Por que divulgar shows independentes continua sendo tão difícil no Brasil?
A dificuldade de organizar, comunicar e fazer circular a agenda de shows na cena musical independente
A dificuldade histórica de divulgar shows independentes
Divulgar shows independentes sempre foi difícil. Nos últimos anos, porém, o problema deixou de ser apenas esforço, verba ou boa vontade e passou a ser algo mais profundo: a forma como a informação circula — ou deixa de circular.
Nunca se produziu tanta música no Brasil, nunca houve tantas casas de shows ativas e nunca se anunciou tanto. Ainda assim, a sensação é recorrente dentro da cena musical independente: a informação sobre os shows não chega. Ou chega tarde. Ou chega apenas para quem já iria de qualquer forma. O gargalo não está só na demanda, mas na organização da agenda cultural.
A oferta de shows cresceu, a organização não
Dados recentes ajudam a dimensionar esse cenário. Só em São Paulo, levantamentos independentes apontam dezenas de casas de shows ativas no pós-pandemia e centenas de artistas com menos de cinco anos de trajetória tentando circular. A oferta de shows cresceu, mas os mecanismos para organizar e divulgar essa agenda não acompanharam o ritmo. Há mais datas acontecendo do que espaços claros para encontrá-las.
Da centralização à pulverização da agenda cultural
Durante muito tempo, os cadernos de cultura dos jornais funcionaram como referência. Eram limitados, muitas vezes excludentes, mas organizavam a informação em um só lugar. Quem queria saber o que estava acontecendo sabia onde procurar. Hoje, a agenda de shows está espalhada entre redes sociais, stories, newsletters, grupos de WhatsApp, canais de transmissão, planilhas colaborativas, mapas e vídeos curtos.
Cada formato resolve um pedaço do problema, mas nenhum dá conta do todo.
Iniciativas independentes que tentam organizar a agenda de shows
Algumas iniciativas tentam preencher essa lacuna e merecem reconhecimento. A planilha constantemente atualizada do Polvo Manco e o Mapa dos Shows, organizado por Felipe Tellis, da Rádio Eldorado, são exemplos claros de como a própria cena tenta se organizar a partir de necessidades reais. Trabalhos como o do André Bola Show cumprem um papel semelhante ao transformar a agenda de shows em conteúdo recorrente, acessível e direto para quem está ativamente procurando aonde ir.
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Nesse mesmo movimento, a newsletter Ladrilho Hidráulico, organizada por Guilherme Werneck, cumpre um papel relevante ao reunir, de forma semanal, uma ampla agenda de shows e eventos na cidade de São Paulo. O foco está menos em contextualizar cada apresentação e mais em oferecer um ponto de consulta confiável e recorrente para quem quer acompanhar o que está acontecendo na cidade. O valor desse tipo de trabalho está na regularidade, na amplitude do recorte e na criação de hábito, algo cada vez mais raro em meio ao ruído constante.
O limite aparece quando toda essa responsabilidade recai sobre esforços individuais.
São iniciativas fundamentais, mas que funcionam como ilhas em meio a um volume cada vez maior de informações dispersas.
Quando nem estruturas consolidadas garantem público
Mesmo estruturas mais consolidadas enfrentam dificuldades na divulgação de shows. O SESC mantém uma programação mensal organizada e acessível. A Casa Natura comunica suas agendas com antecedência para a imprensa. Ainda assim, isso nem sempre se traduz em ingressos vendidos.
O dado incômodo é simples: ter informação disponível não garante que essa informação circule.
A dependência das redes sociais na divulgação de shows
Para casas de shows independentes, o cenário é ainda mais frágil. Sem orçamento para mídia, assessoria de imprensa ou ferramentas especializadas, a divulgação depende quase exclusivamente das redes sociais. Publica-se a agenda, insiste-se nos stories, impulsiona-se quando possível. O problema é que redes sociais não foram pensadas para organizar agenda cultural, mas para disputar atenção. E atenção se tornou um recurso escasso até para quem quer ir a shows.
