A sede pela “volta dos shows” e a necessidade de repensar a estrutura do mercado da música

 A sede pela “volta dos shows” e a necessidade de repensar a estrutura do mercado da música

A volta dos shows na Espanha – Foto Por: Lluís Gené/AFP

Com a aceleração da vacinação e observando no exterior muitos países retornando a um estilo de vida muito mais próximo do que estávamos acostumados a viver no período pré-pandemia, muitos governos começaram a realizar a abertura de serviços, comércios, bares, casas de show e até mesmo arenas esportivas. Desde de então a euforia pela volta dos shows se refletiu em um “boom de lançamentos”; entre singles, discos e clipes elaborados segundo “todas os protocolos” de saúde.

Os números de quedas de infectados, e a diminuição do número de óbitos, também são um fôlego para todo um mercado onde o presencial sempre foi o principal catalisador de renda e movimentação de toda uma cadeia em seu entorno; gerando empregos diretos e indiretos.

Antigamente era mais fácil planejar um lançamento. Desenhar o projeto, captar recursos, seja através de editais de cultura ou via recursos próprios, pré-produzir, gravar, pensar na estratégia com profissionais adequados e executar uma timeline para que seu trabalho reverberasse.

A verdade é que quando me perguntam qual seria a melhor época para divulgar um material, pensando a lógica antiga de listas de melhores do ano, cronogramas de marcas e ativações, festivais de clipes, editais, parece que cada vez é mais difícil cravar o momento mais adequado. Visto que tudo tem mudado tão rápido. Uma estratégia por melhor elaborada que seja pode em questão de semanas cair por água abaixo devido a elementos alheios a concepção do projeto.

O palco e os shows sempre fizeram toda a estratégia digital fazer sentido para o momento da entrega. Isso tem frustrado muitos músicos que colocam neste momento seu momento de catarse, de glória e também de compartilhar suas histórias com quem se interessa pela sua arte. Além da parte romântica da coisa toda, é a hora onde os cachês acabam ajudando em seu sustento, arcar com as despesas, pagar a equipe, e em muitos casos como estímulo para continuarem a produzir a música que tanto amam.

A Volta dos Festivais no Exterior

Fato é que infelizmente as notícias que vem de fora não são tão animadoras. Nos últimos dias vemos os médios e grandes festivais como maiores disseminadores da COVID-19 que no exterior em sua maioria tem sido da tão temida variante Delta.

O que antes era motivo de esperança com o sucesso de eventos testes na Espanha com apenas pessoas vacinadas, acabou ganhando novos capítulos ao redor do mundo.

Países como Estados Unidos, viram em poucas semanas após a realização de grandes festivais e eventos esportivos, o número de infectados por dia ir de poucos milhares para 150 mil por dia. O país parou nos 50% de vacinados com a primeira dose e os casos mais graves estão justamente entre os que não tomaram a vacina.



Talvez uma das maiores hipocrisias tenha rolado justamente na edição do Lollapalooza de Chicago, na última semana de Julho, onde após o governo interferir por meio de políticas públicas de saúde, os eventos fechados antes liberados do uso das máscaras, passaram a ter obrigatoriedade. Porém os abertos, não. A foto abaixo chega a ser surreal pensando que o país ainda lidera o número de mortes.


A volta dos shows - Lollapalooza Chicago 2021 Mask
A foto chocante do Lollapalooza Chicago foi postada no TwitterFoto: Reprodução/Twitter

Já na Holanda, a correlação com shows parece ser ainda mais assustadora, em um festival para mais de 20 mil pessoas vacinadas com as duas doses, cerca de mil pessoas voltaram para casa infectadas. Após isso na Europa os grandes festivais já ligaram o alerta.

Em questão de semanas, o medo é justamente os números de internações e óbitos aumentar e voltar tudo para o que era antes. Um problema de saúde pública que não podemos ignorar. Ainda mais estando no Brasil onde apenas 20% das pessoas foram vacinadas com as duas doses. Sempre importante lembrar que o distanciamento social e a máscara é uma realidade que ainda teremos que conviver por um bom tempo e que muitas vezes o “segundo todos os protocolos”, e estar vacinado com as duas doses, não garante 100% que não haverá a infecção e em alguns casos a “reinfecção”.

Problemas que pareciam ter sido superados, como o negacionismo, ganham novos capítulos com Eric Clapton falando que não se apresentaria em lugares que obriguem a vacinar e a banda de hardcore Madball fazendo coro (leia).


