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Valentin lança “A Cidade” e conta com exclusividade os bastidores de suas turnês pelo país

O músico gaúcho Érico Junqueira, mais conhecido como Valentin, lançou recentemente seu quarto álbum de estúdio, A Cidade, com diversas participações especiais, em um disco de MPB. O material é uma grande compilação de histórias e personagens que desenvolvidos em histórias em que o músico viveu durante turnês pelo Brasil e sucede os discos Eu, Valentin (2010), Salvem o Relógio da Torre (2011) e Em Frente (2012). Entre o último álbum e 2022, o artista disponibilizou uma série de singles e EPs.

O título, segundo o próprio músico, veio da observação de processos como gentrificação, especulação imobiliária, meritocracia, o racismo, a misoginia, a competição e o fascismo, mazelas nunca resolvidas da nossa colonização que se atravessam, se misturam, se reproduzem.

“‘A Cidade’ inicialmente não foi pensado como um conceito fechado. As músicas que fazem parte desse disco foram escritas num amplo período de tempo que se estende de 2013 até 2019 e refletem alguns momentos vivenciados coletivamente no país mas que reverberam individualmente, intimamente até. Como em qualquer momento de turbulência que revolve o lodo do fundo e joga ele de volta pra superfície, esse período trouxe à tona uma série de questões sociais e políticas com as quais nunca tínhamos sido confrontados, questões que na verdade foram invisibilizadas ou ignoradas ao longo de vários séculos”, resume Érico.

O disco ainda reúne participações especiais do mineiro Jair Naves, em “Lobo”, da gaúcha Amanda Gabana, em “Agora eu preciso pagar contas”, e a candanga Ingrid Wimmer, em ““Os dias vão bastar”. O novo registro está sendo lançado coletivo de criação musical OCorreLab.

Érico Junqueira participa cantando e assina o violão e a percussão; em sua companhia tem Leonardo Braga (guitarra, baixo, sintetizadores e piano) e Nicolly Demeneghe, na bateria. Já Rocio Judit Carmona toca o tambor piano e Gabriel Castro toca o pandeiro em “Enquanto eu me ajoelho”.


Valentin lança seu quarto álbum de estúdio, “A Cidade” e conta relatos sobre suas turnês pelo país. – Foto Por: Thamires Seus

As Aventuras pelo Brasil

Valentin passou a viajar com mais frequência, apostando em apresentações na rua, em praças e parques, encorajado por Teco Martins (vocalista da banda Rancore) – artista que fez mais de mil shows dessa forma, do Oiapoque ao Chuí. A circulação por cidades de diferentes regiões do país influenciou diretamente nos assuntos abordados nas canções. Até por isso o lado antropológico acabou sendo naturalmente incorporado ao processo de concepção do material.

“Experimentar outras dinâmicas de comportamento e realidade, outros fluxos de atividades, o ar de outras capitais, o ar de cidades do interior, mas principalmente o contato com as pessoas desses lugares, as suas vivências e particularidades. O contraste das suas impressões com as minhas sobre o que acontecia no país tornava evidentes algumas coisas das quais eu somente desconfiava, ou colocava em questão contradições profundas que estavam confortavelmente adormecidas dentro de mim embaixo de um cobertor quentinho”, recorda o músico. 

Sob todo esse contexto convidamos Valentin para contar mais sobre as andanças pelo país e como isso o afetou, como uma forma de estimular que outros artistas percorram este caminho. Confira abaixo alguns relatos do músico.


Valentin durante apresentação na Concha Acústica em Santa Maria (RS) – Foto: Acervo Pessoal

Valentin sobre as andanças pelo país

“Em 2014 estive em uma pequena tour de 6 apresentações pelo sudeste e nordeste do país com o Teco Martins, em que viajamos de carro revezando a direção em alguns momentos. Eu já tinha feito apresentações de rua mas lembro que aquela foi uma vivência totalmente nova e em que aprendi muito em função da experiência do Teco, que já tinha um público maior e fazia esse tipo de apresentação há mais tempo e então já tinha algumas dinâmicas mais estabelecidas a respeito da logística, da organização financeira e também de merch, o que facilitou muito a minha circulação pelo país nos anos seguintes.

A partir daí era como se alguns limites de distância tivessem sido reconfigurados. Era o primeiro ano do governo Dilma, tudo era mais barato, inclusive a gasolina e as pessoas estavam mais felizes. Esse bom humor coletivo certamente também facilitou essa jornada. Lembro de conseguir passagens de avião muito baratas para cobrir trechos maiores, normalmente sudeste/nordeste/sudeste e passagens de ônibus ainda mais baratas ou aplicativos de carona pra viagens mais curtas entre uma cidade e outra nessas regiões.

Assim aconteceram algumas tours que me tiraram de casa por até 4 meses com a maioria das apresentações em praças e parques, no formato voz e violão, financiadas com o passar do chapéu e com a venda de camisetas e discos. O circuito estava pronto, me permitindo tocar mais de uma vez em cada cidade e a partir daí passar a aprofundar a relação com as pessoas e com as próprias cidades, criando relações de amizade que duram até hoje.

Em muitas vezes era possível passar mais dias em algumas cidades, dormindo na casa de amigos e amigas, e experimentar o clima de cada cidade e suas dinâmicas próprias. Tentei desenvolver o hábito de, durante a semana, fazer apresentações de rua em calçadões e calçadas, onde sabia que haviam outros e outras musicistas de rua às vezes. Claro que também o fazia como maneira de incrementar, digamos, o aporte financeiro da tour como um todo, mas isso definitivamente ampliava também a percepção sobre aquele espaço e também sobre determinadas cidades. Passeios de ônibus pelas cidades, aprender a me locomover em cada cidade e todo o ritual de deslocamento de alguma rodoviária até a casa de alguém, perguntando, entrando em contato, estabelecendo relações. Tudo isso permitiu uma espécie de reconhecimento de território, entender melhor os contrastes no comportamento entre as regiões, perceber os recortes que fazem do país o que ele é, tentando situar essas realidades também a partir de um ponto de vista histórico e sociológico.

As canções que surgem nesse período 2014/2019 retratam a experiência dessa andança e desses pontos de vista que compõem o disco “A Cidade” apesar de não terem sido pensadas como parte de uma mesma ideia e portanto como um disco. A organização a partir da ideia dessa temática aconteceu depois, tanto é que algumas outras músicas desse período foram lançadas como singles: “Sem Deuses, Sem Mestres” e “Esquecer pra sempre as horas” e o também o EP “Paseo”.”


This post was published on 16 de setembro de 2022 11:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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