Projeto Trator comemora 10 anos de serviço as ondas satânicas do sludge

Pesado. Perturbado. Extasiado. Psycho. Trevoso. Sludge. Agressivo. Carregado. Lunático.

Esses são alguns adjetivos que poderíamos dar para o duo barulhento que não sossega entre fazer o que mais ama. Em busca de quebrar qualquer barreira psíquica ou de concreto que estiver pela frente. Quem chega para dar a letra hoje, vem para passar por cima, com vocês: Projeto Trator!

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O Projeto Trator toca o terror desde 2006. Na batera quem desce o braço é Thiago Padilha, já a guitarra e os vocais ficam por conta de Paulo Ueno. Foto Por: Eduardo Murai.

O Trator tem muita quilometragem, não é difícil você conversar com algum amigo de qualquer canto do país – que curta rock pesado – e que fale algo do tipo: “O Projeto Trator é foda. Os caras são pioneiros nesse “negócio” de duo com acordes pesados.”

Eles já tem sete trabalhos lançados entre discos, splits e EP’s. Sempre tentando agregar algo novo tanto no som, como na visão sobre a banda. Afinal de contas nada como ter uma professora como a estrada.

O duo já rodou por todos os cantos do país fazendo o que mais gosta de fazer na vida: tocar alto. Imaginem quantos lugares já conheceram e quanto já aprenderam sobre as diferenças e particularidades de nosso país. É um bate-papo que deve ficar ainda mais animado regado de cerveja.

Com influências dos cactus do Atacama, de Fu Manchu, Black Sabbath e Black Flag eles sabiam bem o que queriam fazer quando decidiram iniciar essa trajetória em nome do rock barulhento Made in Brazil. Ouvindo parte da discografia eu ainda adicionaria de ouvido: Kyuss, Shrine, Melvins, Corrosion Of Conformity, TEST, Ratos de Porão, Sepultura e Uncle Acid & And The Deadbeats.

O que me chama a atenção no som do grupo também é a mistura com a lisérgica psicodelia, influência que por mais indireta que seja, te puxa direta pro anos 70, onde a cada música daquela geração era como se colocássemos um ácido debaixo de nossas línguas.

Outro viés que pude notar no duo é o quão politizados são em canções como “Você não é seu emprego” e “Se Conformar”. Além do nome da turnê, FORA TEMER, que abre caminho e se inicia no Dia da Música (18/06) em show realizado no Palco TEST na cidade de São Paulo.

Mas para entender melhor o trabalho do Projeto Trator nada como chamar um amigo de longa data para nos contar um pouco mais sobre histórias envolvendo o duo dentro e fora dos palcos. Passo a palavra para um velho conhecido deles: Dom Orione (Videocassetes – antigo 3ÉD+).

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Dom além de ser guitarrista/vocalista do Videocassetes é amigo de longa data do Projeto Trator. Foto: Acervo Pessoal

E a amizade que poderia ter sido iniciada no Chat Amizade ou no bate-papo Uol começou ali por perto: no MSN. Para vocês sentirem como é de longa data, alguns leitores mais novos provavelmente desconhecerão as ferramentas mas juramos de pés juntos que eram mais legais que o Facebook Messenger.

Dom Orione: “Quem falou comigo primeiro, foi o Thiago. 2006, MSN. Ele me adicionou e falou que também tinha um duo, Projeto Trator, começamos a conversar e acho que uns meses depois tocamos juntos, arranjei um show aqui na quebrada.

Participei de uma música no disco deles, Eu e o Clayton (umbilichaos), que também é bem chegado deles. Em 2009 rolou muita coisa e eles buscaram um som mais pesado e nós um som mais suave, ai as bandas tomaram rumos bem diferentes. Cara o Paulo faz de tudo na vida, ele dublava o “Chat Amizade” aquilo era demais, acho que deveria colocar aquilo em uma música.”

Sobre histórias curiosas e alcooltecimentos, Dom Orione relatou alguns publicáveis, já para outros: terão que conversar com os caras.

