Relatório Anual da Luminate 2025 expõe o paradoxo da música: nunca se lançou tanto, nunca foi tão difícil importar

Relatório Anual da Luminate 2025 expõe o paradoxo da música: nunca se lançou tanto, nunca foi tão difícil importar

Nunca foi tão fácil lançar música. E nunca foi tão difícil fazer com que ela importe.

O Relatório Anual da Luminate 2025 escancara esse paradoxo logo nos primeiros dados. O mercado cresce, os números batem recordes e as plataformas nunca receberam tantos lançamentos. Ao mesmo tempo, a atenção segue concentrada, o ruído aumenta e a maioria das músicas simplesmente não é ouvida.

Mais do que um levantamento estatístico, o relatório funciona como um diagnóstico cultural da indústria da música contemporânea. Em meio ao excesso de oferta, à fragmentação do consumo e à disputa por legitimidade simbólica, a pergunta que atravessa todo o documento é direta: o que ainda gera valor real em um mercado saturado?

Com mais de 30 trilhões de pontos de dados cruzando música, cinema e televisão, a Luminate observa a música como parte de um ecossistema maior. Ela deixou de ser um produto isolado para se tornar uma engrenagem cultural que atravessa plataformas, narrativas e comportamentos.


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O artista transmídia virou o novo padrão da indústria da música

Segundo Rob Jonas, CEO da Luminate, 2025 consolida de vez o artista transmídia como figura central do mercado musical. A descoberta não acontece mais em um único lugar. Rádio, playlists, TikTok ou imprensa especializada já não funcionam sozinhos.

O crescimento de +16% no streaming do Led Zeppelin após o documentário Becoming Led Zeppelin, da Netflix, e a trajetória de Ariana Grande conectando cinema, Broadway e charts globais com Wicked ajudam a entender essa lógica. A relevância hoje nasce do cruzamento entre linguagens. Quem não circula, desaparece.

Mais do que talento, a disputa passa a ser por presença. Não se trata apenas de fazer boa música, mas de existir em múltiplos territórios simbólicos ao mesmo tempo.

Games, documentários e experiências digitais assumem o papel de catalisadores

Se em outros tempos o rádio era o principal motor de descoberta, hoje plataformas como o Fortnite cumprem uma função parecida. A Daft Punk Experience, lançada em setembro de 2025, impulsionou o catálogo do duo em +47,9% nos Estados Unidos e +44,6% globalmente, além de gerar 1,1 milhão de streams interativos em sua primeira semana.

Esses números mostram que o consumo musical passou a ser consequência de experiências culturais mais amplas. Um documentário bem posicionado ou uma ação digital bem pensada não cria apenas um pico momentâneo. Ele redefine o patamar de atenção de um artista e sustenta catálogos por longos períodos.

Top 10 Documentários Musicais do Ano

Segundo o Relatório Anual da Luminate 2025, Becoming Led Zeppelin ocupa o 1º lugar em minutos assistidos, impulsionando os streams globais de áudio sob demanda da icônica banda de rock ao maior pico semanal de sua história até então: 40,4 milhões na semana encerrada em 27/02/2025.

Além disso, os streams do Led Zeppelin passaram a sustentar uma nova média-base de 38 milhões por semana até 01/01/2026, o que representa um crescimento de +16% em relação ao período anterior.

  1. Becoming Led Zeppelin (Netflix)
  2. Selena y Los Dinos (Netflix)
  3. Taylor Swif: The Eras Tour – The Final Show (Disney+)
  4. Return of the King: The Fall and Rise of Elvis Presley (Netflix)
  5. Yacht Rock: A Dockumentary (HBO Max)
  6. Ozzy Osbourne: No Escape From Now (Paramount+)
  7. Avicii: I’m Tim (Netflix)
  8. Sly Lives! (AKA the Burden of Black Genius) (Disney+)
  9. Stans (Paramount+)
  10. Carole King & James Taylor: Just Call Out My Name (HBO Max)

Desde 2018, Netflix e Paramount+ lideram em número de estreias de novos documentários musicais. Trata-se de títulos inéditos, nunca antes exibidos, nos quais a própria plataforma aparece listada como distribuidora de origem.

Serviços de Streaming em 2025

Quase metade (48,9%) de todos os streams premium globais vem de apenas quatro territórios: Estados Unidos, México, Brasil e Alemanha

Embora a Índia seja predominantemente um mercado sustentado por publicidade (84%), seus streams premium cresceram +42% neste ano, evidenciando seu enorme potencial.

A Índia foi o 4º país que mais adicionou streams premium ao total de seu mercado em 2025. Caso o país convertesse apenas 5% a mais de seus streams com anúncios em streams premium, isso resultaria em 98 bilhões de streams premium, colocando a Índia na 10ª posição mundial em volume de streaming premium.

