Tarda olha para o Futuro entre cenários, poesia e distorção

A Tarda não é apenas uma banda e sim também um projeto audiovisual. Fotografia, música, cinema e poesia se convergem no horizonte. Inclusive o álbum de estreia, Futuro, funde mantras, discursos políticos, spoken word, tecnologia e nas vozes das escritoras Hilda Hilst e Clarice Lispector. Algo que já podia ser observado tanto na belíssima capa como também no videoclipe para “Breath”, a banda mineira também conta com integrantes que vivem em São Paulo.

Na formação a Tarda conta com Julia Baumfeld (Bateria), Paola Rodrigues (Voz, sintetizador), Sara Não Tem Nome (Voz, guitarra), Victor Galvão (Baixo) e Randolpho Lamonier (Criações visuais da banda).

O inconsciente, os deslocamentos emocionais e cognitivos, a dinâmica das relações humanas, os conflitos, as discodâncias, as fragilidades e os fluxos de informação acabam sendo temas abordados ao longo da obra que apesar do nome fala sobre o presente. Já no campo da sonoridade etérea o som do grupo passeia por gêneros musicais como post-rock, shoegaze e dream pop.

Um álbum que Paula Coraline define: “Futuro é o único arranjo sonoro possível para os tempos de anormalidade enfrentados atualmente, capaz de embalar os melhores devaneios, sejam eles brilhantes ou opacos.”


Sara Braga – Foto Por: Randolpho Lamonier

Faixa a Faixa: Tarda Futuro

Pedimos para quem a Tarda escrevesse um faixa a faixa com detalhes sobre processo, letras, produção e muito mais. Confira o texto na íntegra.

“Ninguém por enquanto”

“Ninguém por enquanto” tem uma letra escrita coletivamente. Aconteceu de forma muito espontânea, numa espécie de brainstorm em que surgiram várias anotações consultando vários livros por perto, de onde vieram referências dentre elas ao filósofo/sociólogo Walter Benjamin, que aparece na letra, e o verso do refrão ‘ninguém me dirá quem sou nem saberá quem fui’, que é do poeta Fernando Pessoa. Esse verso foi tão para nós que usamos também como título de uma exposição coletiva que fizemos em Belo Horizonte poucos meses após termos formado a banda, em 2017, no espaço independente Mama/cadela.

Essa foi a primeira gravação de todas que fizemos com a banda, e é muito especial por ser uma faixa em que todes cantam. Em 2018 fizemos uma versão dela gravada e lançada como single pelo selo EAEO. Mas enquanto o álbum tomava forma decidimos que fazia muito sentido retomar aquela primeira versão demo, porque ela representa todo o processo tanto conceitual quanto técnico que pelo qual o álbum foi se construindo ao longo de anos.

O timbre da guitarra limpa e cheia de reverb na introdução dessa faixa anuncia uma sonoridade que é estruturante do álbum inteiro. E o último elemento que entrou no arranjo foi o sintetizador, um Monotron Delay bem ruidoso que aparece no segundo verso, que cria uma paisagem muito saturada, com notas agudas que sempre brincamos que soam como aviões e bombas caindo do céu.

Ela é uma das nossas músicas que mais pessoas nos deram retorno dizendo que se identificaram. Pra nós, ela fala de uma sensação que estamos vivendo agora enquanto sociedade — ‘depois que tudo acaba não é o fim’. Ela fala sobre estar imerso no caos e nas adversidades da vida, sobre não se adaptar ao que é aceito, sobre um desejo de mudança mesmo que isso gere conflitos. É um chamado para lutar e afirmar quem somos, independente do que a sociedade pense ou queira de nós. (mesmo que não seja o que a sociedade queira de nós).

“Wishes”

O nome “Wishes” veio em referência a banda “Beach House”, uma de nossas influências. Achamos que ela é uma das nossas músicas com a pegada mais Pop. Por conta disso, escolhemos gravar a base dela — guitarra e bateria — no estúdio Frango no Bafo, com Thiago Corrêa e Henrique Mateus.

