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Festa Tempestade vai da nostalgia a esperança em disco que reverencia a Disco Music

Nesta sexta-feira (04/11) o duo paulistano Festa Tempestade, formado por Zé Ferraz (baixo, violão, vozes, percussão) e Guilherme Tieppo (pianos/sintetizadores, violão/guitarra, vozes, percussão), também conhecido como Chimpa, lança o seu homônimo álbum de estreia após uma série de singles. O momento da estreia não deixa de ser bastante simbólico após muito tempo de trabalho confeccionando o registro.

“Esse disco é um trabalho muito importante para nós. Depois de mais de 2 anos, uma pandemia e muitas madrugadas pra ficar pronto, finalmente conseguimos materializar o que sentimos que carregamos durante uma vida toda. Era algo que a gente sabia que tinha que fazer antes de morrer”, explica Zé Ferraz.

Um dos pontos mais interessantes do debut é justamente a riqueza das referências e lado onírico presente dentro da obra que na sutileza de seus arranjos permite uma experiência agradável para o ouvinte. Ora cintilante, ora dançante, ora contemplativo mas que consegue abraçar o ouvinte com a sua leveza.

“O disco transita entre a melancolia do Clube da Esquina, a discoteca dos Bee Gees, e a energia de Marcos Vale. Traz elementos sonoros e visuais dos anos 70/80 embalados em uma estética latina que gostamos muito. O resultado é som doce, cheio de percussão e com muitas harmonias vocais. Perfeito pra ouvir na estrada e em momentos de contemplação”, completa Ferraz

Sobre o nome escolhido para o projeto Guilherme até filosofa ao tentar explicar: “Festa e Tempestade são estados que ilustram a experiência de viver. Tem momentos pra chorar e pra dançar. Existe um ritmo constante entre esses estados. As letras do disco, às vezes mais etéreas, propõem aceitar esses momentos como parte natural da vida. É sobre contemplar a alegria e a tristeza do dia a dia, entendendo que as coisas vão continuar mudando”.


O duo Festa Tempestade lança seu debut nesta sexta-feira (04/11) – Foto Por: Ziza Rechtmann

Festa Tempestade Festa Tempestade (2022)

Dentro do universo que o duo encaixa o disco eles o auto-denomina, como “Tropical Disco”, uma mistura entre o espírito latino, a brasilidade e o som envolvente das discotecas das décadas de 70 e 80. É justamente a riqueza percussiva que desde “Vale” já abre os caminhos para o que está por vir por meio do existencialismo, assunto que ganhou ainda mais contornos durante o longo período de reclusão inerente a pandemia. O amor acaba também aparecendo, assim como o triângulo, tão forte em nossa música sertaneja. Já trazendo para si só a essência de misturar climas, melodias e possibilidades, uma marca da estreia dos paulistas.

“É um lançamento que resume nossos anos de influência musical tocando juntos, e é um momento especial nas nossas vidas. O disco mostra dois lados importantes nossos: um mais doce, esperançoso e melancólico, e outro mais divertido e dançante”, explica Tieppo sobre a narrativa e desenvolvimento da linguagem dentro da obra

Malemolência que em “Mexe” se faz presente, entre os arranjos de piano e sopro, texturas e brincadeiras com as sílabas das palavras, a sonoridade é construída de forma épica. Feito uma odisseia, ou até mesmo abertura digna da novela Celebridade (2003/2004), o cruzamento entre diferentes universos mostra a sua grandiosidade enquanto composição. Não é a toa que o soul reverbera ao longo do trabalho, eles mesmo citam o Chic, de Nile Rodgers, como uma das grandes influências.

O lado épico e a tragédia romanesca de nossos tempos ganham ares em uma faixa que se atenta para dilemas moderno mas sem perder a ginga e o lado dançante. Esse lado austero acaba se chocando com as melodias reverberantes e energia tropical. O lado mais contemplativo aparece em “Ar” que diminui o ritmo feito uma canção tribal para uma maior conexão com o outro plano.

Em sequência vem um dos pontos altos do álbum, a sensível e profunda “Vai Passar”. É na base da emoção que a canção acaba ganhando novos significados. Daquelas faixas ideais para ouvir ao fim de um dia onde nada deu certo para recalibrar as baterias.

