Crise estreia com “por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram” — um manifesto sobre ansiedade digital

A banda Crise, de Sorocaba, lança o álbum de estreia “por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram”, um retrato da ansiedade digital e da cultura do imediatismo na música independente.

A experiência do álbum da Crise que resgata a internet dos anos 2000

Na era da informação pulverizada e tantas distrações pelo caminho, divulgar a sua música de forma independente e com poucos recursos é um desafio enfrentado por centenas de bandas em todo o país. Em meio a esse fluxo disfuncional, a banda Crise, de Sorocaba, às vésperas do lançamento do debut, por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram, através de um hotsite, a chance de ouvir em primeira mão o material (acesse).

O site proporcionava uma experiência interativa com estética de internet dos anos 2000, cheia de clickbaits, jumpscares e pistas escondidas. Em meio a isso, um dos caminhos leva ao álbum completo. Semanas atrás, quando soube, fiquei um tempinho revivendo essa experiência que era até comum naquela época, em meio a várias abas abertas na hora de descobrir música nova. Repleta de armadilhas, você até volta por alguns instantes para os árduos tempos da internet discada.

Com o YouTube ainda engatinhando, plataformas como MySpace e PureVolume, aliadas às ferramentas de download ilegal de música, eram formas de a música se tornar mais democrática e ajudavam artistas independentes a divulgar sua música sem a força da máquina da indústria. Era a chance do que hoje conhecemos como ‘viralizar’ naquele período em que o acesso a interfaces de áudio começava a popularizar. Algumas até mesmo conseguindo uma grande projeção internacional, como foi o caso do CSS.

Ansiedade digital e vida adulta no álbum da Crise

A Crise nasceu justamente em outra era da internet, em que a economia da atenção e das multitelas — entre rage baits, trends de TikTok e a descentralização da influência — são realidade. Isso sufoca o artista, que muitas vezes pensa mais no marketing do que na pesquisa e qualidade da produção musical. Essa pressão e o acúmulo de funções criam uma frustração e uma ansiedade digital, seja pela tração por números quanto pela ânsia de ter respostas relevantes a respeito da sua arte, quase que em tempo real.


Banda Crise, de Sorocaba, autora do álbum “por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram”
A banda Crise transforma ansiedade digital e imediatismo em seu álbum de estreia “por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram”. – Foto por: Ana Flávia França – @anafla.fotos.

Um manifesto contra o imediatismo na música independente

Em um ecossistema que precisa ser repensado para ontem, tudo parece ser maravilhoso quando chega às mãos dos influenciadores, e quando tudo é “bom”, tudo se torna descartável. Na era da crise da opinião e da falta de acesso aos meios para artistas em ascensão, muito se perde pelo caminho e essa provocação é um dos grandes pilares do disco manifesto dos paulistas.

Para quebrar essa ânsia do imediatismo, fiz o que todos deveríamos fazer com discos. Distribuí a audição em diferentes momentos, sem aquela pressão por timing de postagem. Até porque discos tendem a crescer com o passar do tempo. Mas mais do que isso, a pausa na rotina se faz necessária para tentar absorver mais detalhes. E talvez esse seja resquício de quem pôde viver os anos 2000 e amava debruçar no sofá lendo fichas técnicas para saber mais sobre uma obra.

É interessante ouvir e cruzar com a realidade dos tempos atuais. “Robofoot”, faixa disponibilizada como single anteriormente, traz consigo a ansiedade e incerteza por parte das gerações Z e Alpha que já chegam à vida adulta tendo em mente pequenas realidades mundanas. Se os millennials já tinham o medo de não conquistar o sonho da casa própria, o medo de não se aposentar ressoa como uma das maiores preocupações e desde cedo essa pressão já recai.

Até mesmo essa dinâmica de começar as coisas e não conseguir terminar, entre acordes mais dissônicos, serve como harmonia em meio ao caos em “Insisto/Desisto”, faixa com aqueles ecos experimentais de grupos de rock psicodélico. Essa natureza de misturar dream pop com shoegaze, aliada à inércia dos tempos, entre boletos que não param de chegar, doses de pessimismo, rotina desgastante e crises de identidade, aparece em ecos de desespero em “Quanto Tempo”.

A natureza experimental do álbum da Crise

O experimentalismo e o mergulho em referências do rock progressivo e da psicodelia se materializam com mais intensidade em “Elefante”, faixa de quase 10 minutos que, dentro do disco, tem um papel narrativo importante. O título nos leva à problemática sistêmica do elefante branco que muitas vezes está no meio da sala e não conseguimos falar sobre isso, entre claros indícios de exaustão e inércia em meio ao enfrentamento das batalhas da vida adulta.

A expectativa versus a realidade aparece com mais força em “Tempos Impossíveis” e dilacera o ouvinte em meio ao canto desacelerado e descritivo da vocalista e guitarrista Cristine Siqueira. A dificuldade de materializar sonhos paira no ar, entre teclados de Enzo Mori que deixam a aura oitentista de balada ainda mais onírica.

É justamente nos arranjos e progressões escolhidos, que pedem um desacelerar por parte de quem ouve, que o disco entrega a experiência do sofrimento da sua narrativa, o que nem sempre é fácil para quem procura canções de aconchego. “Ao Seu Lado” contrapõe um pouco isso tudo em uma balada improvável de amor.

“Quixote” e o respiro final do disco

Quem encerra por favor, me perdoe. às más notícias finalmente chegaram com uma estranha natureza pop radiofônica de outros tempos é “Quixote”. O hit perdido do disco que ao longo dos seus 6 minutos vai te conquistando e ganhando camadas imagéticas. Não é por acaso que consigo imaginá-la como trilha de um curta-metragem ou mesmo de séries que optam em seus roteiros por mostrar a transformação da vida das pessoas em meio às inevitáveis chegadas e partidas. Essa dramaticidade conecta e emociona.

Crise é formada por Cristine Siqueira (voz e guitarra), Gabriel Pasin (baixo e sintetizadores), Raphael Resta (guitarra), Caio Lobo (bateria) e Enzo Mori (teclados e percussão). Entre as referências principais eles citam nomes como Blur, Television, Ludovic e Radiohead.

Ítalo Riber contribuiu na engenharia de som e mixagem e Pêu Ribeiro, na masterização.

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