É interessante que ela tem uma estrutura muito simples e uma dinâmica complexa. É basicamente uma sequência de três acordes que se repete pela música inteira, mas com intenção e intensidade que se transformam progressivamente. Era importante fazer essa gravação ao vivo para captar todas as nuances rítmicas e dinâmicas acontecendo de forma orgânica.

Foi uma experiência bem legal, em que pudemos escolher pratos de bateria com um timbre diferente, que tinham a ver com a sonoridade que imaginávamos pra ela. Também pudemos construir um timbre diferente para a guitarra captando dois amplificadores ao mesmo tempo, um mais macio e outro mais cortante.

Conseguimos que a música ficasse bem viva, ressoando um brilho muito colorido. A densidade da bateria com a delicadeza da voz da Sara, deu um contraste que gostamos muito. “Wishes” nos impacta por criar esse encontro entre dinâmicas tão inusitadas e extremas, emoções tão conflitantes que nos invadem ao decorrer da música.

“Hilda”

Hilda é um interlúdio que faz homenagem à escritora Hilda Hilst. Na faixa escutamos um trecho de uma entrevista em que ela conta sobre a transcomunicação instrumental, um processo que usa meios técnicos (rádio, gravadores de fita) para registrar vozes de espíritos e pessoas desencarnadas. Uma das pessoas com quem Hilda buscava se comunicar era a também escritora Clarice Lispector, cuja voz também aparece na faixa “Pantasma”. 

Uma curiosidade sobre essa música é que nela existe uma paisagem de fundo com várias vozes incompreensíveis que aconteceu por acidente. Em um certo momento durante a edição, um microfone que estava ativo por engano captava vozes que vinham da rua e custamos a entender de onde vinha aquele som. Com os efeitos que já estavam ativos no projeto, esse ruído criou uma textura muito interessante que acabou se incorporando na música. Foi como se as vozes das gravações da “Hilda” tivessem se forçado a fazer parte da faixa.

“Paranoid Quarto”

“Paranoid Quarto” é uma música que Paola fez e lançou em seu projeto solo. Ela trouxe essa música pra banda e fizemos novos arranjos para deixar a música com a cara da Tarda.

No começo do projeto, Paola ficava um tempo em BH e um tempo em Dresden, na Alemanha. Ano passado mudou-se para São Paulo, onde escreveu a segunda parte da música. Daí o porquê da música ser dividida em duas línguas.

“Paranoid Quarto” nasce em um momento solitário e pouco saudável num inverno rigoroso, e depois nos transporta para esse clima cinza de São Paulo, onde nos deparamos com desafios e angústias de tentar sobreviver em uma cidade que pode oferecer muitas possibilidades mas também ser muito opressora.


Julia Baumfeld – Foto Por: Randolpho Lamonier

“Cane Lugubre”

Em “Cane Lugubre”, instintos primitivos emergem das profundezas do inconsciente. O título vem do latim e se traduz como lamento. O grito surge como uma das primeiras emanações do instinto humano, transmitindo emoções como a dor ou a raiva. 

O processo de construção dessa música foi bem particular na forma como atinge extremos do racional e do irracional. Como muitas das faixas, essa começou com uma improvisação, de madrugada, partindo de um dedilhado de guitarra que se repetia constantemente, seguido por um walking bass e uma bateria que à primeira vista parece simples, mas que tem uma complexidade sutil na forma como o acento do bumbo vai se deslocando em cada compasso. A melodia vai se repetindo de um jeito que a tensão só cresce e cresce infinitamente. E, por cima disso, a voz é simplesmente catártica. Sem usar palavras, vai de um suspiro delicado a gritos bem agressivos, a melodia se perde em si mesma.

Nós estudamos muito atentamente as gravações de ensaios em que improvisamos com essa ideia, e fomos estruturando uma forma final para a composição. Encontramos a posição de cada virada de bateria e das mudanças de dinâmica e as notas mais interessantes para a linha de baixo.

Aqui cabe inclusive uma curiosidade sobre o baixo, que, enquanto estudávamos a melodia descobrimos que ela usa uma sequência de notas que ocupa nosso imaginário com a sensação de tensão, que é muito comum em filmes e cenas de terror, que carrega essa conotação no Ocidente desde a Idade Média por estar associada à uma passagem musical em réquiens chamada ‘Dies Iræ’, que significa ‘dias de ira’. Mesmo a voz dessa faixa que surgiu de um jeito completamente imprevisível foi se desenhando até chegar numa forma narrativa bem clara.

