Sem papas na língua, Juvenil Silva fala abertamente sobre os prazeres carnais em “Suspenso”

De vez em quando pegamos para ouvir alguns discos e só de escutar o timbre: já sentimos a vontade de não ouvir ele em streaming e sim direto na Vitrola. Porque parece que encontramos ele perdido em um sebo, com um pouco de pó e uma qualidade de gravação da velha guarda.

Esse ar vanguardista que nos leva para clássicos de Walter Franco, Ronnie Von, Rita Lee, Cartola, Belchior, Gilberto Gil, Os Baobás, Jards Macalé, Secos & Molhados, Clube da Esquina, Zé Ramalho, O Terço,  Sá, Rodrix e Guarabyra, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.

Uma sensação de nostalgia que se choca ao dar o play. Muito disso por conta do viés moderno que a fusão de estilos regionais somadas a narrativas do cotidiano agrega. O pernambucano Juvenil Silva em Suspenso ainda soma a toda a vanguarda, ritmos latinos, frevo, soul, folk, psicodelia, brega e um pouco de seus prazeres e vivências.


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Juvenil Silva lança seu terceiro disco, Suspenso. – Foto Por: Raíssa Vila Nova

O músico recifense no começo de março lançou Suspenso. Sucessor de Desapego (2013) e Super Qualquer no meio de lugar nenhum (2014). Um registro que tem como mote o desprendimento, a liberdade, os prazeres, o amor primo, nossas efervescências, medos, transformações e pecados.

Com toques calientes, cicatrizes, confissões, reflexões, arranjos e percussão que soa como o bater de um coração apaixonado, Juvenil discorre sobre o amor. Tema em que fugiu durante a vida toda como compositor por achar que canções de amores não eram para ele. Até que ele foi fisgado e não teve como, não foi apenas uma faixa, e sim um disco inteiro. Se entregando de corpo e alma.

“Podemos dizer que é um disco de canções de amor? Sim, podemos. Mas não o amor engessado, perpetuado e transmitido pela sociedade, pela TV, pela família ou pela burrice. É o amor em outra realidade, por vezes omitida, pouco abordada, e até mesmo má interpretada. Amor primo, sem muita preocupação de ser compreendido e, sim, vivenciado. Fruto dos instintos mais ancestrais”, frisa Juvenil

Esse amor tão puro, julgado pela sociedade como boêmio, ardente, indecente, voraz e desconcertante que ganha casa em Suspenso. Juvenil se despe de medos em ser julgado, incompreendido, rechaçado e dá sim sua cara a tapa. Se entrega a putaria de cara e boca em faixas como “Degolado”, na qual se desprende e se redescobre como carne nova na praça.

Juvenil Silva – Suspenso (Março / 2018)

Um disco com uma perspectiva e visão de mundo tão “fora da casinha” chega como um alento para um mundo a cada dia mais cheio dos “não me toques”, repleto de hipocrisia, diz que me diz e papo furado. Ele se atira na noite de cabeça e deixa seu lado mais inconsequente e libidinoso tomar as rédeas.

Mas sem perder a classe, a pose e guiando o ouvinte a (tentar) compreender seu lado. Sua sinceridade à flor da pele e o modo de conduzir suas histórias que dão o ritmo de sua odisséia. Toda essa quentura apimenta ainda mais sua persona dândi – e por sua vez, suas desventuras.

O álbum só foi possível graças aos amigos e fãs que colaboraram com a campanha de financiamento coletivo no Catarse, Tudo que tem asa quer voar.

Segundo o artista: “O projeto ficou no ar durante 60 dias e arrecadou 107% da meta de R$ 8 mil para pagar os gastos com estúdio, gravação, mix, master e divulgação, além das recompensas – camisetas, discos de parceiros, tesouros pessoais e até nudes (sim!).”



“Degolado” abre o disco já ladeira a baixo, feito um borracho em busca de um rabo de saia. O groove encontra os ritmos latinos e o blues “torto” conduz a energia do pacato cidadão em busca dos prazeres – e consequentemente leva a sua inevitável queda.

Com tecladinho à lá rocksteady e muito swing “Homens Pardais” faz a conexão entre a jamaica, o brega e o rock psicodélico. Com o mesmo frescor de ouvir o disco Selvagem do Paralamas do Sucesso pela primeira vez. Me remetendo à aquela sinergia cósmica da Nação Zumbi e todo aquele poder que emana até hoje.

Fala sobre se entorpecer de amor feito sua droga pessoal, não enxergar os limites para seu uso, e sobre a simplicidade das pequenas coisas da vida.