No ranking de mercados premium, o Japão ocupa a 5ª posição em volume de streams premium, com crescimento de +10,3% em relação ao ano anterior. Vale destacar que a porcentagem da Geração Z japonesa que utiliza streaming de música premium subiu para 42%, ante 36% em 2023

Paralelamente, os relatos de uso de streaming gratuito diminuíram levemente desde 2023, indicando uma conversão bem-sucedida de usuários gratuitos para serviços premium.

Música feita por IA ainda enfrenta resistência do público

Quando o assunto é inteligência artificial na música, o relatório aponta um cenário longe de consenso. Cerca de 45% do público afirma sentir desconforto com o uso de IA na criação de composições originais.

Rob Jonas resume bem o dilema ao afirmar que a discussão não é apenas quando artistas de IA chegarão ao topo das paradas, mas se o público estará disposto a conceder a eles a mesma legitimidade cultural atribuída a criadores humanos.

Casos como Xania Monet, Breaking Rust e Cain Walker mostram que a tecnologia já ocupa espaço real no mercado. Ao mesmo tempo, o declínio das vendas digitais reduz o esforço necessário para alcançar o topo de rankings específicos, o que relativiza parte desse impacto.

A questão central segue aberta: o que ainda diferencia a criação humana em um ambiente de conteúdo infinito?

Cresce a distribuição independente, mas a maioria das músicas não encontra público

Em 2025, segundo o Relatório Anual da Luminate 2025 uma média de 106 mil ISRCs foi entregue diariamente às plataformas de streaming, um aumento de +7% em relação ao ano anterior. Desse total, 96,2% dos lançamentos vieram da distribuição independente.

O dado parece positivo, mas esconde um desequilíbrio importante. Cerca de 88% das faixas lançadas no ano não ultrapassaram 1 mil streams. Além disso, 86% do crescimento líquido de ISRCs está concentrado em músicas com 100 streams ou menos.

A autonomia aumentou, mas a atenção não se redistribuiu. O mercado continua concentrado no topo, enquanto a base cresce em silêncio.

Rock, música latina e a disputa por relevância regional

Fora dos Estados Unidos, o rock voltou a registrar crescimento em países como Canadá, Tailândia, Indonésia, Reino Unido e Filipinas. Já no mercado norte-americano, a música latina ampliou ainda mais sua força no streaming premium, saltando de 58% em 2020 para 70% em 2025.

Globalmente, quase metade dos streams premium está concentrada em quatro países: Estados Unidos, México, Brasil e Alemanha. O Brasil responde por 5,7% do mercado global e ocupa a terceira posição em volume total de execuções.

Na América Latina, o México se consolida como principal motor de crescimento ao adicionar +50,9 bilhões de streams premium sob demanda em 2025.

O vinil cresce como experiência e valor percebido

Os dados do Relatório Anual da Luminate 2025 sobre consumo de vinil nos Estados Unidos ajudam a desmontar a ideia de que o formato vive apenas de nostalgia. Compradores que adquirem discos via D2C ou em lojas independentes gastam mais com shows e demonstram maior satisfação com o valor da música física.

O perfil desse público também muda. Millennials lideram o crescimento, consumidores de maior renda ganham espaço e quase metade dos compradores já pertence a grupos étnicos diversos. O vinil se consolida menos como suporte e mais como experiência cultural.

Consumo de Discos de Vinil nos EUA

Compradores de vinil tanto no modelo D2C (venda direta ao consumidor) quanto em lojas independentes de discos apresentam um gasto maior com shows de música ao vivo (+33% e +22%, respectivamente) em relação ao total de compradores de vinil.

Diversidade

Os compradores de vinil estão se tornando mais multiculturais: afro-americanos, asiático-americanos, hispânicos e outros grupos étnicos — coletivamente — já representam quase metade de todos os compradores de vinil (46%), um aumento de +18% em relação a 2024.

Millennials

Os millennials foram o grupo que mais aumentou a compra de vinil desde o 3º trimestre de 2024: 18,7% dos ouvintes de música dessa faixa etária afirmam ter comprado vinil no último ano — um crescimento de +43% em comparação a 2024.

Compradores de lojas independentes

Consumidores que compram vinil em lojas independentes de discos demonstram maior satisfação (+13%) com o valor que obtêm da música física, em comparação com o comprador médio de vinil.

Renda disponível

Consumidores de maior poder aquisitivo (renda familiar anual acima de US$ 100 mil) passaram a representar uma parcela significativamente maior do público comprador de vinil em relação a 2024 (+36%), sendo que quase um terço desse grupo agora se enquadra nesse perfil.

