Com ares dos sintetizadores de Berlin: Gomalakka apresenta seu Dance Punk energético

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Hoje vamos nos aventurar em um universo paralelo, um universo onde o alinhamento dos planetas em sí está em sincronia com os beats dos sintetizadores e harmonizam com uma melodia poderosa e dançante dos vocais de Ciça Brakka.

O Gomalakka começou em 2005 como um coletivo performático, no bairro de Pinheiros, SP. Arte, performance, poesia e música foram se somando até que nos últimos anos foi se moldando até se transformar em uma propriamente dita, banda.

O grupo formado por Ciça Brakka (voz e letras), Ale Vergueiro (bateria), Renato Maia (teclados) , Flavien Arker (baixo) e Rodolfo Martins (guitarra) completou no ano passado 10 anos de existência.

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Nada melhor do que pegar o exemplo de David Bowie para tentar explicar o universo místico que abraça tantas formas de expressão e multi-facetas para ilustrar a essência do grupo. Ainda mais se isto ajudar a prestar uma singela homenagem ao camaleão do rock, falecido na semana passada.

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Bowie ao longo dos seus 69 anos bem vividos viveu em constante transformação, transgrediu diversos gêneros musicais, tirou deles o melhor, se aventurou pelo rock, viajou em narrativas poéticas de outra galáxia, acreditou na música eletrônica quando ainda era um gênero restrito a pequenos grupos, viu na moda um horizonte a se explorar.

O músico britânico era um marketeiro nato, jamais separou sua imagem de sua música. Para ele: poesia estava tão acoplada a música como a moda está presente nas passarelas da vida.

Além disso, David Jones – como nasceu para o mundo – não conseguia aprisionar todas as personas que viviam dentro dele, e o teatro e cinema sempre estiveram presentes em sua vida.

Uma história rica, sempre lutando pela aceitação dos excluídos pela sociedade, os Diamond Dogs, os ultajantes, os insaciáveis, mas sempre com a intenção de que podemos acrescentar algo ao mundo, nos aceitando como somos.

Mas onde o Gomalakka entra nisso tudo?

A banda assim como Bowie, tem uma preocupação teatral e na estética, características intrínsecas em seu DNA artístico. Ambos são performáticos e respiram arte em sua essência. Entregar um produto pensado nos mínimos detalhes e causar euforia de quem presencia as apresentações: parece mais do que um querer, e sim, um dever artístico.

Não é de surpreender que este vídeo foi gravado durante um show realizado no encerramento da exposição “IT’S NOT PERSONAL, IT’S DRAG” do artista plástico Rafael Suriani na Tag Gallery SP.

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Tudo é alinhado, arte + música + expressão + atitude + visual + espírito: logo, transgredir e transcender vira um conceito. O obscuro conversa com o ultrajante e o espectro sonoro nos transporta para outra dimensão. O transmidiático cria e recria uma atmosfera a cada ouvinte que se deixa levar pela catarse de cabaré, a sua maneira. Afinal de contas, a arte nos permite interpretações únicas e experiências singulares.

Mas voltando ao Bowie. Como muitos sabem, ele morou em Berlin durante o período em que o punk explodiu na Inglaterra (1977-1979). Mas ele foi sempre a frente de seu tempo e percebeu de cara que o som que grupos como Kraftwerk e NEU! estavam fazendo, era a aposta do momento.

Com isso, nosso Hero, alocado em Schöneberg – bairro conhecido pelos cidadãos de Berlin como gay – quis ter uma vida pacata e sem excessos, depois de se afogar em drogas e se sufocar com a fama. Não foi a toa que um dos períodos mais prolíferos artísticamente aconteceu logo ali.

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Assim, com a colaboração de seu fiel escudeiro – o produtor Brian Eno – ele fez os álbuns Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979) que mais tarde ficariam marcados como: a trilogia de Berlin.

Mas você deve estar se perguntando mais uma vez onde o Gomalakka entra nisso. A influência que mistura bits eletrônicos e acordes de aura punk, no contesto caótico e conflitivo da vida urbana tem tudo a ver com o universo de Bowie.

Façamos um paralelo, o hit incontestável,”Heroes”. Mexia com o brio da sociedade e não apenas se tornou hino a favor do fim da guerra fria, mas como motivou a luta dos jovens alemães anos depois a derrubar não só o murro de Berlin, mas sim um universo de estigmas impostos com a sociedade e manifestar a vontade de transformação.

As pulsações selváticas a declarações de amor a peito aberto, com uma pitada de ironia dançante do Gomalakka tem tudo a ver com esta fase de Bowie. Onde dançar era sim uma preocupação, mas era uma forma de expressar seu descontetamento com a alienação das locomotivas da sociedade e do sonho médio.

A liberdade e as correntes que esse som transmite pode ser associada ao dark do post-punk, suas trevas cheias de mensagens subliminares e calmaria que parece gritar por socorro ao som de sintetizadores que conduzem a catarse.

Provavelmente se não tivesse uma onda de bandas como Kraftwerk, NEU!, Love And The Rockets, Siouxsie And The Banshees, The Sisters Of Mercy, The Mission, Cocteau Twins, Pere Ubu, The Fall e Bowie esse tipo de catarse não poderia ter acontecido.

E uma semente bem plantada, germina loucura e da loucura meu amigo, nasce das cinzas a criatividade.

