White Lies fala sobre Night Light, influências dos anos 70 e lembranças inesquecíveis do Brasil
Em novembro, o White Lies lançou seu sétimo álbum de estúdio, Night Light, pelo selo Play It Again Sam. Formado por Harry McVeigh, Charles Cave e Jack Lawrence-Brown, o trio britânico segue aprofundando uma sonoridade que nasce do revival do post-punk, mas conversa diretamente com a força do indie rock dos anos 2000. Não à toa, algumas faixas do disco rapidamente encontraram eco por aqui.
O trabalho marca o primeiro lançamento da banda desde 2022 e chega como mais um capítulo de uma relação já conhecida com o público brasileiro. Ao longo dos anos, o White Lies passou pelo país em diferentes ocasiões, incluindo apresentações em formatos pouco convencionais, como um show em hotel, além de uma passagem pelo histórico festival Planeta Terra.
Em Night Light, o grupo amplia seu leque de referências e permite que novas influências entrem em cena. Funk, disco, camadas de sintetizadores e até elementos de rock progressivo ajudam a moldar um disco que olha tanto para o passado quanto para o presente, com referências que passam por nomes como Steve Hillage e outros artistas fundamentais da música.
Para Night Light, o White Lies adotou um método inédito: testar e dominar as músicas ao vivo antes de registrá-las em estúdio. Inspirados pelo programa de TV dos anos 1970 The Midnight Special, o trio ensaiou e refinou as faixas em conjunto, invertendo o processo tradicional de só descobrir a essência das músicas após as apresentações.
Grande parte do álbum foi escrita no apartamento de McVeigh em Londres, priorizando a simplicidade e a química entre os integrantes. Para as sessões de gravação, o tecladista Seth Evans foi convidado não apenas como apoio, mas como colaborador criativo.
Conversamos com o vocalista Harry McVeigh, que relembrou com carinho as visitas ao Brasil. Entre as memórias, surgem não apenas os shows, mas também detalhes inesperados, como o café da manhã marcante do hotel onde a banda se apresentou em sua primeira vinda ao país.

Entrevista: Harry McVeigh (White Lies)
White Lies acaba de lançar o sétimo álbum, Night Light. Como tem sido a recepção até agora?
Harry McVeigh: “Acho que tem sido ótima. Estamos muito felizes de finalmente colocar o álbum no mundo. A gente conviveu com ele por bastante tempo — começamos a trabalhar nas músicas no começo do ano passado, em 2024 — então é muito bom finalmente lançá-lo e ver como as pessoas estão reagindo.
Fizemos alguns shows na semana de lançamento no Reino Unido, apresentações pequenas em lojas de discos, e esse é sempre meu teste favorito para um disco novo: ver como as músicas funcionam ao vivo, como elas soam diante do público. E a sensação foi muito boa. Isso me deixa bastante confiante em relação ao álbum.”
Na produção, vocês levaram mais tempo para preparar as músicas como banda antes de gravar, pensando já na execução ao vivo. Como foi esse processo em comparação com os outros discos?
Harry McVeigh: “Foi ótimo, e fico muito feliz que tenhamos feito dessa forma. É algo que eu pensava há muito tempo, mas talvez antes a gente não tivesse a confiança necessária.
Hoje sinto que somos músicos melhores do que éramos antes — parece estranho dizer isso, mas é verdade. Temos mais confiança, ficamos mais à vontade para tentar coisas novas e nos desafiar musicalmente.
Nos discos anteriores, eu sempre sentia que, depois de ensaiar bastante para tocar as músicas ao vivo, elas soavam muito melhor. Então pensamos: por que não fazer esse processo antes de gravar o álbum, em vez de depois?
Desde o início já queríamos registrar as músicas tocando juntos no estúdio, ao vivo, pelo menos a base — guitarra, baixo, bateria, teclados. Gravar uma tomada de cada faixa assim, e depois construir em cima disso.
Acho que dá pra ouvir isso no disco. As músicas têm muito mais dinâmica: dá pra sentir claramente os momentos altos e baixos, os trechos grandes e os mais íntimos.”
Eu percebo isso claramente, e também gostei muito da escala dos refrões. São refrões grandes, que lembram algo do rock de arena dos anos 70. Quais foram as referências para esse álbum?
Harry McVeigh: “Foram muitas coisas diferentes, e acho que em cada entrevista eu acabo falando algo diferente. Mas, dessa vez, vou dizer Todd Rundgren.
Falamos bastante sobre o programa The Midnight Special nos releases, e isso realmente foi uma referência: o que a gente ouvia e assistia enquanto escrevia o álbum. Ver aquelas performances icônicas dos anos 70, bandas tocando ao vivo, totalmente entrosadas, conhecendo as músicas de dentro pra fora.