“…Se por um acaso o seu rosto no espelho não reflete igual / toda incerteza do mundo vai passar / se faltou algo a mais para buscar / então pare de ser tão normal / esteja disposto para ver o que te espera lá /  Só não diga que não quer mais / e se você nascer / novamente voltar ao ponto de sonhar”, verso de “Vai Passar”, Festa Tempestade

As frequências da Festa

“Ai Se Eu Pudesse” carrega consigo o lado jazzy e traz em sua temática o campo das suposições que sempre dão um nó em nossa cabeça e poucas vezes contribuem para a resolução práticas dos problemas mundanos. Ela propõe reavaliar situações vividas sob uma perspectiva onde a reflexão parece fechar um ciclo mas ironicamente ainda existe um ar de nostalgia que tende a prender a sentimentos do passado. Os metais deixam a saudade ainda mais pulsante. Nostalgia que em “Daqui Pra Frente” também é contemplativa em uma espécie de diálogo consigo mesmo onde as emoções são o ponto de partida para a ressignificação no plano das ideias.

Abraçando a disco music e o funk, “Hermético” abre a parte final do disco. O inconsciente, o oculto, o sobrenatural e a sensibilidade ganham curvas em uma melodia lisérgica que nos convida a nos soltar. Entre jogos de palavras e uma psicodelia envolvente.

Já “Deixa Tremer” simboliza bastante o momento de transformação para poder vivenciar o novo que o disco acaba dialogando durante sua maior parte. Os elementos que vão do repente ao tropicalismo, passando pelo campo eletromagnético, se traduzem em diferentes, e elegantes, frequências para o ouvinte. Os caminhos sonoros da música fazem com que ela se reinvente ao longo do seu andamento e deixem ela ainda mais interessante do ponto de vista criativo. Entre camadas, lampejos e curvas sonoras.

Quem fecha o disco é “Céu”, uma vinheta que mistura o lado cru do analógico e com digital para permitir que novas histórias possam ganhar a luz do dia.

Produzido pelo duo, o material teve mixagem de Felipe Arêas e Pedro Garcia e masterização de Ricardo Garcia (Magic Master). Rodolfo Duarte e Fernando Sanches atuaram como técnicos de gravação.

Faixa a faixa por Festa Tempestade

1) Vale

“Vale” é a música ideal para abrir o disco, ela introduz o ouvinte ao universo do Festa Tempestade, tanto em questão de sonoridade como de conceito. Traz introspecção e expansão ao mesmo tempo, ilustrando a busca interna pelo entendimento da existência.

2) Mexe

“Mexe” é um mantra que tenta extrair o máximo de significado em poucas palavras. É sobre a sabedoria de saber mudar de ideia e ao mesmo tempo o cansaço que essa dinâmica exige. Sua sonoridade mistura misticismo, idade média e uma abertura de novela da Globo. Acima de tudo, é uma música feita para dançar.

3) Barato

A música mais festa do disco, “Barato” retrata a indignação com a falta de clareza e sensatez dos tempos atuais, com uma roupagem de música brasileira ao estilo Gil.

4) Ar

“Ar” é a música mais introspectiva do álbum. Trata-se de uma contemplação sincera da própria vida. Um mergulho de autoconhecimento junto a um vômito cansado. Ao ouvi-la, é possível sentir-se desacelerando e entrando em um estado meditativo.

5) Vai Passar

“Vai Passar” é bastante interpretativa e ressoa de forma diferente para cada pessoa. Fundamentalmente, é sobre aguentar firme e seguir em frente. A música é uma combinação de ritmo pulsante com partes de melodias bonitas, culminando em um final grandioso e emocionante.

6) Ai, Se Eu Pudesse

“Ai, Se Eu Pudesse” lembra o brega/chic dos anos 70/80, misturando elementos do Clube da Esquina, as cordas de Arthur Verocai e a emoção do pop Antena 1. A música coloca o ouvinte em um ambiente nostálgico e emotivo, porém com a consciência madura das coisas que já passaram.

7) Daqui Pra Frente

Uma música bastante ‘Tempestade’, “Daqui Pra Frente” é triste e esperançosa. Uma conversa consigo mesmo sobre o que já não faz mais sentido e precisa ser ressignificado, com a maturidade pra saber o que esperar do futuro.

8) Hermético

Uma música mística que ilustra o lado oculto do disco. Tem elementos de psicodelia e um mantra guiado pela percussão e pela linha de baixo.

9) Deixa Tremer

“Deixa Tremer” é talvez a música mais complexa do disco, e uma das que melhor ilustra o conceito do Festa Tempestade. Ela é sobre aceitação e transformações que a vida apresenta, com um conselho sincero para os momentos difíceis: “Deixa Tremer”.

10) Céu

“Céu” é a última música do disco, tem apenas pouco mais de um minuto. Trata-se de um respiro final, uma observação contemplativa com um sentimento de finalização de ciclo, para que novos começos possam vir.


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This post was published on 4 de novembro de 2022 10:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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