“O futuro da música é onde não tenhamos mais que nos preocupar com gênero” diz coordenadora do Sonora SP

A 3.ª edição do Festival Sonora acontece no segundo semestre deste ano mas se engana quem acha que os preparativos ainda não começaram. Neste mês de março inclusive já acontecem alguns shows e eventos relacionados ao festival.

O Sonora objetiva ser vitrine para o trabalho das compositoras, ser um centro de informações e formar profissionalmente mulheres para o mercado da música, através de shows, palestras, oficinas e vivências.

O ponto de partida da edição paulistana do festival é o Mês da Mulher Sonora que pretende além de dar espaço – e protagonismo – as compositoras e musicistas, estabelecer debates relevantes sobre o papel da mulher na música.

Dia da Mulher Sonora


Dia da Mulher Sonora


Nesta sexta-feira (9), o Dia da Mulher Sonora acontece na Casa do Baixo Augusta e recebe além dos shows de AílaLuedji Luna, uma mesa de debate sobre o papel da música no combate à violência contra a mulher. A mediação ficará por conta da jornalista Adriana Couto que apresenta o Metrópolis (TV Cultura) e contará também com Aíla, Luna e MC Gabi Niaray.

Até o festival chegar, os eventos continuarão sendo realizados de maneira esporádica e não se restringem apenas aos encontros presenciais. No dia 21/03 por exemplo, às 14 horas, Ekena fará um show ao vivo transmitido pelo Estúdio Showlivre. Já no dia 28/03, às 17h, a Preta Rara se apresenta no programa. Tudo isso é fruto da parceria do Mês da Mulher Sonora com a Showlivre.

A História do Festival Sonora

O Sonora nasceu em Belo Horizonte (MG) e desde sua primeira edição, em 2016, acontece em mais de 20 cidades em 6 países diferentes. O festival acontece em rede com a colaboração de muitas mulheres. O intuito é reconhecer o trabalho da mulher.

A coordenação geral do Sonora Mundial é composta por Deh Mussulini, Isabella Bretz, Amorina, Mo Maie e Joana Knobbe.

Para entender mais sobre a história do Festival Sonora, é possível encontrar uma linha do tempo detalhada com todo o processo que levou a existência do festival no mundo.

O Edital

Está aberta a chamada para produtoras que queira realizar o Sonora em suas cidades.

“Todas as interessadas (inclusive as que já realizaram o evento nas edições anteriores) deverão preencher o formulário abaixo, ler o Manual de Realização e enviar o Termo de Responsabilidade assinado, através de um link no próprio formulário. Está tudo explicadinho no texto e no manual” – como ressalta o evento oficial do festival 

A data limite para o envio da inscrição é o dia 26 de março. Já o resultado com as selecionadas será divulgado no dia 30 de março.

Formulário para as cidades de língua portuguesa
Formulário para as cidades de língua inglesa (ou de outras línguas além de português e espanhol)
Formulário para cidades de língua espanhola

Entrevista

Para entender um pouco mais sobre os eventos pré-Sonora SP e saber mais sobre as barreiras e lutas que as compositoras enfrentam dentro do mercado da música conversei com a Larissa Nalini. Ela que atende em seu projeto musical como LaBaq, nasceu em Franca (SP) em 1988 e iniciou sua trajetória no mundo da música aos 12 anos de idade.

Autodidata ela foi atrás de estudar violão e guitarra, vindo a seguir a estudar trompete e percussão. Durante sua carreira foi sidewoman de diversos projetos, antes de sua decisão em partir para sua carreira autoral.

Além de compositora e musicista, LaBaq atua como produtora cultural. É uma das idealizadoras do Festival Sonora, sendo um festival com foco na mulher na música e estando à frente da edição paulistana (Sonora SP), na curadoria e produção executiva, ao lado de Roberta Youssef, sua sócia na produtora Crua Música.

Ela acredita que é necessário unir forças para chegar ainda mais longe e a partir disso desde o ano passado integra o casting da Rosa Flamingo, selo coordenado pela Tiê. Também faz parte do selo português Omnichord Records.


Lais Aranha
LaBaq. – Foto Por: Lais Aranha

[Hits Perdidos] Como observa o atual momento das mulheres sendo grandes protagonistas nas principais listas de Melhores do Ano? A lista das listas no recorte dos 51 discos mais votados (http://bit.ly/2HZeivZ) inclusive aponta que 2017 foi um ano muito importante para as musicistas.

