Quando se trata de criação musical e diversidade de olhares o Brasil continua sendo generoso, frutífero e verdadeiro. Essa quarta edição do Audições da Lôca não está pra brincadeira no quesito variedade de som e discursos.

Se nas outras edições eu ainda conseguia enxergar atravessamentos em comum nas obras criadas durante esse momento, hoje eu vejo que pode ser uma besteira minha ficar buscando traços comuns nos projetos sendo algo tão comum o desejo de mudança.

Os artistas Kaboom23, Larissa Lisboa, Afrocidade, Botika, Tuini, Brunê, Natalia Mess e Suraras do Tapajós são em sua particularidade artistas que querem transformar seu entorno, expressar seus desejos de mudanças, coletivizar vivências, desabafar suas experiências pessoais com o confinamento ou o silenciamento de vozes nesse tempo.

Frutos de suas influências e contextos, propõem construir e contar a própria história e isso tem sido o melhor caminho que compositores e jovens profissionais da música tem buscado afirmar nesses tempos sombrios. O sonho do reencontro analógico também é recorrente, somos humanos, para lutar por um mundo melhor nada mais justo que façamos juntes. Qual poética hoje não quer socializar sendo que a música só faz sentido quando chega nos ouvidos do público…

E é por isso que me mantenho forte, fazendo o exercício da escuta e provocando aos leitores/ouvintes a instiga: abram seus ouvidos e abraços para poéticas musicais individuais que são coletivas que são individuais. É esse ciclo mesmo.

Boa viagem!

Audições da Lôca #4


Audições da Lôca #4 - Hits Perdidos


Kaboom23 “Meu Bem”



Com 4 singles lançados, o jovem paulistano de 20 e poucos anos apresenta em “Meu Bem” reflexões sobre a pandemia e sobre sentimentos dos jovens que não conseguem estar junto, desejando viver o amor e as trocas de sorrisos reais e ao vivo.

A poética do rapaz é sensível, precisa e dialoga com samba, rap, R&B, funk e com as baladas de violão tocadas nas fogueiras que podíamos(deveríamos) estar fazendo no mês de junho no friozinho das festas juninas.

Com produção musical do músico e sound designer Jesus Sanchez (Pélico, Los Pirata, Barbara Eugênia), o compositor Kaboom23 tem potencial de alcançar ouvidos de grande público da sua geração e dos jovens mais vividos que gostam de belas canções.

Larissa Lisboa e Amaro Freitas “eu choro, não nego”



Poesia, canção e sensação de falta. Larissa Lisboa se expressa com performance autêntica e envolvente.

A potente e suave voz da pernambucana Larissa Lisboa expõe em Eu choro, não nego as feridas deixadas por um doloroso término de relacionamento e, para criar uma ambiência sonora que dialogasse com o tema, a artista escolheu a dedo os pianos do conterrâneo Amaro Freitas. O resultado flerta com um som pop, eletrônico, experimental, dançante e reflexivo.

Afrocidade

“As mina para o baile”  é “De certa forma um desabafo, um grito e um manual sobre como tratar as mulheres”, diz Fernanda Maia, compositora e vocalista do grupo. A faixa teve arranjo pulsante, instrumentação elaborada e foi produzido por Éric Mazzone e Mahal Pita. O recado e a forma como se apresenta aproxima o grande público de pautas de gênero e raça através da música.

O baile da canção entra nas playlists com força, pois traz as guitarradas fortes conduzindo a latinidade, trumpete que lembra música cubana e percussões brazucas de levada pra animar o baile na sua sala de casa.

Botika “Homem de Negócios”

Uma linha de contrabaixo marcante e contínua, boas guitarras dialogando, uma excelente crítica e bons aliados. O multidisciplinar Botika estreia com o single  “Homem de Negócios”, produzido e mixado por Gustavo Benjão e com direção artística de Negro Leo.

A canção trata do estereótipo dessa figura que permeia variadas camadas de nossa estrutura social. Uma denúncia exposta a certos velhos homens brancos de terno e gravata, defensores da tradição e dos bons costumes, assassinos de caneta em riste.

Um aperitivo para o álbum Carnívora programado para meados de 2021 que sai pela ybmusic. Assista!

Tuini Encanto



“Encanto” é o primeiro álbum da cantora e compositora carioca crescida em Niterói (RJ), Tuini.

Com 12 faixas inéditas que contam histórias simples, expressam a poesia feminina da artista, como o encontro de um corcel azul com o vento, tons bucólicos e contemplativos, incentivando a busca do autoconhecimento. As canções trazem o universo do pé no mato e no mar e evocam sentimentos sobre maternidade e criação artística.

Brunê Ao Vivo No Estúdio



A jovem compositora e cantora goiana Brunê vem se apresentando desde 2016 em eventos como Conexão Cerrado, Sofar Sounds Goiânia, SESC Centro, SIM São Paulo, Academia Goianiense de Letras e acaba de lançar seu  álbum de estréia de nome Brunê Ao Vivo No Estúdio.

Com 6 faixas autorais em português e esperanto e 2 faixas do duo Manaié (participação especial) o projeto apresenta muito bem a cantora de voz crua e forte, que reflete sobre sua realidade e canta histórias, olhares e suas verdades do dia a dia, dialogando com instrumentos orgânicos, guitarras de rock e música eletrônica.

O projeto foi realizado através da Lei Aldir Blanc e a campanha de lançamento contou com relatos da equipe de produção compartilhando com o público um pouco sobre as perspectivas do artista independente e trabalhador da cultura nesse contexto em que vivemos.

Natalia Mess “Tubo de ensaio”



Com clipe que teve estreia no Festival de Artes Híbridas a canção “Tubo de Ensaio” traz influências do trip hop onde a artista sorocabana Natalia Mess aborda os processos de criação e a fixação pelo corpo como consumo imagético.

A produção musical autoral original de Natalie Mess incorpora as temáticas de sua pesquisa em diferentes linguagens, de forma a conectar e apresentar seu universo artístico. A digitalização, o sintético, o contraste e o ruído guiam suas criações de caráter sinestésico.

Suraras do Tapajós – Kirĩbasawa Yúri Yí-itá – A Força que vem das Águas



Uma construção coletiva do grupo nascido em Alter do Chão (Amazônia paraense), o álbum contém uma forte introdução em Nheengatu – língua falada pelos povos do Baixo Tapajós –, além de outras oito faixas em Português, sendo seis inéditas. Com a música, mais especificamente o carimbó, elas marcam presença em um ritmo tradicionalmente executado por homens e, de forma subversiva, ecoam suas lutas para além de seus territórios.

Suraras do Tapajós é o primeiro grupo de carimbó do Oeste do Pará composto por mulheres e o primeiro do Brasil só de mulheres indígenas. Fazem parte da “Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós”, que tem a missão de combater o racismo e a violência contra a mulher indígena.

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