“O rock, o blues e o jazz se encontram no mesmo lugar e eu me encontro aqui” é a frase que ecoa na introdução de BXD in Jazz, disco de estreia do duo fluminense YOÙN. Narrativa que dialoga com Bluesman, do Baco Exu do Blues, e Abaixo de Zero: Hello Hell, do Black Alien. A busca ritmica e potência nos lembram também o poder catalisador do trio curitibano Tuyo em Pra Curar (2018).

De Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o duo YOÙN é composto por Shuna e Gian Pedro que já antes mesmo de lançar seu primeiro disco já vinham impressionando com o quão conectados com o espírito urbano, o swing e a identidade já era perceptível, seja em suas apresentações nas ruas como nos primeiros materiais oficiais a serem divulgados.

“As expectativas para a estreia do disco são altas. Desde o nosso primeiro lançamento, “Meu Grande Amor”, estamos cativando um público fiel que responde positivamente à nossa arte e às nossas músicas. Lançamos mais músicas que nos deram consistência e agora tanto público quanto crítica esperam uma movimentação mais efetiva do nosso som”, afirma Gian Pedro.

“O álbum vem para finalizar essa etapa, inserir um flow contemporâneo que pode definir uma nova fase na música brasileira e uma nova linguagem, onde acreditamos que o público pode consumir nossa música sem medo de uma sofisticação ou estética diferentes”, completa Shuna.


YOÙN no clipe Follow Me - Foto Por_Guto_Brown

YOÙN no clipe para “Follow Me” – Foto Por: Guto Brown


YOÙN BXD in Jazz

Para sua estreia eles contam com a produção musical é de Júlio Raposo, Lux Ferreira e Thiago Dom em coprodução com a equipe JOINT – Carlos do Complexo, Dudu Kaplan e Junior Neves.  Já a direção musical é de Júlio Raposo em parceria com os artistas Shuna e Gian Pedro e a produção executiva pelo selo carioca JOINT e Pedro Bonn. Leo Gandelman também contribui para o debut em uma das faixas.

“Follow Me”

Como forma de protestar contra a realidade social e o preconceito, eles também apresentam hoje o clipe para “Follow Me” para colocar o ouvinte dentro do cotidiano vivido pelos músicos.

Nele eles trazem pessoas pretas para um campo de golf, local onde na maioria das vezes é ocupado majoritariamente pela elite branca. Um bom cartão de visitas para entrar no flow do disco que traz narrativas de um Brasil real.

Na produção eles mostram a parte recompensadora do sucesso de seu trabalho, jogando para o público uma imagem de confiança e poder. Em tempos de pandemia a música tem tido exatamente esse papel: o de trazer alegria e alimento para a alma em tempos difíceis.



O Disco

Depois da introdução que direciona os caminhos. “Só Love” se entrega as garras do amor com direito a minimalismo, trip hop, groove do soul e um sentimento que cresce a cada repetição do refrão e vocais com referências do corais gospel. O arranjo de cordas de Lux Ferreira deixa tudo ainda mais intenso.

“Follow Me” se conecta com as ruas (que saudades de um rolê!). Com direito a referências do trap, soul e o beat de Carlos do Complexo, a faixa traz para si o sentimento de se conectar com as alegrias e pessoas que importam em nossa vida. Por mais que muitas vezes o mundo pareça estar se despedaçando, a canção nos lembra a importância de para celebrar as pequenas conquistas do dia a dia.

“Meu Grande Amor” tem uma importância gigante em se fazer presente no disco, visto que foi um dos singles que abriu as portas para o trabalho do YOÙN aparecer para todo o país. Talvez seja a faixa que mais condense as texturas e o caldeirão de referências estéticas do projeto.

Do rap ao groove do jazz e do soul, o sentimento de positividade para abraçar o que o mundo tem a nos entregar e o plano dos sonhos reverberam no horizonte. Indo dos prazeres aos planos futuro mas sem esquecer das batalhas que ajudaram a construir a longa caminhada.

