“Ferro e Fogo”: Siso comenta faixa a faixa do novo álbum com participações de Tiê e Luiza Brina
Ferro e Fogo, quarto álbum do músico mineiro, passeia pela oralidade, diversidade de ritmos e brasis
No dia 04/03, o músico mineiro Siso, radicado em São Paulo, lançou seu quarto álbum de estúdio, Ferro e Fogo. O novo trabalho apresenta um mergulho em temas como ancestralidade, religiosidade, transformação e identidade, que atravessam as composições e ajudam a conduzir o conceito do disco. A própria trajetória do artista aparece como eixo narrativo do projeto, que parte de um processo de pesquisa musical e de reinvenção estética.
Entre as colaborações e participações especiais estão nomes como Tiê, Luiza Brina, Alejandra Luciani, Virgo Virgo, Felipe Neiva, Brina Costa e Paulo Mutti, da Bumbum Astral. Ao longo do álbum, Siso transita entre o indie rock e diferentes vertentes da música brasileira, incorporando também ritmos como afrosamba, embolada e baião. O material tem co-direção artística de João Abtibol.
Essas influências ajudam a construir a sonoridade de Ferro e Fogo, que dialoga com memórias familiares e referências culturais ligadas a estados como Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais. O resultado é um disco que conecta tradição e contemporaneidade enquanto revisita histórias, afetos e experiências que marcam a trajetória do artista.
A capa do disco é um caso à parte e veio justamente de um sonho em que duas figuras humanas rabiscadas, quase como pinturas rupestres, eram cercadas por símbolos enigmáticos. Isso reforça a natureza mística, a narrativa espiritual e o esoterismo presentes ao longo da concepção do disco.

Nossa Audição
Entre percussões rebuscadas, sintetizadores, referências que cruzam gêneros musicais e uma procura por equilíbrio, a paz na voz de Siso guia a sua narrativa na maior parte da audição. As descobertas e a oralidade das histórias de seus antepassados se somam às suas vivências e ressignificam a noção de espaço e tempo, entre o possível, o sentimento, o intangível e o imaterial. São esses aprendizados, entre contatos com o íntimo e com a espiritualidade, que fazem com que o disco ressoe como um reencontro com a sua verdadeira essência.
No trabalho, a natureza eletrônica se choca com a tradição do analógico. No retrovisor vive o passado, enquanto à frente surge um futuro em forma de vórtice., como já diriam Os Replicantes, “O futuro é vórtex”. Essa dicotomia quase contraditória tem tudo a ver com a necessidade de desacelerar e voltar para si dos nossos tempos. Cinema e literatura também fazem parte das influências diretas e indiretas do trabalho, entre as inspirações de um disco que carrega em seus versos uma pluralidade de imagens e significações.
O campo do astral e do místico não se restringe a religião e também olha para os astros, seja na astrologia quanto na astrocartografia, que analisa o mapa para correlacionar possibilidades de acontecimentos, e essa vida de andarilho do músico acaba ganhando novas possibilidades de interpretação e transformação em faixas caústicas como “Linha de Plutão” que tem uma natureza eletro punk. Já a faixa título, “Ferro e Fogo” vai pelo caminho do baião, te pega pelo braço e te chama para a dança da vida.
FAIXA A FAIXA | Siso, “Ferro e Fogo”
Siso preparou com exclusividade para o Hits Perdidos um faixa a faixa com mais detalhes por trás da produção de cada música presente em Ferro e Fogo.
A PALAVRA FURACÃO
“Essa foi a canção-semente do projeto e surgiu em 2021. É uma das poucas do projeto em que a melodia veio primeiro e depois chegaram os versos e acordes. A primeira versão da letra era “Atraque”, que também está no álbum, mas o lado confrontador dos versos originais fez com que também quisesse experimentar uma outra abordagem para a canção. Daí surgiu essa letra um tanto misteriosa sobre como a palavra materializa mundos e pode definir eventos construtivos e destrutivos, dependendo dos contextos de quem a profere e de quem escuta. É o verbo que organiza o caos, que define lei e crime, bênção e maldição.