Setentista até a última ponta o single, “As Coisas Não Se Ajeitam Sozinhas”, foi lançado ainda no ano passado. Ela é funkeada desde sua introdução e ao mesmo tempo que dá vontade de dançar, coloca um aviso de: Perigo, confusão a vista!

É sobre se transformar, quebrar as correntes e velhos hábitos do passado para poder saborear das pequenas conquistas – e suspiros – do presente. É quase que uma faxina interna e o vestir de uma nova roupa após tanto tempo usando aquele velho sapato apertado e aquela camisa já descolorida.

Enfim a guitarra ganha protagonismo em “Gaiola”, rock esperto, tiro frio e bem calculado. Se entorpecesse pela seu lado ora bluseiro, ora descaradamente psicodélico. A liberdade é questionada através de figuras de linguagem, entre querer voar versus a vontade de voltar a ter amarras.

Feito um animal de zoológico quando consegue sair da jaula e 10 minutos depois percebe que a liberdade não é tudo isso. Consequentemente volta com o rabo entre as pernas. Toda esse dicotomia é bem desenvolvida em apenas dois minutos.

“Oscilando” tem aquele espírito vanguardista que tanto falamos no começo do texto, de figuras emblemáticas da história da música brasileira. Se tivesse sido gravada nos anos 70 com certeza seria o single pronto para tocar nas principais rádios pop do momento.

Gosto do trabalho de percussão da canção e todos elementos que dão aquele toque tribal a faixa. De certa forma ela dialoga com a anterior, mas fala sobre o amor primo que tanto é evocado no registro. Sem freios, dilemas ou medos. Conduzido pela fúria e pelo arder de um coração selvagem.

Com o espírito ula– ula, “Se O Meu Legal Te Faz Mal”, tem um guitarra esperta surf rock e é adocicada feito uma jabuticaba. Justamente uma música sobre provar dos encantos mais perversos, se é que me entende. É sobre ter que lidar com o desapego, mesmo a contragosto.

“Solitude Espontânea” mais uma vez traz o groove pro centro da roda e faz uma deliciosa combinação com tempos quebradiços de jazz, rock progressivo e permite uma viagem pulsante por caminhos ainda não explorados até então neste disco. Mas não pense que fica por aí, tem um punhado de samba e ritmos latinos para dar aquele (senhor) caldo!

Corpo, sentimento, mente e alma. Essas são as bases de “Cabeça Coração”. Se desprende totalmente de qualquer preconceito e restrição que outrora tivesse. É sobre se atirar de cabeça mas sem perder o sentimento. Vê até o pulso acelerar numa montanha-russa de sensações. É sobre se permitir.

A vida cigana, o coração persistindo em ciladas de amor, confusão mental e perdições dão o tom de “Zanza”. Acredito que fãs de King Crimson e Pink Floyd vão ter a canção como uma das suas favoritas por essa viagem de ritmos e texturas que ela permite. A percussão mais uma vez tira toda a previsibilidade da canção rockeira e lembram até mesmo o poder do soul que o Primal Scream tenta emular em Screamadelica (1991).

“Vacas Magras” é a balada do disco e tem muito de Gilberto Gil em sua melodia. É prog, é psicodélica, bebe de outras fontes como o soul e coloca toda a atenção nos vocais de Juvenil.

O espírito carnal – e psicodélico – tem seu auge em “Amor Primo”, como não poderia deixar de ser. Os arranjos e teclados são o grande destaque da curtíssima faixa. O poder de cada verso, te instiga a querer saber mais sobre a história que viaja para bem longe, nos encantos das curvas dos corpos se cruzando. É um clamor pela emancipação, liberdade e tentação.

“Do que Adiantou” chega abelhuda com um riff que gruda na cabeça mas logo desemboca em um teclado puxado para o brega, é de certa forma uma canção bipolar. Assim como é colocar a mão na cabeça e questionar suas próprias atitudes. Ela derrete mas para se perder, é como que se isso fosse necessário para se encontrar.

Quem tem a árdua missão de encerrar o disco é a caprichosa “De uma Forma ou de Outra”. A dança da vida é colocada em pauta, no ato de se permitir viajar, se entorpecer, sentir, se perder, se encontrar, fugir, correr, quebrar a cara, amar intensamente, se endireitar, perder a cabeça novamente, criar, triunfar, tropeçar mas sempre seguindo em frente independente das consequências – e pequenos delitos.


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O espírito dândi e os conflitos sobre a liberdade, amores vorazes e independência ganham protagonismo em Suspenso. Terceiro disco do pernambucano Juvenil Silva que faz uma salada psicodélica agregando elementos de soul, latinidades, surf rock, funk, brega, rock progressivo, frevo e até mesmo o samba.

