Juvi fala sobre “O Sonho da Lagosta” e influências de Pink Floyd e Tom Zé

Juvi comenta processo criativo do álbum “O Sonho da Lagosta”, influências musicais e relação entre carreira musical e internet

Juvi é cantora, compositora, guitarrista e criadora de conteúdo brasileira conhecida pelos vídeos de análise cultural e pelo projeto musical que mistura rock psicodélico, música latina e humor ácido. A artista lançou recentemente o álbum “O Sonho da Lagosta”, seu novo trabalho de estúdio que marca uma nova fase em sua trajetória musical e amplia o diálogo entre rock psicodélico, música latina e reflexões sobre comportamento e relacionamentos.

São muitas facetas que boa parte do público que a conhece pelos vídeos de Top 5 talvez nem imagine. Por aqui pudemos entrevistá-la pela primeira vez ainda em 2017 com seu outro projeto musical solo, Sasha Grey As Wife, no momento de lançamento de um disco que poucos conhecem mas que já trazia aspectos importantes não apenas da sua jornada musical como também nas transformações que teve na vida.

O álbum O Sonho da Lagosta é o terceiro disco de estúdio de Juvi sob a alcunha do seu nome, e o segundo pela Deck, tendo anteriormente disponibilizado Hits Eletrônicos de Verão (2025) e Cultura do Ódio (2024). O nome tem como inspiração o conceito do “complexo de lagosta”, metáfora da psicanálise sobre vulnerabilidade e transformação, inspirada no processo em que o animal quebra o próprio exoesqueleto para crescer.

Rupturas e recomeços, relacionamentos amorosos, familiares e de amizade permeiam as temáticas do disco que ainda mantém o senso de humor afiado mas, agora, com mais seriedade, algo que acompanha os novos quadros que tem criado em suas redes, entre questionamentos filosóficos e conversas sobre nosso cotidiano.

Juvi cita Pink Floyd, Tom Zé e Frank Zappa como influências no álbum O Sonho da Lagosta

A transformação da sonoridade e a maior conexão com a latinidade são marcas do trabalho que mergulha no rock psicodélico, do Pink Floyd, Frank Zappa e Cream, assim como flerta com a música de artistas como Ca7riel & Paco Amoroso, Tom Zé e Fito Páez.

O álbum O Sonho da Lagosta de Juvi tem 10 faixas, e quase 30 minutos de duração, conta também com uma versão de “Essa Noite, Não”, do Lobão, este que teve a chancela do músico em breve conversa que puderam ter após uma apresentação.

“Nossa, ficou muito boa essa versão. Inclusive a gente não tocou hoje no show. A gente está pensando em tocar a sua versão, porque o show é mais rock, power trio”, o músico Lobão comentou com Juvi após apresentação.

Além da produção musical, Juvi também assina beats, sintetizador, guitarra, baixo, mixagem e a masterização. Pudemos conversar um pouco mais com ela para saber mais detalhes sobre esta nova fase musical, trajetória na música e na produção de conteúdo e artistas que têm escutado recentemente.


Juvi lança O Sonho da Lagosta, Influencer Digital Top 5 Entrevista Exclusiva
Juvi no álbum “O Sonho da Lagosta” mistura rock psicodélico e música latina. – Foto por: Juvi

Entrevista: Juvi

Nesta entrevista, Juvi fala sobre o álbum O Sonho da Lagosta, suas influências que vão de Pink Floyd a Tom Zé, a relação entre música e redes sociais e o processo criativo do disco.

Juvi comenta o processo criativo de “O Sonho da Lagosta”

O álbum O Sonho da Lagosta é o seu novo disco.. Ele saiu no dia 6 de março, e liricamente é um disco que dialoga muito com o conteúdo que você produz nas redes sociais. Ele discute muito saúde mental, relacionamentos da modernidade, a dificuldade de expor os sentimentos verdadeiramente. O que estava na sua cabeça enquanto você estava compondo esse disco?

