe espanhola da década de 20, que Sinhô testemunhou e sobreviveu – outra trágica pandemia que assolou o mundo há quase cem anos.

Separados por quase cem anos estariam também “o Homem da Injeção” original e “o Homem da Injeção II”.

A produção da faixa foi muito especial porque tive a oportunidade de gravar com nomes consagrados do samba carioca, que integram as bandas do Zeca Pagodinho e do Arlindo Cruz, como Esguleba e Jaguara na percussão, Mauro Diniz no cavaquinho, Carlinhos 7 Cordas no violão, Teo Lima na bateria e Jorge Helder no baixo. Para completar, o arranjo de cordas é assinado por Arthur Verocai, e o arranjo de metais por Antonio Neves, diz Rubel.

Rubel “O Homem da Injeção II”

RubelFoto Por: Ibrahem Hasan