daniloffs viaja pelos espectros de luz e explora as frequências da synthwave em “Phasing”

 daniloffs viaja pelos espectros de luz e explora as frequências da synthwave em “Phasing”

O artista paulista Danilloffs lança seu primeiro EP solo, “Phasing” – Foto: Divulgação

A música certamente é uma extensão do que somos, do que fazemos e em muitas vezes: da realidade em que gostaríamos de estar vivendo. Alguns chamam de fuga da realidade, outros encaram como terapia, já outros têm a sorte de encarar como ofício principal. No meio do caminho temos as chagas, e dores do dia a dia, que muita vezes se transformam em acordes – e frequências – para que desta forma nos emancipemos dos sentimentos. Esse é mais ou menos o caminho escolhido pelo músico paulista Danilo Fernandes, que atende em seu projeto solo pelo codinome de daniloffs.

Danilo tem projetos musicais desde os 15 anos mas após um hiato voltou recentemente a pesquisar e experimentar frequências, timbres, sonoridades, sintetizadores, mixagem entre outras coisas.

Motivado por canais de youtube com playlists de estilos como chillwave, darkwave, synthwave, vaporwave e eletroindie, que ouvia enquanto trabalhava para abstrair e focar nos afazeres, ele foi cada vez mais entrando de cabeça neste universo. O cinema, as séries, os jogos e a cultura pop também serviram de combustível para apostar no estilo que faz um revival repaginado dos anos 80.


O artista paulista daniloffs lança seu primeiro EP solo, "Phasing"
O artista paulista daniloffs lança seu primeiro EP solo, “Phasing” – Foto: Divulgação

daniloffs Phasing

Mas mais do que tudo isso, no projeto daniloffs consegue usar a arte que compreende as luzes, as cores, o audiovisual e a música como extensão da sua personalidade – que passeia por diferentes frequências feito os espectros de luz.

Quando o assunto são referências no campo da música ele cita artistas como FM-84, Timecop1983, Kavinsky e até mesmo Vangelis. Já na hora de criar ele optou por utilizar apenas por sintetizadores e instrumentos eletrônicos. Na temática das canções os conflitos, medos, descobrimento de novas linguagens no amor, ligação com a lua como guia pessoal e situações hipotéticas que o aflige acabam se refletindo.

“Phasing é resultado de uma jornada interna de busca e compreensão do conciliamento entre sua vida pessoal e profissional onde um personagem sem nome está em constante fuga de sua própria vida. O desconforto da rotina gera um ciclo vicioso onde há a necessidade de mudança: a alteração da sua “própria frequência”.”, conta Danilo Fernandes 
Além de três faixas até então inéditas, o EP gravado, mixado e masterizado pelo próprio Danilo Fernandes (daniloffs) em seu home studio, em São José dos Campos (SP) conta com uma versão remasterizada de “Strobe Lights”, single lançado em agosto de 2020.

As Frequências de Phasing

São 11:40 minutos de duração de viagem sonora e desde o primeiro momento o ouvinte é convidado a adentrar um universo bastante particular. “Order Received” até lembra o mundo invertido da série Stranger Things e nos aprisiona em uma frequência nebulosa na qual somos sugados para dentro – entre efeitos de sintetizadores e a iminente sensação de sufoco.

Já inseridos no universo paralelo, “Strobe Lights” faz uma ótima combinação que nos liga artistas como 1975 com direito a vocais intensos e rasgados de artistas como Bruce Springsteen e Nick Cave. A mais colorida do EP, “Love Language”, retrata sobre as descobertas nesse sentido, e as luzes se formos olhar por um espectro de luz refletem tons rosas, saindo das luzes mais frias da faixa anterior – mas ainda na busca pela intensidade de um vermelho complementar para o azul.

Quem fecha o registro é “Moonlight Road”. Se o EP começa no ciano, ele se encerra no rosa translúcido (quase magenta). A faixa é daquelas que te aprisiona: mas de outra forma.

Faz lembrar das noites sozinho onde você fica olhando para a lua procurando respostas para o futuro. E acredito que na pandemia foram muitas para todos nós, ainda mais em um cenário movido a tantas incertezas. Aquela agonia iminente de se sentir pequeno em um mundo gigante (e muitas vezes cruel). O EP se encerra mostrando diferentes faces da personalidade e nos fazendo querer conhecer mais.

Entrevista: daniloffs

Conversamos com o Danilo Fernandes para entender mais sobre as complexidades e nuances da sua vida e as respostas que o projeto tem trazido. Confira!

É seu EP de estreia e tem diversas referências no som mas também na narrativa trazendo à tona o escapismo do cotidiano.

Conte mais sobre sua pesquisa por referências na estética, nas texturas e linguagem do projeto?  E a busca por influências, como foi esse processo?

daniloffs: “Sou designer e trabalho numa agência de marketing digital. Minha rotina, normalmente, se resume a criar posts para redes sociais e só consigo produzir ouvindo música. Há mais ou menos 2 anos eu entrei de cabeça no synthwave e lembro que desde a faculdade (há 7 anos) eu já gostava bastante de chillwave mas nunca tinha me aprofundado para conhecer o estilo musical.