Juvi: “Nossa, é um disco que demorou a chegar na forma que ele é hoje. Acho que o disco nasceu da necessidade de lançar logo algo, porque quando eu trouxe o formato que eu tinha no Spotify para o ao vivo, a coisa se configurou de um jeito totalmente diferente, né? Com uma sonoridade de banda. E as pessoas iam ouvir no Spotify e depois ver o show e falar: “É… não tem a ver”.

Aí nisso cresceu uma urgência em mim de tipo: “Velho, eu preciso fazer um disco que tenha essa energia do ao vivo”, que é essa mistura de rock psicodélico com música latina.

Então eu comecei a compor as músicas. No início era para ser um disco curto de seis músicas, que ia se chamar Chifres. Mas aí, conforme foi passando as coisas e eu mostrando para os meninos da banda a primeira versão desse disco, perguntando quais músicas eles queriam gravar, a gente começou a produzir, gravando com a banda. E paralelamente eu comecei a compor O Sonho da Lagosta.

Então O Sonho da Lagosta tem umas duas músicas dos Chifres e algumas letras que viraram outras músicas. E veio muito dessa vontade de fazer algo novo e de dar uma exorcizada no que são os dois primeiros discos, que são músicas que têm humor e acidez como um ponto-chave lírico.

Então veio a ideia de tipo: “Velho, tô cansada das pessoas me compararem com Skylab”. Embora seja uma artista que eu goste, eu acho que ele tem muita influência do Frank Zappa, que é uma das minhas maiores influências para esse trabalho solo, junto com Tom Zé.

Então eu consegui falar sério nesse disco, mas sem deixar de lado a acidez. E o humor aparece mais como algo acidental.

E isso vem muito não só do que está passando na minha cabeça, mas muito do que eu vejo nos comentários dos vídeos. É muito sobre o que eu converso com os meus amigos e as minhas amigas.

Eu sempre iniciava as conversas para fazer as letras desse disco conversando com as pessoas ao redor, para não ser uma viagem egoica só de autoidentificação e que as pessoas se identifiquem comigo.

Eu acho que é um disco que tenta refletir um zeitgeist de relacionamentos em tempos de vídeos verticais e redes sociais.

Então é um disco que é muito verborrágico. Quando é verborrágico, é muito verborrágico. Quando é minimalista, às vezes a música tem uma frase só.

E eu acho que as redes sociais são isso. Ou existe um mistério, a foto embaçada e aquele negócio meio turbo que tipo “eu quero mandar uma mensagem para alguém mais indireta”, mas toma aqui um meme, uma frase.

E também o lance de abrir a câmera e falar um monte de coisa, só vomitar o fluxo de consciência. Que é algo muito das letras, por exemplo, do Leonard Cohen, que eu gosto muito. É um fluxo de consciência. Você não tem um apego à rima, à forma, mas ao mesmo tempo tem uma poética ali, uma poética da crueza.

Então acho que esse disco veio nesse ensejo. Tem vários trechos meio spoken word mesmo.”



Agora você está fazendo esses shows acompanhada por uma banda com vários músicos incríveis. Qual foi a influência disso no processo? Como foi a participação da banda no processo criativo, essa troca de vocês?

Juvi: “Nossa, é um álbum que é muito doido pensar como ele chegou nesse ponto.

Acho que passa por algumas coisas do passado. Eu lembro que o primeiro show de banda underground que eu fui, em Volta Redonda — que é a minha cidade natal — foi um show do Amplexos. Era uma banda de reggae e dub, música jamaicana. Aí tinha sintetizadores e percussão, mas ao mesmo tempo era meio Pink Floyd.

Isso operou muito em mim. E durante os anos eu tive várias bandas, vários projetos.

Mas eu entrei muito na música jamaicana e latina por causa do Amplexos. Então quando veio a vontade de fazer uma banda, eu pensei: “Velho, eu queria que a banda e a sonoridade lembrassem Amplexos e todas essas influências que essa banda me trouxe”.

