Sensível, denso, coletivo e delicado. “Ouvindo Vozes” do compositor carioca Roberto Barrucho, DOSSEL, explora ritmos, percussões e ambiências com a mesma destreza e excelência de contemporâneos como Curumim e André Sampaio.

Assinando sua produção e escolhas estéticas, ele também opta por reunir parcerias que somatizam na experiência e crescimento artístico.

No debut ele contou com participações de Lucas Vasconcellos, Fernanda Vianna, Maria Bonita, Carolina Turboli e Lizandra da Silva; além da contribuição nos beats do MC, e também agitador cultural fluminense, Marcão da Baixada.

A obra é dedicada ao músico Fernando Grilo, amigo e parceiro musical de longa data. Roberto também é compositor de mão cheia tendo ficado conhecido nacionalmente como compositor ao lado de Marcela Vale (Mahmundi) em hits como “Calor do Amor” (2013).


Dossel Roberto Barrucho

Roberto Barrucho – Foto Por: Carol Bergallo


 

Os Universos de DOSSEL

Roberto Barrucho: “Cada canção tem um universo, uma atmosfera que expressa um sentimento ou idéia, um modo de ver ou pensar sobre uma temática, não penso o disco com uma narrativa única,  uma história com início, meio e fim, apesar desta leitura ser possível.

Na escolha da ordem do disco pude perceber mais desta forma, com este desenho. De uma forma geral, até pelo retorno que tive de pessoas que ouviram e sentiram o disco, ele trás um olhar esperançoso, que passa pela aceitação de si, das sombras, a valorização da presença, a crença no nosso poder de transformação, a partir de aprendizados de um caminho que busca essa integração do que não aceitamos de nós ao que mais gostamos e admiramos, a partir dessa integridade, somada à observação dos ciclos e forças de natureza, que tanto podem nos ensinar sobre nós mesmos.”

A Forma & o Sentido

Roberto Barrucho: “Tudo isso foi ganhando força e se enchendo de sentido, uma vez que se refletiam na minha própria caminhada e ressoava com as pessoas envolvidas e também àquelas as quais o trabalho ressoava.

A derrocada política que o país estava passando, tempos sombrios, incertos (pré-eleições 2018), um sentimento de que era preciso estarmos unidos, atentos, conectados como comunidade, mas também sensíveis aos nossos sinais, respeitando os limites individuais.

A escolha das faixas e por consequência os temas abordados se dá por uma relação com a criação que precisa estar viva, preenchida de sentido, não somente sentimento. Muita coisa ficou de fora, nem sei se vou gravar em outro momento ou se serve à alguém, foram criações importantes no percurso até enquanto descoberta do que eu queria falar, dividir, compartilhar com mais pessoas.

Claro que as escolhas são conscientes e determinadas por fatores concretos, mas no campo da arte, e pra mim, neste projeto específico, me deixo guiar pelo campo do sensível, a partir de um ambiente, universo, que me permita ter contato com tal sensibilidade e inclinação artística, criativa.

Ouça Ouvindo Vozes



O Conceito & as Parcerias

Roberto Barrucho: “O próprio conceito do DOSSEL passa por isso. Na floresta tropical é o lugar biodiverso, a ser explorado, suspenso, misterioso. Existem as reflexões acerca da criação e da estética, mas muito do que surge, é uma necessidade, algo que vem com uma força maior, de dentro, e se transforma em algo, um poema, um tema, uma canção que passa ser algo significativo pra ti e então tu divide, torna público.

Muitas parcerias vieram se dando no período de pré-produção, quando comecei a olhar para as criações a fim de organizá-las em um álbum. Como primeiro disco, é claro que eu tinha acumulado muita coisa, e eu só consegui alinhar estas criações e avançar para definições sobre aquelas criações a partir destas parcerias, uma vez que me a chegada destxs parceirxs me apontavam direções e resoluções, na verdade estes convites se davam de acordo com a percepção ‘do que faltava’, ou do que poderia ser um algo a mais, ou composições que estética ou afetivamente já se aproximavam, se inclinavam para tais pessoas que estavam ali na construção dessas obras.”

As Composições

Roberto Barrucho: “A coisa toda começa com o single “AMNST”, que compus com Lucas Vasconcellos, que era um artista no qual eu me identificava com o modo sensível de sua produção, já fora do Letuce.



