Especial 20 de Novembro: Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo e a valorização da África

 Especial 20 de Novembro: Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo e a valorização da África

Gil e Jimmy Cliff em show na Fonte Nova, Salvador – Arquivo: Correio

Especial 20 de novembro. Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo e a valorização da África.
Por Willians Santos  (Projeto Conexão Jamaifrica)

Entre 1970 e 1990 do século XX no Brasil, em meio a rearticulação do Movimento Negro Unificado com sua contribuição na luta contra a ditadura militar e na elaboração da constituinte de 1988, a emergência de uma juventude inspirada pela cultura black power dos EUA, e o impacto dos processos de libertação dos países africanos lusófonos do julgo português, diversas bandas e artistas passaram a construir uma africanidade brasileira e a cantarem contra o racismo no país.

Entre os conjuntos que apostavam nos temas acima mencionados estão: Os Tincoãs com o album O Africanto dos Tincoãs (RCA, 1975), Jorge Ben Jor com as músicas “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, “Taj Mahal” e “África Brasil (Zumbi)” no álbum África Brasil (Philips Records, 1976), Gilberto Gil com as canções “Ilê Aiyê”, “Babá Alapalá” e “Balafon” no álbum Refavela (selo Phonogram, 1977), o Olodúm com as músicas “Madagascar Olodum”, “Arco Íris”, “Madagascar” e “Faraó Divindade do Egito” no álbum Egito Madagascar (selo Continental 1987) e Margareth Menezes com as canções “Planeta África Brasil” no álbum Margareth Menezes (Polygram,1988), “Ifá um canto pra Subir” do álbum Um Canto para Subir (Polygram, 1990) e a música “Elegibô” (nome de uma cidade na Nigéria), do álbum Elegibô (Polygram, 1990) – apenas para mencionar alguns.

Nessa edição especial 20 de novembro da Hits Perdidos trazemos as histórias, enredos e significados de algumas canções conhecidas da música brasileira que contribuíram para a denunciar o racismo e a valorizar a cultura africana no país.

Bora viajar no tempo e fogo nos racistas.

Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo e a valorização da África

Ylê Ayê e sua força

No ano de 1974 surgiu o bloco “afro” soteropolitano Ilê Ayê. Seu nome significa “O mundo”, “A Terra da Vida” ou “Festa do ano-novo” e está ligado à festa que sudaneses realizavam na Bahia. O bloco foi fundado por Antônio Carlos, que era ligado ao terreiro de candomblé Ilê Axé Jitolú de Mãe Ialorixá Hilda Jitolú. O gênero musical do grupo é o “Ijexá” – tradição de forte influência dos povos Iorubás -, bem como, através dos “Afoxés” (ou seja, grupos e blocos musicais que performam fora dos terreiros de candomblé) colocaram na agenda do carnaval e da música nacional temas que contavam histórias de reis e rainhas, povos e reinados do Congo, Nigéria, Camarões, Watusi, Gana, Zimbabwe, Dagons, Daomé, Ruanda e Mali.

De um modo original e em diálogo com a realidade social e política brasileira, suas letras traduziam referências, também, do movimento Black Power norte americano através, por exemplo, da música “Que bloco é esse”: “Que bloco é esse?” “Somos criolo doido \ somos bem legal \ temos cabelo duro \ somos black pau (…)”. Outra característica das músicas do Ylê Ayê era conclamar uma consciência política centrada na negritude, como é o caso da canção “Alienação”: “(…) O sistema tenta desconstruir \ Lhe afastar de suas origens \ Pra que você não possa interagir, construir \ Já passou da hora de acordar \ Assumir sua negritude é vital para prosperar, ser negro \ Ser negro não é questão de pigmentação \ É resistência para ultrapassar a opressão (…)”. Contudo, mais do que consciência identitária o bloco reivindicava um poder político, a letra continua: “A consciência é o objetivo principal \ Eu quero muito mais \ Além de esporte e carnaval, natural \ chega de eleger aqueles que têm \ Se o poder é muito bom \ Eu quero poder também (…)”. A letra de Mundo Negro (Que bloco é esse) faz parte do álbum Ylê Ayê Canto Negro (1984) é de autoria de Paulinho Camafeu e a letra Alienação integra o albúm Ylê Ayê bonito de se ver (2015) assina Sandro Teles e Mário Pam.