Aí eu juntei para ensaiar com os meninos. O Luciano Armstrong, que é o guitarrista, conheci no Cavalo Estúdio, que hoje eu sou sócia. O Rafael Lira e o Wallace Schmidt tocavam na Alaska, que foi tipo a banda — o núcleo da banda Alaska foram as minhas primeiras amizades em São Paulo. Então juntou essa galera.

Mas no primeiro ensaio, pelo rumo das músicas, a gente pensou: “Pô, tinha que ter um percussionista, né?”. Aí surgiu o Vinicius Asanã. Tem uma festa da firma que rola da minha agência que sempre tem uma banda de pagode, e eu perguntei para o vocalista qual percussionista ele indicava. Ele indicou o Vini. E o Vini hoje é super amigo. A música faz milagres.

Eu lembro que depois do primeiro ensaio a gente conversou os quatro, sem o Vini, e falou: “É impossível ter banda sem percussionista agora. É impossível ensaiar sem percussão depois desse ensaio”. Então isso foi a cereja final que pontuou a coisa.

Esse foi um disco que eu gravei inteiro sozinha em casa. Essa é uma doideira. Porque paralelamente eu estou gravando no Fleeting, que é um estúdio aqui de São Paulo, com o Otávio Bonazzi produzindo, já produziu uma galera.

É o outro disco que vai ser a continuação da saga da Lagosta. Ou seja, esse ano vão ter dois ou três discos com a temática Lagosta. Não sei se são dois ou três, mas um já está em estúdio com a banda. Já tem seis músicas prontas e a gente vai entrar para a segunda bateria esse mês para fechar doze músicas.

Então vai ter mais disco da Lagosta. Eu acho que a ideia é que cada disco tenha uma identidade, um método de produção diferente. Esse primeiro disco é o meu esquema raiz: eu sentada aqui no meu computador gravando tudo.

Aí já vai ter esse outro disco que vai ser com a banda, todo mundo tocando seu instrumento. Já vai ser outra vibe, outra energia.

E eu quero muito fazer um disco de baladas também gravando tudo na fita cassete. Vamos ver se eu vou conseguir a proeza. Eu estou com um gravador de fita aqui, mas não sei se três discos é o ideal. Talvez as baladas entrem no próximo, não sei ainda.

Mas a ideia é produzir música em excesso. Música em excesso e de métodos diferentes. Não ter sempre o mesmo método todo álbum. Então esse é um ano para soltar muita música e ver o que acontece. Que é o ritmo da internet na produção de arte.”


Juvi O Senhor Lagosta Top 5 Influencer Digital
Juvi lança “O Senhor Lagosta” pela Deck. – Foto por: Juvi

Esse disco tem até um cover também, que eu acho bem interessante. Como surgiu a ideia de colocar essa música do Lobão especificamente?

Juvi: “Ah, é uma mistura de coisas.

Eu gosto muito do Lobão, sempre escutei muito. E eu tinha parado de escutar um tempo quando ele teve essa guinada louca olavista direitista. Mas ao mesmo tempo eu me identificava com ele, porque eu já fui olavista quando eu era cristã, quando eu tinha meus 18, 19 anos.

Então tipo… vai passar. Uma hora vai passar.

Faltava uma música no disco e eu queria uma música mais melódica. Aí eu vi um corte do Lobão no podcast falando: “Eu gosto que qualquer pessoa faça covers de música minha, não precisa nem de autorização”.

E eu já estava seguindo o Lobão no Instagram. Ele tinha me seguido de volta. Aí eu pensei: “Velho, vou fazer um cover”.

Estava faltando uma música mais melódica, mais rock, e também algo mais ligado à saúde mental. É uma música que fala sobre suicídio de um jeito muito bonito.

Na verdade não é nem uma música sobre suicídio, é uma música que conversa com o suicida. Ele fala: “Pô, não tenta se matar pelo menos essa noite”. É um lance bem Alcoólicos Anônimos, tipo um dia depois do outro.

