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Entre oceanos e referências, Bemti encontra sua forma de fazer pop em “Adeus Atlântico”

Em Adeus Atlântico, Bemti apresenta um pop autoral que cruza viola caipira, indie pop e referências globais, refletindo sobre identidade, deslocamento e pertencimento.

Encontrar a identidade e a sonoridade de um projeto é sempre um desafio para todos os artistas. Muitas vezes vem com o tempo. Algo que vai desabrochando e entre trocas e o polimento vai aparecendo de forma mais latente. Quando o artista consegue conectar referências de toda uma vida e cruzar os múltiplos universos que se insere, a identificação parece ficar mais fácil. O mineiro Bemti é desses que desde sua banda folk traz consigo vestígios do universo do indie pop e rock dos anos 2000.

Por mais que empunhasse sua viola de 10 cordas que dialoga com suas raízes e domina seus estudos ao longo de mais de uma década, o músico tem uma pesquisa voltada para o pop alternativo daquela década em que formou sua identidade musical. Em Adeus Atlântico, lançado no dia 22 de janeiro, ele parece querer construir sua forma de produzir pop.

Mas afinal, o que ainda pode ser chamado de pop em 2026? Levei essa provocação ao músico, no palco do Centro Cultural São Paulo. Uma pergunta ardilosa. Mesmo quando parece haver uma identidade consolidada, ela se revela cada vez mais fragmentada em um mundo hiperconectado, onde referências, públicos e linguagens se pulverizam em tempo real.

Não é à toa que durante sua odisseia e parcerias que trouxe para o disco estilos como rap, amapiano, MPB, folk, indie pop, aparecem no retrovisor e conectam os oceanos que o álbum contempla.


Bemti lança seu terceiro álbum de estúdio, “Adeus Atlântico”. – Foto Por: João Terezani

Adeus Atlântico

Nele encontramos parcerias com FBC e Luar em “Euforia”; Marissol Mwaba (Brasil/Congo) em “Lua em Libra”; Alex D’Alva (Portugal/Angola) em “Miragem”; Fyfe Dangerfield (Reino Unido, vocalista da banda Guillemots) e a carioca THU em “Só Pra Ter Você”; e Haroldo Bontempo, conterrâneo de Bemti, em “Quase Sertão”. 

Na produção musical, o artista reuniu nomes como Luis Calil (Cambriana), que produziu seus dois álbuns anteriores, Jojô Inácio (Catto, Tagua Tagua e Johnny Hooker), Francisca Barreto (Damien Rice e Nina Maia) e Victor Kroner (Martin), além do argentino Martín Scian na masterização (Rubel e Ana Frango Elétrico).

Cada uma delas conta uma história, cada encontro sendo único, gravado à distância, mas materializando passagens, entre romances, descobertas, experimentos de quem durante o processo passou uma temporada em Portugal.

“Essas colaborações são parte estruturante da narrativa do álbum. Morei alguns meses em Portugal, fiquei um mês na Inglaterra, e algumas temporadas no Rio e na Bahia.

Eu tinha o desejo de costurar todas essas paisagens e pessoas vistas pelos olhos de um mineiro que saiu do interior e da casa dos pais com 14 anos, mas que ainda toca a Viola Caipira. Uma sensação de sempre estar me deslocando para outro lugar, mas sempre me ver diante do mesmo oceano”, revela o artista.

O sentimento de se questionar como um eterno viajante procurando fincar raízes em algum lugar é um conflito que aparece ao longo da sua narrativa. Esta, muitas vezes, dramática, cheia de dores no campo subjetivo, mas que nas melodias e referências soam leves. Com metáforas que permitem que o ouvinte se aproprie das histórias e faça correlações com o seu dia a dia.

E talvez o pop viva justamente nisso. Essa fácil identificação, essa assimilação que permite que nos sentirmos como se estivéssemos tomando um café com o músico ainda nos tempos de infância no interior de Minas. Esta carga de se sentir um eterno viajante em busca de entender seu espaço no mundo é um sentimento que muitos que vão tentar a vida longe de casa se identificam. Encontrar seu lugar ao sol, por mais que no caminho muita saudade e batalhas façam parte desta escolha que nunca é fácil.

As curvas da viagem

Essa carga de humanidade é pedra fundamental para compreender as curvas que o disco percorre. Um disco que te convida para um passeio entre as águas, entre camadas e histórias que de tão particulares poderiam ser suas. Muito disso pelas escolhas que faz em um processo delicado, vulnerável e pronto para construir diálogos.

Bemti enfim entende que sua forma de produzir pop, por mais que procure diálogos com estéticas e colaboradores oriundos de outros universos musicais, é através da sua viola incorporar elementos do indie pop das danceterias de outrora, compreendendo que isto faz parte da persona musical e da cena que se sente parte.

Ao invés de pegar um banquinho cômodo em um nicho gigantesco que curiosamente é chamado de “Nova MPB”, ele assume que seu som é sim uma mistura de vivências que percorrem esse caminho do indie e que de certa forma é sua própria forma de assinar suas composições.

Nele ainda vive o menino que ama grupos como Beirut, Sigur Rós, The Avalanches, mas que sente que através dos diálogos e das vivências procura diminuir distâncias para conversar com mais gente interessada por percorrer um caminho que nem todos têm coragem de enfrentar.

Nem indie, nem pop, ele faz a música que gostaria de ouvir.

Mesmo que para isso tenha que construir seu próprio nicho.

Em tempos de segmentações e consumo diferente por parte dos mais jovens, ele convida o ouvinte para uma viagem e redescobrir toda uma época.

Com vestígios de memórias, juventude e um amplo repertório de pesquisas estéticas, Bemti revisita suas vivências e transformações a bordo da embarcação que carinhosamente batizou de Adeus Atlântico, levando no bagageiro saudades e histórias acumuladas de uma vida inteira.


This post was published on 27 de janeiro de 2026 6:50 pm

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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