Ylê Ayê “Alienação”

 

O bloco foi taxado de racista (reverso) pela imprensa brasileira da época. O Jornal A Tarde publicou um texto intitulado “Bloco racista, nota destoante” acusando o desfile do carnaval de 1975 de feio espetáculo e enorme falta de imaginação. As razões da agressão do jornal foi a escolha do Ilê Aiyê em aceitar entre seus membros somente negros e utilizar imagens, roupas, símbolos que se referiam ao universo do terreiro e as temáticas sobre o continente africano, descreve a jornalista Maria Barsanelli na reportagem “Ylê Ayê, símbolo da luta contra o racismo, ganha mostra em SP”. O Ilê Aiyê foi e permanece sendo uma instituição política com trabalhos pedagógicos, de formação política e mobilização social.

Nesse período, reivindicar a África e utilizar o Ijexá como referência musical não foi exclusividade do Ilê Aiyê. Outro que seguiu a proposta foi o grupo Reflexus.

Reflexus e o ensino de história da África

O pesquisador Fernando Arenas (2019) na obra África Lusófona Além da Independência (2019) indica que os povos bantos da região de Angona\Congo e região da Guiné e outros povos de regiões dos atuais Nigéria e Benin foram as populações predominantes que vieram ao Brasil até o século XVII. E, a partir do século XIX, Moçambique se torna outra região de deslocamento de africanos. Na reprodução fotográfica abaixo do Museu Afro Brasil em Salvador, são os povos Fon (Reino Daomé), Yorubá (Império de Oyó), Povo Bini (Reino do Benin) as grandes populações trazidas ao Brasil. Também, vieram as nações Igbo, Akan\Ashanti, Wolof, Bobo, Kongo, Tchokwe, Luba, Kuba, Ndengese, Lullua e Turkana.

Reprodução fotográfica da exposição “Máfricas: as Áfricas do Mafro”

Especial 20 de novembro - Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo - Reprodução fotográfica da exposição Máfricas as Áfricas do Mafro
Foto Por: Willians Santos

Segundo a pesquisadora Glécia Oliveira em seu trabalho “Música e resistência: uma breve análise histórica discursiva do preconceito racial e social nas músicas da banda Reflexus”, a axé music tem as suas raízes no fim do século XVIII com a vinda de iorubanos para o Brasil e, posteriormente, ao trabalho de reorganização das comunidades jeje-nagôs na Bahia, em Recife e no Rio de Janeiro. Nessa época, as tradições iorubanas já faziam presença na música, a exemplo, o desfile no carnaval de 1897, do clube Pândegos d’África, considerado o primeiro afoxé baiano, o qual encenou com canto, danças e alegorias, temas da tradição nagô. Contudo, para o pesquisador Castro em sua obra “Axé music: mitos, verdades e world music”, o axé nasceu da mistura do frevo, o ijexá, o samba, o reggae, a salsa, o rock, e a lambada, utilizando percussão e guitarras.

Um grupo de destaque nesse gênero foi o “Reflexus”. A banda surge em 1986, no bairro do Cabula, Salvador Brasil e alcançou seu apogeu em 1987 com a seguinte formação: Marinez, Julinho, Marquinhos, Ronaldo, Washington, Ubirajara, Ednilson, Abílio, Wilson Pedro. Ganharam 5 discos de ouro e chegaram a lançar quatro álbuns no exterior, tendo sido ainda a primeira banda bahiana a tocar no Canecão, Rio de Janeiro, tornando-se um grupo de sucesso popular, com apresentações em programas de alcance nacional como o do Chacrinha.

Suas canções abordavam os reinados e povos africanos – algumas regravadas do Ylê e o Olodum -, ao mesmo tempo utilizavam-se de fatores sócio históricos sobre a negritude e clamavam resistência ao preconceito racial. Esses temas são apresentados em simbologias da ancestralidade, a religião e a memória afro brasileira.

Reprodução fotográfica dos povos e nações transportados ao Brasil

Especial 20 de novembro - Os cantos de protesto no Brasil contra o racismo - Reprodução fotográfica dos povos e nações transportados ao Brasil
Foto Por: Willians Santos

É o caso da canção “Serpente Negra” que aborda o reino Daomé – localizado na área que atualmente é Benin conforme a imagem acima – e na passagem da canção: “(…) Daomé nação de uma serpente negra \ O rei manda lhe falar \ O arco-íris ao se dissipar \ Orixá maior é a força da natureza \ Que representa Ketu nação \ De um rei Olofin da atual República Benim (…)”

Serpente Negra ao vivo, Reflexus

Junto as referências a nação Queto e a região do Benin, a música representa a religião de matriz africana do Candomblé com o termo Araketo conectando-o à luta contra a escravidão: “Pois o sangue desses negros \ Derramavam na Terra \ Para que os senhores passassem \ Um tipo de vida melhor \ Orá orá orá orá Orayê \ Orá orá orá eis Oxumaré”.