Quem já teve questões de saúde mental — mais pessoas do que a gente imagina — já flertou com essa ideia da autoeliminação. Eu acho que é algo que faz parte da natureza humana e que tem que ser falado.

Às vezes é um buraco que serve para você entender: “Esse é o fundo do poço. Não desce mais. Vamos subir”. Aí eu fiz essa versão, mandei para ele e ele amou. Gostou muito.

Depois eu encontrei com ele num show que eu fui e ele falou: “Nossa, ficou muito boa essa versão. Inclusive a gente não tocou hoje no show. A gente está pensando em tocar a sua versão, porque o show é mais rock, power trio”.

Eu falei: “Pode ir à vontade”. Então é algo muito legal. Poder fazer um cover do Lobão que ele chancelou, que ele gostou do arranjo. E é um arranjo que vem mais nessa onda música latina, que é algo que eu gosto bastante. Estou muito feliz que ele gostou e espero que as pessoas gostem também. E que pessoas que talvez não tenham parado para escutar Lobão por conta dessa loucura política se surpreendam com isso.

O próprio Lobão falou que na versão dele a música tem muito cinismo. Ele falou: “Você traz uma urgência. Pelo seu jeito de cantar você deixou séria a música”. E eu pensei: “Caralho, que visão”. Eu nem tinha pensado nisso. Mas como a música é dele, ele percebeu isso muito facilmente.”



Agora também com o lançamento. Esse é o segundo disco que você lança com a Deck. Mesmo assim você falou que foi um disco gravado só por você em casa. Como é agora essa relação de ter a máquina de uma gravadora grande por trás?

Juvi: “Eu acho que é finalmente…

Eu sempre estive muito acostumada a fazer tudo sozinha, tanto no meu trabalho de influenciadora quanto na música. Então ter pessoas para me auxiliar em registros de músicas, estratégias, plano de divulgação, assessoria de imprensa… para mim é algo que eu sinto tipo: “Nossa, eu precisava muito disso e não sabia que precisava”.

Porque para mim divulgar música é a pior parte sempre. Amo fazer música. Odeio divulgar. Então a Deck vem muito nessa ajuda. E o Rafael Ramos é o melhor guru e conselheiro possível musical. É o cara que dá os melhores takes. É muito atencioso, realmente tira o dia para ouvir sua música e tecer opiniões. Isso faz com que o álbum tenha uma espécie de coprodução à distância, um aconselhamento.

E eu sou muito fã do Rafael. O cara é responsável por grandes momentos do rock nacional, principalmente dos anos 2000 para cá. Então estar na Deck é um negócio que eu jamais imaginei. E ao mesmo tempo eu tenho liberdade criativa para fazer exatamente o que eu quiser. Tipo: “É três dias? É três dias. Vai lançar do nada? Do nada”.

Então é um misto de liberdade com partes essenciais do profissionalismo do mercado musical que talvez não seja o papel da artista saber fazer mesmo.”

Quem te conhece só pelas redes sociais talvez possa até ficar surpreso de alguma forma com a tua carreira musical. Mas eu sei que você começou com a produção de conteúdo para a internet falando sobre música, lá com o canal antigamente. Queria saber um pouquinho como a música entrou na tua vida também.

Juvi: “Olha… meus pais não ouviam muita música. Geralmente tem sempre aquilo lá de botar um vinilzinho, mas meus pais eram meio “foda-se música”.

Em algum momento minha mãe entrou para a igreja, meu irmão entrou também. Meu irmão amou ir na igreja porque as pessoas tocavam violão. Aí nisso meu pai começou a ir na igreja também, eu comecei a ir também. Meu irmão ganhou um violão, logo aprendeu e começou a tocar na igreja.

Em algum momento, na escola municipal que o meu irmão estudava, tinha uma orquestrinha. Aí meu irmão começou a ir lá e emprestaram um trompete para ele. Ele começou a tocar trompete e o violão ficou parado.