O tom bem humorado e a falta de papas na língua talvez que passem a sinceridade das histórias narradas ao longo do trabalho. Que diverte por seu tom nostálgico e conta sob uma perspectiva bastante pessoal, os acasos e amores que a vida resguarda quando nos permitimos.

Entrevista

[Hits Perdidos] Se fizermos um paralelo de seus discos podemos ver que você lançou dois muito colados um do outro Desapego (2013) e Super Qualquer no meio de lugar nenhum (2014) e agora chega com um novo trabalho com um distanciamento de tempo. Como vê que isso contribuiu para esse amadurecimento tanto como músico quanto como gestor da própria carreira?  

Juvenil Silva: “Produzo rápido, é o meu ritmo… Desapego teve apenas dois ensaios e foi gravado em alguns poucos meses. Foi um álbum que gravei sem pretensão alguma, só pra reunir umas canções e jogar na net, como o disco repercutiu e eu percebi que havia bem mais gente levando esse trabalho a sério do que eu mesmo. Depois decide correr pro estúdio e gravar um disco com mais cuidado e qualidade, um ano e meio depois “Super Qualquer” estava pronto. 

Suspenso era um disco que eu planejava lançar no começo de 2017. Em 2015 eu já estava com o disco todo composto e comecei a pré produção junto com o baterista, em 2016 gravamos 90% do disco, em 2017 regravamos algumas coisas, mas a demora mesmo foi devido a mixagem que foi feita à distância, eu em Recife e a moçada em SP, no fim de 2017 finalmente ficou pronto, esperei mais um pouco e lancei depois do carnaval. Por mim, lançaria um disco por ano, gosto, é assim que eles brotam pra mim. Nesse exato momento já tem outro aqui dentro, doido pra ganhar vida.  

O amadurecimento vem naturalmente com a experiência em gravar, experimentar, acompanhar e dirigir todo o processo do disco. Nossos erros me ensinam mais os acertos, por exemplo, no próximo disco, de algumas coisas que utilizamos em termos de mixagem nesse, eu já sei o que não vou querer.”

[Hits Perdidos] O que acho muito interessante e rico do seu trabalho é justamente essa facilidade em flutuar entre estilos regionais, calientes, o gingado do soul a esse espírito tão vivo que reverbera na sua voz. Como foi para você encontrar essa identidade artística e o que quis adicionar de novo neste novo trabalho?  

Juvenil Silva: “Eu não costumava cantar, fazia as músicas e as bandas em que eu tocava, executava, aos poucos ia testando um backing vocal ou até mesmo cantar uma ou duas canções, mas não me sentia à vontade. Foi depois de muita prática, muito exercício livre, vivência de palco, cantar pelas ruas, me soltar mesmo… Hoje em dia começo a ter uma dimensão melhor de minha voz, e tudo foi uma questão mais de me ouvir, de me reconhecer, saber dos caminhos que eu posso ir, desviar, me perder até, mas ter as manhas de voltar e seguir. 

Sempre fui colecionador e pesquisador de música, era “rato de sebo”, vivia lendo revistas, conversando com outros amantes alucinados por música. Teve uma vez que um crítico falou algo que eu botei fé, disse que meu som era som pra quem tinha uma vasta coleção de discos (risos).

questão é que ouvir tanto tipo de música diferente que na hora de compor pode vim tudo misturado. Num dia posso compor um rock psicodélico e em seguida um samba, ou um frevo. Não tem barreira, pra mim a graça é essa, porém acredito na identidade que vem no meu jeito de escrever executar a criação.

Nesse disco além de idealizar uma unidade temática nas letras, também quis na sonoridade e nos ritmos. Queria um álbum pesado de timbres analógicos, um pouco do groove brasileiro dos anos 70, latinidades, uma pitada de psicodelia e o tempero do Brega que ouvia na minha infância por intermédio de meu pai que era frequentador de gafieira e se amarrava dançar.”

[Hits Perdidos] O que o Juvenil diria hoje em dia para o Juvenil do começo da carreira? Quais as maiores dificuldades que ainda enfrenta? E o que te dá forças de seguir em frente nesta longa caminhada?

Juvenil Silva: “Eu cantaria uma canção que fiz dia desses, em especial um pedaço dela: “Quantos vacilos, quantos acertos dei? Tudo que foi, trouxe-me aqui.”