A produção dela passou por diferentes experimentos ao longo do tempo. Levantei versões iniciais com o Hyglu, duo formado por Christopher Mathi e Stanley Gilman, e também com Christopher sozinho, que é parceiro desde o meu primeiro EP. Esses experimentos acabaram ficando pelo caminho porque demorei até sentir pra onde deveria ir a sonoridade tanto dela quanto do álbum que ainda iria se materializar.
O processo de maturação
Foi um longo tempo de maturação. Nesse meio-tempo produzi o álbum “Vestígios”, que lancei em 2022 contendo apenas releituras de canções do underground brasileiro dos anos 2000 e 2010. Até que aconteceu uma erupção criativa no fim de 2024, depois de várias experiências espirituais e lembranças de histórias de família.
Todas as outras canções do álbum surgiram ao longo de um mês, quase sempre a letra vindo primeiro. Quando entendi o todo do trabalho e parti para a produção musical por conta própria, também num processo super rápido – todos os instrumentais foram feitos em uma semana e quase todas as vozes gravadas em dois dias -, montei essa versão minimalista de “A Palavra Furacão”, com o synth arpegiado dando o chão da canção na nota fundamental e tudo movendo em torno dele, com pianos, órgãos, percussões e coros dando essa sensação simultânea de estranheza e familiaridade.”
QUEBRA-MUNDO
“Luiza Brina e eu somos de Belo Horizonte, mas nosso contato só se aprofundou depois que viemos para São Paulo. Nos últimos anos falávamos em compor coisas juntos, então, nesse surto criativo que tive no fim de 2024, fiz a letra de “Quebra-Mundo” e mandei pra ela. Luiza me retornou com a melodia e a harmonia dos versos (“quando tudo se abala…”), daí nos juntamos presencialmente pra terminar a canção. Luiza trouxe vários acordes bonitos e complexos para a composição, enriquecendo-a de maneira absurda enquanto construíamos juntos as outras melodias.
“Quebra-Mundo” traz um tema recorrente na minha obra, que é o reconhecimento de uma oportunidade de reconstrução num momento de percebida destruição. Quando as expectativas e as premissas prévias se quebram, o que é realmente importante se revela de maneira muito límpida, permitindo que tudo o que é falso e acessório seja descartado em prol de uma energia nova, ainda que com alguma trepidação. Com isso, quis também trazer para o arranjo algo que refletisse essa sensação de desorientação, principalmente a partir da seção rítmica, e também dessa espécie de clareza, com o órgão e as camadas vocais gravadas por mim e Kika, que participa dos backing vocals ao longo de quase todo o álbum.
Essa canção também ganhou um videoclipe todo em P&B, gravado no centro do Rio de Janeiro, com direção de Tatyana Schardong. A ideia era explorar visualmente o simbolismo de instabilidade e transitoriedade que a canção evoca, com cortes rápidos e cenas muito contrastantes. Acabamos mostrando um lado quase Gotham City da cidade, de uma maneira bem diferente de como o Rio geralmente é retratado, tangenciando também muitas camadas de história dos lugares por quais passamos. Pareceu uma moldura visual adequada para a faixa para a gente.”
O TOMBO
“Essa canção surgiu da junção de ideias dispersas que pairavam havia algum tempo, quase no fim do processo de composição do álbum. Eu tinha guardado por vários meses dois fragmentos de música que gostava muito, mas demorei até perceber que poderiam integrar a mesma canção. Além disso, tinha a vontade de uma letra sobre uma história familiar específica, e me pareceu a oportunidade adequada.
Não gosto muito de direcionar o entendimento de quem ouve, mas só relatando a inspiração original, para fins de contexto: Evaristo, personagem de “O Tombo”, é meu avô materno, já falecido há muitos anos, e a canção reconta um episódio da juventude dele, em que sofreu um tombo que o fez perder a memória por sete anos, recobrando-a também de maneira acidental. Há outras histórias familiares embutidas de maneira menos direta nesta letra e em mais letras ao longo do álbum, mas penso que “O Tombo” pode ser uma alegoria de resiliência diante de qualquer desorientação, desacerto ou infortúnio na vida, e o fato de poder contar essa e outras histórias em música é também um exercício de perpetuar existências.