Direct-to-Consumer (D2C)

Os compradores de vinil no modelo D2C estão fortemente concentrados entre Geração Z e Millennials, que juntos compõem quase 80% desse público.

Compradores do varejo de massa

Aqueles que compram vinil exclusivamente em grandes varejistas do mercado de massa apresentam maior afinidade com K-pop, música cristã/gospel e música infantil.

Brasil segue forte no consumo, mas ainda enfrenta desafios na exportação

No ranking global de poder de exportação da Luminate, o Brasil avança impulsionado pela música latina e pela circulação internacional de artistas como MC Tuto.

Por exemplo, se um artista ou gravadora estrangeira tiver interesse em entrar no Brasil, uma colaboração com um artista brasileiro local pode facilitar esse processo, devido à taxa excepcionalmente alta de consumo de streaming de artistas nacionais no país (75,2%).

Mercados mais e menos receptivos a música estrangeira

Importação / Exportação: país de origem

Ásia

+ local – Índia
79,2% dos streams totais sob demanda (áudio + vídeo) vêm de artistas indianos locais.

Mais aberta à importação dentro da região – Taiwan
45,7% dos streams são de artistas de outros países da própria região.

Mais aberta à importação fora da região – Filipinas
61,4% dos streams são de artistas de países de fora da região.

Europa

+ local – Turquia
69,9% dos streams totais sob demanda (áudio + vídeo) vêm de artistas turcos locais.

Mais aberta à importação dentro da região – Suíça
51,8% dos streams são de artistas de outros países da região.

Mais aberta à importação fora da região – Portugal
69,4% dos streams são de artistas de países fora da região.

Um mercado maior, mais ruidoso e cada vez mais competitivo

O Relatório Anual da Luminate 2025 deixa claro que o crescimento da indústria não elimina suas tensões. O excesso de lançamentos convive com a concentração de atenção, e a tecnologia amplia possibilidades ao mesmo tempo, em que intensifica disputas simbólicas.

Em um cenário saturado, relevância passa menos por volume e mais por contexto. A música continua central na cultura contemporânea, mas só permanece visível quando consegue atravessar plataformas, narrativas e públicos de forma consistente.

Top 10 Países Globais

Classificados pelo volume total de streaming (Áudio + Vídeo em contas premium)

  1. Estados Unidos1,5 trilhão 
  2. Índia489,9 bilhões 
  3. México461,4 bilhões 
  4. Brasil410,2 bilhões 
  5. Alemanha232,0 bilhões 
  6. Reino Unido222,5 bilhões 
  7. Japão199,3 bilhões 
  8. Indonésia178,9 bilhões 
  9. Canadá157,9 bilhões 
  10. França148,2 bilhões 

Fonte: dados de consumo musical da Luminate

Top 10 Músicas Globais
Streams de áudio sob demanda

Posição Artista Título Streams de áudio sob demanda
1 Lady Gaga & Bruno Mars “Die With A Smile” 2,858 bilhões
2 HUNTR / X: EJAE, Audrey Nuna & REI AMI “Golden” 2,430 bilhões
3 Alex Warren “Ordinary” 2,403 bilhões
4 ROSÉ & Bruno Mars “APT.” 2,326 bilhões
5 Billie Eilish “BIRDS OF A FEATHER” 2,133 bilhões
6 Bad Bunny “DtMF” 1,701 bilhão
7 Kendrick Lamar & SZA “luther” 1,672 bilhão
8 Benson Boone “Beautiful Things” 1,630 bilhão
9 sombr “back to friends” 1,587 bilhão
10 Gracie Abrams “That’s So True” 1,544 bilhão

Top 10 Músicas Globais
Streams de vídeo sob demanda

Posição Artista Título Streams de vídeo sob demanda
1 CoComelon “Wheels On The Bus” 2,016 bilhões
2 ROSÉ & Bruno Mars “APT.” 1,403 bilhão
3 Lady Gaga & Bruno Mars “Die With A Smile” 1,266 bilhão
4 HUNTR / X: EJAE, Audrey Nuna & REI AMI “Golden” 1,146 bilhão
5 Aishwarya Majmudar “Aaj Ni Raat” 0,747 bilhão
6 Tanishk Bagchi, Faheem Abdullah, Arslan Nizami, Irshad Kamil “Saiyaara” 0,740 bilhão
7 Lalit Sen, Chander “Shree Hanuman Chalisa” 0,705 bilhão
8 Afusic & AliSoomroMusic “Pal Pal” 0,648 bilhão
9 Pinkfong “Baby Shark” 0,628 bilhão
10 El Payaso Plim Plim “Abejita Chiquitita” 0,554 bilhão

 

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