“Difícil Explicar” tem um excelente introdução com beats reverberantes em uma balada R&B com muito peso e sentimentos à flor da pele. O trabalho de timbres do duo impressiona e arranca o fôlego com direito ainda a guitarras bluseiras que fazem com que a órbita da canção se desloque para outros planos. A quebra de ritmo e arranjos são um show a parte com direito a muito groove e pressão nas linhas de baixo a lá Nile Rodgers.

A ancestralidade do ijexá vai de encontro com a bossa nova e a psicodelia na reverberante “Jazz” para discorrer sobre a intimidade das trocas de olhares ao afeto do coração de quem ama sem limites. A faixa ainda conta com a participação do baterista Thiago Dom. Altamente recomendo para fãs de Black Pumas.

Com direito ao uso de teclados e sintetizadores, como o Roland Juno 106, o YOÙN mostra uma faceta ainda mais sentimental e com alma unpplugged em “Inebrio”. Nela o plano das ideias, ironias e das metáforas da vida tem seu porto seguro na canção. As cordas deixam tudo ainda mais sensível e com vontade de viver dentro da canção.

“Só” até mesmo na sofrência pela saudade de um amor que já não está no horizonte consegue ganhar versos delicados de compaixão pelos capítulos da história vividos. Os teclados trazem para o fundo uma atmosfera anos 80 tão marcante em artistas como Guilherme Arantes.

“Se Foi” segundo os músicos pode ser tanto de um fim respeituoso de uma história de amor como de uma despedida por algum ente querido, o que deixa tudo ainda mais bonito e empático com nossos tempos. A batida pop e a densidade dos vocais transcende e amplifica os sentimentos de forma natural e respeitando com compaixão as boas memórias.

Pude conhecer o trabalho do YOÙN através do single “Nove York” e foi encanto a primeira ouvida, principalmente pela ótima mixagem e batida que cresce a cada play. Esse espírito aguerrido do plano dos sonhos em sintonia com a esperança por tempos melhores acaba por sua vez se conectando com o ouvinte feito um abraço afeituoso.

Em “Inebrio” eles buscam transcender trazendo ironias e metáforas para o plano central. O baixo também é marcante e versos como “ouço jazz sem entender nenhuma palavra em inglês” são genial pelo fato de mostrar como mesmo sem muitas vezes dominar um idioma em sua totalidade: a música é uma linguagem universal capaz de conectar a todos. Na faixa ainda há espaço para o encontro com a brasilidade e o flow espiritual do rap.

“Welcome” que eles contam que tem referências de Philip Neo a Rincon Sapiência é uma das favoritas do duo fluminense. O trompete e as guitarras ganham espaço e Gian Pedro descorre sobre seu entorno e as pequenas alegrias da vida, do apreciar um biscoito a valorizar todo seu entorno e o sorrir todos os dias para a vida.

Fechando o disco com uma mensagem importantíssima

O racismo e o machismo, infelizmente tão presentes no Brasil, são denunciados em uma das canções mais importantes do disco, “Cores e Peles”. Entre denúncias de crimes que passam impunes, massacres e violência policial, a canção fala sobre um país que lidera estatísticas de desigualdade e violência contra corpos pretos.

Leo Gandelman faz participação especial com arranjo de flauta e leads de saxofone. A versão final ganhou uma parte “B”, com uma canção criada em parceria com Guilherme Salgueiro. Instrumentos como violino, guitarra, bateria e teclado se fazendo presentes como características intrínsecas do som do YOÙN.

“A última música dá a intenção do álbum. O som de abertura conecta o público com essa narrativa e as músicas ao longo do disco jogam o público para a estética final. De cima para baixo a gente precisa implementar os nossos pensamentos e quem nós somos. Tudo isso mostra a nossa raiz, que vem da igreja e de sons externos, e a última faixa mostra uma grande libertação e vontade de conhecer as nossas raízes pretas”, explica Shuna.

“A última faixa foi escrita depois do assassinato do músico Evaldo, em um fuzilamento sem sentido. Ela mostra uma força política e vontade de usarmos essa música para falarmos sobre pautas mais sensíveis. Conectamos essas pautas com as nossas novas descobertas e raízes”, diz Gian Pedro.