Dom Orione: “Putz tem muita coisa. O Thiago, nós fomos de carona com ele pro SWU, ficamos bêbados e nos perdemos. Eu só achei ele depois do show dos Pixies, estava todo mundo zoado sem contar as histórias com bomberinho. As melhores são as histórias com bomberinho, nunca beba isso, se você não é uma pessoa treinada.

Uma vez arrumei um show pra eles e o cara não tinha cachê em grana, na verdade ele tinha e ofereceu pra eles se preferiam em dinheiro ou em bebida, os caras escolheram em bebida, beberam tanto que nem lembro como foram embora.

Na verdade eu lembro do aquecimento pro show, acordei no outro dia com dor de cabeça e uma mensagem “fiquei com sua amiga he he he”

Dom participou da música “Fazer nada” do disco O Caldo Vai Azedar (2009).



Dom Orione: “Que eu considero o divisor, ali foi onde eles acharam o som, a bateria do Thiago casou lindamente com os Riff do Paulinho, dali pra frente os caras só evoluíram.

Recomendo a escuta, tem a participação do Clayton, que é um primor a parte, o disco saiu com numeração. Ali é onde eles se profissionalizaram mesmo, ali eles definiram a banda e atingiram os objetivos. Acho que eles nem curtem tanto esse “trampo” hoje em dia hehe.”

Quando se trata de rock pesado, sempre tem um amigo do Diabo. No caso, Dom entregou um acervo de fotos antigas que acha que provavelmente irá constrangê-los por serem dos primeiros dias de bandas. Aliás todo mundo esconde a sete chaves seu fotolog. Caso ficou curioso por essa armadilha de satanás feita por Dom Orione, clique aqui.

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O Projeto Trator já chegou a tocar em grandes festivais realizados na paradisíaca Patagônia. Foto Por: Eduardo Murai.

Mas voltemos a nossa programação normal. Ter uma banda sem organização é o segredo para o fracasso. Em dois ainda, o acúmulo de funções se concentra ainda mais. Mas como disse anteriormente a estrada, ela toma conta de ensinar e fazer os mais fortes resistirem.

Ueno cuida da parte audiovisual e Padilha da arte gráfica e sempre esquematizam suas turnês. Além de cruzar o país eles também já conseguiram fincar a bandeira do Brasil tocando em países como Argentina, Uruguai e Chile.

Para não fugir da proposta do Hits Perdidos vamos resenhar o último disco lançado pelos caras, Despacho (2015). Este que foi gravado no Estúdio Kactus em Itupeva/SP, produzido pelo Sérgio Ugeda e Paulo Ueno (Guitarra/Vocais). A masterização ficou por conta do David Menezes. O álbum foi lançado via Crocodilo Discos e a arte ficou por conta do baterista, Thiago Padilha.


Para começar, essa capa incrível me lembrou tanto bandas de Black Metal, como Discharge, como também o Choking Victim.

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O álbum, No Gods / No Managers (1999), do Choking Victim trás o crack rocksteady satanista em seu auge. A capa influenciada por bandas de Black Metal em tom de deboche, lembra a arte de Despacho do Projeto Trator.

Aliás o tema do despacho dá uma certa cara de Brasil ao disco. Afinal de contas é a cultura do candomblé sempre representada. Grupos como o lendário Gangrena Gasosa – e seu Saravá Metal – já utilizaram a temática para gerar trabalhos criativos país a fora. O documentário Desagradável de 2013 tenta contar a história do grupo carioca.

O disco se inicia com “Na Rua das 7 Facas”, música já lançada anteriormente como single em 2014 no EP de mesmo nome. Uma viagem cósmica ultrajante em direção da boca do inferno. Destilada no rock cru e trevoso do Fu Manchu ela te puxa pelo pé entre um riff mais entorpecido ligado nos pedais de Fuzz.

Em seguida temos “Tambores de Fogo”, onde chegamos enfim a lava sangrenta que oprime os súditos de satã. Apesar de para os mais leigos soar como Black Sabbath com cantos gregorianos, para quem presta a atenção nos detalhes consegue sentir a influência da psicodelia dos Mutantes. Ao fim da canção as portas do inferno são abertas.

