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Catto transforma dor em manifesto de liberdade e cura em “CAMINHOS SELVAGENS”

Catto retorna em 2025 com seu quinto álbum de estúdio, CAMINHOS SELVAGENS, um trabalho que marca uma virada sonora e emocional em sua trajetória. Após o sucesso de Belezas São Coisas Acesas por Dentro (2023), que rendeu uma turnê nacional em tributo à icônica Gal Costa (1945–2022), a artista agora mergulha em um universo mais denso, cru e roqueiro — sem abandonar sua sensibilidade poética.

Sete anos após seu último trabalho autoral — indo na contramão das pressões do mercado — Catto apresenta, nesta quinta-feira (15), CAMINHOS SELVAGENS, seu quinto álbum de estúdio. Com 15 anos de trajetória na música independente, a artista materializa, nesta nova fase, um registro que estende sua linguagem para o campo cinematográfico, expondo suas feridas sem medo de julgamentos.

Nascida em Lajeado e criada em Porto Alegre, a artista se despe em “PARA YURI TODOS OS MEUS BEIJOS”, faixa que funciona como um tributo às memórias, lugares e romances vividos por lá. Essa visceralidade é a marca mais forte do disco, que reúne oito canções inéditas.


CATTO lança “CAMINHOS SELVAGENS”, seu quinto álbum de estúdio. – Foto Por: Ivi Maiga Bugrimenko (@ivimaigabugrimenko)

CATTO CAMINHOS SELVAGENS

A produção musical é assinada por Catto ao lado de Fabio Pinczowski e Jojo Inácio, parceiros de longa data. Toda a carga dramática e suas ambiências são resultado de um longo processo que começou com demos gravadas em seu próprio celular, amadurecendo até alcançar a intensidade orquestrada da versão final.

Esse cuidado contribui para a jornada do álbum, conferindo-lhe cores esperançosas, mesmo após uma trajetória marcada por dores, transformações, distanciamentos e as cicatrizes deixadas pela pandemia.

As referências sonoras vêm diretamente do rock alternativo dos anos 90, com guitarras sinuosas e atmosferas etéreas que guiam essa guinada mais pesada em relação aos lançamentos anteriores. É possível associar o álbum a nomes como The Smashing Pumpkins, The Cranberries, R.E.M. e Radiohead, cujas influências teatrais são incorporadas neste novo trabalho.

Compositora de praticamente todas as faixas, Catto imprime intensidade nos versos, que ganham vida própria. Para quem já assistiu a suas performances ao vivo, sabe como a interpretação nos palcos eleva ainda mais o trabalho. A única faixa composta em parceria é a que dá título ao álbum, “CAMINHOS SELVAGENS”, escrita em colaboração com César Lacerda.

CAMINHOS SELVAGENS foi gravado no Estúdio 12 Dólares (SP), por Fabio Pinczowski, Tofu Valsechi e Pedro Serapicos, o disco contou com participações de músicos como Michelle Abu, Felipe Puperi (Tagua Tagua) e Gabriel Mayall, Bruno Silveira e Magno Vito. A mixagem é de Tiago Abrahão (Make Love Studio – SP) e a masterização de Brian Lucey (Magic Garden Mastering – Los Angeles).

Visceral, Nu e Sem Rodeios

A cadência do desenrolar do disco é o que mais impressiona. Em outros tempos, poderia ser chamado de ópera-rock — termo que remete a medalhões de outras épocas —, mas sua construção evidencia uma jornada de cura. De forma onírica, Catto não tem medo de se expor, de seguir na contracorrente do pop e de se reinventar. A maneira como aborda o prazer e suas dores, sem pudores, revela como as cicatrizes continuam presentes e servem de força neste processo de cura.

As fases da jornada ganham forma em oito cenas cinematográficas. A faixa “EU TE AMO” ganhou um videoclipe dirigido por Juliana Robin, que retrata um hotel típico das beiras de estrada, sintetizando o espírito louco e desenfreado das paixões derradeiras. O clima de tensão, a experiência do desconhecido e a intensidade se desdobram em versos desesperados que transbordam.



“SOLIDÃO É UMA FESTA” segura o choro e permite uma conexão instantânea com quem passa por um momento de término. O drama ganha contornos de arranjos orquestrais, com pianos exaltando os aclives e as quebras de certezas. Nessa faixa, Catto desabafa para mostrar como a vulnerabilidade faz parte da vida e como histórias de amores intensos muitas vezes nos despedaçam.

A força da reconstrução artística

É a plasticidade das canções que constrói a ambientação ideal para essa fase de reconstrução artística, após um período de entressafra de lançamentos. O amadurecimento da artista revela que resistir vai muito além de palavras ao vento. Catto se reinventa e mostra que a vida, apesar de tudo, vale a pena ser vivida.

Manifesto sobre autoconhecimento e libertação

“CAMINHOS SELVAGENS”, faixa que dá nome ao disco, funciona como um poema-manifesto que condensa toda a carga emocional do trabalho. Com voz ainda mais protagonista, Catto canta sobre a jornada atravessada em um período conturbado — tanto pessoalmente quanto enquanto integrante de uma sociedade marcada por ciclos de retrocesso nas conquistas sociais. O verso que menciona “o país cheio de horror” expressa, de forma sutil, as dores e marcas da vivência coletiva dos últimos anos.

Ainda assim, a obra também celebra a emancipação. “MADRIGAL”, um dos destaques do álbum, trata do prazer e da liberdade com densidade emocional e arranjos de cordas épicos. Seus versos evocam uma atemporalidade rara, remetendo aos discos dos anos 90 e à quebra de paradigmas sobre transformação pessoal. O empoderamento surge com intensidade, potencializado por camadas vocais envolventes e expressivas.

A busca pela felicidade

“1001 Noites Is Over” aborda a busca pela felicidade, reconhecendo os caminhos tortuosos como parte essencial do processo. A faixa se transforma, ao longo da audição, em um punk rock descompromissado e vibrante — verdadeiro hino de superação para quem enfrenta a vida com coragem.

Encerramento entre cacos e recomeços

O álbum se encerra com “LEITE DERRAMADO”, faixa que reúne os pedaços de uma história para dizer adeus com deboche e ironia. Disfarçada de balada romântica, ela evoca referências da música popular brasileira, como Gal Costa e Ney Matogrosso. Com sua dramaticidade intensa, a canção embala corações partidos com melancolia e força. É entre dores, recomeços e guitarras que se expandem em um final sinestésico que o disco se despede — tão cortante quanto seu início.


This post was published on 15 de maio de 2025 5:35 pm

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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