Amor ao Destino: O tempo não passou para o Dance of Days

Hoje o papo vai ser diferente, mas diferente de uma maneira agregadora. Hoje quem faz a estreia no Hits Perdidos é o Matheus Sales (@gordookie). Para quem não conhece o Matheus é um cara super envolvido com poesia, literatura, Green Day e totalmente apaixonado por música.

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Matheus possuí uma infinidade de materiais do Green Day e do Screeching Weasel. Demos, discos, vinis, coletâneas. É uma paixão sem fim. Foto: Acervo pessoal

PS: Sim, reparem que separei o Green Day de música porque para ele o trio californiano é PAPO SÉRIO .

Nos conhecemos a alguns anos no Orkut (R.I.P.), mais precisamente na comunidade 4007. A do last.fm onde conheci pessoas maravilhosas que levo até hoje na minha vida. Mesmo não tendo oportunidade de conhecer todos  ~pessoalmente~. Mas em tempos onde viver/estar/compartilhar se confundem posso garantir que tem muita gente que mesmo a distância vale mais que outras “que viramos a esquina para não esbarrar”.

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O que me fez ter interesse por chamá-lo para colaborar no Hits Perdidos foi sua paixão. O jeito que ele escreve e manifesta suas emoções tem muita verdade. É cheio de essência e você mesmo a distância sente como se ele tivesse do teu lado no ônibus trocando ideia.

Ele já comandou um alter-egô pessimista e angustiado onde assinava com outro nome mas que era o jeito dele lidar com as pressões que a sociedade nos impõe. E isso eu acho muito foda. É de verdade sabe? Não é aquela história bonitinha para postar no fcbk. Fake de felicidade 100% do tempo.

Hoje em dia ele resolveu falar de música e cara, você sente a mesma sensação. Ele interpreta os sons com uma dignidade e apreço que você pouco vê por aí. O seu mais recente projeto é o Gordookie Records.

Ele também é apaixonado por música brasileira de artistas como Belchior, Cartola, Bezerra da Silva, Adelino Nascimento ao underground. Sendo exímio conhecedor de discos que registram o punk/hardcore/emo nacional. Assim como sabe observer o brilho do folk melancólico e suas adjacências. Talvez a soma de tudo isso faça dele a pessoa que ele é.

Matheus
Matheus (centro) curtindo o show do Detrito Acidente (Santa Catarina) ligado nos 220v.

No Texto de hoje ele vai nos falar de uma maneira embriagada e apaixonada sobre o seu querido Dance Of Days. Banda que voltou a pouquíssimo tempo após seu último – e curto – hiato. E de cara com um novo disco, Amor Fati (2016) , um trabalho que eu provavelmente poderia ouvir mil vezes que não ia sentir a paixão que ele sentiu ao ouví-lo pela primeira vez.

Amor Fati, do latim: “amor ao destino”, “amor ao fado”. No estoicismo e em Nietzsche, significa ou trata-se de aceitação integral da vida e do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos – aceitação que só um espírito superior é capaz.

Uma vez que o estoicismo propõe a indiferença em relação ao que é externo ao homem, o amor fati é como uma atitude de indiferença ao sofrimento e a tudo aquilo que ao homem é acidental, como forma de anular o conflito.

De uma perspectiva cristã, Santo Agostinho endossa o ato heróico que constitui este amor pelo peso que o destino possa nos reservar, afirmando em Cidade de Deus que: “o nome fati (fado) nos faz fugir com horror, sobretudo por causa do vocábulo que ninguém se acostumou a entender o sentido verdadeiro.”

O amor fati também pode ser utilizado para a aceitação virtuosa e serena do destino (fado no sentido de predição, oráculo) que Deus reservaria a cada um dos seres. Como exemplo ideal em Cristo por sua vida vivida intensamente e dedicada a servir ao próximo, em sua reserva e força para com a paixão e crucificação.” (Via Wikipedia)

Deixo agora o Matheus com a palavra:

Amor Fati

Primeiramente gostaria de pedir desculpas ao Rafa pela demora que levei pra escrever este texto. Tô todo atrapalhado comigo mesmo dentro desse quarto mofado e conto com sua compreensão. Em segundo, queria agradecer a ele por ter confiado a mim a missão de escrever sobre o recém lançamento de uma banda que eu amo.

Pois bem. O que você esperava do Amor Fati?

Eu, sinceramente, não esperava lá muita coisa. Sendo bem sincero, mesmo. Quando você chega ao ponto de não ter expectativas sobre sua vida pessoal, profissional, amorosa, ter esperanças acesas acerca de um disco novo de uma banda que você gosta é meio difícil. Vai dizer?