Glécia Oliveira indica, por fim, que as músicas da banda Reflexus descrevem cenários históricos que caracterizam o racismo na África e no Brasil, denunciando por meio delas, as diversas formas de preconceito. Os compositores se preocupavam em apontar criticamente as relações raciais no Brasil e em África porque nelas persistiam uma imagem de nações racialmente democráticas.

Margareth Menezes: um canto contra a segregação

Considerada pelo jornal Los Angeles Times em 2004 como a Aretha Franklin brasileira, Margareth Menezes inicia sua carreira como atriz participando de peças como Ser ou Não ser Gente e Mascaras (essa segunda de Menotti Del Picchia), sob direção de Reinaldo Nunes.

Mas é em 1987 que inicia sua carreira musical participando do single de Djalma Oliveira “Faraó Divindade do Egito”, considerado o primeiro samba-reggae do país. Música que ainda hoje é associada a cantora. Em seguida ela faz um contrato com a PolyGram Brasil e lança seu álbum homônimo em 1988, ano da constituinte. Em 1989 lança o álbum Elegibô, participando de turnês com Gilberto Gil e Dominguinhos com o projeto Bast Chrome Music.

Em 1990 assina contrato com a gravadora Mango/Island Records com a intenção de lançar sua obra nos EUA e México. Época que participou de shows com David Byrne do Talking Heads.

Faraó Divindade do Egito” ao vivo, Margareth Menezes

“Faraó Divindade do Egito” é uma mescla entre ensino da filosofia africana sobre o surgimento da humanidade explicitada na passagem: “Deus e divindade infinita do universo \ Predominante \ esquema mitológico \ A ênfase do espírito original \ Formará no Eden o ovo cósmico \ A emersão \ nem Osíris sabe como aconteceu \ A emersão nem Osíris sabe como aconteceu \ A ordem ou \ submissão do olho seu \ Transformou-se na verdadeira humanidade (…)”. A canção, também, conclama à mobilização contra a segregação racial: “Pelourinho Uma pequena comunidade \ Que porém Olodum uniu \ Em laço de confraternidade \ Despertai-vos \ Para a cultura egípcia no Brasil \ Ao invéz de cabelos trançados \ Veremos turbantes de Tutankhamon \ E as cabeças \ Se enchem de liberdade \ O povo negro pede igualdade \ Deixando de lado as separações”.

Em mais de uma ocasião a cantora demonstra sua postura contra o racismo no país e no mundo da música, em entrevista para o Universa UOL em 2021 ela comenta:

“A Bahia é um lugar de muito racismo estrutural, muito mesmo, dos blocos de carnaval, dos grandes empresários. Os da indústria do axé music todos são brancos e sempre privilegiam esse lugar, infelizmente. Então, até os grandes blocos afros aqui, o Olodum, Ilê Ayê, têm dificuldade para ter patrocínio. É como se não tivessem valor. Mas a música que faz sucesso, que tem a estética da Bahia, é a trazida pelo povo negro aqui.”

Margareth cantou (e ainda canta) pela africanidade brasileira e denunciando o racismo no país numa época em que Lélia Gonzales e Beatriz do Nascimento organizavam e lideravam os movimentos negros. Fez parte de uma geração onde constavam a banda Reflexus, Olodum, Ylê Aye, Banda Mel, entre outros, em um país que caminhava para a redemocratização.

Os olhos coloridos de Macau e Sandra de Sá

Sem dúvida um Hino Nacional até hoje exaltado em todo Brasil é a canção “Olhos Coloridos”, mais conhecida na versão de Sandra de Sá e que está presente no seu segundo álbum homônimo lançado em 1986. A canção porém não foi escrita por ela. Foi escrita pelo compositor Osvaldo Rui da Costa, ou simplesmente Macau. E existe uma história de racismo e abuso policial por traz da canção.

Em reportagem para o G1 Rio de Janeiro de 2015, Macau contou a história da música. Ele era então morador da Cruzada São Sebastião, no Leblon, na Zona Sul do Rio, onde muitos moradores tinham origem na Favela da Praia do Pinto, localizada ali. Nesse período ele sofria de depressão em razão de um álbum gravado que não foi bem nas vendas. Na tentativa de animá-lo, um amigo o levou para ver uma exposição escolar no Estádio de Remo da Lagoa.