A volta dos shows na Espanha – Foto Por: Lluís Gené/AFP

A Crise Estrutural da Indústria

No meio disso tudo temos toda uma indústria cultural que sofre. Artistas que precisam trabalhar e que ainda não encontraram um formato além do ao vivo que os pague da maneira mais adequada. As tão comentadas lives perderam o valor e o apelo comercial do começo da pandemia, as leis de incentivo não são suficientes, as plataformas de streaming não pagam o valor que justifique, muitas marcas, assim como nos esportes, procuram para ações pontuais mas não visam continuidade em seu projeto (com raríssimas excessões).

Quando vemos depoimentos como o da Letícia Novaes, a Letrux, em seu instagram desabafando sobre ter se infectado com o vírus da COVID-19, assim como os membros da equipe do clipe que estava gravando, segundo todos os protocolos, e ela relata todo drama de fazer arte em um momento como o nosso onde falta fôlego para quem produz, não há como não enxergar a situação no macro.


https://www.instagram.com/p/CSR_E0eLlvY/


Não apenas artistas mas como produtores, técnicos, diretores, sonoplastas, engenheiros de som, iluminadores entre tantos outros sofrendo as consequências de uma pandemia que ainda tira vidas e deixa muitos desamparados financeiramente.

O medo é constante, a vontade de acordar de um pesadelo também. Precisamos urgentemente repensar se aquele modelo pré-divulgação, single, disco, show, turnê, materiais de divulgação e parcerias ainda funciona em um mundo onde em questão de poucos meses todos podem voltar para suas casas.

Repensar a monetização fora dos palcos e as formas de fazer com que o trabalho chegue mais longe parece ser algo vital para a cadeia da música em um mundo que pode sim viver outras pandemias.

O Fator Brasil

No meio disso tudo ainda tem a ansiedade, as dificuldades, a agonia e a vontade de tentar achar meios de lutar pela cultura em um tempo onde vemos por todo o Brasil palcos fechando, estúdios socados de dívidas, acervos de arte pegando fogo, cortes e muitos questionamentos sobre o consumo e a valorização do ofício da arte.

Shows ao ar livre e em pequenos ambientes controlados alguns dirão que podem ser a solução mas a insegurança de até sob essas circunstâncias isso acontecer é algo que tira o sono.

Enquanto isso, grandes festivais de música como Lollapalooza e Rock In Rio esperam lucrar com a euforia da volta dos grandes festivais. Com números pré-pandemia sempre elevados, eles apostam justamente neste momento onde muitos querem viver experiências que por tanto tempo fomos privados. O medo é justamente conseguir seguir “todos os protocolos” em eventos com mais de 100.000 pessoas. É preocupante e até mesmo uma ilusão vender datas, e sonhos, para depois desmarcar, remarcar em ad infinitum.

Parece até mesmo que vale mais se “mostrar vivo” e presente na timeline do que entregar algo da melhor forma. É triste pensar, e até mesmo conflituoso, mas todos têm “sede pela volta dos shows”, porém eventos de grande porte realizados de uma forma segura parecem ser um sonho distante até mesmo em países com vacinação mais rápida…visto os últimos acontecimentos pouco animadores.


A volta dos shows - Lollapalooza Chicago 2021 Mask
A foto chocante do Lollapalooza Chicago foi postada no Twitter – Foto: Reprodução/Twitter

Ao mesmo tempo que o campo cultural sofre as consequências da péssima gestão da pandemia, bares estão entupidos, restaurantes tem pouca ventilação ou distanciamento social, shoppings batem recordes de vendas e o sentimento de que a arte por ser sensível tem que ser contra a corrente… cada vez mais aparece em conflito como vemos em um post recente do Macaco Bong.

No post, agora excluído em sua conta no instagram, a banda pesquisava junto ao público sobre a possibilidade de retornar no formato de shows pequenos em ambientes controlados, questionava o modus operandi do mercado durante o momento de pandemia e discorria abertamente sobre as dificuldades para continuar a produzir música mediante este cenário.

Neste ponto é difícil falar sobre certo ou errado, mas sim, que temos que repensar a estrutura do mercado da música para ontem.

Estamos dispostos a abrir o espaço no Hits Perdidos para a discussão, afinal de contas, é apenas o começo de uma longa conversa.

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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