Dandara Manoela lança single e videoclipe para “Pretas Yabás”

A palavra Yabá é explicada de diversas formas nas pesquisas que fazemos tanto nas literaturas especializadas quanto nas buscas digitais, algumas levam ao termo “Mãe Rainha” que na África era um título apenas atribuído aos orixás Oxum e Iemanjá, mas que no Brasil se estendeu a todas representações dos orixás femininos.

Dandara Manoela, cantora e compositora lança hoje o clipe “Pretas Yabás” chamando a atenção para que essas energias de transformação das orixás femininas negras ocupem os espaços e a vidas das pessoas através da sua música e da sua presença. A letra também fala sobre mulheres pretas saírem da base da pirâmide social e ocuparem o centro, exaltando resistência e ancestralidade.

Dandara Manoela “Pretas Yabás”

O clipe “Pretas Yabás” do novo single da cantora traz em suas imagens uma bela dança de mulheres ocupando o centro de Florianópolis (SC), artistas negras da região do sul, mulheres que estão conquistando seus espaços ao longo dos últimos anos, espaços de direito como profissionais e como vozes que precisam cada vez mais serem ouvidas.

Com direção de Elisa Schmidt, a obra audiovisual foi gravada no centro de Florianópolis (SC) e ilustra a poesia da potência dessas mulheres pretas reunidas com a mensagem poética da cantora em cena e nitidamente contagiada pela presença das outras mulheres em cena.

“O clipe é uma provocação da norma, o tremor simboliza deslocamento. Mulheres negras ao centro, sendo vistas e ouvidas, ocupando nosso lugar”,  define Dandara Manoela.

Dandara Manoela é natural de Campinas, mas viveu parte de sua vida em Florianópolis onde se formou como artista, educadora e profissional ativista da música vem nos últimos anos lançando seu trabalho de forma independente e original,  com colaboração de uma rede incrível de pessoas que já estão aparecendo nas críticas e lançamentos como uma nova safra de talentosos compositores contemporâneos da música vinda do sul do Brasil , nomes como François Muleka, Raissa Fayet, Gustavo Barreto, Rafa Oliveira, Tatiana Cobett, Iara Germer, Jana Gulart, Carol Voight e muitos outros.

Dandara também já dividiu palco com nomes relevantes da música independente e pop como Larissa Luz, Russo Passapusso, Francisco el Hombre, Dona Onete, Mart’Nália, Maria Rita, Saulo, Liniker e os Caramelows, Luedji Luna, Ekena, Mulamba e Tuyo.

Além de seu trabalho enquanto cantora e compositora, Dandara atua como orientadora vocal e como produtora musical, impulsionando e dando suporte para a construção de outras e outros artistas da cena musical catarinense. 

O single “Pretas Yabás” teve produção musical da multi-instrumentista e produtora musical Érica Silva que é também produtora e arranjadora, mais em evidencia por ser integrante e produtora musical da banda Mulamba, mas com trajetória na música profissional desde seus 15 anos de idade e com sua formação no Paraná.

Neste ano foi uma das indicadas como “Melhor Instrumentista” no Prêmio Womem Music Event 2020 e durante a pandemia conseguiu organizar seu home estudio colaborando com novos trabalhos musicais de mulheres autoras e prepara novos lançamentos como produtora musical em 2021. 

Assista ao clipe “Pretas Yabás”



Entrevista: Dandara Manoela

Como você explicaria o termo Yabás para uma pessoa que não conhece esse universo tão simbólico dos orixás? 

Dandara Manoela: “Yabás nessa música simboliza reconexão ancestral, reconhecimento de nossa história, saberes em som, em dança e poesia, encontro e celebração. Mulheres pretas em movimento, da base ao centro, um encontro potente marcado de tempos de outrora. Eu nunca fui de terreiro, pelo contrário, fui criada na igreja evangélica e fui ensinada que religiões de matriz africana eram “erradas”. É muito violento as muitas formas que tem de nos silenciar, de nos matar, de invalidar as epistemologias do nosso povo.

