Men At Work revive hits dos anos 1980 em show no Brasil marcado por nostalgia e estranhamento

Banda australiana apresentou clássicos como “Down Under” e “Overkill” em show marcado por nostalgia, repertório solo e reflexões sobre legado musical.

O Men At Work voltou ao Brasil para uma turnê de sete shows e se apresentou nesta quarta-feira (7), no Vibra São Paulo, com clássicos como “Down Under”, “Overkill” e “Who Can It Be Now?”. Formado em Melbourne em meados de 1979, o grupo de pop rock com influências de reggae e new wave mantém hoje apenas um remanescente da formação original: o vocalista e guitarrista Colin Hay.

Atualmente baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, o grupo conta com uma formação de raízes latinas e, desde 2019, tem na linha de frente o baixista Yosmel Montejo, o guitarrista San Miguel Perez, além da esposa de Colin, Cecilia Noël, nos backing vocals, e Jimmy Branly na bateria. Desde 2025, a saxofonista, flautista e tecladista Rachel Mazer também integrar a banda. Quando questionado sobre a proposta do retorno do grupo, Hay afirma que os músicos têm liberdade criativa para transformar as canções no palco com o “seu tempero” — o que de fato acontece.

Um dos maiores ícones do rock australiano segue agora em turnê que passa por Recife no dia 8, no Centro de Convenções de Pernambuco; Belo Horizonte no dia 10, no BeFly Hall; Curitiba no dia 12, no IGLOO Super Hall; Porto Alegre no dia 14, no Auditório Araújo Vianna; e Rio de Janeiro no dia 16, no Qualistage.


Integrantes do Men At Work se apresentam no palco do Vibra São Paulo durante turnê no Brasil
Men At Work reviveu clássicos dos anos 1980 em show marcado por nostalgia e repertório solo em São Paulo. – Foto por: Rafael Chioccarello

Com cerca de meia hora de atraso, o Men At Work subiu ao palco do Vibra com a pista ainda enchendo — o que, de certa forma, justifica o inconveniente. Foi possível presenciar alguns fãs protestando com comentários como “amanhã eu trabalho”.

Após uma calorosa recepção de um público parcialmente formado por quem acompanha a banda desde os anos 1980, e por outros que conheceram as canções dos australianos pela alta rotação dos hits em rádios que ainda apostam nos sucessos do passado, o clima esfriou — tornando-se, em alguns momentos, até constrangedor.

Para quem não sabe, o grupo lançou três discos — Business as Usual (1981), Cargo (1983) e Two Hearts (1985) — e encerrou as atividades em 1986. Uma série de brigas em 1984 resultou nas saídas do baixista John Rees e do baterista Jerry Speiser. O clima era tão ruim que, durante as gravações do último álbum, o baixista da formação original — que também atuava como guitarrista solo —, Ron Strykert, acabou deixando o grupo. Em entrevistas, Hay comenta que os anos de sucesso foram marcados pela pressão da gravadora por hits radiofônicos, o que contribuiu para o fim da banda.

Quem permaneceu ao seu lado até o encerramento foi o flautista Greg Ham, amigo de faculdade, que viria a falecer durante um dos períodos mais melancólicos do pós-banda: quando foram acusados de plágio pelo hit “Down Under” por causa de uma música de um programa infantil. O grupo foi condenado em 2010 e passou a pagar 5% dos royalties sobre os lucros da canção — decisão que abalou profundamente Ham em seus últimos anos de vida. Em 2012, aos 58 anos, Ham, que lutava contra a depressão, foi encontrado morto em sua casa vítima de um ataque cardíaco, conforme noticiado à época.

Como os hits do Men At Work moldaram o show

Mas voltando ao show: é justamente por ter se consolidado como uma banda de rádio que o primeiro terço da apresentação foi tão morno. A resposta do público chegava a lembrar a de um bar de cover, com conversas em volume alto e pouca atenção ao palco. Pensando bem, a comparação talvez resuma o atual estágio da banda. Por motivos legais, Colin Hay nunca mais pôde lançar material inédito sob o nome Men At Work.


Men At Work durante show da turnê brasileira realizado no Vibra São Paulo
Turnê do Men At Work passa por cinco cidades brasileiras após apresentação em São Paulo. – Foto por: Rafael Chioccarello

Colin Hay e o legado da banda australiana

O músico, após o fim do grupo, se dedicou a uma carreira solo que, em um primeiro momento, não obteve sucesso comercial, levando a gravadora a encerrar o contrato. Ainda assim, Hay mantém uma produção prolífica — embora seu alcance no Brasil seja limitado.

Isso se reflete no show: das 22 canções apresentadas, cinco eram do repertório solo, período em que o público demonstrou menos engajamento. Talvez o maior sucesso dessa fase seja “Into My Life”, presente na trilha internacional da novela Rainha da Sucata (1990), que foi a primeira a ser cantada em coro pelos presentes.

Apesar de integrar o álbum de estreia, “Down by the Sea” — que ao vivo conta com um solo de bateria — não empolgou o público, que esboçou interagir apenas nas melancólicas “Blue for You” e “Catch a Star”. Em “No Sign of Yesterday”, o carismático baixista Yosmel Montejo aproveitou para fazer um solo com direito a slap, arrancando boa reação da plateia.

