[Resenha] Bandas brasileiras evocam o espírito Riot Grrrl em tributo ao Bikini Kill

No dia 25/02 foi lançada a coletânea Insubmissas – 25 anos de Pussy Whipped esta que reuniu 12 bandas independentes. O projeto homenageia os 25 anos do lançamento do disco de estreia do Bikini Kill, o Pussy Whipped.

A banda de Olympia (WA) é uma das mais icônicas do movimento Riot grrrl e suas letras sempre carregaram conteúdo feminista e de libertação. A curadoria é assinada pelo selo paulistano Hérnia de Discos e o registro pode ser ouvido no bandcamp.

Em sua linha de frente a banda contava com a vocalista e compositora Kathleen Hanna, o guitarrista Billy Karren, a baixista Kathi Wilcox e a baterista Tobi Vail e muito disso foi narrado no ótimo documentário sobre Kathleen, The Punk Singer (2013).



Kathleen passou por muitas vivências e projetos, mas nenhum teve o impacto tão visceral e potente como foi o lendário Bikini Kill. Tudo se transforma e confesso que mesmo sendo fã da banda, é ótimo ver a Hanna feliz com o The Julie Ruin – projeto que aprendi a apreciar ao longo dos anos.

Tudo de certa forma faz de seu universo algo rico e bastante particular. Le Tigre é uma viagem ~dançante~ incrível e sempre ouso dizer que o Readymades, durante sua existência, foi o nosso Le Tigre brasileiro.

A Coletânea

O projeto reuniu 12 bandas do cenário nacional que tem uma postura digna das Riot Girls. Na linha de frente temos Diablo Angel (PE), Lâmina (SP), Belicosa (RJ), Bertha Lutz (BH), Framboesas Radioativas (SP), Miêta (MG), In Venus (SP), 3D (RS), Bloody Mary Una Chica Band (SP), Charlotte Matou um Cara (SP), Trash no Star (RJ) e Readymades (SP).

“As bandas foram escolhidas a dedo. Todas estão ativamente trabalhando em algo relacionado à música e tem uma atitude riot grrrl”, explica Cintia Ferreira, uma das idealizadoras do selo.



Diablo Angel em “Blood One” tentou passar o espírito lo-fi e fez uma releitura com cara de L7 e The Muffs. É uma versão rapidinha mas mostra bem para o que veio. A Lâmina trouxe aquele ar empoeirado dos discos da Dischord em um punk rock direto e reto para “Alien She”.

A versão da Belicosa para “Magnet” tem aquele ar oitentista de grupos como os espanhóis Eskorbuto e La Polla Records. “Speed Heart” da Bertha Lutz é uma das que mais me agradou em sua construção, gosto dessa levada Hole e de todo caos que elas resolveram criar.

Se uma versão promove a catarse que o Bikini Kill sempre impôs durante suas apresentações foi a das Framboesas Radioativas para “Lil’ Red”. Tem histeria, tem punch e encara o desafio com muita destreza.

Em seguida vem um dos grandes destaques do tributo justamente por impor a personalidade da banda e essência, a Miêta foi atrás de suas referências shoegaze e fez uma releitura mais polida. O destaque vem pelo trabalho dos vocais e os solos lisérgicos de guitarra, daqueles para viajar para longe deste cosmos.

Ousadia não faltou também para o In Venus que trouxe suas referências de Siouxsie and the Banshees, reverbs e delays para a excelente releitura de “Sugar”. Ela é dark mas vibrante feito uma stardust. Falo e repito, não deve nada para uma possível releitura das Savages (se tivessem participado do tributo).

Outra banda que correu para fazer uma releitura punk foi a 3D que quis fazer uma versão bem lo-fi e poderosa para “Star Bellied Boy” me lembrando muito a bandas de garagem.

A Bloody Mary Una Chica Gang foi por outro caminho, não mudou muito a estrutura do som porém fez uma versão em espanhol para “Hamster Baby” que se tornou “Ratoncito Bebito”, apenas nada menos do que GE-NI-AL.

Aprecio muito trabalho da Charlotte Matou um Cara e que desafio pegar logo o hino do Bikini Kill para reinterpretar. “Rebel Girl” é aquela música que é melhor nem mexer muito para não perder o brilho, e o que elas fizeram? Deram ainda mais potência para o hit. A Trash No Star foi pelo caminho de trazer a energia do palco dos shows das norte-americanas em sua versão para “Star Fish”, outra preferida dos fãs. Punk rock é isso.

Talvez a mais desconstruída do disco seja justamente a das Readymades – que saudade dessa banda – que foi logo cortar toda a introdução longa de “For Tammy Rae” e trouxe sua personalidade para a versão. Deu aquela adocicada mas não perdeu a vitalidade. Diria que faz uma homenagem não só ao Bikini Kill, mas a toda a carreira da Kathleen em pouco menos de 3 minutos.


INS


A ideia principal do projeto era realmente prestar tributo ao disco, algo bastante bacana, mas se fosse falar que senti falta de alguma coisa seria o elemento ousadia de levar o público a conhecer o material autoral.

Talvez uma releitura com a cara do som autoral das bandas que são ótimas e sou fã. Isso não é bem uma crítica, e sim algo que senti que poderia ter sido explorado. E como podemos ler nesta resenha: as que ousaram mesmo propuseram soluções muito boas. Queria muito que esse tributo chegasse aos ouvidos dos membros da banda, pois um presente como este é digno de aquecer qualquer coração rebelde.

A Hérnia de Discos

A Hérnia de Discos é um selo relativamente novo mas promete um ano de muita movimentação. Por aqui chegamos a comentar sobre o trabalho em um especial sobre a PWR Records. Para quem ainda não conhece o selo é comandado por Desirée Marantes e Cintia. Calcado na produção musical feminina e com vasta experiência no underground, o selo quer unir forças e abrir espaço para projetos integrados por mulheres no cenário musical independente.

Além de lançar materiais através do selo elas procuram trabalhar com um grupo de colaboradoras espalhadas entre São Paulo e Porto Alegre. Como o apoio ao Girls Rock Camp que teve sua última edição a pouco tempo, além da produção de shows.

“A música ainda é uma área predominantemente masculina e a gente quer ampliar os espaços para as minas, meio como um “all girls to the front” só que mais direcionado a composição, produção, tudo que for relacionado a criação e produção musical”, conta Desirée. 

“Temos muitos planos pros próximos meses, passando por lançamentos de bandas já consagradas e apostas em novas artistas. Faremos mais uma experiência em nossa residência musical e prevemos pistinhas com o Hérnia Fest, além de pocket shows na garagem T-Recs, QG do selo”, diz Cintia sobre as próximas iniciativas do selo

“Também contamos com uma rede de colaboradoras espalhadas entre São Paulo e Porto Alegre, como Ana Zumpano (Lava Divers), Patrícia Saltara (In Venus), Sabine Holler (Jennifer Lo-Fi, Ema Stoned), Julia Barth (Girls Rock Camp Porto Alegre), Yasmin Thomaz (Joan Get Your Gun), Camila Ribeiro (In Venus), entre outras mulheres fodonas”, finaliza Cintia que também faz parte da In Venus

A coletânea também está disponível no Bandcamp.

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