My Chemical Romance faz seu primeiro show no Allianz Parque. - Foto Por: Rafael Chioccarello
My Chemical Romance no Allianz Parque: Execução completa do álbum The Black Parade, cenografia imersiva e entrega emocional marcaram a noite
Na noite desta quinta (05) estivemos no Allianz Parque para acompanhar os shows do My Chemical Romance e do The Hives. Daqueles momentos que muitos dos presentes não imaginavam que pudessem acontecer, por uma série de fatores.
No caminho parei para pensar em como era o mundo 18 anos atrás. Justamente porque foi o ano da única vinda da banda de New Jersey para o Brasil. Como a maioria dos presentes, estava no momento de encerramento do ensino médio, e a explosão do que muitos rotularam como “emo” foi forte entre meus colegas alguns anos antes.
Não que fossem bem aceitos pelos outros grupos e tribos, pois música ditava muito o estilo de vida e seu círculo social naquele momento de adolescência. Ir à Galeria do Rock era ver brigas entre punks, emos, metaleiros, naquela escadaria que é praticamente um cartão postal do centro de São Paulo.
Como 2005 foi o ano da explosão do emo no Brasil, o timing do lançamento do segundo álbum de estúdio do My Chemical Romance, Three Cheers for Sweet Revenge (2004), e ter conquistado seis prêmios no VMA, que tinha uma boa repercussão no Brasil, pois era retransmitido na MTV Brasil, o que abriu portas para que suas músicas passassem dos fóruns virtuais, para as plataformas de baixar música, como Napster, Kazaa, mIRC e eMule, chegando ao impensável rádio.
O Good Charlotte talvez tenha aberto uma porta para shows emos no Brasil, tendo tocado no meio da tarde, no Claro Que É Rock, em 2005.
Talvez o auge tenha sido o Mix Festival trazer de uma só vez para o Palestra Itália (atual Allianz Parque), um line-up com Fall Out Boy, Yellowcard, Charlie Brown Jr., CPM 22 com NX Zero, e Hateen. Festivais como ABC Pro HC, e casas como Hangar 110, abraçaram uma nova cena de bandas que se diferenciava do punk e hardcore da geração anterior.
Lembro dos amigos que revendiam ingressos adquiridos na bilheteria do Hangar a preços bem mais altos porque era garantia que os shows das bandas iriam se esgotar. Muitos dizem que foi o último movimento de rock popular no Brasil. O documentário do Daniel Ferro, Do Hardcore Ao Emo (2013), explicita tudo isso.
Shows de bandas internacionais começavam a pipocar em casas como Via Funchal, Credicard Hall e Santana Hall. Lembro de assistir apresentações de bandas consideradas menores no circuito como Rufio, Yellowcard, MXPX, Millencolin, Dashboard Confessional… que não necessariamente se intitulavam dentro dessa cena, mas que compartilhavam o público.
Talvez a banda que mais tenha conseguido fincar raízes e voltar tenha sido o Simple Plan. Rádios populares, como Metropolitana, abraçavam e ajudavam com que o público crescesse. Destas mais populares, como The Used, My Chemical Romance e Simple Plan, rendiam fanfics incríveis compartilhadas em comunidades no Orkut.
Para quem não viveu essa época, talvez todas essas passagens não signifiquem muita coisa. Mas ajudam a contextualizar o que é poder ter a chance de viver um momento geracional. Visto que em 2008, muitos não puderam estar presentes nas duas noites realizadas no Via Funchal. Seja por morar longe, ser jovem demais, ou simplesmente por não ter poder aquisitivo para frequentar os shows.
Algo que festivais como When We Were Young, Warped Tour e o também organizado pela 30e, I Wanna Be Tour, conseguem proporcionar para estes fãs millennials. 18 anos depois tudo se renovou. Muitos daqueles meninos e meninas, já têm filhos, já têm melhores condições, e quando sabem que tem a oportunidade de realizar um sonho de infância, abraçam sem pensar duas vezes.
Particularmente eu estive em um limbo nesse período. Pois minhas referências musicais eram de amigos mais velhos, que me apresentavam punk, hardcore, ska, garage rock, indie rock, noise rock, metal, entre outras referências. Mas as trocas com amigos, eram interessantes, de conhecer bandas de post-hardcore, de ouvir rap, nu metal, screamo, grindcore, além de pesquisar no PureVolume, e outras plataformas extintas. Passar a tarde no last.fm para stalkear bandas relacionadas era um prato cheio.
Fato é que o The Hives, ao longo de todos esses anos eu pude frequentar shows nas mais diferentes fases. E sempre foi aquele show que eu chegava para os amigos e falava: assiste uma vez que você vai virar fã. Já tendo sido eleito um dos 50 frontmen de todos os tempos, Pelle Almqvist, é daqueles personagens carismáticos que muitas vezes chega próximo de passar do ponto.
No show no Allianz Parque, o set foi reduzido a 45 minutos. Tendo recente passagem pelo Brasil, eles optaram por divulgar o álbum mais recente, The Hives Forever The Hives (2025), optando por reservar timidamente alguns hits para a apresentação. O som do microfone do vocalista parecia não estar tão ajustado e ele compensou tendo treinado previamente uma série de palavras em português e ótimo humor.
Observando o comportamento do público, pude notar alguns comentando que tinham gostado justamente do carisma dele. Ele até em certo momento exibindo o peito falou que era gostoso e o público entrava na brincadeira e repetia. Foram diversas idas e vindas do palco em direção à pista premium e seus roadies, vestidos de ninjas, corriam para esticar o fio do microfone para não prejudicar o alcance.