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O Gomalakka afirma que já ouviu descreverem seu som como post-punk com letras de funk. E não tem nada melhor do que isso? Para um som tão solto de correntes, estigmas e preconceitos isso soa mais como um elogio.

Trangressão, a arte quebrando correntes e indo para mundos paralelos inimagináveis. Com tanta pluralidade em sua essência como não querer conferir o que eles tem a dizer?

Foi o que fiz.

 

O Single Pixe, lançado em junho/2015 conta com duas faixas: “Pixe” no lado A e “Marrocknroll” no lado B. Cada uma com uma atmosfera diferente mas as duas mesclando português ao inglês. Ambas estão também presentes no EP Lá Em Cima (2016) lançado nos últimos dias pelo selo Howlin’ Records.

“Pixe” começa como um encontro de ondas intergaláticas, com características oitentistas de dark wave, baixo pesado e pedais de efeito. A música cresce com os vocais de Ciça que conduz com sua voz doce em direção das pistas de dança. A canção romântica brinca com o universo silencioso dos sinais de uma conquista. Os efeitos na voz deixam ainda o ambiente de balada introspectiva mais intensos, quando você percebe está cantando junto.

“Marrocknroll” é transgressora, rock’n’roll eletrônico mesmo. O eletrônico flerta com o rock dos anos 70, principalmente o punk dos Stooges. Em certo momento, a vocalista cita trechos e”I Wanna Be Your Dog”. Imagine os anos 80, um garoto punk entrando pela primeira vez numa balada new wave/post-punk/Industrial e tendo suas primeiras impressões. É essa sensação que a música te passa: experimentação e conflito de universos.

Mas como não estamos aqui para requentar o que já foi feito vamos falar de novidades saindo do forno: o EP Lá Em Cima (2016). Este que foi lançado no sábado passado em show realizado na NEU.

 

“Lá em Cima” abre o EP com uma atmosfera que mistura New Order com outras referências do post punk. Mas o que destaca mesmo é a letra que trata sobre os conflitos de viver na cidade de São Paulo, as dificuldades que temos para nos libertar e viver na cidade. A busca pela identidade em uma cidade cinza mas cheia de oportunidades. Achar seu lugar ao sol é a busca insana que a música tenta te passar como mensagem.

“Pixe” é a segunda faixa do disquinho mas como já falamos dela por aqui, vamos a próxima.

“Diaba” é a terceira faixa do EP. Toda introspectiva, ela vai crescendo com o adendo de elementos, começa dark e vai abrindo espaço para catarse. Cheia de brincadeiras vocálicas a letra é agressiva, e te provoca com as ironias em forma de versos.

Com certeza uma música que brinca com a espiritualidade e a performance. O que só nos deixa com a vontade de ver uma apresentação ao vivo. Os sintetizadores ganham força ao longo da música e dominam a epifania Joy Divinesca e macabra da canção.

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“Sans Coulote” tem uma atmosfera Kraut-Rock dos amigos do Kraftwerk e do Rock Industrial, mas conforme cresce em progressão ela se torna ainda mais dançante. Irônica ela nos provoca a dançar com uma letra que fala sobre um Coulote. Isso mesmo que você ouviu. Com versos de emancipação como “a bunda é minha eu faço o que eu quiser”.

Entenderam quando comparam as letras ao funk? Valesca Popozuda por exemplo, utiliza disso em suas letras, a sensualidade do gênero em prol do discurso de emancipação feminina. E nada como quebrar mais um paradigma da sociedade, não é mesmo? Transgredir em forma de traduzir o que está calado nas mentes da sociedade dando voz.

“Vou rebolar minha vaidade localizada”, a objetivação do corpo feminino e da dança sendo desconstruídos a cada frase proferida pela vocalista. Atitude forte através de uma voz doce e é aí que a ironia vive e seu discurso se potencializa.

O próprio ato de chamar a canção de “Sans Coulote” já denota a provocação clara a uma igreja arcaíca que vê o corpo da mulher e a nudez como demônio e fonte do pecado.

“Vicio” é a música que mais diferencia do EP, ela começa meio que um interlúdio e a voz domina a faixa. A poesia que prega a liberdade de escolhas e ideias, as verdades que tomamos para sí e as implicações que isso causa. O sintetizador cresce e cria os contrates e transições da canção entre os versos densos de emancipação.

“Marrockenroll” fecha o disquinho em uma vibe positiva e coloca todos de volta para a pista de dança dos conflitos e dilemas de auto-aceitação.

Pois é, Bowie se foi mas deixou um universo gigantesco a ser explorado. E viva a emancipação das ideais e dos limites do corpo. Descendo através do teto e escorrendo feito Piche!

kk

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Howlin’ Records

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2 thoughts on “Com ares dos sintetizadores de Berlin: Gomalakka apresenta seu Dance Punk energético

  1. Há muito, mas há muito tempo mesmo eu lia uma resenha tão à altura da obra de um artista. Parece que essa resenha acaba por se tornar um tentáculo da obra. Incrível o quanto seu grau de percepção foi além do que poderia ser esperado.

    É por leituras como essa e, toda essa sinceridade na escrita, que fazer parte de qualquer projeto musical faz todo sentido e torna a vida mais leve!

    Estamos aqui, nós da Howlin’, soltando fogos de felicidade com o “Lá Em Cima”. E sua escrita contribui para manter a engrenagem viva! Parabéns! Palmas em uníssono aqui, Rafa! 😀

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