Na gravação, os elementos foram então se encaixando milimetricamente, com várias camadas de guitarra se sobrepondo com nuances diferentes de distorção, a espacialidade da voz se transformando seguindo as muitas  intensidades da performance, e as notas agudas do sintetizador que pontuam as transições e a dramaticidade da faixa.

“Pantasma”

“Pantasma” é a música que mais demonstra o quanto processos de edição, colagem, recombinação são muito importantes na nossa forma de trabalhar. A construção dela aconteceu totalmente durante as gravações do álbum, a partir de vários pontos difusos, não foi uma música que começou a partir de uma proposição objetiva de alguém. Quando iniciamos as gravações, fazíamos muitos estudos para experimentar com métodos e abordagens de gravação. Foi um jeito interessante de pesquisar sonoridades que já eram construídas levando em conta o processo de captação e não só apenas instrumentos isolados.

A faixa foi então se estruturando por um recorte de diversas falas: a youtuber Emília Fart é a primeira a ser sampleada, com a frase “I just woke up”, que é a porta de entrada para um mundo de citações, entrevistas, discursos políticos, consoles de videogame falantes, interferências de rádio, reportagens, manifestações, TED-talk de auto ajuda etc… Na mesma paisagem sonora, escutamos Dilma Rousseff e Clarice Lispector, além de um discurso Shirley Chisholm. A música que se inicia num clima de quase ironia, leva a batida descontraída do início a lugares de limites tensionados onde surgem sons de conflitos e manifestações. 

Influenciada por uma lógica de criação e escrita de James Joyce, a intenção da faixa é levar o ouvinte num fluxo mental, mas ainda mais que mental: um fluxo digital. Em quanta informação esbarramos num dia inteiro de tela? O que isso tem feito de nós? O que isso diz sobre nós e o que é que vamos fazer com toda essa informação?

“Pantasma” é provocação, questionamento: uma afirmação que não diz nada deliberadamente, só apresenta fragmentados da realidade em formato de link.

“Eco”

Eco é uma das nossas músicas mais “animadas”. Com uma pegada de Rock psicodélico, sua sonoridade nos transporta para uma viagem lisérgica. O andamento da música aumenta de forma progressiva, em referência a música “Shakman” do jazz fusion de Medeski Martin and Wood. Essa é uma outra música que optamos por fazer gravação ao vivo, com bateria, baixo e guitarra tocados juntos para que esse desenvolvimento fosse o mais orgânico possível e preservasse uma sensação de improvisação.

Existe uma conversa entre o baixo e a guitarra, um vai completando o contra-tempo do outro, dançando juntos. A bateria mantém a pulsação de um jeito bem firme, mas vai aumentando sua projeção, se expandindo num momento em que o ritmo é dobrado. A velocidade acelera, aumentando a tensão até chegar em um momento de colapso, mudando para a esfera mais lenta da música, que é quando se inicia a parte cantada, com uma letra etérea de poucos versos.

Um elemento bem particular dessa música é o timbre do sintetizador, que parece uma voz rouca, meio humana meio animalesca, que é executado em arpejos que se aceleram junto aos outros instrumentos, se costurando entre eles e construindo uma polirritmia vertiginosa.

Quando chega na parte leve da música, queríamos que a atmosfera fosse muito onírica, a melodia do sintetizador segue a guitarra que faz um solo bem anos 70, enquanto bateria faz aquelas viradas longas nos tons. A mixagem dessa parte coloca muita ênfase nas frequências de base da harmonia, criando uma espacialidade bem ressonante, com os instrumentos intensificando uns aos outros, como um coro.

“Buraco de afundar”

“Buraco de afundar” é um profundo mergulho no desconhecido. O título é uma tradução literal do termo “sinkhole”, um buraco no solo causado pelo colapso de uma superfície, que engole tudo a seu redor. Quando iniciamos a Tarda, consultamos o I Ching ou Livro das Mutações, que é estudado como um oráculo e livro de sabedoria.