Eu tentei aprender violão, não consegui. Aí tentava de novo, enjoava, largava. Aí chegou um momento em que eu pensei: “Tá, eu quero tocar instrumento de sopro”. Meus pais compraram um clarinete. Juntaram o dinheiro e compraram. Comecei a aprender clarinete, aprendi partitura e tal.

Aí um belo dia eu vi um DVD do Red Hot Chili Peppers, o Live at Slane Castle. Aí eu falei: “Guitarra é mais legal que clarinete”.

Aí eu falei: “Mãe, será que tem como trocar lá na loja o clarinete por uma guitarra?”. Ela falou: “Nossa, mas já quer trocar de instrumento?”. Eu falei: “Vamos ver se tem como trocar”. A gente foi lá e deu para trocar pelo mesmo valor. Aí tipo… ali eu virei uma pessoa colada na guitarra 24 horas por dia. Isso era com meus 14 anos. Então já tem 20 anos que eu toco guitarra.

É uma loucura. A música entrou aí. Porque eu descobri Red Hot, comecei a gostar de rock. Aí um primo meu me apresentou ao metal. Aí fodeu. Fodeu minha vida.



Ele veio com um DVD do Angra e eu fiquei tipo “puta que pariu”. Eu vi que a guitarra é um instrumento que vai bem longe. Tipo… Pink Floyd e Angra. Aí comecei a estudar igual uma louca.

Quando eu era jovem eu cheguei a abrir alguns workshops do Kiko Loureiro, do Eduardo Ardanuy. Então comecei bem cedo. Logo comecei a ir em shows de bandas da cidade. Aí eu gravava as minhas coisas. Depois comecei a gravar bandas da cidade.

Por entrar nesse universo da música e começar a gravar bandas, comecei a gravar clipe. Aí comprei minha primeira câmera. E tendo a câmera eu pensei que, se eu fizesse vídeos pro YouTube — que era a onda na época, tipo Felipe Neto, PC Siqueira, Pirula, Cauê Moura — eu também podia fazer. E foi isso.

YouTube e música estavam tudo junto. Entrei na faculdade de Psicologia, comecei a falar sobre arte, cultura, psicologia e comportamento.

Aí as coisas migraram para hoje. Se você acelerar o tempo, dá isso: dá a Juvi que faz top 5 e fala de assuntos relevantes, e a Juvi que tem uma banda. Sempre esteve ali desde o início.”

Você falou um pouquinho sobre essa mudança do seu conteúdo — da música para coisas mais do dia a dia, mais pessoais. Como foi essa migração? Eu lembro que comecei a notar isso meio que na pandemia. Você fez vários vídeos falando sobre isolamento e coisas assim.

Juvi: “Eu acho que o meu canal começou falando sobre música. Em algum momento eu comecei a falar não sobre a forma da música ou sonoridade técnica, mas sobre significado de letra, aspectos sociais e contextos. Aí veio a pandemia. Eu comecei a falar mais sobre comportamento, isolamento, saúde mental. E até esse momento eu era uma pessoa que só falava sério na internet.

Aí veio o TikTok. No TikTok eu comecei a falar qualquer bobeira, mas por diversão. Tipo: “Ah, tem o YouTube ali, eu trabalho com outra coisa”. Eu já não tinha o sonho de trabalhar com internet mais. Aí nasceu o Top 5 e as coisas saíram de controle. E aí eu pensei: “Nossa, isso deu certo. Bora jogar o jogo, cair de cabeça nisso”.

Ficou muito tempo de Top 5 e vídeos mais virais de humor. E do meio do ano passado para cá eu voltei a fazer conteúdo um pouco mais sério, estudo artístico, textos. Voltei a escrever. Porque por muito tempo eu só improvisei em vídeo vertical. A maior parte dos vídeos sem roteiro. Eu só ligo a câmera, falo e edito.

