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Depressão, caos e fúria, Ator Morto renasce das cinzas em debut

O rock’n’roll tem fama de ser inconsequente, raivoso, ríspido e intenso. Mas nem por isso se afasta de temas confessionais e difíceis de lidar, como o medo e a depressão. É claro que o amor em dose certa também acaba entrando na ordem do dia, e tudo junto e misturado, resulta em algo entre o caos e a poesia. É por aí que caminha o álbum de estreia do Ator Morto, banda que conta com veteranos do cenário independente.

Na linha de frente eles contam com Alexandre Capilé (voz, guitarra e violão), Caique Fermentão (bateria e voz), Jairo Fajer (baixo) e Pedro Lapitin (guitarra e backing vocal).

Figuras conhecidas por seus trabalhos ao lado de grupos como Sugar Kane, Autoramas, Water Rats, Corona Kings, Sheila Cretina, Doris Encrenqueira entre outos, o projeto explora diversas faces e estilos do rock.

Passando por gêneros como punk rock, garage rock, stoner e até mesmo o pop acabam entrando no caldeirão.


Ator MortoFoto Por: Lucca Miranda

A Redenção do Ator Morto

A versão banda é recente. Para terem uma ideia, o primeiro EP Caos (2018), foi lançado ainda como a dupla – idealizado e gravado, até então, por Alexandre Capilé e Caique Fermentão – e a partir desse ano para tocar acabou se tornando um quarteto. Uma das intenções é circular não apenas pelo Brasil mas também pela América Latina.

Entre as influências eles citam Beatles, Ty Segall, Oasis, Pearl Jam, ACDC mas em nossa percepção notamos que a bagagem dos grupos anteriores também traz acidez, punk rock y otras cositas mas.

Na produção o debut contou com muitas mãos. Entre elas a produção e gravação sendo realizada por Alexandre Capilé e Caique Fermentão no Estúdio Costella, em São Paulo.

O registro foi gravado entre outubro de 2018 a março de 2019. Já as músicas “Migous”, “Autonomia” e “Dopamina” são co-produzidas por Gabriel Zander e João Lemos (Molho Negro). A mixagem e masterização são assinadas por Zander.

Amor Torto

A depressão, questões existenciais, desilusões, a roda gigante do amor e seus percalços acabaram por sua vez contribuindo para a materialização do álbum. Alexandre Capilé deixa isso bem claro no desabafo logo abaixo.

“O álbum conta um pouco da nossa história. A banda surgiu de um escape para uma depressão que tive, as letras abordam questões existenciais, a dor e alegria de viver, o amor e seus desfechos. Narram nosso estilo de vida.

‘Amor Torto’ é uma ferida aberta que mostra intimamente quem somos e o que pensamos”, explica Capilé

O músico também carregou a função extra de produtor do trabalho, o que é sempre um desafio. Ainda mais quando é um projeto que há tanta entrega pessoal.

“Produzir e gravar um projeto pessoal sempre é prazeroso e complicado. O envolvimento emocional é gigante e tentamos fazer algo grandioso pra nós mesmos. Desde que as músicas começaram a surgir, a vontade de gravá-las e mostrar para todo mundo era grande.”, frisa o músico

O Resultado Final

“A sintonia com Caique foi importantíssima no processo, esse é um disco de duas pessoas, colocamos tudo de nós e considero um dos melhores discos que já trabalhei e toquei.

O resultado final está perfeitamente como esperado e estamos felizes em entregar um disco bem feito e sincero. No Ator Morto, nasceu nossa parceira musical e esse é nosso primeiro filho.”, finaliza Capilé

Participações

O registro ainda conta com uma série de participações especiais. Entre elas Ju Strassacapa (Francisco, El Hombre), Pedro Pelotas (Cachorro Grande), João Lemos (Molho Negro) e Vini Zampieri (Sugar Kane).

O Play!

Perder o controle do que sente, faz e é acaba por sua vez transparecendo na faixa que abre o álbum, “Tudo Natural”. Desabafo esse que mostra como a partir de uma faísca, tudo se transforma. A canção ainda conta com a participação de Vini Zampieri (Sugar Kane) que gravou a guitarra solo.

Mais melódica – e toda açucarada – “Me Tira Daqui” tem um tom jovem guarda / powerpop que bandas como Autoramas e Mundo Alto costumam resgatar; e conta com backin vocals de Ju Strassacapa (Francisco, El Hombre).



Piadas internas e celebração das amizades também tem espaço na tracklist. Em “Migous” que Capilé revela o trocadilho ser Amigos + Eagles, pela vibe rock de tiozão, ele narra em seus versos um relato de verão.

Curiosidade: A letra foi composta por Capilé, Vini Zampieri e Chuck Hipolitho (Forgotten Boys / Vespas Mandarinas).

A beatlemania transparece com força em faixa com participação de Strassacapa e Pedro Pelotas (Cachorro Grande). “Quem Sou”, traz detalhes nas teclas, backin vocals delicados e letra existencialista. Passando a vida a limpo, tanto os erros como as certezas. O solo açucarado de guitarra dá toda tônica sessentista – e empoeirada – do som.

Alienação

Mas as engrenagens e o espírito punk aniquilador reverberam na quinta do set, a energética “Dopamina”. Sendo as redes sociais como seu tema central, seu pedal sujo e tom de revolta deixam bem claro o recado indireto até mesmo para o país da fake news (e correntes de zap zap).

“Apodrecer” cai um pouco no clichê das bandas de rock dos anos 90, na sequência vem o single “Viciado” que zomba de um estilo de vida junkie decadente. Pop e feita para rádio – se ainda as FMs ainda tocassem rock – esse é o espírito de “Autonomia”.

Cowpunk?

O espírito caipira punk aparece em “Amor Torto”. A faixa título tem uma vibe western até mesmo em sua narrativa um tanto quanto filho de faroeste. Brincando com clichês e hollywood. A balada do cowboy da Marlboro.

O álbum se encerra com “It Feels”, uma faixa antiga mas segundo Capilé lembrada e celebrada pelos fãs. Uma balada triste, confessional e de coração partido. Daquelas que se tocada no violão pode preparar os isqueiros e luzes do celular.

This post was published on 13 de setembro de 2019 11:05 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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