“Pretas Yabás” surge a partir de uma conversa com a minha mãe, Iya Ekedje Oya Matalassi. É uma música política que questiona a estrutura e propõe o deslocamento das mulheres negras, da base da pirâmide social, da margem, para o centro. Grada Quilomba em seu livro “Memórias da plantação”, relata uma experiência de bell hooks, sobre como a população negra sempre foi relegada à margem, com mecanismos que garantissem que permanecessem ali.

Nesse contexto, ao tratar do centro, ela se refere ao centro da cidade de fato, onde as mulheres negras sempre eram lembradas que só poderiam estar ali como empregadas domésticas ou prostitutas.

Na minha música abordo o centro de forma simbólica, mas uso o centro da cidade como uma representação. Então, mulheres negras, ocupando esse lugar no sul do país, se faz extremamente revolucionário, demonstra deslocamento das estruturas e explica muito sobre meu entendimento a respeito das Yabás.”


Dandara Manoela - Bolivar Alencastro

Dandara Manoela Foto Por: Bolivar Alencastro


Toda sua trajetória musical vem da sua vivência musical e social em Santa Catarina e Paraná. Como tem sido a ocupação dos espaços do mercado da música?  

Dandara Manoela: “Minha trajetória musical se inicia na sala da casa da minha vó em Campinas, São Paulo, no meio do filme “mudança de hábito” nos anos 90, num dia de “sessão da tarde”. Ali, sem saber, aprendi sobre representatividade com Whoopi Goldberg, que era protagonista. Ali despertou meu gosto e ouvido atento para a música. Como fui criada na igreja evangélica adventista da promessa, tive esse lugar como palco e escola inicial da minha trajetória.

Entretanto, foi aqui em Florianópolis que me descobri profissionalmente enquanto cantora e compositora. Sinto que o Sul me acolheu, apesar de ser desafiador, pensando o mercado musical e o fato de eu ser uma mulher preta. Aqui recebi prêmios como melhor cantora, melhor álbum com o Retrato Falado, firmei grandes parcerias, fui homenageada com a Medalha Cruz e Souza.

O Estado é bem invisibilizado no mercado musical, tem poucas políticas públicas relacionadas a arte como um todo, o que torna ainda mais desafiador viver de música aqui. Mas faço questão de levar o nome do estado por onde passo. Sobre o Paraná, tive experiências pontuais de shows, mas conheci grandes nomes da música, como a Érica Silva, multi-instrumentista e produtora musical de Pretas Yabás, Tuyo, Mulamba, Leo Fresato, Janine Mathias, Klüber, Estrela e Téo Leminski.”

Vi que você foi contemplada num edital de circulação de shows. Quão importante foi pra você ter acesso a políticas como essa? Conta um pouco pra nós como foi participar.

Dandara Manoela: “O edital de circulação do SESC/SC era um sonho antigo, foi uma grande conquista, estávamos tentando há anos. Sei que conquistar esse edital foi fruto de um trabalho árduo em equipe, mas recebi como um presente, afinal foi realizado num momento de pré pandêmico, onde não imaginávamos o que estava por vir.
Pra mim, essa circulação foi uma grande forma de celebrar os encontros, antes dum momento intenso de isolamento. Outra coisa que me marcou foi que em Santa Catarina o meu Show foi o último gratuito pelo Sesc. Penso que políticas como essas são essenciais, mas que estão num momento complicado no país e a pandemia deixou isso ainda mais evidente.”

Como tem sido pra você trabalhar durante a pandemia? Qual foi o impacto dela na sua vida profissional e criativa? 

Dandara Manoela: “Minha vida profissional deu uma reviravolta, acabei focando mais nos estudos do canto (o que foi bem importante) e também nas aulas de canto como educadora vocal.

No início fiquei um pouco apavorada com a impossibilidade de shows, bem num momento que tava sentindo minha carreira deslanchar e parecia que ia estagnar com isso. Ou seja, dar aulas não era minha principal frente profissional, mas acabou se tornando e acabou me salvando, pensando em saúde emocional e financeira. Compartilhar aquilo que mais amo fazer me deu fôlego, inclusive pra novas criações, como o single “Raiz Forte”, lançado no primeiro semestre e “Pretas Yabás.”