O Todd Rundgren é incrível no Midnight Special. As performances dele nos anos 70 são absurdamente boas. Ele é um compositor extraordinário, e a fase inicial da carreira dele, inclusive com o Utopia, tem músicas lindíssimas, um pop muito bem escrito. Além disso, tem Steely Dan, Steve Hillage, muito prog rock, Yes, King Crimson… um pouco de tudo.”
Vocês tocaram alguns shows mais íntimos e agora estão se preparando para uma turnê maior em 2026. O que podemos esperar dos setlists?
Harry McVeigh: “Para esses shows recentes, aprendemos praticamente o álbum inteiro. Tocamos cerca de sete músicas nessas apresentações, mas temos todas as faixas prontas. Acho que, em algum momento da turnê, todas vão aparecer no setlist.
Eu adoraria tocar o álbum inteiro — acho que ele funciona muito bem ao vivo —, mas também sabemos que os fãs têm músicas favoritas de diferentes fases da banda. Então tentamos equilibrar: tocar coisas novas, mas também aquilo que as pessoas querem ouvir. No fim das contas, queremos fazer o show mais empolgante possível. Isso deixa o público feliz, e isso também nos deixa felizes.”
A primeira vez que vocês vieram ao Brasil foi em 2010, para um show intimista em um hotel. Você se lembra disso?
Harry McVeigh: “Lembro muito bem. É até uma pena, porque eu gostaria que tivéssemos tocado para mais pessoas, mas foi uma experiência incrível. A gente adoraria voltar ao Brasil, já faz muito tempo.
Se surgir a oportunidade certa, vamos com certeza. É complicado porque custa muito caro levar toda a equipe, e não somos a maior banda do mundo, então às vezes é difícil viabilizar. Mas estamos sempre pensando nisso, e na primeira chance que tivermos, vamos voltar.
Lembro que éramos muito jovens, viajando por lugares incríveis, e o Brasil foi um deles. Ficamos num hotel maravilhoso, comemos uma refeição de domingo incrível — uma das melhores da minha vida. O clima, a luz, tudo era muito especial, quase tropical. Foi inesquecível.”
Vocês fazem parte de uma geração de artistas britânicos como Bombay Bicycle Club, Florence + The Machine, The Wombats… Como você enxerga a longevidade dessa cena?
Harry McVeigh: “É interessante, porque na época você nunca sabe quem vai durar. Algumas bandas somem, outras permanecem. Me sinto muito grato por ainda estarmos aqui, e pelas pessoas ainda terem carinho por aquela era da música. Todas essas bandas são ótimas à sua maneira. Eu amo Bombay Bicycle Club, Mystery Jets, Jamie T, Bloc Party, Interpol, The Strokes… tantas bandas grandes daquela época.
Acho que chegamos meio no final dessa geração. Hoje parece que mais pessoas fazem música sozinhas; ter uma banda ficou mais difícil. Mas é legal saber que conseguimos resistir um pouco mais.
Fazendo jus ao nome do site, gostaríamos de saber: existe alguma banda daquela época que você acha que não recebeu o reconhecimento que merecia? Um hit perdido, por assim dizer?
Harry McVeigh: “Mystery Jets, com certeza. Eles são conhecidos, mas poderiam ter sido ainda maiores. Têm composições incríveis, refrães excelentes, músicas muito interessantes.
Outra é Maxïmo Park. Eles eram gigantes na época, do tamanho de bandas como The Strokes. Recentemente eu e os outros caras do White Lies voltamos a ouvir bastante coisa deles, e é impressionante como a música continua ótima.
Jamie T também é alguém que eu admiro muito. Ele é grande, mas ainda passa despercebido. Acho que ele escreve algumas das melhores músicas pop do Reino Unido, e admiro o fato de ele só lançar discos quando realmente quer.”
E artistas mais novos? Algum que tenha chamado sua atenção recentemente?
Harry McVeigh: “Muita coisa. Todo mundo está falando desse disco novo do Geese, e eu realmente acho excelente. Eles têm algo especial, tocam muito bem juntos, como aquelas bandas dos anos 70, quase como se fossem um único instrumento. Vi o From the Basement deles e achei incrível.
Também gostei muito da colaboração do John Cale com a Charli XCX — é maluca, mas ótima. Gosto quando artistas tentam fazer algo realmente diferente e marcante. E também adorei o álbum novo da Rosalía. Ela está claramente expandindo limites, assumindo riscos grandes, e isso é muito empolgante.”
