Canções que precisam de tempo para existir: a aposta de Teago Oliveira em “Canções do Velho Mundo”
Bate-papo com Teago Oliveira sobre “Canções do Velho Mundo”. – Foto Por: Duane Carvalho
Muita gente da geração de Teago Oliveira cresceu ouvindo vinil, viu a transição para o CD, depois para o streaming. “Tem aquela cena clássica de você achar a fita ou o vinil no porão de alguém, ou no quarto velho do tio, e ligar e ouvir a parada, e ter aquela mágica, né?”, lembra o cantor. É dessa mágica e dessa tensão entre passado e presente que nasce Canções do Velho Mundo, seu segundo disco solo.
O título não é nostalgia. É resistência. “Eu entendo esse mundo velho como algo que não tá no museu“, explica ele. “É um negócio que é de agora, toma forma na forma de pensar da gente, no afeto mesmo, nas coisas que a gente usa.”
O título do álbum surgiu dessa ideia de recolher bagagem, de trazer sinais do passado para o presente e perguntar: como é que a gente segue? Para Teago, essa pergunta não é nostálgica, mas urgente: “Nós estamos perdendo velhos hábitos porque algo está tirando eles da gente. E talvez seja bom a gente olhar para frente e perguntar como é que a gente consegue ter velhos e bons hábitos no mundo de hoje, sabe?”
Juventude: lema de guerra, não um epitáfio
A faixa de abertura do disco, “Minha Juventude Acabou”, poderia soar como uma despedida melancólica. Mas Teago é rápido em desfazer o mal-entendido. Não é tipo ‘Minha Juventude Acabou’, tipo Game Over, tipo assim: fim, sabe? É mais como algo da juventude que mudou de forma radical e preciso dar um jeito nisso.”
A canção foi a primeira que ele gravou para o álbum e funciona quase como um manifesto. “Tipo assim: a juventude que eu conheci acabou, mas agora vamos pra guerra! E o que é que permanece aqui para construir a partir de agora?‘ Esse é o conceito”, diz. Para ele, não se trata de mau-humor, mas de vitória. “Pô, vencemos, sabe? É uma urgência em reivindicar aquilo que a juventude ainda pode dar, né? E ainda tem lenha pra queimar ainda nesse mundo.”

Bichos, pessoas e o que importa
Se “Minha Juventude Acabou” abre o disco com essa urgência, “Vida de Bicho”, segundo single do disco a ser lançado, trouxe outra camada de conexão com o público. Mas Teago avisa: a canção não é exatamente sobre desacelerar.
“Eu fiz ela observando os bichos aqui de casa. Eu tenho um gato, enfim, e olhando os bichos da rua também. Foi um processo de parar e observar, assim, sabe? E de se conectar com o lado mais humano da vida, que é tipo… interação, né?”
A música descreve a vida dos bichos conversando entre si, mas aceita múltiplas interpretações. “Pode ser um casal de gente mesmo, um casal de pessoas na rua, sabe?” Para Teago, apaixonado declarado por animais, a faixa é menos sobre desacelerar e mais sobre observar e se permitir estar presente.
O pé no analógico e o olho crítico no digital
Teago montou um estúdio em casa para gravar “Canções do Velho Mundo”. Não um home studio amador, ele faz questão de esclarecer, mas sim, um espaço onde consegue “retirar uma qualidade profissional da música. E mais do que isso: um lugar onde se pode gravar com calma, sem pressa, sem prazo.
“O fato de você gravar em casa, você tem a curadoria dos seus próprios equipamentos, coisas que você tem uma relação íntima”, conta. E há beleza na limitação: “Você acaba se familiarizando com umas coisinhas que você tem, e delas você extrai algo, às vezes, que é especial.”
Quando o assunto é inteligência artificial e a vida mediada por telas, Teago não se posiciona como um tecnófobo. Muito pelo contrário. “Eu sou um cara extremamente ligado em tecnologia e apaixonado por tecnologia também“, afirma. Mas há uma linha clara que ele não cruza.
“Eu peço pro ChatGPT organizar os meus documentos e otimizar minhas tarefas, sabe? Eu não peço pra ele conselhos sobre como eu devo lidar com pessoas ou buscar o conforto de uma terapia.“ Para ele, a inteligência artificial pode ser pragmática, mas não vai te ajudar a melhorar enquanto ser humano. “Essa guerra é sua, sabe?”
A crítica de Teago não é à tecnologia em si, mas ao que ela está se tornando. “Essa aceleração toda feita por IA é apenas recurso para lucrar mais. E para grandes empresas lucrarem mais. Então a gente está cada vez mais trabalhando para alguém lá na ponta ganhar dinheiro.”
Ele prefere o elemento humano, o erro, a textura: “Eu acho que isso tem a ver com arte. É isso que dá a substância, assim.”, pontua ele.
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Inglês sem vergonha
Em meio às canções em português, há uma faixa em inglês: “Spaceships”, com participação do baterista norte-americano Eric Slick, do Dr. Dog. A colaboração surgiu naturalmente, numa conversa entre os dois. “Ele falou: ‘Ah, a gente deve colaborar’“, lembra Teago. “E aí eu falei: pô, eu tenho uma música que eu tô escrevendo em inglês.”