Exatos 37 minutos após o fim do show do The Hives, o Allianz Parque mergulhava em outro clima. Às 20h52, subia no palco o corpo de atores que acompanha o show para lá de narrativo do My Chemical Romance. Levando a história do hospital para o palco, a primeira parte do show é marcada pela execução do álbum The Black Parade, que neste ano completa no dia 20 de outubro os 20 anos de seu lançamento.
A turnê comemorativa inspirou muitos dos presentes a adentrar mais a fundo no universo do disco. Era possível ver desde crianças trajadas como pequenos Gerard Ways nos videoclipes que compõem o disco, assim como fantasias de enfermeiras zumbis, uniformes de exército, entre outras vestimentas específicas.
Foi aí que caiu a ficha de que estava vivendo um momento geracional. Algo que os fãs brasileiros puderam viver naquele último show do Linkin Park no Brasil antes da morte do Chester. Ou naquele último show do Sonic Youth no SWU. Daqueles que você sente que não é apenas mais um show, mas um filme de um pedaço significativo das suas memórias da juventude passando pela cabeça.
Não é sobre você amar uma banda ou não, é algo maior do que isso. É uma questão de que aquelas músicas trazem consigo passagens, das boas às ruins, é bem verdade, mas que te levam para um lugar específico. É um momento de olhar para o lado e pensar: a gente tava lá. E agora estamos juntos aqui, ressignificando aquelas memórias, mais velhos, em outra fase da vida.
O desenho do palco para The Black Parade é daqueles pensados nos mínimos detalhes. Do telão que passa vídeos com uma língua toda esquisita e vídeos de um ditador dando ordens, passando pela narrativa do hospital onde as enfermeiras, médicos e pacientes atuam de forma bem executada. Além do adendo de violinos, violoncelo e até mesmo a presença da cantora de ópera Charlotte Kelso que interpreta a “enfermeria Sylvia” em “Mama” que tem uma ponte com “Dagger”.
Com uma proposta opera rock, o disco foi pensado para ser atemporal, como os próprios integrantes afirmam. Além disso, a experiência traumática em uma mansão alugada mal-assombrada durante os dois meses de imersão no disco rendeu um bom conteúdo para as letras presentes. O baixista chegou a pirar e largar o processo, com o produtor do disco tendo que finalizar suas linhas em estúdio. E Gerard escreveu a letra de “Sleep” enquanto tinha pesadelos que estava sendo amordaçado. O vocalista escrevia ideias das músicas nas paredes e era constantemente aterrorizado por entidades.
Na mão de um bom compositor, enfrentar esses fantasmas por si rendeu um disco que ultrapassou a barreira de um disco de post-hardcore. Elementos de outros estilos, como hard rock, se juntavam às referências presentes na discografia, e elevaram a experiência do álbum que se tornou ímpar na discografia.
Elementos como fogo no palco, mesa de cirurgia com apunhaladas, cena de crime sendo pintada no chão, epifanias e outros adendos, deixam a história que se confunde e entrelaça com as canções do clássico, ainda mais tangíveis. É tudo tão sombrio que a banda se reserva no direito de não conversar com o público durante a atuação, deixando isso para a segunda parte do show, onde mistura hits a raridades.
A respeito da escolha do The Hives para abrir a apresentação, o frontman revela que era um sonho antigo e que era um prazer “dividir a noite com a melhor banda de rock n roll do planeta”.
A primeira noite de show ainda contou com “The World Is Ugly”, sendo tocada pela primeira vez na turnê. “Thank You for the Venom”, que mesmo sendo do The Black Parade, acaba entrando em uma versão estendida já na parte final. Uma homenagem a Gabriel Bá, brasileiro ilustrador de The Umbrella Academy, acontece em “Cemetery Drive”, também tocada pela primeira vez na turnê.
Hits da época da MTV, como “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)”, “I’m Not Okay (I Promise)” e “Helena”, claro, não iam ficar de fora. Surpresas como “Skylines and Turnstiles” e “Headfirst for Halos”, carinhosamente chamada de hardcore pelo já entregue vocalista, enriqueceram o set que buscou agradar os fãs mais antigos.
De hit radiofônico em si, “Ghost Of You” acabou ficando de fora. Já nas últimas 6 músicas, ao conversar com o público, o desgaste na voz era notável, o que deixa na dúvida se o show da sexta será tão bem executado quanto foi o de quinta.
Entregaram exatas 2 horas e 11 minutos de show.
Não há do que reclamar, apenas agradecer e abraçar todos os que puderam viver juntos este momento.
The End.
Dead!
This Is How I Disappear
The Sharpest Lives (com introdução de “The Eye”)
Welcome to the Black Parade
I Don’t Love You
House of Wolves
Cancer
Mama (com a cantora de ópera Charlotte Kelso com “Enfermeira Sylvia”; e a ponte estendida de “Dagger”)
Sleep (com a introdução de “The Big Sky”)
Teenagers
Disenchanted
Famous Last Words (com a reprise de “Welcome to the Black Parade”)
The End. (reprise; piano e violino)
Blood
Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)
Skylines and Turnstiles
Heaven Help Us
The World Is Ugly (tour debut)
Hang ‘Em High
I’m Not Okay (I Promise)
Thank You for the Venom (versão alternativa estendida)
Cemetery Drive (tour debut)
Headfirst for Halos
Helena
This post was published on 6 de fevereiro de 2026 4:29 am
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