Larissa Nalini: “Pessoalmente eu acho listas um negócio meio fail, mas sim, finalmente todo mundo se ligando de que só estavam listando discos de homens e olhando pro lado pra ver que tem muita mina foda fazendo disco. Quem não fizesse ia ficar feio, né? (risos).

Sem dúvida 2017 foi um ano bom, um ano em que se começa a pensar que é preciso equilibrar mais line ups, as próprias listas, etc, porém aquele preceito enraizadíssimo de que mulher toca menos que homem, faz músicas “menos boas”, geralmente não produz ainda paira aqui. Mas sim, já demos alguns passos.”

[Hits Perdidos] De 2016 para cá como vê a evolução do Festival e sua expansão? Quantos países e cidades estiveram presentes em 2017? Acredita que esse número irá crescer em 2018? As edições nas diferentes localidades são integradas, há um intercâmbio da rede?

Larissa Nalini: “O Sonora cresceu loucamente de 2016 pra 2017, no segundo ano foram 15 países e 69 cidades e sem dúvida irá crescer em 2018 – aliás, editais abertos pra produtoras se inscreverem pra realizar o festival em suas cidades. Ele crescendo assim só reafirma a necessidade de sua existência, eu penso. Por parte do Sonora SP há, sem dúvida, a vontade de se conectar mais a outras cidades e países, vai ser um dos nossos focos de 2018.”


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Soledad se apresentou na edição do ano passado do Festival Sonora. – Foto Por: Haroldo Saboia 

[Hits Perdidos] Além da música os eventos também contam com warm-ups que acontecem durante o ano com mesas redondas que discutem o papel da mulher na música entre outros temas. Até agora quais foram os debates que mais renderam discussões relevantes?

Larissa Nalini: “Durante o festival no ano passado a mesa sobre instrumentistas, as side-women, também a mesa que discutia onde estão as mulheres produtoras musicais deram o que falar. Pra assistir, estão na íntegra no nosso canal no youtube. 🙂



[Hits Perdidos] Um fato que podemos observar é o momento de autogestão das artistas. Com grandes nomes e outros crescentes sendo grandes exemplos. Quais para você são grandes exemplos e como observa que está o momento mercadológico?

Larissa Nalini: “Acho que isso pra artistas em geral, tá todo mundo se ligando de que se não for assim, nada vai acontecer. Exemplos bons são os FingerFingerr, que tem saído do Brasil frequentemente e levantando uma carreira sólida fora, Tiê, que hoje não tem empresário e faz o próprio planejamento de carreira – entre mil coisas – e tem o Selo Rosa Flamingo, do qual faço parte e os Finger também.

Francisco El Hombre por muito tempo foram auto-gestão e hoje contam com um manager mas sei que estão à frente de tudo que rola na banda. Acho que não existe muito mais isso de ficar em casa só criando e sair só pra fazer os shows que alguém já vendeu, sabe?”

[Hits Perdidos] Quais foram os maiores aprendizados até aqui como produtora do festival? Na próxima edição teremos novidades?

Larissa Nalini: “O maior aprendizado de todos é que quando somamos forças tudo pode ir além do que esperávamos. Ano passado circularam mais que 2300 pessoas em 3 dias de festival e isso pra nós, um festival ainda nascendo, foi incrível e só aconteceu pq em diversos momentos mais mulheres se somavam à nossa empreitada.

Teremos novidades! Um bracinho do Sonora SP com convidadas internacionais é o que já podemos contar que vai rolar

[Hits Perdidos] O protagonismo das mulheres a frente de selos, festivais e veículos de comunicação tem crescido nos últimos anos. Para você o futuro da música é feminino?

Larissa Nalini: “Eu vejo um boom enorme nos próximos anos, ainda maior do que o que tá rolando agora, em termos de mulheres à frente de absolutamente tudo que diz respeito à música, engenharia de som, técnicas, produtoras, instrumentistas, compositoras, roadies, nós frequentemente nos perguntamos onde elas estão e isso está rendendo muito, surgindo cada vez mais profissionais incríveis, fora as que já vinham no mercado há anos.

