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O Atlântico Negro (Capítulo 4): a conexão afro diaspórica entre os Racionais MC’S, Isaac Hayes e o Portishead

O Atlântico Negro (de Capítulo 4): a conexão afro diaspórica entre os Racionais MC’S, Isaac Hayes e o Portishead

Atlântico Negro é uma série de edições em imagem e vídeo onde eu DJ Will da Leste conto de maneira livre a relação entre musicalidades africanas e afro diaspóricas e o mundo pop ou underground.


Racionais Mc’sFoto: Arquivo/Divulgação

Nesse quarto capítulo mostro de que modo opera as práticas artísticas do Atlântico Negro e como uma mesma música pode unir artistas de distintos contextos e gêneros musicais.

Há muitos anos pude acompanhar uma oficina sobre música com KL Jay no Memorial da América Latina e do que lembro de suas palavras ele disse que quem deseja ser do rap deve escutar rap, mas, também deve escutar funk, samba, punk (…). Hoje consigo compreender que ele executou as palavras que proferiu, ele foi um membro do “Atlântico Negro”.



Para Paul Gilroy em “O Atlântico Negro” a cultura ocidental e negra do Ocidente é por característica internacional e múltipla. Em outros termos não há cultura nacional porque ela é composta por práticas que ultrapassam fronteiras. É pelo prática dos usos de múltiplas referências e símbolos que a música “Jorge da Capadócia” é um exemplo do Atlântico Negro



“Jorge da Capadócia” é a primeira faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno (Selo Cosa Nostra, 1997) esse álbum é um dos primeiros que iniciam a série de referencias a textos bíblicos tal como a capa do trabalho, embora ele apresenta, também, alusões a cultura afro dos terreiros como nos trabalhos anteriores.



A base musical (sample), porém foi retirada da canção “Medley: Ike’s Rap II / Help Me Love” de Isaac Hayes presente no álbum Black Moses de 1971 lançado pela gravadora especializada em Soul Music Stax e o selo Enterprise. É considerado pela crítica como um trabalho intimista e melancólico.

“Black Moses” de Isaac é uma obra exemplar do Atlântico Negro pois nele há versões de outras sonoridades inclusive de artistas não negros como The Carpenters e Afro Americanos como The Jackson Five.



Outra banda que fez o mesmo que Isaac e KL Jay (inclusive tendo sido contemporânea deste) foi o grupo britânico de Trip Hop a Portishead na canção “Glory Box” que integra o álbum Dummy de 1994 pela Go! Beat Records. O “Trip Hop” é uma espécie de evolução nos anos 1990 da cultura do Rap – pois tal como essa prática do Atlântico Negro – onde as canções são criadas a partir de samples do Funk, Acid Jazz, Dub, Progressive Rock mesclando com instrumentos comum em bandas de rock, porém, as canções são desaceleradas (downtempo).

Sabia dessa história de conexão afro diaspórica entre os Racionais MC’S, Isaac Hayes e o Portishead, através da canção Medley: Ike’s Rap II / Help Me Love? Esse foi o capítulo “Atlântico Negro”.

This post was published on 2 de março de 2023 10:11 am

Willians Santos

Willians Santos é doutorando em ciências sociais pela Unicamp, professor da rede pública do Estado de São Paulo, ator e curador musical do projeto "Conexão Jamaifrica" (musicalidades africanas, diáspora, jamaicana e northern soul), também, integra a equipe do "Fronteiras Cruzadas" e o projeto "Conexão Diáspora: arte e política sem fronteiras". Possui publicações em mídia nacional e internacional sobre os temas da diáspora africana, imigração, refúgio, anti racismo e direitos humanos, e música.

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