Na minha cabeça isso era uma tentativa desesperada do Nenê de não deixar o sonho dele morrer. E, sei lá, vai ver que foi isso o que me fez ouvir o disco. E que grata surpresa eu tive.

DANCE
Nenê Altro em ação com o Dance Of Days. Foto por: Luringa

A faixa que abre o disco foi a primeira que ouvi (really?).

Calma lá, deixa eu reformular a frase. A canção que abre o disco foi a primeira que ouvi antes do lançamento do disco (Melhorou?).

“E, sendo mais uma vez bem sincero, achei um saco.”

Dias antes de seu lançamento, o Amor Fati (2016) já tinha “me dado no saco” com essa música de abertura. Puta bagulho chato. O que são essas guitarras? Era tudo muito intragável pra mim. Mas, para a minha sorte, era somente a primeira música do disco.

Uma coisa que eu tinha em mim e que eu pareço ter perdido foi o erro da comparação. De pegar um disco mais recente de qualquer banda que eu goste e dizer “porra, mas aquele lá de tal ano é bem melhor”. Isso aconteceu depois que eu passei a analisar a singularidade de todas as coisas que me cercam. Por que com os discos deve ser diferente?

É claro, você tem em sí um favorito, por exemplo, mas isso não é sinônimo de que ele merece mais olhos voltados do que os que você não pira tanto. Sem falar que o lance de “favorito” é muito mutável e varia de pessoa pra pessoa.

Do Dance of Days, acho o Insônia 2008 (2007), o melhor. É o que me aguça mais, faz eu voltar no tempo e essas coisas todas bastante nostálgicas. Mas a letras do “Lírios aos Anjos”, bicho...é tudo muito diferente em mim.

Ouvindo o Amor Fati eu “saquei” que o Nenê sempre vai ter esse dom da escrita. As letras continuam me abraçando de uma forma necessária, beijando minha boca num lindo entrelaçar de línguas, trocas de olhares sinceros nascem sorrisos que escapam sem ter um porquê. Sabe como?

Eu não sei, cara… sou suspeito pra falar, mas isso tudo, esse lance de escrever e pôr uns acordes em cima é o que eu gostaria de saber fazer. E acho que, no Dance of Days, apesar do passar dos anos e da mudança constante de integrantes: isso nunca vai acabar. A banda renasce das cinzas e em pouquíssimo tempo lança um disco desses. Não tem prova maior de que isso não morre fácil.

Fico contente deles terem tirado da cabeça aquela ideia do Disco Preto, de 2010, das canções rápidas e tudo mais. Não penso que aquilo tinha a cara de Dance of Days. Não era um Sick Terror. Não era um Personal Choice. Não era um Total Terror DK. Era o Dance of Days. E, talvez, meu maior medo quanto ao Amor Fati era isso:­ um novo Disco Preto.

Mas será que algum dia eu vou parar de me encontrar nas músicas do Dance of Days?

Não sei, cara. Eu juro que não sei. E nem sei se quero, também. Porque quando você ouve uma ́ canção que parece ter algo a ver com a sua vida, você já não se sente tão sozinho.
E não se sentir sozinho é importante pra caralho!

Carioca
Dance Of Days durante o show de lançamento do disco Amor Fati (2016) no Carioca Club. Foto por: Luringa

Não é perfeito. Têm elementos estranhos em alguns sons, como na primeira música ou em “Rosa Lacustre” (faixa oito). Alguma coisa que foge do que a gente está acostumado ao Dance of Days. Isso é doido, até, porque que banda nunca tentou experimentar uma sonoridade diferente, né?

O próprio Dance of Days fez isso. E é “da hora” que não deixaram pra trás as onomatopeias no meio de algumas músicas, aqueles “trá lá lá” que lembram um pouco o The Real Kids, manja?

A bateria do Julio é muito fiel. Muito doido ver que depois de “mó cota” longe da banda ele veio com tudo! O Tyello também tá sensacional e, porra, mó da hora ver ele de volta à banda também. O entrosamento do Tyello com o Guto já dava certo no xESCUROx, como não daria no Dance of Days?

Mas né, eu não sou técnico de som e nenhuma porra dessas, eu sou só um moleque de vinte e três anos que não perde a pira nessa banda. E, enquanto termino este texto, toca “O tempo não passou pra mim“, minha favorita do Amor Fati.

Se você chegou até aqui, quero lhe agradecer e mandar um beijo grande, viu?!
Obrigado pela paciência.

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