É uma coincidência interessante que o nome “Evaristo” significa algo como “perfeito”, e o que é perfeito também pode cair. E “Evaristo” é um nome masculino que contém Eva, o que já leva para uma ideia de pecado capital e queda (ou tombo) do paraíso, e a coisa toda vai ganhando outras camadas.”
UM CORPO QUE CAI
“Como a maior parte do álbum, essa canção surgiu a partir da letra. O título é uma referência óbvia ao clássico do cinema, mas o poema ao qual ele se atrelou era mais sobre o corpo que ganha vida numa experiência de êxtase, seja espiritual ou por meio da dança, do sexo ou de qualquer outra coisa, e descobre nesse momento que há mais camadas e possibilidades de expressão e existência.
Coloquei esse poema na mão de Felipe Neiva, musicista carioca com base em Portugal, que transformou o material numa cumbia, para minha surpresa. A produção acabou levando-a para uma sonoridade misturando a música popular do Pará com a de Cuba, o que acabou encaixando melhor no universo que se construiu com as demais canções.”
LINHA DE PLUTÃO
“Uma escritora estadunidense que gosto muito, Joan Didion, pondera em alguns de seus textos mais conhecidos que os temperamentos e escolhas das pessoas são muito influenciados pela geografia de onde cresceram. Dentro da minha cabeça, isso tem alguma conexão com a teoria da astrocartografia, que postula que há uma influência entre o lugar em que se vive (ou para o qual se muda, ou viaja) e a natureza das experiências com as quais a pessoa se depara, considerando seu mapa astrológico natal. Haveria linhas energéticas no mundo e em cada cidade que definem lugares “melhores” e “piores” para cada um de acordo com o céu de seu nascimento – ou pelo menos mais fáceis e mais desafiadores, dependendo das influências dos planetas e aspectos.
O mapa astrocartográfico do Siso
Analisando o meu próprio mapa na astrocartografia, notei que muitos dos lugares em que morei tinham alguma influência direta da energia de Plutão, que é um planeta cujo arquétipo é o da transformação profunda, da morte e do renascimento, da destruição e da regeneração. Esses são assuntos muito presentes na minha vida desde o início, então quis criar uma letra que formasse quase que um corolário dessa premissa, mas de uma maneira expurgatória. Compilei na mente uma espécie de jornada de injustiças, condicionamentos errados e pequenos desastres da infância até aquele momento, mas dando espaço gradualmente a uma instância de libertação do lado ruim dessa energia, num registro “reconhece a queda e não desanima”.
A parte musical chegou até mim em um sonho. Acordei de madrugada, solfejei a melodia no celular e voltei a dormir. Escutei o áudio no dia seguinte e notei que era uma embolada, só com dois acordes. Lembrei dessa ideia de letra, que renderia um longo relato, e logo a canção tomou forma. No momento da produção, essa embolada também se revelou como algo de pegada rockabilly/punk/krautrock na segunda parte, o que foi uma grande surpresa, mas que me pareceu muito condizente com a intensidade descrita na canção.”
LÍNGUA-FERA
“Essa canção surgiu de um poema sobre sentir atração e uma espécie de repulsa ao mesmo tempo por alguém, e sobre como essas situações geram um cabo-de-guerra entre instinto e razão, e podem demandar certas decisões para que não se caia na famosa cilada. Um lugar de contradição emocional que não é estranho a uma boa parte das pessoas, mas é uma posição trepidante, difícil de descrever, muitas vezes.
Mandei esse poema como uma ideia de letra pra Brina Costa e Paulo Mutti, que formam o duo Bumbum Astral. E eles me devolveram em questão de minutos essa canção, tensionando todos esses lugares da letra também musicalmente. Na produção, acabaram emergindo instintivamente elementos do soul e do hip-hop dos anos 1980 e 1990. Alejandra Luciani, musicista à frente do Carabobina e engenheira de áudio de todo o álbum, também faz uma participação na faixa, num dueto que surgiu a partir de experimentos no estúdio.”