Assessores de imprensa lidam com uma limitação parecida. São poucos os espaços que tratam agenda de shows como serviço contínuo. Já no universo dos produtores de conteúdo em vídeo e UGCs, a informação aparece frequentemente fragmentada. Ou é excessivamente segmentada, ou diluída em formatos pensados para engajamento, não para utilidade. Criar hábito de consulta leva tempo, e poucos canais conseguiram ocupar esse lugar.
Mapas e plataformas em fase inicial
O violinista Diego Cosamores também se insere nesse movimento ao desenvolver o Rolezim.com, site que atualmente passa por uma fase de testes em pré-lançamento. A proposta envolve um mapa de eventos de música ao vivo e a criação de perfis de artistas, ainda em estágio embrionário, mas que aponta para uma tentativa de organizar informações e experimentar novos caminhos para a circulação de agenda no circuito independente.
O Mapa dos Festivais, idealizado por Juli Baldi, atua como uma plataforma de conteúdo dedicada a reunir e organizar, em um único espaço, informações sobre festivais de música que acontecem em diferentes regiões do Brasil. Ao centralizar dados como datas, locais e perfis dos eventos, o projeto facilita o planejamento do público e contribui para dar visibilidade a festivais que, muitas vezes, ficam dispersos na comunicação digital.
Informar não basta: a falta de desejo na comunicação dos shows
Existe ainda um ponto menos discutido, mas central: como os shows são comunicados.
Na maioria das vezes, a divulgação se limita ao serviço básico. Nome da banda, data, local e valor do ingresso. A informação está ali, mas o desejo não é ativado. Raramente se fala sobre como é o show, que tipo de experiência o público pode esperar, se o espaço é acolhedor, se a noite faz sentido para quem está indo.
Em um cenário de excesso de oferta, informar já não basta. O público não decide apenas com base no nome do artista. Ele quer saber se o show é intenso ou intimista, se o lugar é confortável, se dá para ir sozinho, se aquela noite conversa com seu momento. Quando essa narrativa não existe, o show vira apenas mais um item perdido em uma timeline congestionada.
Curiosamente, esse contexto quase sempre surge depois. Na conversa pós-show, quando alguém diz que foi incrível e lamenta que pouca gente soube. Talvez o desafio esteja justamente aí: não apenas divulgar que um show vai acontecer, mas explicar por que ele importa.
A tentativa do Hits Perdidos de organizar a agenda de shows
Do lado do Hits Perdidos, ao longo de 2024, tentamos diferentes caminhos. Organizamos agendas anuais de casas de shows, compilações periódicas de shows independentes e festivais, recortes por período. A sensação constante foi de nadar contra a corrente. A quantidade de informação recebida diariamente é tão grande que manter atenção e recorrência se tornou um desafio estrutural. Não falta vontade de informar, falta um modelo que funcione para quem divulga e para quem procura.
Quando o problema aparece no público
O termômetro mais claro desse problema está no público. Quantas vezes artistas são cobrados para voltar a uma cidade poucos dias depois de terem tocado ali. Quantas produções enfrentam vendas baixas não por falta de interesse, nem por preços incompatíveis, mas simplesmente porque a informação sobre o show não chegou a tempo — ou não chegou de forma convincente.
Divulgar mais ou divulgar melhor?
Isso levanta uma pergunta incômoda, mas necessária: o problema está na divulgação dos shows independentes ou na forma como essa informação é organizada e apresentada?
Se a cena musical independente cresceu, se a oferta de shows aumentou e se o público existe, talvez o próximo passo não seja anunciar mais, e sim anunciar melhor. Pensar menos em alcance e mais em circulação. Menos em posts isolados e mais em sistemas, hábitos, contexto e colaboração.
Este texto não traz respostas prontas. Ele tenta abrir uma conversa urgente. Porque, enquanto a informação sobre shows independentes continuar se perdendo no caminho, artistas seguirão tocando para salas menores do que poderiam, e o público seguirá descobrindo bons shows depois que eles já aconteceram.