Com roupas simples e cabelo black, foi interpelado e passou por uma averiguação. Foi levado para dentro de uma sala e ofendido por um sargento. As ofensas continuaram e se estenderam ao cabelo, a roupa que ele vestia e ao local onde ele morava. Depois disso, Macau foi preso e colocado em um camburão às 15h. O veículo circulou por toda a cidade, ele só chegou à delegacia à 1h do dia seguinte. Para a reportagem Macau comentou:

“Ele disse: ‘Você mora naquela lama ali, cheia de bandido’. Eu disse que bandido não, ali não tem bandido. Eles são moradores da Cruzada São Sebastião. E ele: ‘É isso mesmo. Tudo pobre, tudo favelado, essa coisa toda, tudo negro’. Eu disse que ele estava com preconceito, com discriminação. E falei ‘O sangue que corre na sua veia, corre na minha veia também. É vermelho. Você está com preconceito”.

Diante do mar do Leblon, Macau chorou e, colocando as ideias em ordem, compôs a letra que se tornou um desabafo. A música foi gravada por Macau em uma fita em 74, mas ficou desconhecida até chegar às mãos de Sandra de Sá, por meio de um produtor.

Dessa experiência surge a letra que crítica a alienação no país: Você ri da minha roupa \ Você ri do meu cabelo \ Você ri da minha pele \ Você ri do meu sorriso \ A verdade é que você \ Tem sangue crioulo \ Tem cabelo duro \ Sarará crioulo”

Olhos Coloridos”, Sandra de Sá

Outro detalhe dessa história é que Macau, certamente, em seu visual estava influenciado pela Cultura Black Power do movimento Black Rio que acontecia na época e que foi retratado no documentário “Negro da Senzala ao Soul” da TV Cultura produzido em 1977 e no livro “1976 movimento black rio” de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe. Essa referência está descrita na seguinte passagem da letra: “Meu cabelo enrolado \ Todos querem imitar \ Eles estão baratinados \ Também querem enrolar”.

O começo da carreira de Macau foi na Paróquia dos Santos Anjos, onde começou a tocar. Depois, participou da banda Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, que gravou um LP em 1973.

Gilberto Gil: a música é uma arma

Certamente, um grande compositor que pensou o racismo no Brasil, mas, também, procurou desenvolver políticas publicas pra combatê-lo, foi Gilberto Gil, Ministro da Cultura de 2003 a 2008.

O cantor, inicia sua trajetória política em 1987 quando toma posse da presidência da Fundação Gregório de Matos, órgão que correspondia à Secretaria Municipal da Cultura de Salvador, tornando-se o primeiro homem negro a integrar a pasta. Durante sua gestão as relações culturais entre a Bahia e a África também foram intensificadas: a Casa da Bahia foi aberta no Benin, e a Casa do Benin, em Salvador.

A relação entre o Brasil e o continente muda consideravelmente no período da gestão presidencial de Lula e do músico como Ministro da Cultura, por exemplo, houve abertura de 19 embaixadas, tornando o Brasil a quinta maior presença diplomática no continente à época. Foi sob a gestão de Gilberto Gil e Lula que o Brasil fez o perdão de dívida de doze países africanos em um montante de 900 milhões de dólares em 2013. E foi aprovada a Lei n.10.639/03 que alterou as Diretrizes e Bases da Educação nacional acrescendo o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira”, resgatando, assim, a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do país.

“Nos barracos da cidade” de Gilberto Gil

Dia Dorim Noite Neon de 1985 – são o rock e o reggae. Com a canção Gilberto Gil protesta contra a ganância capitalista e a indiferença do Estado que contribuem pra reprodução da desigualdade: “O governador promete \ Mas o sistema diz “não” \ Os lucros são muito grandes \ Mas ninguém quer abrir mão \ Mesmo uma pequena parte \ Já seria a solução \ Mas a usura dessa gente \ Já virou um aleijão \ Ôôô ôô \ Gente estúpida \ Ôôô ôô \ Gente hipócrita \ Ôôô ôô”.

