Entre grunge e deboche: Wilza resgata o ethos punk em álbum de estreia
No álbum de estreia, a banda Wilza transforma herança grunge, punk e humor ácido em crítica ao presente.
A atmosfera antissistema de garotos rebeldes, dispostos a transgredir o que o rock havia se tornado no fim dos anos 1980, gerou uma resposta quase imediata. Daquelas que vêm sem pedir passagem, reunindo todo o poderio bélico de quem mirava o resgate do ethos punk e da acessibilidade — a ideia de que qualquer um poderia pegar uma guitarra e formar uma banda.
Entre as chamadas guitar bands e o grunge, o espírito era justamente esse: aliar peso e distorção ao deboche, rompendo com a pompa e recolocando o rock em contato com a urgência das ruas. Não por acaso, o Nirvana acabou se destacando. Além do impacto sonoro, trazia temas sociais latentes e, no auge de sua cooptação pelo sistema, teve um desfecho trágico com a morte de Kurt Cobain. Extremamente politizado, o vocalista queria que sua mensagem atravessasse fronteiras e que sua arte provocasse reflexões capazes de transformar a realidade.
O legado do Grunge
Quase quarenta anos depois, ainda conseguimos ver como a música e a mensagem transcendem o tempo. O mundo é completamente diferente, mas o impacto cultural passa pela moda, pelo comportamento, pelas mudanças sociais e as obras abriram portas para que muitos pudessem fazer sua parte.
Aquele espírito segue gerando adeptos, seja em uma nova banda, seja pelas plataformas, como o TikTok, onde uma nova geração tem contato com um tempo em que não viveu. Assim como nas garagens e inferninhos mundo afora. Essa forma de trabalhar sentimentos como angústia e esgotamento, aliados à vontade de criticar as consequências de um futuro que cada vez se desenha mais distópico, assim como a necessidade de externalizar seu descontentamento, continua a mover a criação artística.
Seja em uma ilustração, seja em uma obra de arte, seja no cinema brasileiro, seja numa banda ainda entendendo a sua sonoridade e saindo do cover para o autoral. Não importa. Essa semente acaba se transformando e ganhando novos contextos e narrativas, e elevando o sentimento de querer quebrar correntes com o status quo.

Entre o grunge, punk e o deboche
A Wilza, banda de veteranos da cena alternativa, formada em São Paulo entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, tendo DW Ribatski (Norvana) na guitarra, Ligia Murakawa no baixo e Clara do Prado na bateria, iniciou as atividades e lançou, aos poucos, os primeiros singles.
O momento da gravação do primeiro álbum, lançado no dia 02/02, ainda contava com Clara, que deixou a banda após se mudar para Brasília, e catalisa todo esse momento de trocas, entre letras irônicas, raivosas, mas que, ao mesmo tempo, tem como recurso o uso do humor, entre distorções e experimentos sonoros que além do grunge, dialogam com o delírio astral da psicodelia e a quebra de estilística do noise rock.
O disco foi gravado no Estúdio Quadrophenia, com engenharia de som de Sandro Garcia, produção da própria banda em parceria com Breno Della Ricca, com masterização de Rafael Panke.
Após a saída da baterista, Isabella Pontes, da Schlop, assumiu a bateria e integra a formação atual.
Uma curiosidade: Isabella é também responsável pelas artes do mapeamento de casas de shows e novos artistas do cenário atual ao lado de Alexandre Bassan. A capa, inclusive, é baseada em colagem de Pontes.
No enredo do disco, com sete músicas ao todo e trinta minutos de duração, as composições passam pelo cotidiano, entre o drama de conciliar o orçamento para a terapia até a vontade de ver o império de bilionários e big techs em chamas. Eles até receberam a alcunha de “Punk Pirulito” para definir seu som. Em dezembro, inclusive, o grupo paulistano pode se apresentar no Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira que aconteceu no Picles.

O álbum de estreia da Wilza
Entre as referências, eles citam que o material agradará a fãs de grupos como Nirvana, Veruca Salt e Sonic Youth. O disco, que tinha tudo para ser nostálgico, traz consigo a alegria de expor as imperfeições. Em tempos de IA’s e automações, essa resposta visceral, nos lembra justamente o que nos fez nos conectar com a arte.
Essa lisergia é expressa nas curvas sonoras e sua linguagem que ressoa como colagens de uma realidade pós-distópica, onde o erro é quase um crime e meias-palavras bastam para distorcer tudo. Esse emaranhado, entre os ruídos do cotidiano, transparece logo nas primeiras faixas do registro.
As pequenas mazelas do cotidiano do capitalismo aparecem, por exemplo, em “Terapia”, com ironias e rebeldia juvenil, em tempos que felizmente a temática da saúde mental aparece cada vez mais no cotidiano, mas que como tudo em nosso cotidiano: tem um preço, sendo ele emocional, mas também financeiro
Sobrou até mesmo para Luigi Mangione, que foi responsável por assassinar o CEO da United Healthcare em dezembro de 2024, ganhar uma música como crítica à agressividade estrutural do capitalismo. O deboche, e não se levar extremamente a sério, são marcas de sons como “Glicose Matinal”, entre arranhadas na voz e referências de pós-punk de grupos como The Jesus and Mary Chain. Assim como o espírito lo-fi dramático que ecoa na aspereza de “Trem Fantasma”.
O lado mais intimista transparece na densidade de “Turista”, entre experimentações mais fantasmagóricas, crueza e reverbs. Quem fecha é justamente, “Senta em Mim”, misturando violão com guitarras, efeitos na voz, tom melodramático e angústia, talvez sendo a faixa que mais se aproxime das referências sônicas e guitarristas do Sonic Youth.
