Ottopapi transforma caos urbano em rock cru no disco “Bala de Banana”

Ottopapi apresentou na última sexta-feira (06/03) Bala de Banana, disco que transforma caos urbano, noites sem dormir e pequenas crises existenciais em rock cru. O álbum marca uma nova fase de Otto Dardenne dentro da cena independente paulistana.

Não é de hoje que ouvimos que o rock tem ficado cada vez mais burocrático, principalmente no mainstream. Como dizia Lee Ranaldo, a pesquisa e sensibilidade do underground em quebrar padrões convencionais acaba, por sua vez, reinventando a música pop década após década.

“Sempre tem coisas interessantes sendo feitas no underground. Eu não acho que vai realmente mudar. Eu acho que sempre vai ter um underground inventando coisas, e às vezes os ouvintes de mainstream vão ficar sabendo de algumas dessas coisas e transformá-las em música pop, às vezes não. Sempre terá um underground bem saudável acontecendo, galera que está começando, excitada pelo que eles ouviram ou aprenderam, e decidiram fazer algo com as próprias mãos”, disse Lee Ranaldo, do Sonic Youth, em entrevista para Marcelo Bergamin, publicada na Noize, em 2014

A importância dos articuladores da cena

Dentro do que chamamos de cena independente, os agitadores culturais têm uma importância de impacto muitas vezes não mensurável, mas que acabam norteando uma nova geração da classe artística local. Incentivando o surgimento de novas cenas, começando dentro de casa, Otto Dardenne é daqueles nomes importantes da última década da cena paulistana.

Com o espírito faça você mesmo, o músico que já integrou bandas como Goldenloki e Gumes, já foi curador de espaços culturais como a Heavy House e do Mês do Rock no CCSP, atua na noite paulistana como DJ e também é designer gráfico, contribuindo com artes para artistas contemporâneos como Tim Bernardes, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Sessa e Peel Dream Magazine. Vindo de família musical e tendo já dirigido, ao lado do irmão Yann, os estúdios FiacaMameloki, ele é um dos responsáveis pela Seloki Records (saiba mais).


OTTOPAPI - Bala de Banana (2026) - FOTO POR JANA CAVALLI
Ottopapi apresenta seu álbum de estreia “Bala de Banana” – Foto por: Jana Cavalli

O nascimento de Ottopapi

Mas é claro que a saudade de sair do backstage e retornar para o front sempre pairou no ar. Numa dessas conversas informais que temos nestas andanças por shows noite afora, ele revelou que o embrião que viria a se tornar Ottopapi estava mais perto do que eu poderia imaginar.

Com 32 anos, a maturidade e as experiências, de certa forma, prepararam o músico para este momento e a estratégia de construção não começou ontem. A própria construção da persona artística é um caso à parte. Claramente utilizando a caricatura rock’n’roll para destilar em versos ásperos pequenas crises que vêm com a experiência, entre ciladas, noitadas e esgotamento.

Tudo isso com uma linguagem que dialoga com a eterna juventude do rock’n’roll mas com uma bagagem de referências que vão beber no garage rock, no powerpop, no indie lo-fi, na surf punk e no punk rock. Esse tom áspero, melindroso e sem medo de colocar a cara a bater tem tudo a ver com suas batalhas dentro da cena independente. Nesse espaço, o que é drama se confunde com banalidade, o que é puro suco de desespero se colide com a vontade de conquistar seu espaço, o que era para ser apenas um pensamento intrusivo, acaba virando música.

Bala de Banana: caos urbano em forma de rock

A vida cotidiana ganha nuances nos detalhes, entre acordes uma hora estridentes, outras vezes mais contidos, amores, paranoias e os dilemas urbanos das dores do amadurecer. Um disco que mostra que não tem medo de errar, se mostrar vulnerável e de por meio de um personagem satírico, criticar o lado errático do ser humano sem apontar dedos para ninguém explicitamente.

Essa fagulha do errático, do permitir que nem tudo encaixe nos pormenores, é o que traz naturalmente a conexão com quem muitas vezes se vê preso em um personagem aos olhos da multidão.

Não é por acaso a atitude perante o palco, a atmosfera mais visceral dos shows e as referências mais sujas. Algo que o disco gravado talvez não traduza tanto mas que no ao vivo tudo se transforma. Muito disso se deve aos seus parceiros de palco, Gael Sonkin, Thales Castanheira, Vitor Wutzki, Bianca Godói, Yann Dardenne e Danileira, que amplificam toda essa energia e deixam com que ele se torne uma espécie de Iggy Pop contemporâneo quando sobe no tablado.

Em Bala de Banana (Seloki Records), o descontrole mental coexiste entre a vontade de viver intensamente, a rotina de noites mal dormidas e o caos da maior metrópole da América do Sul. Entre a vontade de largar tudo e de abrir caminhos possíveis para coexistir. O material foi produzido por Chuck Hipolitho (Forgotten Boys) o que ajuda a explicar muita coisa, do equilíbrio de referência de rock e pop, território com o qual ambos possuem bastante afinidade.

Entre ironia, videogame e guitarras distorcidas

Espaço para experimentos não faltam, “GOIXTO”, uma canção de amor que poderia ser trilha de videogame, experimenta esse lado mais pautado pela bateria eletrônica oitentista e baixo sendo protagonista. “PUROJOGODURO” também tem essa atmosfera como se os Ramones encontrassem os Strokes, e juntos, tentassem fazer uma música em 8-Bits.

A ironia de “Perdi o Controle” brinca com clichês da música pop misturando na panela de pressão guitarras mais secas, efeitos de pedais que deixam tudo derretido, sintetizadores pulsantes embalados por uma letra que podia estar no disco Televisão (1985), dos Titãs.

Essa atmosfera que lembra os novaiorquinos do The Drums e Surf Curse, aparece na debochada “Quase Que Me Atraso de Novo” que cita uma rotina embalada pela noite de São Paulo citando até mesmo o Mamãe Bar, localizado na zona oeste de São Paulo. O fato de as músicas serem curtas ajuda a captar um pouco do espírito libertino e de naturalmente não se levar tão a sério que dá toda a graça para o projeto. Algo que consagrou nomes como Jay Reatard (1980-2010).

“A Mais Gata Dessa Festa” é a prova de como, o juvenil, o trivial e a quebra de personagem deixa tudo interessante, algo que evoca o espírito mais tolo do punk rock bubblegum. “Pó Poeira”, com a atmosfera do Radio Birdman, com a vitalidade dos Stooges, e o lado desordeiro do King Gizzard & The Lizard Wizard, fecha o disco com uma crítica ao momento da vida que vemos nossa roda de amigos se desenvolvendo e cada um acompanhando a vida do outro apenas pelas telas dos celulares. Uma autocrítica de quem estende a farra das noites em claro com um lifestyle autodestrutivo.

Bala de Banana e o adocicar do rock

No fim das contas, Bala de Banana é menos sobre perder o controle e mais sobre aceitar o caos que sempre esteve ali. Entre guitarras distorcidas, humor autodepreciativo e pequenas tragédias urbanas, Ottopapi transforma crises cotidianas em combustível para um rock que continua vivo justamente porque nunca deixou de ser imperfeito.


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