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Mato Seco lança “Carta da Humanidade” no Dia Nacional do Reggae

Formada em 2002, o Mato Seco é um dos grupos de reggae mais conhecidos do país e no ano que vem completará duas décadas de existência. Para celebrar o feito, os paulistas têm programado uma série de lançamentos que acontecerão ao longo de 2021 e 2022.

Nesta terça feira (11) é comemorado o Dia Nacional do Reggae e também marca o aniversário de 40 anos da morte de Bob Marley, a maior lenda do ritmo jamaicano. Por esta razão eles lançam hoje em Premiere no Hits Perdidos o single “Carta da Humanidade”.

O single foi gravado ainda em 2020 e vem acompanhado de um videoclipe para evocar a força dos seus versos. “Carta da Humanidade (Fomos Longe Demais)” integrará o EP Carta da Humanidade para a Humanidade.



“O single traz questionamentos sobre o egoísmo do ser humano, que desde o início do mundo se preocupou em conquistar espaços, dividir pessoas, obter lucros, sem se importar com um bem-estar social geral, e que até hoje vem destruindo tudo que foi concebido pela natureza. A canção ainda indica que o que vivemos hoje é um reflexo de toda maldade que os humanos vêm realizando desde o início do mundo.”, contam os integrantes da Mato Seco

“Escolhemos “Carta da Humanidade”, para ser o primeiro single do nosso novo EP, pois Diferente do que o Mato sempre coloca como fundamental nos ideais de sua música, “Carta da Humanidade” mexe com o que há de pior em nós mesmos, para que entendamos que somos tanto Bem como Mal, Luz e Escuridão, e que nossas escolhas são fundamentais nessa passagem, inclusive no impacto para os que virão depois de nós.”, comenta Rodrigo Piccolo, vocalista da banda. 

Entrevista: Mato Seco

Conversamos com o Mato Seco para saber mais sobre as motivações por trás do novo single, o momento devastador do país, a história do reggae e sobre o início das comemorações dos 20 anos da banda.

Vocês escolheram a data do lançamento por conta do aniversário de morte do Bob Marley e a canção tem uma temática que remete ao clássico “Redemption Song”. Como observam isso e vêm a importância do seu legado com o passar do tempo?

Mato Seco: “Quatro décadas após a sua morte e o “rei do reggae” continua sendo uma constante fonte de inspiração. Arriscamos dizer que, poucos gêneros musicais dispõem de uma figura central tão próxima da unanimidade, como Bob Marley no Reggae. Todos os dias nascem dezenas de novos artistas inspirados por suas mensagens de paz, liberdade e emancipação, assim como aconteceu com a gente há 19 anos atrás.

De lá pra cá seguimos defendendo as mesmas mensagens, com denúncias sobre a desigualdade social, corrupção, pobreza, repressão, e propagando o amor, a paz e a liberdade.

Por esse motivo, como representantes do ritmo, não poderíamos deixar a data passar em branco, e escolhemos o dia 11 de Maio para dar start ao lançamento do nosso EP, começando com o single “Carta da Humanidade”, que verdadeiramente remete à temática do clássico “Redemption Song” no sentido de trazer questionamentos sobre o egoísmo e a cobiça. Lá numa alusão direta aos navios negreiros e à ganância por dinheiro e aqui sugerindo que o que vivemos hoje é um reflexo de toda maldade que a humanidade vêm realizando desde o início do mundo.”



Uma vez pude conversar com a Doreen Shaffer, do Skatalities, e ela disse que a mudança era algo bom quando questionada a respeito da evolução do estilo, do rocksteady a moderna mistura com o rap e a música eletrônica, o que fazia com que o estilo permanecesse perto dos jovens.

Como vocês vêem essa transformação do estilo, do público e interesse pelo estilo do período que começaram a banda para os dias de hoje?

Mato Seco: “O Reggae teve sua origem na Jamaica, no final da década de 60, desenvolvido através de outros dois gêneros, o ska e o rocksteady. Ou seja, aqui a gente já identifica uma transformação.

Os anos 70 foram a época dos grandes sucessos do reggae. Várias músicas marcaram época e alcançaram o topo na lista de sucesso das rádios, tornando-se hinos do estilo, cultuados até hoje.

Porém, vários cantores e bandas passaram a incorporar o estilo reggae a partir dos anos 80, tais como Eric Clapton, Rolling Stones, entre outros, misturando ritmos e contribuindo diretamente para a evolução do estilo.

Essa evolução é esperada, nesse sentido mesmo de se conectar com novos públicos, uma vez que a música como um todo vai se transformando, inclusive o modo de se ouvir música vai mudando, com a chegada de novas tecnologias. Então misturar ritmos, usar elementos de outras vertentes, se faz muito necessário e precisamos estar muito antenados nisso, para resistir a todos esses anos de estrada.”

O Bob Marley foi o grande difusor do estilo mas a migração dos músicos da ilha para a Europa e Estados Unidos que ajudou a difundir ainda mais o estilo. Como começou o interesse de vocês pelo Reggae? Como veem a relação e o resultado da mistura com a música brasileira?