A partir do hexagrama ‘Abismo’, que é citado na letra da música, a água surgiu como um elemento que nos une e nos atrai. Um mar de emoções e sentimentos que acolhe e gesta sons, palavras, imagens e ações. Infinitas possibilidades de troca e aprendizagem emergiram dessa entrega.

Com o passar do tempo, conectamos nossas forças e fragilidades, dores e medos. Buraco de afundar é onde nossas vulnerabilidades se diluem e transbordam.

“Breath”

‘Breath’ é sobre respirar e resistir. Um momento de reflexão, pausa e meditação em meio a instabilidade. Um mantra que nos dá força para enfrentar dias sombrios. Breath foi o primeiro single do álbum, que lançamos junto com um videoclipe. Com a chegada da pandemia da Covid-19, fez muito sentido lançar essa música pela forma como ela tinha uma mensagem muito clara para o momento. Do ponto de vista estético, para que a gravação tivesse uma sensação bem intimista, fizemos a captação do violão e da voz em um banheiro minúsculo, para que tivesse um reverb natural.

Quando veio a ideia do single, essa faixa já estava com a mixagem basicamente pronta, então foi prático providenciar o lançamento. O desafio veio em relação ao videoclipe. Desde o começo da pandemia estamos separados em diferentes cidades e países: Paola e Victor em São Paulo, Sara e Julia em Belo Horizonte e Randolpho em Paris.

Registramos individualmente nossos cotidianos e paisagens, cada um expressou suas vivências durante o isolamento. E então fizemos a edição coletivamente através de videoconferência, o que acabou estabelecendo o método de trabalho que perdurou ao longo do ano.”



“Liturgia das horas”

Liturgia das horas se inicia como um canto delicado e introspectivo, que em contraponto a uma guitarra distorcida e uma bateria vigorosa transforma-se num grito de desespero ao nos vermos abandonados. O pesadelo da perda de si e do outro, que se expressa na agonia de uma mesma frase que se repete indefinidamente — cadê você?

A música surgiu de um loop de voz, com várias camadas se repetindo e sobrepondo progressivamente, criando densidade, ao mesmo tempo harmoniosa e dissonante. Esse tipo de loop é bastante imprevisível, então cada execução dessa música acaba sendo muito distinta. Por isso ela também precisava ser gravada ao vivo. Foram vários e vários takes de guitarra e bateria tocadas ao mesmo tempo até chegarmos em um que se desenhasse com a curva narrativa e com as intensidades certas.

O resultado dessa primeira gravação foi bem excitante porque a sonoridade crua era muito cortante, conseguimos expressar claramente a influência do post-rock na nossa forma de compor.

Em termos de instrumentação, ao longo do álbum optamos conscientemente por manter quase sempre os mesmos elementos, com poucas variações, mas no arranjo dessa faixa surgiram alguns sons particulares a ela: piano, gongo e, o mais especial, o violoncelo que foi tocado por Bernardo Pádua. Ele gravou duas camadas distintas, primeiro um drone super grave, cheio de textura, que é quase um tremor de terra, e depois uns harmônicos bem delicados, num registro próximo ao da voz, que passeiam de um lado pro outro na panorâmica da música.

Na estrutura do álbum é interessante que essa seja a última música antes do desfecho com a faixa-título ‘Futuro’, porque define o contraste entre um ápice de tensão e a serenidade em que o álbum termina.

“Futuro”

Quando estávamos escolhendo a ordem das músicas no álbum, foi uma unanimidade que “Futuro” deveria ser a última faixa. Depois dela não era possível vir mais nada. No momento atual em que sair de casa se torna cada vez mais difícil, somos transportados para uma praia onde o som do mar nos acalma e nos faz sonhar com o futuro.

Se você só tivesse uma mala ou uma mochila para levar com você, o que levaria? A vida é feita de escolhas e renúncias e em diversos momentos temos que partir, mudar de lugar ou simplesmente mudar de ideia. Nunca é possível levar tudo e talvez seja dessa leveza e desapego que precisamos para conseguir seguir em frente.

Tarda Futuro


Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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