Sobre seguir em frente nessa caminhada e força pra isso, não tenho escolha, o que posso dizer no agora é que isso é minha vida, isso de grana pra pagar contas, para comer e ter que me sustentar com o que sei e amo fazer, é outro papo, se entrelaça, mas é outro. Mas é isso, é esse amor que sinto pelo o que faço e quero fazer, que me alimenta e instiga seguir.”

[Hits Perdidos] Achei incrível esse conceito de desprendimento do álbum, de não querer ficar atrelado a uma estética ou discurso massificado. Suas composições são baseadas em experiências próprias, porque escolheu o amor como tema central? 

Juvenil Silva: “Sim, na maior parte, são baseadas em minhas vivencias. Sobre o “Amor”, lembro de certa vez, há long time ago, quando eu tava começando a compor mais, disse pra mim mesmo, ou talvez pra algum amigo também, “Bicho, acho brega demais falar de amor, eu vou falar de amor não”.

Lembro até que eu tinha canção bem bobinha chamada “Eu não sei falar de amor”. Bem, anos depois me deparo compondo um disco onde o tema gira em torno de “Amores”, assim, no plural, que é como acredito que ele é. E eu não escolhi, vivi, senti, depois naturalmente escrevi, registrei e agora  na fase de expressar, jogar conversa dentro.

[Hits Perdidos] O que mais te inspira na hora de compor um novo disco? 

Juvenil Silva: “Cada disco foi algo diferente, no caso de Suspenso, como disse, foi o que se passava por volta e por dentro, vivi, sofri, estudei, ruminei… Tanto que quis reivindicar algumas coisas sobre e o fiz de forma de canção.

Dor, liberdade, padrões, posse, autonomia, putaria… São alguns pontos abordados nesse álbum. Com os outros dois anteriores foi diferente e com o que vem a seguir já sinto outros desejos e caminhos se abrindo.”

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Juvenil fala sobre o “amor primo” em seu novo disco. – Foto Por: Raíssa Vila Nova

[Hits Perdidos] Pelo que soube o projeto de financiamento coletivo foi um sucesso. Como veio a ideia e ao que credita ter sido tão feliz o resultado? Quais dicas daria para outros artistas que optam por este caminho? 

Juvenil Silva: “Foi algo de bastante aprendizado e é por isso que que super indico as pessoas que optarem por realizar algo através de financiamento coletivo. Passar por isso, sair de sua zona e se colocar em situações diversas, novas.

Nesse caso, o processo de arreganhar a cabeça da turma para uma outra maneira de fazer as coisas acontecerem, fazer todo esse processo ser ainda mais coletivo, aglutinador, direto, transparente…

Acredito que o modo que conduzir as coisas, de uma forma mais pessoal, humilde e persistente foi o que fez rolar. Não sei se faria outra vez, mas aconselho geral a experiência.”

[Hits Perdidos] O que acha que faz com que as pessoas não adotem esse estilo de vida retratado no conceito do disco, de emancipação e liberdade de pensamento?  Seria mais fácil seguir o som da valsa?

Juvenil Silva: “Acredito que é bem mais fácil viver do jeitinho que sempre ouvimos dizer que é o correto de se viver.  O que fazer, o que nãopor onde ir, o que é errado… Como se pode amar?

Quando no caso existem o “Como se quer amar” e ainda mais, o “Como se consegue amar” e outras tantas bifurcações pra porra toda. Existe muito mais de uma realidade oculta se batendo na cara da gente do que essa que nos condicionam a enxergar.” 

[Hits Perdidos] Qual o cenário perfeito que recomendaria para que seu ouvinte apreciasse seu álbum da maneira mais adequada?

Juvenil Silva: “A noite, no centro, sozinho (espontaneamente).  

[Hits Perdidos] Queria saber sobre as expectativas para o show de lançamento que acontece logo menos, está preparando algo especial para celebrar a data?

Juvenil Silva: “O show será* dia 07 de abril, na noite de abertura de um novo espaço cultural chamado Lambe Lambe, serão duas coisas a se comemorar por aqui. Para o show, foi decidido hoje que faremos todo o disco na íntegra e na ordem.

Cds, camisas e outras lembranças também serão vendidas no local. Feliz também pelo show de abertura da banda amiga que acho muito boa, a Verdes & Valterianos e também pela discotecagem dos vinis mais preciosos do DJ Pós da festa Meodia de Bodega, simplesmente o Dj que mais gosto.”

* Entrevista realizada no fim de março

[Hits Perdidos]
Se estamos falando de muitas misturas, gostaria de conhecer mais sobre seu background musical. O que tem escutado que abriu a sua mente para os mais diversos estilos? 