Durante a apresentação, Cecilia Noël se aventurou pelos dois lados do palco fazendo coreografias no melhor estilo new wave — à la integrantes do The B-52’s — e interagiu com o público tentando falar português e reverenciando o legado de Hay. Ela saiu do palco em “The Longest Night”, faixa gravada em Brasil, disco ao vivo do grupo registrado durante a turnê pelo país naquele ano. Sem dúvida, um dos momentos mais intimistas da apresentação.

Após “Underground”, o show ganhou volume com uma sequência de hits como “Dr. Heckyll & Mr. Jive” e “Overkill” — declarada pelo próprio vocalista como sua favorita. Ele já confessou em entrevistas que ficou impressionado ao terminar de compô-la, e que a reação do público cantando alto lhe arrancou um grande sorriso.


Integrantes do Men At Work interagem com o público durante performance de “Down Under” em São Paulo
“Down Under” encerrou o clima morno da apresentação com versão em ritmo de samba e interação com o público. – Foto por: Rafael Chioccarello

Quando “Down Under” finalmente mudou o clima

A faixa “Helpless Automaton” soou um pouco intrusa na sequência final construída para coroar a carreira dos australianos. Após “It’s a Mistake”, Colin aproveitou para apresentar cada um dos integrantes em “Who Can It Be Now?” e, para personalizar a turnê brasileira, o baterista Jimmy Branly iniciou “Down Under” em ritmo de samba. Logo após o primeiro refrão, todos os integrantes tentaram sambar — um momento bastante carismático que tirou o ar de obrigação de tocar o maior hit da banda.

Para quem não sabe, “Down Under” já foi usada sem autorização em comícios do movimento March for Australia, associado a pautas ultraconservadoras e nacionalistas — algo refutado pelo músico. Em entrevista à Billboard, Hay afirmou que a música foi escrita como uma celebração da identidade australiana e um comentário sobre a perda de espírito do país, e não como ferramenta para promover agendas políticas que ele considera contrárias aos valores de união e tolerância.

Após esse momento inusitado — e um tanto desconcertante —, por volta das 23h15 a apresentação se encerrou com “Be Good Johnny”.

O show como retrato da indústria da nostalgia

Assistir ao show me fez refletir sobre as diferentes formas de consumir música, a evolução da indústria e o impacto da nostalgia. Se antes o rádio ditava o que deveria ser consumido — e aprofundar-se na obra de um artista exigia grande esforço de pesquisa além dos hits empurrados pelas gravadoras —, hoje, com milhões de lançamentos toda sexta-feira, o interesse pelo repertório, mesmo estando mais acessível, não é igual para todos. Ele acaba sendo mais intenso para os 5% a 10% mais engajados com determinada obra.

Mesmo com momentos mornos, o retorno do Men At Work ao Brasil mostrou como clássicos dos anos 1980 ainda mobilizam memória afetiva — ainda que de forma diferente da era em que dominaram o rádio.

Com tanta oferta, mergulhar em um catálogo se torna algo cada vez mais raro.

Isso também ajuda a explicar por que é tão difícil criar hits capazes de atravessar décadas e permanecer na memória afetiva do público.

Se o mercado continuar nesse modelo, o legado e a indústria da nostalgia tendem a ficar restritos a nichos cada vez menores — e não mais a uma geração inteira.


Colin Hay canta durante show do Men At Work no Vibra São Paulo em 2026
Colin Hay lidera o Men At Work em apresentação no Vibra São Paulo durante a turnê brasileira de 2026. – Foto por: Rafael Chioccarello

Após passagem por São Paulo, Men At Work segue viagem pelo Brasil

Men At Work ainda fará cinco apresentações no país em maio – Recife no dia 08, no Centro de Convenções de Pernambuco; Belo Horizonte no dia 10, no BeFly HallCuritiba no dia 12, no IGLOO Super HallPorto Alegre no dia 14, no Auditório Araújo Vianna e Rio de Janeiro, onde a apresentação acontece no dia 16, no Qualistage.

Os ingressos para as apresentações estão disponíveis no site da Ticketmaster para São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, site da Sympla para o show de Porto Alegre, site da Bilheteria Digital para Recife e Ticket360 para Belo Horizonte . A turnê brasileira do Men At Work é mais uma realização da Infinito Entretenimento e MCA Concerts.

Men At Work em São Paulo: veja fotos do show no Vibra


Integrantes do Men At Work se apresentam no palco do Vibra São Paulo durante turnê no Brasil
Men At Work reviveu clássicos dos anos 1980 em show marcado por nostalgia e repertório solo em São Paulo. – Foto por: Rafael Chioccarello

Saxofonista brilha show do Men At Work no Vibra São Paulo em 2026
Saxofonista se destaca reproduzindo sucessos da banda australiana em noite marcada por nostalgia e reflexão sobre legado musical. – Foto por: Rafael Chioccarello

Integrantes do Men At Work se apresentam no palco do Vibra São Paulo durante show da turnê brasileira em 2026
Show do Men At Work alternou momentos intimistas e sequências de hits conhecidos pelo público. – Foto por: Rafael Chioccarello

Cecilia Noël dança e interage com o público durante apresentação do Men At Work no Vibra São Paulo
Cecilia Noël levou coreografias inspiradas na new wave ao palco e interagiu com o público durante o show do Men At Work em São Paulo. – Foto por: Rafael Chioccarello

Close de Colin Hay durante show do Men At Work no Vibra São Paulo em 2026
Colin Hay comandou o repertório do Men At Work em apresentação marcada por clássicos dos anos 1980 no Vibra São Paulo. – Foto por: Rafael Chioccarello
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