O futuro da música é onde não tenhamos mais que nos preocupar com gênero, enquanto isso não acontecer, vamos estar aqui discutindo o porquê e buscando soluções.”


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Liniker e Badi Assad estiveram presentes no line-up do festival em 2017. – Foto Por: João Markun

[Hits Perdidos] Qual foi o maior caso de falta de respeito / sabotagem que você como musicista sofreu por parte de produtor, técnico de som, casa de show e etc? Qual história que ouviu durante os debates e conversas com outras musicistas que te tirou mais do sério?

Larissa Nalini: “Acontece todo dia mas com os anos aprendi a me impor pra cortar já no início do contato esse tipo de desrespeito. Já tive contratante me falando que só tinha me contratado por causa do rosto bonitinho e que eu havia surpreendido musicalmente em seguida, já rolou boicote do monitor por parte do técnico, durante passagem técnico ignorando o que eu dizia e atendendo aos músicos da banda (homens), produtor musical que finge que releva sua opinião e quando vai ver o resultado, a opinião dele prevaleceu, essas são histórias que acontecem todo dia.

Acho que toda história ainda me tira do sério, subestimar uma mulher só por ela ser mulher, achar que ela não sabe o que tá fazendo (e se não souber, não há problema algum nisso, é um ser humano em construção igual a você), desrespeito por parte de outros músicos, de falar o sangue já dá aquela sublinha (risos)”

[Hits Perdidos] Quais discos mais te agradaram que saíram nos últimos tempos?

Larissa Nalini: “Os últimos das deusas Björk e St Vincent, o novo de uma amiga espanhola, Judit NeddermannNUA, Antwerpen da colega do meu selo português (Omnichord Records) Surma e o último do Mark Guiliana é genial.”



[Hits Perdidos] Qual mensagem gostaria de deixar para uma musicista que está começando agora e ainda não sabe muito bem como lidar com o showbizz?

Larissa Nalini: “Entenda como ele funciona, fique por perto mas nunca se envolva 100% em todo caos que é esse mundo, tem muita gente não tão humana ali.

Reconheça seus/suas iguais por aí e trilhe caminho com elxs.

[Hits Perdidos] Durante a SIM São Paulo foi levantado em um debate a discussão da pressão por parte dos grandes festivais do Brasil em dar mais espaço para musicistas. Como vê isso? E o que acha que ainda precisa mudar?

Larissa Nalini: “Acho urgente, pra ontem, todos os festivais pensarem nisso. Sonora nasceu também por vermos a maioria dos line ups compostos quase 95% por homens há 3 anos atrás, precisamos fazer um festival onde só nós tocaríamos pra levantar a discussão.

Psicodália desse ano, por exemplo, de 58 artistas, apenas 17 eram artistas solo ou bandas que possuíam alguma mulher instrumentista na formação e sabemos bem que não é por não existir, só em 2017 mais de 60 mulheres lançaram discos. Saiu uma lista de 43 festivais que pretendem ter seus line ups 50/50 até 2022, nenhum do Brasil ou América Latina. Como não pensar que ainda temos muito trabalho a fazer? As novas gerações que venham pra tirar a poeira dos olhos/ouvidos por aí.


Luedji Luna - Foto Tassia Nascimento
Luedji Luna (BA) se apresenta nesta sexta-feira no Dia da Mulher Sonora. – Foto Por: Tassia Nascimento

Para Aquecer

Para aquecer para o Dia da Mulher Sonora confira os videoclipes mais recentes de Aíla e Luedji Luna.




Serviço:
DIA DA MULHER SONORA @ CASA DO BAIXO AUGUSTA
Data: 9 de março de 2018, sexta-feira, a partir das 20h
Local: Casa do Baixo Augusta
Endereço
: Rua Rêgo Freitas, 572 – São Paulo, SP
Entrada gratuita para o debate.
Ingressos para os shows: R$ 20 (compra apenas na porta do evento).

Programação:
20h30 – Debate: Música no combate à violência contra a mulher
Mediadora: Adriana Couto
Participantes: Aíla, Luedji Luna e Gabi Niaray
21h30 – Show Luedji Luna apresenta Um Corpo no Mundo
22h30 – Show Aíla apresenta Em Cada Verso Um Contra-Ataque

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