E aí rolou migrar por isso. Rolou migrar também porque falar de arte e de música às vezes é falar para o vento. Principalmente em tempos de vídeos verticais. Na época horizontal de ouro do YouTube não era assim. Não era uma época em que você fazia um react e dava view. As pessoas escolhiam, digitavam, procuravam artista e caíam no seu vídeo.

Era uma época em que se pesquisava coisas na internet. Hoje em dia a internet que te pesquisa, para ver o que você gosta e onde você dá mais atenção. Então falar de música e de arte perdeu o sentido em alguns momentos. Eu tentei algumas vezes fazer isso, mas as pessoas pulam os vídeos.

É igual quando eu fiz o vídeo de divulgação do show do Sesc. Eu avisei do show e fiz num formato mais viral, mais clickbait. Um monte de gente falou: “Você podia divulgar normal, você não precisa disso, você tem um milhão de seguidores”. Gente, precisa sim. Porque se eu posto um vídeo tocando uma música ou falando que vai ter show, dá 10 mil views, 5 mil views, 3 mil views. E não vende ingresso. Esse do Sesc deu um milhão de views. Vendeu 250 ingressos. Cabiam 300 no Sesc. Deu para lotar.

Mas são coisas diferentes. Não é porque eu tenho um milhão de seguidores que os shows lotam automaticamente. As pessoas chegaram ali por outra coisa.

E para mim o grande desafio hoje é mostrar: eu sei fazer música, eu faço isso há muito tempo. Eu gosto de fazer, é o que eu amo fazer.

Você pode não gostar do gênero, das letras, mas é algo que eu gosto de fazer e faço há muito tempo. Eu faço isso há mais tempo do que faço vídeos. E às vezes as pessoas te reconhecem só pela superfície. Mas isso não acontece só comigo. Acontece com qualquer pessoa. A rede social é só a superfície. É só a casca.”

E você tem até, inclusive, dois perfis, né? Você tem o @ajuvichagas e tem o @juvimp3, que eu acho que é da banda.

Juvi: “O MP3 eu abandonei. Esse ano eu falei: vou vestir a camisa da música e vou postar tudo no perfil principal. Porque, se tem um jeito de dar certo, é postando num perfil que tem um milhão de seguidores e não num que tem sete mil. E essa é a prova de que ninguém liga pra música.

Quer dizer, eu não vou falar que ninguém liga pra música, mas… enfim. E não é um problema pra mim. Eu estou muito realizada com isso. Porque, pra mim, a graça é fazer. A graça é tocar com os meus amigos. A graça é escrever umas doideiras. E, pô, quem escutar já está bom demais.

Mas esse ano eu resolvi focar mais na música e mostrar para o meu público que eu toco. Então esperem muitos vídeos de música. Tanto sérios quanto… sei lá, eu quero muito gravar a guitarra da abertura de X-Men Evolution, sabe? E falar “Wolverine, Tempestade…”. Quero fazer coisas assim, trazer a música para um lugar interessante, cômico, de entretenimento.

E mostrar mais que eu sou uma guitarrista. Eu não sou uma grande vocalista. Eu canto porque é um projeto solo e eu tenho que cantar no meu projeto solo — ou então seria Van Halen, né? Mas não é uma má ideia fazer um disco com outra pessoa cantando. Seria interessante.”

Mas tem várias participações no seu show também, né?

Juvi: “Sim, eu amo. Eu amo chamar gente, amo chamar meus amigos. Eu amo chamar o Cyro Sampaio, do Menores Atos, para cantar pagode, por exemplo. Eu amo isso.

Mas acho que, pra mim, o lance é mostrar ao mundo que eu sou uma guitarrista. É isso que eu sou. Cantora… eu estou cantando e levando isso mais a sério há dois, três anos. Ainda tem muito para evoluir.”

Juvi revela artistas que tem escutado recentemente

Eu achava muito legais as suas listas de final de ano de discos e esse tipo de conteúdo que você soltava no seu canal antigamente. Como uma fã de música, que artistas novos você indicaria hoje?