Gil e Jimmy Cliff em show na Fonte Nova, Salvador

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Gilberto Gil e Jimmy Cliff em show na Fonte Nova, Salvador – Arquivo: Correio

O reggae fez parte de sua história musical já em 1971 quando ele integrou a organização do Festival de Glastonbury que contou com nomes como Bob Marley, Jimmy Cliff, Burning Spear, inclusive em 1980 Gilberto Gil fez turnê com Jimmy Cliff pelo Brasil. Reivindicando a dignidade negra por Jorge Aragão
Chegando nos anos 90 temos a canção “identidade” do conhecidíssio Jorge Aragão, ela esta presente no álbum Chorando Estrelas de 1992 lançada pela gravadora RGE. A canção ainda é um dos hinos das rodas de samba por todo o Brasil, causando um misto de euforia e tristeza quando tocada, não há quem não se emocione entonando o trecho “
Se preto de alma branca pra você É o exemplo da dignidade \ Não nos ajuda, só nos faz sofrer \ Nem resgata nossa identidade (…)“.

A música fala da necessidade do reconhecimento da aceitação da identidade racial negra, da dignidade. Sobretudo, a letra faz referência ao conhecido trato que os trabalhadores afro brasileiros tem de lidar com a metáfora do “elevador”, ou seja, a segregação entre o “social” e de “serviço”, sendo o segundo visto como determinado para negros e o primeiro para brancos. Portanto, uma pessoa que valoriza suas matrizes africanas deve recusar-se a ser o preto de alma branca – subserviente descaracterizado – e assumir a dignidade humana em ser uma pessoa que possui raízes, possui uma identidade – raízes essas que inclusive é reafirmada na sonoridade da música com toques do candomblé.

Identidade de Jorge Aragão

Esse tipo de situação foi vivido por muitos negros e negras no Brasil, foi o caso da infância da militante do movimento negro Luiza Bairros, diz ela em uma entrevista de 2015 para o jornal GZH, quando vivia no Rio Grande do Sul:

“A discriminação mais explícita eu sofri na adolescência, quando ia ao edifício onde moravam colegas brancas da escola e sempre havia um porteiro disposto a me indicar a porta do elevador de serviço. Aquilo era explícito. Quando eu circulava dentro dos códigos mantidos pela cidade, não havia problema. O complicado era quebrar o código e passar a circular em lugares onde a presença é tida como estranha”.

Por que 20 de novembro?

“As raízes africanas transculturais são palpáveis no dia a dia brasileiro, sendo a música e a religião uma das mais ricas. Esses são campos privilegiados, em que uma “terra-mãe” africana, simultaneamente próxima e distante, superficial e profundamente mística, é objeto de evocação, e por vezes, devoção. Enquanto o candomblé da Bahia evidencia um substrato iorubá ancestral em uma forma altamente sincretizada, a música pop axé proporciona uma sensação de pertencer a um mundo afrodiaspórico romantizado.

O universo musical quase infinito do Brasil é resultado de antigos processos, assim como de outros em andamento, de hibridização cultural, no qual a África, ou melhor, as raízes africanas do Brasil, constituem um eixo referencial em gêneros musicais populares, tais como o maracatu, coco, frevo, samba, chorinho, afoxé, bossa nova, samba-reggae, samba-rock, samba-rap, funk, entre outros”.

Contudo, a sugestão da data de 20 de novembro como dia da consciência negra iniciou, segundo a historiadora Beatriz Nascimento em “O Conceito de Quilombo e a Resistência Cultural Negra”, com a publicação de um artigo no Jornal do Brasil em 1974 pelo Grupo Palmares do Rio Grande do Sul, a ideia de 20 de novembro era lembrar o assassinato de Zumbi dos Palmares e a queda do Quilombo dos Palmares, comemorar a data significa contrapor-se ao 13 de maio, escolhendo uma alternativa que exalte a resistência dos antepassados e uma identificação mais positiva do que a abolição da escravatura como dádiva da Alteza Imperial.

Através desses gêneros, poesias, músicas, histórias e protestos esses artistas contribuíram para tornar o tema do racismo e da história da África questões centrais em todo país numa época que não existia as cotas raciais, tampouco, a Lei N 10.639 de ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, foram à seu modo heróis das ruas.

Willians Santos

Willians Santos é doutorando em ciências sociais pela Unicamp, professor da rede pública do Estado de São Paulo, ator e curador musical do projeto "Conexão Jamaifrica" (musicalidades africanas, diáspora, jamaicana e northern soul), também, integra a equipe do "Fronteiras Cruzadas" e o projeto "Conexão Diáspora: arte e política sem fronteiras". Possui publicações em mídia nacional e internacional sobre os temas da diáspora africana, imigração, refúgio, anti racismo e direitos humanos, e música.

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