A parceria foi muito fluida, em um dia terminamos a canção, e muitos meses depois, em mais um dia gravamos. Já nessa primeira produção chega um parceiro importante pra existência do projeto.

Gabriel Marinho co-produziu essa primeira faixa comigo, ele é um cara que já me conhecia de outros trabalhos e também estava sintonizado com as referências e sons tanto os brasileiros mais antigos como Moacir Santos, Djalma Corrêa e Os Tincoãs, como a galera nova que eu curto como Curumin e Anelis Assumpção.

Estética & Outras Parcerias

Roberto Barrucho: “As faixas seguintes foram ganhando força e se confirmando como singles que definiam a estética que eu tanto buscava e foram se concretizando a partir da realização.

Os dois primeiros singles, “AMNST” e “Canoa Nova” partem deste lugar mais pessoal, um encontro consigo, da própria sombra e luz, o sol no peito como bússola para seguir acreditando, para acreditar na força que nos inerente, daí a convocação para o somatório dessas forças na figura do SOPRO, que move a vela da canoa, em ‘Vela e o Sopro’. Que pode mudar a direção das coisas, que nos faz sentir potentes e vivos.

Essa convocação me fez bastante sentido para o momento em que estamos vivendo. Essa letra estava pronta, era recente, mas faltava definir melodia e parte da harmonia dela, quando numa tarde com o violonista João Sasmana e Maria Bonita, fechamos a canção. Músicos da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, parte que fica a margem dos investimento público-privado em cultura, mas que no entanto, apresenta uma gama de projetos e artistas incríveis.

Além destes, contei com Vandré Nascimento, fundador do espaço Lata-Doida, um estúdio em Realengo, que também é uma banda e projeto social. Toda essa potência do território com certeza foi impressa na faixa, 3° single, que escolhi também para abrir o disco.

O Processo

Roberto Barrucho: “Passado o 3° single, seguimos produzindo, o Ijexá de Fevereiro é um tema que já tinha composto no violão há um tempo e ganhou uma letra incrível da escritora Carolina Turboli, ex vizinha de bairro, mais uma que saiu do país neste momento político conturbado, atualmente reside em Portugal.

Gravamos sua voz no último dia dela no Rio de Janeiro e o resultado ficou incrível, superou minhas expectativas, depois a faixa ganhou o violão do Sasmana e o piano Rhodes do Martché, músico e produtor da banda Amplexos (Volta Redonda), que mixou o disco comigo.

Rodrigo Maré foi outro cara super importante pra construção do disco, além de percussão de algumas faixas, eu já o conhecia de outros projetos, e foi da última formação do Mulambo Jazzagrário, projeto de Fernando Grilo, músico que era irmão pra mim, pessoa ao qual dedico este álbum e peça chave para descoberta da minha própria musicalidade, fundamental em diversos aspectos para que o Ouvindo Vozes acontecesse.

Na verdade Grilo é um cara que atravessa diversas relações afetivas e musicais deste disco. Ele me trouxe referências diversas e uma visão mais abrangente das construções sonoras, abrindo minha cabeça para maiores experimentações e liberdade artística.”


Roberto Barrucho

DosselFoto Por: Carol Bergallo


Produção e Curiosidades

Roberto Barrucho: “Desta forma me permiti inserir faixas como a vinheta Caravana (Para Fuga), das mais antigas, na qual gravei todos os instrumentos, e condensei a mensagem no poema que recito, tal como a maneira fluida que conduzo a faixa “Lasciva-Saliva” que fecha o disco.

A participação do Gabriel Marinho, que compôs e canta comigo “Matamba”, também é fruto da relação com o Fernando(Grilo). Lizandra da Silva, que canta em “Agridoce” comigo, foi sua companheira, dividiam o projeto/banda Cunhã, que lá pelo ano de 2013 eu produzi.

Nesse ponto, foi muito legal, porque essa faixa, por ser mais antiga, talvez dessa mesma época, 2012, 2013, já estava sendo ‘disputada’ para ver quem gravaria no disco. A chegada do Marcão Baixada na produção do beat trouxe o que faltava para trazer a track pra 2019.”

Sonoridades & Estética

Roberto Barrucho: “Até chegar a essas sonoridades e decisões estéticas, eu me permiti experimentar e passear por possibilidade, timbres e temáticas. Desde o início o que eu tinha certeza era a ausência de uma bateria tradicional, completa, assim como a fuga de um lugar comum na escolha dos instrumentos mais tradicionais como baixo, guitarra e teclado.