Juvi: “Nossa… é que “novos”, novos… por exemplo, Ca7riel e Paco Amoroso já não são novos em tempos de internet. Mas eu escuto desde antes do Tiny Desk e amo muito. Eles são muito fodas. Eu lembro que um amigo meu me apresentou falando: “É tipo Anitta na Argentina”. Eu pensei “beleza, vou ouvir”. E, tipo, amo. Então Ca7riel e Paco Amoroso eu tenho escutado bastante.

Também tenho escutado Die Spitz, que é uma banda meio metal, meio punk, só de mulheres, muito crua. Tem uma revolta muito grande ali e letras muito ácidas.

Desde que eu montei a banda eu também tenho redescoberto muito o Tom Zé. Ele está tocando sempre. O Tom Zé tem uma discografia tão foda, tão cheia de coisa, que é um negócio que eu gosto muito.

Tenho me afundado cada vez mais em Fito Páez. Eu acho que ele é um dos grandes nomes da música latina e que não tem o devido reconhecimento.

E tenho escutado muito Ethel Cain. Eu amo o jeito como ela escreve. Eu acho que ela consegue escrever de um jeito que transparece um lado mais queer da existência, principalmente quando a gente fala de relacionamentos e sentimentos. Porque muitas vezes essas coisas só contemplam o relacionamento hétero cisnormativo.

Quando eu escrevo letras, eu busco muito isso também. A Ethel Cain me ajudou muito nisso: trazer uma neutralidade nas letras. Não falar “ele”, “ela”. Trazer uma universalidade. Porque eu não sei com quem a pessoa que está escutando se relaciona. Eu quero que ela se identifique e que não seja um pronome que determine isso.

Então é um exercício de linguagem neutra sem usar linguagem neutra. Usando os recursos que a gente já tem no idioma. Embora eu seja super a favor da linguagem neutra — é um dos meus pronomes — se debate tanto isso na internet e as pessoas falam tanto em usar o português correto… então vamos usar o português correto.

Dá para neutralizar tudo usando o português do jeito que ele já existe. E aí você vê que muitas vezes não é falta de possibilidade — é má vontade. Então a Ethel Cain, na forma como ela escreve, é algo que invadiu muito o meu jeito de escrever também.”

Como o site se chama Hits Perdidos, a gente gosta de falar sobre bandas que talvez nunca tiveram o alcance que mereciam. Quando você pensa em artistas que foram meio esquecidos na história, tem alguma indicação?

Juvi: “Tem uma banda muito boa de São Paulo. Com certeza você conheceu. Eu nunca cheguei a ver um show deles, mas eu amava e escutava muito. É Jennifer Lo-Fi. A primeira vez que eu escutei eu fiquei tipo: “Caralho, que porra é essa?”. É muito bom. É uma mistura de math rock com emo, com fusion. Que banda boa. Eu daria tudo para ver uma voltinha do Jennifer Lo-Fi.

Do R. Sigma também, com o Castello Branco… nossa, que delícia. Mas eu acho que Jennifer Lo-Fi é uma banda muito injustiçada. É uma banda de São Paulo muito boa. Vale a pena procurar. Se bobear, vai ser mais fácil achar no Bandcamp.

Tá no Spotify, 177 ouvintes mensais. Mas eu lembro que tem um EP muito bom que só está no Bandcamp. O EP que eu conheci é de 2011, chama Nia. É muito bom.”



Você tem algum show já no radar para o lançamento do disco?

Juvi: “Dia 27 de março na Rockambole, com Menores Atos e Mastrobiso. Vai ser o show de lançamento do álbum. Ou seja, o pessoal tem um mês para escutar o álbum, saber cantar…

E a gente vai estar lá na Rockambole chorando muito com o Cyro, do Menores Atos, zoando muito com a Mastrobiso e vendo o disco ao vivo na íntegra.”

Ouça o álbum O Sonho da Lagosta de Juvi

O Sonho da Lagosta é o terceiro álbum de estúdio de Juvi e marca uma nova fase na carreira da artista.


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