Como tem sido a construção da sua carreira? Quais são suas parcerias de produção e gerenciamento de carreira?

Dandara Manoela: “A construção da minha carreira iniciou de forma bem independente mesmo, sempre tive parcerias incríveis, mas era eu que pensava em tudo e buscava formas de concretizar. No financiamento e lançamento do meu CD Retrato Falado a Renata Schlickmann, minha companheira, começou a trabalhar mais diretamente comigo como produtora executiva. Isso foi em 2018, a partir daí essa parceria se fortaleceu e percebemos a necessidade de ter mais pessoas nesse processo.

Então, no início desse ano a Mari Pelli se juntou a nós na assessoria de conteúdos de mídia, algo que sempre foi muito desafiador e que nós duas sozinhas não dávamos conta. Ela tem sido uma peça fundamental no gerenciamento da carreira, pois as mídias sociais são o grande comunicador de quem somos hoje em dia. Além disso, no ramo da produção musical e audiovisual, sempre surgem novas parcerias e conexões, como no caso de “Pretas Yabás”, com Érica Silva, produtora musical, e Kriya Films, produtora audiovisual.”

Fale um pouco sobre os músicos que gravaram com você no single?  Como foi o processo com a produtora Érica? Há planos de álbum pra 2021? 

Dandara Manoela: “A Érica Silva desde o primeiro momento foi muito generosa, ela estava com agenda cheia, mas mesmo assim topou entrar nessa comigo. Eu lembro de ter mandado a música pra ela, num áudio de celular, só voz, ainda um pouco tímida e ela retornou a música já com as primeiras ideias de estrutura e arranjo. Entendi que viria coisa muito boa dali.

Produção musical é um ramo dominado por homens brancos, então essa junção de ser mulher preta, produzido por outra mulher preta (e incrível, diga-se de passagem), mexeu muito comigo. Me senti sortuda de poder fazer isso ainda no momento de início de carreira. Acredito que eu iniciei essa música de um jeito e hoje, no dia do lançamento, estou de outro.

A parte de instrumentistas foi toda pensada pela Érica e gravada em Curitiba, apenas a captação da minha voz que foi feita aqui em Florianópolis pelo Fábio Sung. Tivemos a própria Érica, na guitarra, baixo, beats e também edições; Klüber no piano; Caio nas percussões, na Mix e Master, Leo Gumiero e Pedro Soares, respectivamente, pessoas selecionadas por ela e que executaram lindamente esse som.

Para 2021, pretendo trabalhar mais com a linguagem audiovisual, explorar desse novo universo que se apresentou para mim esse ano e que enxergo como ferramenta de fortalecimento do meu trabalho.”

Sobre Dandara Manoela

Dandara Manoela é cantora e compositora catarinense que une força e poesia. Sua pluralidade musical representa um símbolo de resistência das manifestações culturais afro-brasileiras e de afirmação da mulher negra e lésbica no campo artístico. Transitando pelo samba e pela MPB, a artista traz à tona lutas e afetos subjetivos que encontram espaço na multidão.

Em 2017 venceu o Prêmio da Música Catarinense na categoria melhor cantora. Em 2018 lançou seu primeiro álbum, Retrato Falado, na sequência venceu o Prêmio da Música Catarinense na categoria Melhor Álbum. Em 2019 lançou o single “Meu Canto”, gravado em colaboração com grandes músicos de São Paulo. E, em 2020 lançou o single “Raíz Forte”. Já abriu shows de Luedji Luna, Liniker e os Caramelows e Francisco El Hombre.

Também participou dos shows da Tuyo (na Casa Natura Musical – SP), Mart’nália, Ekena, Francisco El Hombre e Luedji Luna. E marcou presença em festivais de música e eventos internacionais como: SESC na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (RJ), FIMS – Feira de Música do Sul (PR); Morrostock (RS), Libélula Festival de Carnaval (PR), Bradamundo (SC), Heineken Urban Jungle (RS), entre outros.

Ouça “Pretas Yabás”