Não foi um gesto calculado. As músicas em outros idiomas simplesmente apareceram durante o processo. Teago começou fazendo grunge nos anos 2000, cantando em inglês, mas com o tempo foi ficando com vergonha disso. Para este disco, enfrentou com mais coragem. “A música tava toda pedindo pra ser em inglês, em português não tava legal a letra.”
Duração, pressa e o colapso inevitável
Num mundo onde milhares de músicas são lançadas todos os dias, Teago escolheu fazer canções de 5, 6 minutos e gravá-las com calma. “Eu tenho a sensação de que eu fiz um disco com a calma que eu precisava”, diz. “Se as pessoas têm dificuldade de ouvir, eu lamento muito e quero muito que elas escutem. Mas não vai ser fazendo música de um minuto e meio e apertando dois cliques, sabe?”
Ele observa o que chama de “saraivada de singles diários” e vê um sistema prestes a colapsar. “Cada vez mais os artistas ficam menores e apenas os maiores ficam maiores. É um retrato fiel do comportamento social fora do mundo das artes também.”
Mas Teago faz questão de esclarecer: o disco não é um tratado contra a pressa digital. “Música não é TCC”, brinca. “Não tem um sentido ‘eu quero falar sobre a pressa digital’. Eu acho que muita coisa foi pegando por conta do título, e às vezes o título é uma das coisas que menos importa no álbum.”
O que importa, para ele, é que as músicas rendem. E que ele possa olhar para trás sem arrependimento. “Quando o tempo passa, eu olho pra trás e escuto as músicas. Sou eu que vou me sentir mal ou bem com elas. Então o julgamento alheio tem pouco peso aqui, é mais o meu.”
Vaidade x Verdade
Em “Eu Nasci pra Você”, terceira faixa do disco, Teago canta: “Falta verdade e sobra ego nos artistas.” Segundo ele, é uma frase que mira a própria classe artística e até ele mesmo. “Não é que eu esteja numa posição acima de ninguém. Eu estou suscetível a também colocar a vaidade em primeiro plano.”
Mas há um diagnóstico claro: “Hoje em dia, a sensação que eu tenho é que você precisa ficar famoso pra depois fazer a música, né? E antigamente era o contrário: você ficava famoso porque você fez a música.” Para ele, essa inversão de lógica empurra a vaidade para o primeiro plano.
A proteção, se é que existe alguma, vem da observação. “O artista não inventa porra nenhuma, na verdade, né? Ele só descreve o mundo que ele vê. Então talvez se proteger é escrever sobre isso, também é observar.”
E há humildade na incerteza: “Mas eu tô suscetível também a cometer os mesmos equívocos que eu vejo hoje os artistas cometendo. E também… quem sabe isso não é equívoco? É uma forma também de você sobreviver ao mundo de hoje. A galera tá fritando. O mundo tá fritando. Então, de certa forma, eu não busco ter razão sobre as coisas que eu falo. Eu só falo as coisas. Se eu tô falando merda ou não… só o tempo dirá.”
O show que celebrará o disco ao vivo
No dia 14 de dezembro, Teago sobe ao palco em São Paulo para o show de lançamento de Canções do Velho Mundo. Serão sete músicos no palco e quase todos gravaram o disco, mas muitos nem conheciam direito as canções quando registraram suas partes. Agora, nos ensaios, algo novo está acontecendo.
“Deu pra sentir que deu uma vibe, assim, sabe? Uma vibe de banda legal. E uma liberdade também pra improviso“, conta. “As músicas têm uma carga emocional que ao vivo não se perde, sabe? Quando você toca, muito pelo contrário. A gente até gravou o ensaio, ficou se olhando… bicho, ensaiar mais duas vezes vai ficar melhor do que o disco, sabe?”
Será celebração e revelação ao mesmo tempo: “Celebração porque, assim… tanto tempo gravando, todo mundo ali revisitando, mergulhando na parada. E revelação porque tem coisa que, na hora, só ganha dimensão mesmo ao vivo. Tem coisa que ganha dimensão. Desencontros e Despedidas, que é a segunda música do disco, ao vivo ela arrepia, cria uma sensação de grandeza em quem está.
Sobre a reação do público, ele tem o desejo de que as pessoas participem, não apenas como espectadores, mas de serem cúmplices em verem algo saindo do papel:
“É um desenho muito independente, esse meu trabalho solo, então tem essa coisa de ver o negócio sair do papel e tomar vida ao vivo, sabe? Eu acho que vai ser bem massa esse show no dia 14. Geralmente eu não sou tão otimista, mas eu espero que seja um show massa, assim, que abra vários pontos de vista na minha forma de fazer e de ver a música.”
A busca que não acaba
Se há uma frase que resume o estado de espírito de Teago Oliveira neste momento musical, humano, existencial, é uma que está no disco: “Vou morrer tentando ser feliz.”
“É o grande barato da vida: você encontrar a felicidade nas coisas. É tipo como se fosse uma busca mesmo, que nunca acaba. Ser feliz é isso: é uma busca.”
E é essa busca entre o velho e o novo, entre a memória e o esquecimento, entre o erro humano e a perfeição artificial que move Canções do Velho Mundo. Um disco que respira, que dura, que resiste. Que insiste em existir pelo tempo que precisa e que faz com que você se identifique com cada faixa, sem ser capaz de identificar uma favorita, porque, se você tá na casa dos 30, cada uma delas vai te tocar de uma forma diferente.