Após praticamente três anos de seu debut o Dum Brothers voltou aos estúdios para finalmente disponibilizar sua continuação. Seria uma forma de contar esta história…completamente equivocada!

E talvez essa seja a graça de observar este momento do duo paulistano. O duo composto por Raul Zanardo e Bruno Agnoletti passou por poucas e boas experimentando o melhor – e o pior – do cenário indie local. Tocando nos mais diferentes palcos e mostrando a força de sua energia (e amizade).


Dum Brothers

Dum Brothers em Socorro (SP). – Foto: Divulgação


Mudanças

Eles já não se identificam mais como um duo de stoner rock. O que por sua vez abre um leque de possibilidades bastante interessante. O novo EP do Dum Brothers é tudo….menos óbvio. Raul somou seu aprendizado como engenheiro de som, tendo mixado trabalhos seus e de outros artistas.

Nesse meio tempo eles passaram um tempo como trio. Acabaram retornando ao formato original mas a rica experiência abriu a cabeça do duo para uma série de possibilidades. Entre elas, pensar além da combinação guitarra + bateria.

Mas não pense que ficaram esses dois anos sem inéditas. Muito pelo contrário. Nesse meio tempo eles lançaram inúmeros singles como “Fuck the Cops“, “Slowly” e “Power Face”. Aos poucos o Dum Brothers foi entendendo qual caminho queria trilhar.

Dum Brothers: Pt. 2

O novo EP contou com a produção de Fil Alencar (Blocked Bones), que também participa tocando guitarra e nos backing vocals de alguns sons. Camadas, instrumentos, mixagens e peso. Tudo foi testado. A mudança é perceptível e bastante positiva.

Os Amigos

O registro ainda conta com participações de Layon André (da banda Maru) e  Matheus Krempel (The Bombers / Porto Produções Musicais). Eduardo De Carvalho Sabaté ajudou na produção do vídeo para “Everybody Dead”; e a capa cheia de desenhos, e colagens, foi idealizada por Old Boy (Patrick Antunes).

Já as gravações foram realizadas no estúdio Porto Produções Musicais entre dezembro de 2018 e Fevereiro de 2019 por Raul Zanardo. A mixagem é assinada por Caio Cruz e a masterização foi feita por Aécio Souza no Estúdio Aurora.

O EP é mais um lançamento do selo independente Craic Dealer Records.



15 Minutos de Experimentação!

O EP vem para mostrar novos caminhos. Menos afobado, mais experimental e com um aperfeiçoamento na hora de compor.

“Reparei” por exemplo, é uma grata surpresa, com um groove disco-funkeado, recheado com metais e um refrão que fica estalando na sua cabeça. Sua melancolia também é outra surpresa, visto que tem tudo para ser alto astral – e acaba passando longe disso.

A paixão por Black Sabbath, claro que não ia ficar de fora, e o stoner, derrete na psicodelia e abraça o blues em “Everybody Dead”. Talvez a menos ousada do registro, visto que segue uma linha similar a já mostrada na Pt. 1.



Outra que experimenta é “Snake Stranger” com efeitos nas vozes, mixagem e trabalho em suas camadas. Os backin vocals e as guitarras, por sua vez, se somam e criam uma levada tanto quanto espacial. Feito um filme de ficção científica: no fim eles são abduzidos.

“She’s Leaving” vai pro obscuro das baladas românticas dos anos 70. Chora guitarra e dale progressão à lá YES.

Mas se fugir do óbvio é o que você quer, ouça “Mapinguari”. Nela os Dum Brothers vão buscar inspirações na viola, no norte, na natureza, nos batuques, na psicodelia; e no heavy metal. Tudo junto e misturado. Sendo experimental e puramente instrumental.


Dum Brothers Capa


ENTREVISTA

Conversamos com Raul e Patrick, que fez a capa, para saber mais detalhes sobre esta nova fase do duo. Confira o papo sincero e descontraído logo abaixo.

3 anos se passaram desde a PT. 1, o processo até se estendeu mais do que imaginavam no começo? Como veem a evolução e a transformação no som da banda? Nesse meio tempo até viraram trio e voltaram a ser duo, além de terem tocado em tudo que é buraco da cidade…como todo esse processo contribuiu para a PT. 2?

Raul: “O processo para que a gente pude-se começar a trabalhar no “Pt. 2” só começou no meio de 2018, quando o Fil Alencar virou nosso produtor, antes disso foi só fazendo muitos shows sem pensar em produzir nada.

Nesse meio tempo lançamos o single de “Power Face”, o mais correria que a gente fez, foram duas semanas pra produzir, gravar e lançar, mas isso é outra historia. Depois de todo o processo de produção com o Fil, que ia nos ensaios pra gente trabalhar nas musicas, conseguimos nos enfiar umas duas semanas no estúdio Porto Produções Musicais para gravar tudo o que dava na telha.