Geralmente acordo e já coloco playlists no youtube (nos canais Odysseus, Astral Throb e Asthenic principalmente). Esse tipo de processo, quase que em uma aba paralela, sempre alimentava minha cabeça com referências. Não foi um processo linear “preciso fazer isso, então vou procurar saber mais sobre”, eu diria que foi um processo mais inconsciente. Uma outra grande referência que me impulsionou a criar synthwave foram as temporadas de Stranger Things (seriado da Netflix) que trouxe mais à tona esse gênero musical.

A estética cyberpunk sempre me atraiu e com o hype de Cyberpunk 2077 do último ano para cá foi também um dos fatores a me incentivar a criar um trabalho assim.
Então diria que foi essa sucessão de eventos que me alimentou inconscientemente para a criação do EP.”

Qual a realidade que busca fugir e como acredita sua personalidade interfere no processo?

daniloffs: “Costumo dizer que assim como o tempo não é linear, revivemos memórias de diferentes etapas da vida em um intervalo de tempo tão pequeno que elas parecem ter acontecido simultaneamente.

Minha eterna fuga é resultado de frequentes análises do meu passado em comparação ao que tenho hoje e o que almejo ter no futuro. Fico muito tempo sozinho (moro sozinho) e muitas vezes antes de dormir minha mente revive o passado que não quero, pensando no que é minha vida hoje em dia.

Nisso minha personalidade entra em jogo e, assim como diz o título do EP, sinto que preciso me adaptar constantemente às minhas necessidades/fasear minha frequência e me tornar algo diferente de mim mesmo mas com a mesma essência. Uma constante vontade de evoluir. Em suma, eu busco fugir da repetibilidade dos meus erros, fugir dos padrões que me parecem errôneos dentro de minha própria vida.”

Como lida com isso e a partir de que momento viu que a música era o melhor caminho?

daniloffs: “Por muito tempo fiz terapia, desde os 15 anos para ser mais exato, passando por períodos onde não fiz, mas sempre retornando por questões de saúde. Nisso a música teve e tem um papel muito importante para mim. Comecei a criar música cedo com uma amiga de infância (hoje ela é conhecida como 1LUM3) e tivemos algumas bandas quando criança, mas por um tempo da minha vida não me ligava tanto, parei de criar música, de fazer cover, de procurar coisas novas para ouvir.

Fiquei nesse hiato musical acredito que por três anos e lembro até hoje que o que me fez retornar foi uma conversa seguida de uma indicação de um filme em 2016 (Dancer in the Dark, do Lars Von Trier com a Björk). Após ver esse filme me vi chorando como uma criança e ressignificando a ideia de que a música estava comigo em todos os lugares, eu precisaria apenas notar os padrões que existiam ao meu redor.

Quando me mudei para São José dos Campos (SP) a trabalho, coloquei como objetivo a criação de um home studio e durante dois anos fui comprando equipamentos para criá-lo.

A música, a criação, a necessidade de anotar os padrões que começaram a surgir na minha cabeça serviu por muito tempo como um exercício terapêutico e cada vez mais alimento essa necessidade de ouvir o que minha cabeça fala sem dizer palavras. As letras das músicas nunca foram planejadas, todo meu processo criativo é “em uma sentada”. Cada música foi criada em um intervalo de duas horas e as letras “surgem” na minha cabeça, como um desabafo.”

Seu som é bastante sensorial e as cores tem um papel bastante importante no processo. Pretende futuralmente explorar isso no campo audiovisual?

daniloffs: “Sim! A ideia inicial de entender ondas eletromagnéticas e mecânicas como uma coisa só (luz, som e cor como frequência) já é quase um preparo para criar o EP como um álbum visual. Gosto de dizer que a sinestesia é parte do meu processo criativo onde é possível tocar o som e ouvir as cores que ele gera. Pretendo – ainda não tenho uma data específica – criar um roteiro que dê sentido à jornada descrita no EP.”

Conte um pouco mais sobre o conceito visual do projeto que se estende da arte da capa as fotos de divulgação e o que queria representar.

daniloffs: “Sou formado em Bacharelado em Física e desde minha graduação gosto de pensar nessa análise das propriedades da luz e do som, desde a faculdade pensava em juntar algo que fosse cientificamente apurado e visualmente atrativo.

Queria criar algo que representasse a inconstância e a variabilidade da personalidade, a inquietude e a tentativa de mudança. A foto de divulgação se apoia nesse conceito a partir do momento que não é possível ver meu rosto totalmente, mas sim várias silhuetas de diferentes emoções todas contidas em um só corpo. A assinatura que aparece atrás de meu corpo não contém meu nome, mas uma versão ‘1-bit’ da minha assinatura por escrito.

Estou sempre trabalhando a inquietude com o movimento ou com a intersecção de diferentes momentos. A capa do EP simula uma grade de um osciloscópio, instrumento para criação e medidas de ondas eletromagnéticas e o encontro dessas duas ondas mostra apenas uma estrutura de faseamento de ondas. Algo quase literal, mas corroborando o sentido de que algo dentro de mim existe em outra(s) frequência(s).

Tanto o EP quanto a foto de divulgação também abrem margem para futuros projetos, não quero me ater somente a um único gênero musical, mas produzir aquilo que me complete no momento, sempre atento à coesão dos elementos. Afinal, como na música tudo precisa de uma certa dose de harmonia.”

daniloffs Phasing


Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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