Tietê gravou 80% do álbum Tâmisa no lendário Abbey Road Studios. - Foto Por: Nandê Caetano
Entre dois rios e duas cidades (Tietê e Tâmisa), a banda constrói um álbum intenso, orgânico e livre, marcado por improviso, cruzamentos estéticos e gravação histórica no estúdio londrino.
Com o DNA da vanguarda paulistana, de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Língua de Trapo, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti, a Tietê é um septeto formado em São Paulo há alguns anos, mas que agora chega ao seu segundo disco de estúdio.
O jovem conjunto, em sua formação, conta com Dodó Moreau (voz e sax tenor), Fela Zocchio (voz e percussão), Leo de Freitas (teclado e coros), Pedro Carboni (voz, guitarra e trombone), RUBI (voz, bateria e percussão), Victor Forti (baixo, guitarra e coros) e Théo Cardoso (voz, sax soprano e clarinete).
Assim como o movimento que os inspira, as artes cênicas, a moda, a dança e o circo fazem elo com a música e a expressividade. Não é por acaso que o improviso e a natureza percussiva do projeto são alguns dos pilares da estética sonora que produzem. O som passeia pelo rock, jazz, MPB, reggae, música eletrônica e até mesmo pela cumbia.
Por meio de uma conexão com o produtor inglês Dan Parties, residente em Londres, veio o irrecusável convite para gravar no histórico estúdio Abbey Road. Ele assina a produção do disco ao lado de Pedro Carboni e Rubi Assumpção.
Não foi por acaso que o rio Tâmisa, que nasce perto da aldeia de Kemble em Gloucestershire (Cotswolds) e atravessa o sul da Inglaterra de oeste para leste antes de desaguar no Mar do Norte, virou título do álbum. No meio desse extenso percurso pela terra da rainha, ele divide a cidade de Londres em duas áreas principais: a Margem Norte (North Bank) e a Margem Sul (South Bank). Algo similar ao que o rio Tietê faz em São Paulo.
“Os rios atravessam a história da nossa banda desde o começo. Em São Paulo, quem influencia toda a construção da cidade é o Tietê, enquanto em Londres é o Tâmisa. É semelhante, em algum sentido, ao que essa banda também significa para a gente”, afirma Pedro Carboni.
O convite inesperado do produtor veio justamente durante seu processo de formação no Abbey Road Institute. Por conta disso, os brasileiros tiveram poucos meses para criar todo o repertório do zero e viabilizar a viagem. A gravação de Tâmisa aconteceu de forma intensa, com apenas três dias e meio. Por conta dessa dinâmica, 80% do disco foi gravado ao vivo, o restante foi finalizado em São Paulo com novos overdubs, participações especiais e expansão das texturas sonoras.
Entre as grandes mudanças em relação à estreia, está o aprofundamento no uso de sintetizadores e o amadurecimento dos arranjos vocais. Entre as participações aparecem nomes como Iara Rennó e Anelis Assumpção, respectivamente em “Menino e a Cobra” e “Deixar o Medo”. Já nas colaborações instrumentais, o disco reúne nomes como Uriã de Barros, Vinisax e Mafê, que trazem rabecas, sopros e violinos gravados a partir de uma lógica aberta e não previamente arranjada, o que capta o espírito experimental do segundo álbum da Tietê.
“Muitas das nossas músicas nasceram a partir da percussão. Uma das coisas mais ancestrais que existe é a pulsação. Como a gente estava com o tempo contado, com uma pressão, a nossa pulsação tendeu a bater mais junto, a todo mundo bater mais junto. As coisas fluíram muito bem durante o processo de criação e gravação, conseguimos levantar todas as faixas com muita alegria”, aponta RUBI no material enviado à imprensa.
Essa atmosfera de travessia e de corredeiras transparece desde o single que abre o disco Tâmisa, “Enquanto Você”, que carrega todo o calor latino, entre batuques e arranjos envolventes, um reggae que flerta com o jazz, sem deixar a poesia de lado. Como curiosidade, vale lembrar que a música foi composta ainda na adolescência de RUBI e no disco ganhou uma nova roupagem.
Fuga, transformação e escolha são a natureza da letra pandêmica de “Menino e a Cobra”, faixa com participação da Iara Rennó. Aqui a percussão ganha arranjos leves de rock e lambada, sopros sutis e uma natureza que vai ganhando novas cores e contornos ao longo do seu andamento.
Os conflitos de um mundo doente ganham uma narrativa quase lúdica, tamanha a sensibilidade para elucidar sobre as tensões de um mundo que sempre esteve em guerra constante. O conflito da Palestina é o que se explicita para ilustrar, mas poderia ser facilmente alterado por qualquer outro da história da humanidade… principalmente aqueles em que a mídia mainstream não dá tanta importância por interesses hegemônicos.
As vinhetas ao longo do disco servem para explicitar a natureza orgânica e os bastidores das gravações. É como se pensássemos nas transições de um vinil. O analógico e o poético servem como ferramenta para explicitar a dinâmica errática da natureza humana.
O lado teatral do grupo ressoa com mais força em “Maçã Podre”, que tem toda aquela atmosfera que artistas como Arrigo Barnabé e Arnaldo Antunes costumam colocar em seus discos. Essa espécie de dub rock’n’roll brega anárquico atravessa os cantos mais obscuros e experimentais presentes na narrativa sonora.
O ar vintage melodramático aparece em “Eu Vi o Fim” com atmosfera radiofônica de um tempo que os integrantes definitivamente não viveram. Esse revival que flerta com a jovem guarda, o soul e o rock setentista é, no mínimo, um exercício interessante de composição. Essa paisagem que se cria no horizonte serve como um aceno e reverência a todos que vieram antes.
Eles foram recorrer, como artifício ao universo literário de H. P. Lovecraft e em trilhas sonoras cinematográficas, para elaborar “Três Cartas à Celephaïs”. A faixa também traz consigo o lado circense e melodramático do grupo em sua melodia. É essa narrativa descritiva que cria camadas, desenha cenários no imaginário do ouvinte e dá o tempero à faixa.
Já na parte final, a colaboração com Anelis Assumpção aparece em “Deixar o Medo”, com o reggae ganhando corpo para falar sobre os ciclos, seus processos de transformação e os renascimentos que temos ao longo da nossa jornada.
Como uma espécie de convite a assisti-los ao vivo, a faixa que encerra, “Biscoito da Sorte”, nos provoca. São ao todo 11 minutos de duração, repletos de altos e baixos, com gravação ao vivo e liberdade criativa. Ela chega justamente de mansinho e vai virando uma jam sem precedentes para mostrar mais sobre a identidade e capacidade do encontro entre seus integrantes. Assim como no jazz, a subida à montanha é tão importante quanto chegar ao cume. Entre sensações, desconforto e intensidade, o disco se encerra.
O disco tem mixagem de Gui Jesus Toledo, masterização de Arthur Joly e produção executiva de Dodó Moreau, Julia Reinecke e Raphaella Adler. O material foi gravado em agosto de 2024 em Londres, nos Abbey Road Studios, e de outubro de 2024 a agosto de 2025 em São Paulo, nos estúdios Pau Brasil, Açafrão, Magnífica, Tamarineira e ENOW.
Já a capa de Tâmisa tem fotografia de Nandê Caetano e design gráfico de Fela Zocchio, Danielle Machado e Tete Nardes.
This post was published on 27 de fevereiro de 2026 1:14 am
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