O Matheus Krempel, dono de lá, tinha ido viajar e como eu já trabalhava com ele lá em gravações ele deixou a chave na minha mão. Essa liberdade proporcionou uma grande abertura em relação ao som que podíamos fazer com a banda e, como não estávamos mais fechados naquele conceito de “Power Duo” com a entrada do Gustavo, as possibilidades ser tornaram infinitas, até o ponto da gente gravar Bongô em uma das faixas do EP.

Mas no final mesmo, o fato da gente ter tocado em vários canto da cidade e alguns cantos de outros estados também, tirou nosso foco do segundo EP, só conseguimos parar pra focar nele a partir do momento que pensamos “Precisamos fazer menos shows”.

Paralelamente você (Raul) também foi se aprimorando na arte da mixagem e desenvolve pedais. Como sentiu que evoluiu nesse sentido trabalhando com outros artistas?

Raul: “Ter uma base em eletrônica e engenharia; e tendo um estúdio para que eu possa experimentar junto com artistas e produtores abertos a opiniões é um privilégio gigantesco. Sempre venho com novas ideias de efeitos, equipamentos, microfones e formas de captação para o Matheus, ele fica super empolgado para testarmos.

Tenho trabalhado com outros produtores e técnicos como o Gustavo Trivela e o Aécio do Estúdio Aurora, dois mentores que me ensinam muito sobre a parte técnica e a parte pessoal de todo o processo.

A evolução proporcionada por todas experiências e aprendizados foi enorme pois no primeiro EP fiz quase tudo sozinho e não tinha experiência nenhuma com captação e gravação.”

Mais diverso, com mais camadas e até mesmo uma narrativa mais bem elaborada que o primeiro tento. Chegaram a pensar em outro nome para o disco? Como as participações especiais contribuíram para que ganhasse corpo?

Raul: “Pra falar a verdade só fomos pensar em outro nome agora que você perguntou (rs). Seria legal chamar de “Mapinguari”, título da faixa instrumental que fecha o EP.

A lenda do Mapinguari é contada na Amazônia e fala sobre um ser com um olho na testa e uma grande boca no abdômen. A ideia desse nome partiu do Bruno e foi instigada pelo Fil (Blocked Bones), que é do Pará.

Além do Fil, que produziu, tocou algumas guitarras e fez backing vocals, conseguimos ter varias participações especiais, uma delas foi o Layon, do projeto Maru, que deu uma letra e uma roupagem diferente para a faixa “Reparei”.”

Uma grata surpresa foi justamente de serem faixas em que experimentam diferentes referências. A ideia era testar mesmo? Algo muito legal foi terem puxado canções mais para o português, bandas como Necro acabaram influenciando nesse processo?

Aliás como enxergam a atual cena de stoner rock e os caminhos que tem trilhado, ou para vocês não tem muito disso de rotular e fechar o som numa caixinha?

Raul: “A ideia era testar mesmo e por o máximo de camadas possível, na “Mapinguari” teve uma hora que a sessão já estava com 134 Tracks, eram muitas dobras e muitos microfones ao mesmo tempo.

Com relação as letras, o lado português geralmente é o Bruno que faz. Tivemos a honra do Layon André do Maru, banda que curtimos muito, fazer a letra e a melodia na “Reparei”, adicionando um toque mais Soul para a música.

Não temos muito essa de rotular, a galera chama a gente de Stoner, mas tem muito mais que esse estilo agora, nem no primeiro EP éramos Stoner. Acho que isso surgiu pois sempre tocávamos com muitas bandas de camaradas e a maioria são Stoner, é um estilo que curtimos e acabamos fazendo amizade nos shows que frequentávamos.”

A capa me chamou bastante a atenção, conte mais sobre as referências, processo de concepção e como rolou o brainstorm.

Patrick: “Satisfação demais saber que a arte da capa está tendo uma repercussão positiva. Conheço o Dum Brothers a um certo tempo, já tive a oportunidade de tocar com eles em algumas gigs, e então me surge o convite para ilustrar a capa do segundo EP dos caras.

Eles me passaram algumas referências muitas delas temos em comum, como bandas de “speed rock” ou “high energy” e daí partiu a ideia inicial, o material que essas bandas apresentam (cartazes, capas de discos etc…) tudo isso serviu de muita inspiração.

Então o trabalho fluiu naturalmente, é muito importante e legal quando a banda confia no artista e o deixa livre para criar. Agradeço ao Raul e Bruno pela confiança, sucesso nesse novo marco do Dum Brothers manos!”