Mato Seco: “No final dos anos 90 estava rolando um fluxo grande de shows de reggae em São Paulo, haviam festivais com bandas nacionais e internacionais que agitavam multidões.

Fomos tomados por essa energia e a partir daí o interesse em fazer parte daquele movimento despertou e em 2002, sem saber nada sobre música, formamos a banda.

Decidimos o que cada um iria tocar, compramos os instrumentos e fomos atrás de nos aprimorar. Ficamos 1 ano inteiro trancados dentro do estúdio, ensaiando para, só depois de muita repetição, tomar coragem de fazer a primeira apresentação em público. Daí em diante nunca mais paramos de fazer shows, rodamos o Brasil e em 2019 chegamos na Europa.”

Vocês estão prestes a completar 20 anos de trajetória, já tem planos em mente para as comemorações?

Mato Seco: “O lançamento do EP já faz parte das comemorações, mas na sequência e ainda esse ano, vamos entrar no estúdio para refazer o nosso primeiro disco e apresentar num formato de documentário, no estilo Programa Ensaio da TV Cultura.

Intitulado “Mato Seco Resistência”, nosso primeiro disco conta com 12 faixas de autoria própria, sendo 07 delas reedições das já lançadas numa demo de estreia da banda, em 2004. O disco conta ainda com uma décima terceira canção instrumental que se segue após a última faixa, com uma belíssima intervenção da Oração atribuída à São Francisco de Assis, como música incidental. O disco foi produzido por Rodrigo Piccolo e Rodrigo Loli no Estúdio Tonelada, em São Paulo, local onde foram feitas todas as gravações em rolo de duas polegadas.”

A música fala sobre o egoísmo do ser humano, algo que na pandemia parece que ficou ainda mais evidenciado, assim como o empobrecimento da população, lucro maior para os ricos e a queda da qualidade de vida. Como veem que o single pode dialogar com esse momento que estamos vivendo?

Mato Seco: “Carta da Humanidade explícita através da própria lírica e da sua materialização em imagens, um ápice de insanidade por parte de nós seres “humanos”, que nos mostramos cada vez menos sendo “humanos” gerando todas as respostas que estamos recebendo da Mãe Terra, e infelizmente também neste momento de calamidade e dor que estamos todos enfrentando.

A canção nos coloca no divã da vida, tentando entender o porquê e como chegamos até aqui, dessa forma. “Fomos longe demais”, “Brincamos de ser Deus”, “Até aqui chegamos, paramos pela dor, porque não havia Amor”, são frases que expressam claramente essas respostas nos causando reflexões sérias e nos mais sensíveis à Vida, comoção e um sentimento de lamento por tanto mal que fizemos ao planeta e a nós mesmos, ao longo da nossa história aqui.”

A nossa relação com a natureza também foi afetada, principalmente desde o começo do governo Bolsonaro no qual aumentou o desmatamento e o Brasil trouxe ainda mais a atenção do mundo. Para vocês, como ter esperança por dias melhores?

Mato Seco: “A gente sempre deixa acesa a chama em relação à esperança e fé de dias melhores, porque apesar de termos chegado ao que esperamos ser o ápice do descaso e insanidade por parte do homem, acreditamos que por obra da grandeza dos poderes do Criador, da Natureza e do Amor, a Vida sempre se renova! Só depende de nossas escolhas daqui pra frente.”

Para fechar, contem um pouco mais sobre o trabalho que fazem com as ONGs e sua importância.

Mato Seco: “Como a gente não tem muito dinheiro para ajudar as pessoas com recursos diretos, a gente busca usar o nosso alcance para sempre que possível ajudar diversas causas e comunidades diferentes.

Sempre tentamos agregar aos nossos shows pedidos de doações, fazemos shows beneficentes pelo menos 1 vez por ano e agora, durante a pandemia, fizemos algumas lives para arrecadar doações para diferentes regiões de São Paulo, além de pedir doações para os profissionais do backstage, que foram muito afetados com a paralisação dos eventos presenciais. Sempre existe alguma motivação pra gente se movimentar.

Obrigado Rafael e Hits Perdidos por dar voz ao reggae e a arte do Mato.”

O Mato Seco possui quatro álbuns: Mato Seco (2006), Seco, Mas Não Morto (2009), Seco e Ainda Vivo (2013), Resistir Sempre Vencerá (2020) e o DVD Pronto a Botar Fogo (2017).

Mato Seco “Carta da Humanidade”


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Rafael Chioccarello

Editor do Hits Perdidos, organizador dos Tributos aos Titãs, Pato Fu e Autoramas. Parceiro da Mutante Radio, Spotify e Curador do UDIGRUDI, programa de videoclipes da Play TV. Nas horas vagas pesquisa sobre música e tenta assistir a maior quantidade possível de shows. Siga o Hits no Instagram: @hitsperdidos

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