Mapa ilustrado das casas de shows da música autoral na Grande São Paulo. Ilustrações de Isabella Pontes.
Um mapeamento da nova cena musical independente de São Paulo no pós-pandemia
Mapear a cena musical de uma cidade nunca é apenas um exercício de organização. É, antes de tudo, uma forma de entender como a música pulsa, se desloca e cria territórios afetivos. Em 2016, esse impulso me levou ao Ruídos Urbanos, um projeto que nasceu no Tumblr com a missão de catalogar o circuito de música autoral independente. Ao todo, foram 125 casas de shows mapeadas, espalhadas por 16 macrorregiões, sempre com atenção à relação entre bairro, público e som.
Para além do registro digital, o projeto ocupou a cidade de forma física: colamos cartazes com QR Codes em cada região, direcionando para playlists de selos independentes brasileiros ativos naquele momento. A iniciativa chamou atenção e acabou virando debate no Centro Cultural da Penha, em agosto daquele ano — um sinal claro de que mapear também é criar conversa, memória e circulação (saiba mais).
Quase uma década depois, esbarrei em um projeto que dialoga diretamente com aquele espírito, agora adaptado aos tempos atuais. O jornalista Alexandre Bazzan, à frente da The Music Newsletter, assumiu um desafio semelhante: mapear a nova cena musical da cidade de São Paulo. O resultado é um guia robusto que reúne 231 artistas emergentes, todos com até cinco anos de atividade, além de um levantamento de 85 casas de shows na Grande São Paulo.
O material se desdobra em diferentes formatos — planilha, pins no Google Maps e playlist —, refletindo não só a diversidade da cena, mas também as múltiplas formas de consumo e descoberta musical hoje. Como o próprio Bazzan ressalta em sua newsletter, publicada na plataforma Substack:
“Este levantamento não pretende ser definitivo. Ele é um recorte possível de uma cena viva, em expansão, e que continua mudando.”
Entre os desdobramentos do projeto, estão:
– o mapa ilustrado por Isabella Pontes, com 44 casas de shows;
– o Google Maps com todas as casas catalogadas;
– a planilha com bandas da Grande São Paulo com até cinco anos de atividade;
– e uma playlist oficial com mais de 230 projetos autorais da cena independente.
As ilustrações de Isabella Pontes, que retratam fachadas e espaços da música autoral paulistana, reforçam o caráter documental e afetivo do levantamento, transformando dados em paisagem cultural.
Segundo Alexandre Bazzan, embora o levantamento tenha lacunas inevitáveis, os números indicam um movimento claro:
“Os dados apontam para um crescimento consistente na formação de bandas a partir de 2022, quando a pandemia começou a virar página.”
Entre os critérios adotados, ele destaca a recorrência de estilos como rock, indie, MPB, punk/hardcore e emo, sempre priorizando, quando possível, a autodenominação dos próprios artistas. Já no recorte das casas de shows, surge um dado revelador:
“Pode haver um efeito de bolha ou uma concentração real, mas o fato é que a Zona Oeste se destaca como principal polo de palcos dedicados a artistas autorais iniciantes.”
O ponto de partida foram bandas e casas já conhecidas pelo jornalista. A partir daí, o método seguiu um caminho orgânico: observar onde essas bandas tocavam, com quem dividiam palco e como essas redes se cruzavam.
O processo ganhou fôlego com contribuições vindas das redes sociais e, quando começou a estagnar, recorreu também a três inteligências artificiais, usadas em duas frentes:
– bandas que tocaram em 2025 nas casas já mapeadas;
– e bandas que dividiram palco com artistas previamente identificados.
Mesmo assim, Bazzan reconhece os limites do recorte:
“Há dezenas de bandas espalhadas por São Paulo fazendo acontecer que eu ainda não consegui encontrar. Essa planilha vai continuar no ar enquanto houver Google. Se você conhecer alguma banda ou casa de shows que deveria estar aqui, me avise.”
Mais do que um inventário, o projeto se coloca como um organismo aberto — em constante atualização — e reforça algo que o Hits Perdidos acompanha de perto há anos: a cena independente não para, não se fecha e nunca cabe inteira em um único mapa.
This post was published on 27 de janeiro de 2026 10:34 pm
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