Juvenil Silva: “Na época que eu estava compondo Suspenso estava flertando um pouco com a coisa do groove brasileiro mais setentistaexperimentando mais coisas modais do que tonais, misturando bregosidades (sic) com psicodelismo…

Minha ideia aos poucos é subverter e experimentar novas formas harmônicas e rítmicas, mas no meu tempo, não me considero um bom músico, só um curioso, um treloso. Por fim, apenas quero me enxergar naquilo que fui capaz de gravar. No momento venho mergulhando bastante na música folk mais barroca, que é uma paixão antiga e que é por onde tem passeado algumas novas composições. Escuto Nick Drake quase todos os dias!”

[Hits Perdidos] Você fala sobre o amor primo pouco compreendido que fala nas canções. Queria que explicasse mais sobre isso para os leitores do Hits Perdidos e falasse mais sobre sua urgência. Gostaria que contasse também sobre a missão de compor a canção de mesmo nome para o filme Superpina.

Juvenil Silva: “Sou amigo íntimo do diretor, o Jean Santos, mais ou menos na mesma época que eu estava passando por situações que me vieram a compor algumas das canções de Suspenso, Jean também estava passando por suas vivências e escrevendo seu filme.

A gente bebia e conversava muito, ora de maneira meio delirante, ora mais objetiva sobre essa coisa de “Amor Primo”. Esse nome partiu dele e ele me pediu que eu criasse uma trilha. Daí começamos a discutir e entender o que a gente mesmo estava criando, e que na verdade, já existia. A música cita um certo retroceder “Voltar ao primo amor”, tem a ver com a essência, aquilo que trazemos instintivamente que nos é tirado pela sociedade, pela família, por toda essa educação engessada, velha e falha.”     

Foto6 Debora Bittencourt
Assim como a carta d’O Enforcado do baralho de Tarot, Suspenso, olha para o mundo sob outra perspectiva. – Foto Por: Debora Bittencourt

[Hits Perdidos] Para fechar gostaria que contasse mais algumas histórias por traz das composições de Suspenso. 

Juvenil Silva: “O ponto de partida para criar, a primeira faixa do disco “Degolado” veio de um devaneio de um jovem chapado em Fortaleza, após um show que havia feito no Festival Feira da Música, vadiava eu com o pessoal da banda Veronica Decide Morrer e (Jonnata Doll &) os Garotos Solventes, do nada uma das figuras da turma bradou no meio da pista “Eu quero me abandonar”!  

Eu havia acabado de voltar de viagem do Rio/São Paulo, ao chegar em Recife fui direto pra casa da minha família, não havia outro endereço que eu pudesse ir naquele momento, uma tia me olhou da cabeça aos pés e exclamou baixinho “Tu tás perdido” sorrir e naquele mesmo dia concluir “A coisas não se ajeitam sozinhas”, algo que já vinha se formando na minha cabeça na viagem de volta.  

Certo dia eu bebia com um amigo e sua companheira, estava morando de favor no seu ateliê em Olinda nessa época, onde havia som e espaço para ensaiar na sala da casa, foi lá onde começamos a ensaiar essas canções. Nesse dia a gente falava sobre algumas experiências carnais, era carnaval, meu primeiro solteiro após uns 10 anos, em algum momento eles se gabavam de ter mais idade, experiência e que eu tinha muito o que aprender… Não há idade de errar, foi o que questionei ali e mas tarde pintava a música “Cabeça, coração”, onde se abre também a discursão entre o corpo e o sentimento.  

“Eu quero te levar pra viajar” era o que reverberava por dentro quando tive que parar do nada e pedir licença a pessoa que estava comigo para ir até o banheiro. Eu só precisa pegar o gravador do celular e botar isso pra fora, antes que esquecesse, como acontece por vezes… Uma das faixas do Suspenso mais densas pra mim, expressa inquietações de ir entrelaçadas a esperanças de voltar e misturada com insatisfações de ficar…   

A maioria das composições do disco são de um mesmo período, fase essa onde eu perambulei atordoado sem endereço fixo (A faixa “Zanza” divaga e ilustra bem sobre) e tentando aprender com a bagunça sentimental, com tristeza, com a dor que circulava por mim e por entre pessoas muito queridas. Quis entender, ressignificar, contestar e desmistificar muito daqueles sentimentos. Queria aceitação, autonomia, força Mas tive que encarar rupturas e descer um pouco mais em busca dessa força que eu pretendo aos poucos ir aprimorando, dividindo e espalhando.

Suspenso tem essa pretensão embutida, essa vontade degolar cabeças duras, de expandir pensamentos de forma sutil, dançante, transante e bem doida mesmo.”

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