Não queria que as faixas tivessem a mesma regimentação, por exemplo, poucas faixas tem um o baixo, uma vez que por vezes o violão já cumpre tal função, ou vejo os graves das percussões numa região parecida com o que soaria o baixo, lugar que ocupo com trombone em alguns arranjos, fora que gosto dos silêncios, da respiração da música.

Isso somado a uma vontade de fazer um som com as nuances que gosto de ouvir, detalhes melódicos, as linhas de sopros e bases percussivas que evoquem uma brasilidade que muitas vezes eu vejo distanciada da juventude e o público que ouve somente o que é posto pela grande mídia. Optei por escolhas que me dissessem respeito, que pudessem traduzir o que admiro na gigantesca Música Brasileira, atento ao momento em que vivemos a o desenvolvimento desta linguagem com a inserção de novos elementos.”

Liberdade

Roberto Barrucho: “Como primeiro trabalho artístico onde eu estava a frente de todas escolhas estéticas, eu me permiti a experimentação comentada acima. Pensei, por algum momento de fazer um disco somente convidando intérpretes, como fez, por exemplo o Gui Amabis, no Memórias Luso-Africanas, ou então um disco somente com intérpretes mulheres, pelas parceiras que já estavam próximas e gostavam das minhas composições.
Aos poucos fui entendendo o lugar da minha voz nas canções, tal qual a necessidade e a vontade de defendê-las, assim como a dificuldade de circulação do projeto, caso fosse canto somente por convidados. Então foi a hora de sair do lugar de compositor e produtor, e chegar a interpretação daquelas obras.
A chegada nesse lugar foi um processo vagaroso (que ainda exploro), até encontrar as melodias e alturas que me cabiam, a maneira de cantar que me deixasse à vontade, até mesmo alinhado ao discurso proposto. Eu queria chegar a um som que gostasse de ouvir, que pudesse reparar no todo, em sua ambiência, e que eu não fosse cansar tão fácil de tocar, queria fugir de coisas óbvias que me cansariam logo, ou que levassem pro ouvinte algo previsível, facilmente dispensável.”

O Maior Desafio

Roberto Barrucho: “Nesse momento pude perceber o quanto era difícil produzir o próprio trabalho. Daí vi que era o desafio que precisava enfrentar e que eu vinha amadurecendo as idéias e enquanto produtor (e também enquanto artista), para poder fazer como eu pensava.

Aos poucos percorrer esse caminho foi se tornando um processo prazeroso, com as parcerias luxuosas que pude ter, tudo se tornou um pouco mais fácil, pude criar o universo que tava até então somente na minha cabeça, e compartilhar com outras pessoas. Ver os arranjos, sonoridades, idéias, ambiências, timbres, funcionando e ganhando outros espaços foi, e é uma das coisas mais legais.

A experiência de ver outros cantando não era algo novo, já que a Marcela Vale (Mahmundi) leva nossas parcerias pra uma quantidade grandona de gente, mas dessa vez tem um gosto diferente porque é para o ‘meu’ projeto, que de solo não tem nada, ele só existe, dessa forma, pela construção coletiva que se deu em seu processo.”

A Ideia Inicial & o Resultado Final

Roberto Barrucho: “No início da concepção do projeto eu tinha uma ideia de colocar um máximo de 4 ou 5 sons em cada faixa, não por questões do show, mas porque acho que um arranjo mais enxuto permite melhor compreensão de cada proposta sonora.

Já na construção dos arranjos e com o decorrer das gravações e experimentações vi que cabia mais elementos, e com o desenvolvimento dos arranjos e evolução das idéias, me vi gostando das possibilidades de diálogo que se mostravam possíveis, a partir das parcerias e sonoridades que eu vinha pesquisando.

Quando a coisa foi ficando maior comecei a me preocupar como seria levar isso pro ao vivo. Diante disso me via num dilema: ‘o disco é uma coisa e show é outra’ versus ‘caramba, quero fazer isso no palco, tá bonito pra caramba’.

Caminhando nessa linha, pensei na construção de pelo menos dois formatos de apresentação, o com a banda completa, que ainda é um certo resumo do disco, e um formato reduzido, onde abro mão de parte do arranjo, me atendo ao principal das canções.

No show de estreia do RJ e SP fizemos no formato completo, Já em Portugal, vou fazer com músicos portugueses e brasileiros, levando algumas bases programadas pra tocarmos em cima.”