Ao vivo
O inferno da vida real derrete aos poucos em Despacho (2015). Foto Por: Eduardo Murai.

“Delírios de Dr. Lilly”, também já havia sido lançada anteriormente e soma ao disquinho. Ela parece ter influências de southern rock, psicodelico e do rock obscuro dos anos 70. É derretida e na linha das bandas de sludge, como o Kyuss. Na canção já caminhamos na direção do castelo em chamas de Lúcifer. Diria que é como se o capeta tivesse ingerido um ácido e entrado na paranóia de brincar de soldadinho de chumbo com seus súditos.

Para deixar o clima ainda mais pesado, em seguida temos: “Rato Morto”. Uma jam pesada e visceral que parece despertar a ira do senhor das trevas. O ato de sacrifício do rato na canção é consumado através da batida cadenciada, do delay nos pedais e da guitarra fantasmagórica. Recentemente a banda inclusive disponibilizou um vídeo dela sendo tocada ao vivo durante a turnê  “Gira Sulamericana/2015”, em sua etapa chilena.

“Marcha do Ódio”, arrasta feito a correnteza das profundezas dos lagos ácidos do inferno onde corpos se dilaceram. É uma sinfonia para o fim do mundo, alá Melvins, onde morcegos invadem a floresta negra e comem humanos vivos feito carniça. A podridão traduz o clima sombrio. É como se o escárnio tivesse ganhando as asas através do corvo das trevas. O prelúdio da morte.

Para sacramentar e fechar o caixão, temos a “Foice”. Ela que carrega as almas direto para o calabouço. Tira do limbo e as arrasta da vala para os campos áridos do inferno. E árido é também uma marca registrada do som do Projeto Trator. Que por muitas vezes bebe do oásis do desert rock.

Fãs de Queens Of The Stone Age, principalmente do disco Lullabies To Paralyze (2005) – um álbum pouco prestigiado diga-se de passagem – provavelmente vão captar a essência pesada do som. Ela se desfragmenta através dos acordes fúnebres e as trevas dominam pouco a pouco o terreiro onde acontece a batalha magistral.

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O Projeto Trator tem novo disco a caminho, este que está em fase de masterização na Califórnia sob a responsabilidade de Dan Randall (Proprietário do Mammoth Sound Mastering). Foto Por: Tiago Maciel

Mas não estamos aqui para falar de passado. Com forças concentradas e muita disposição o Projeto Trator acabou a pouco tempo de gravar e mixar seu novo álbum – ainda sem nome – o disco agora está em fase de masterização em Oakland na Califórnia. Para essa empreitada eles confiaram em Dan Randall – proprietário da Mammoth Sound Mastering – que já realizou trabalhos de grupos do calibre de Poison Idea, Discharge, Pennywise e Sodom.

O disco foi gravado no estúdio Family Mob (SP) e foi produzido através do projeto Converse Rubber Tracks. O resultado após oito horas de gravações são 8 músicas compiladas. A produção ficou por conta de David Menezes “Davox” e pelo ex-Sepultura, Jean Dolabella.

Enquanto o disco não sai do forno, a turnê “FORA TEMER”, se inicia neste fim de semana.

O show de abertura da turnê será no Dia da Música, 18 de junho, no Palco TEST, com as bandas Fear of The Future, Autoboneco, Subcut e Vermes do Limbo. A apresentação está marcada para 18 horas.

Confira outras datas:

18.06 – Dia da Música – Palco TEST – SP/SP
09.07 – Hotel Bar -SP/SP
10.07 – (a confirmar) – SP/SP
15.07 – Centro Cultural Zapata – SP/SP
16.07 – Várzea Paulista /SP
17.07 – Bragança Paulista/SP
21.07 – (a confirmar) – Santa Catarina
22.07 – Florianópolis/SC
23.07 – Joinville/SC
24.07 – Curitiba/PR

Projeto

Site Oficial 
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Bandcamp
Youtube

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