SABIÁ SABIÁ
“A letra emergiu de um lugar de reconforto emocional, encorajamento e esperança, a partir de um conselho que me foi dado. Vem da necessidade de dizer e ouvir que o desalento é passageiro e que as coisas hão de encontrar seu lugar de equilíbrio e valor. Fiz a letra e enviei para Virgo Virgo, talentosa cantora e compositora carioca, que logo me devolveu com uma canção formada, quase do jeito que é, ao mesmo tempo potente e delicada, de um jeito novo tanto para mim quanto para ela.
Por essa própria característica da canção, João Abtibol, que assina comigo a direção artística do projeto, sugeriu que chamássemos Tiê para um dueto. Tiê e eu já nos conhecíamos havia alguns anos, desde que me apresentei na casa Rosa Flamingo, espaço que ela geria com André Whoong, companheiro dela e também grande músico e produtor musical. O trabalho de Tiê também já habitava meu imaginário desde 2009, quando ouvi “Sweet Jardim”, seu álbum de estreia, e fui cativado pela singeleza comovente das canções e arranjos.
A produção acabou indo por um caminho muito simples e minimalista também em função disso, com pianos, palmas e poucos elementos além das camadas de vozes. Ela se mostrou muito aberta à colaboração com o convite de João e ficamos todos felizes com o resultado. A canção também ganhou um visualizer igualmente simples e delicado, dirigido por Hernandes e Jack Bones.”
ATRAQUE
“A irmã-gêmea de “A Palavra Furacão” surge aqui como uma espécie de reprise da abertura do álbum, na qual quis que emergisse uma voz que não fosse a minha, num contexto simultaneamente solene e ameaçador. Chamei Virgo Virgo para a empreitada, que aparece na gravação de maneira dual: sua voz cheia de presença faz a melodia principal, mas também ao fundo, num tom mais sorrateiro e grave, recita a letra ao mesmo tempo. Um órgão dá a harmonia e vários efeitos etéreos complementam o clima por sugestão de Alejandra.”
FERRO E FOGO
“Essa também foi uma das últimas canções a serem compostas para o projeto. O título do álbum já havia sido definido antes de a canção existir. Um pedaço de letra e melodia emergiu de uma conversa caseira, e então saí correndo, peguei o violão e a canção inteira se fez em cinco minutos. É uma quebra de expectativa em relação à minha discografia por ser um baião, mas quis deixá-la assim mesmo, como foi concebida, mas também sem acrescentar elementos que não fizessem parte do restante do universo do álbum.
É uma canção que enxerga a dualidade por um ângulo complementar ao de “Atraque”, num lugar confrontador, definindo limites para o outro num lugar de respeito próprio e pontuando que cada um arca com as consequências de suas ações. A canção também joga luz no gesto torpe que vem da necessidade de aprovação dos outros, mas defende que vale mais a pena mover-se pelo que realmente importa, pelo que é legítimo para cada um, e creio que isso amarra de maneira digna a história do álbum.”
SERVIÇO
Dia 25 de março, Siso sobe ao palco do auditório do Sesc Pinheiros, para o show de lançamento de Ferro e Fogo. Por lá, ele apresentará as 9 faixas inéditas do álbum. O show contará com o recurso de tradução em libras e participações especiais das cantoras Tiê e Virgo Virgo.
25/03 – Show de Lançamento do álbum Ferro e Fogo no Auditório do Sesc Pinheiros
Participações especiais: Tiê e Virgo Virgo
15 credencial plena do SESC
25 meia entrada
50 inteira
Vendas dos ingressos no portal do Sesc a partir do dia 17 de março às 17h, e presencial no dia 18 a partir das 17h em qualquer unidade do Sesc São Paulo.
Sesc Pinheiros: Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo – SP
Ingressos: https://www.sescsp.org.br/programacao/siso/
04/06 – Show de Lançamento do álbum Ferro e Fogo no Manouche no Rio de Janeiro
Ingressos à venda no Sympla em breve.
60 meia (levando 1kg de alimento não perecível todos pagam meia)
120 inteira
Manouche: Rua Jardim Botânico, 983, Jardim Botânico, Rio de Janeiro – RJ
