11 artistas da nova cena alagoana para conhecer agora
Entre psicodelia e cultura popular: o novo trabalho de Pedro Salvador
Pedro Salvador é natural de Maceió e conhecido nacionalmente pelos trabalhos como guitarrista nas bandas Necro e Messias Elétrico. No dia 19 de março, lançou seu terceiro álbum de estúdio como solista — um trabalho fruto de quatro anos de pesquisa e experimentação sonora.
Pedro Salvador lança novo álbum e amplia sua pesquisa sonora
Entre as referências, sua sonoridade atravessa gêneros como rock progressivo, psicodelia, soul e o jazz, e não se limita a isso, como ele mesmo comenta sobre o processo em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos, agregando elementos da cultura popular, como arrocha e pagodão baiano.
A herança cultural e a criação contemporânea estão presentes na identidade do novo álbum. O disco autointitulado ainda conta com uma série de participações especiais que o conectam a nomes importantes da música alagoana. É o caso do mestre Chau do Pife, patrimônio da música do estado.
Nas vozes, a pluralidade de parceiros de cena também aparece ao longo da jornada musical, com participações de: Ana Gal, Mary Alves, Arielly Oliveira, Nego Pedru, Alyne Sakura, Bárbara Castelões, Toninho ZS, Diogo Oliveira, Myrna Araújo e May Honorato. Com gravação orgânica, outros músicos foram convocados como instrumentistas, entre eles Everaldo Borges, Vitor Moreira e Dinho Zampier.
A respeito das escolhas, Pedro Salvador ressalta que elas foram pensadas ainda durante o processo de gravação e surgiram de forma orgânica, à medida que o músico imaginava as vozes e influências de cada artista atravessando as composições.

O processo de criação do novo álbum de Pedro Salvador e a imersão em estúdio que moldou sua sonoridade
As gravações foram realizadas de forma caseira, com Salvador assumindo a execução de quase todos os instrumentos em um processo íntimo de experimentação, funcionando como um laboratório sonoro, como ele mesmo revela: “Meu processo costuma acontecer em etapas: primeiro vem a composição e o arranjo, depois a gravação da bateria e, a partir dela, vou construindo as outras camadas do som.
A voz quase sempre fica por último, e muitas vezes a letra só nasce nesse momento final. Na maior parte do tempo é um processo solitário, em que acabo assumindo vários papéis ao mesmo tempo, como músico de estúdio, produtor e engenheiro de gravação. Acho que essa sonoridade faz parte de uma identidade que venho construindo, baseada numa musicalidade livre”.
A respeito das temáticas exploradas ao longo do disco, o álbum passa por reflexões sobre violência, consciência crítica e insurgência.
“As oito primeiras faixas apresentam o universo do disco: uma realidade marcada por violência estrutural, onde o eu-lírico observa e absorve os impactos desse contexto. Já no segundo momento, aprofunda as consequências dessa estrutura na história e no próprio corpo, deslocando o olhar da observação para a formulação de consciência e para a convocação de ação”, revela Pedro Salvador.
A experimentação e os encontros marcam o andamento do disco. Entre timbres, poesia, teclas e diferentes dinâmicas, o disco mostra que é possível explorar diferentes universos sem se tornar algo caricato.
As soluções criativas e a vontade de não se repetir fazem da obra uma odisseia capaz de construir um filme na mente do ouvinte, utilizando o recurso de curtas canções que funcionam, muitas vezes, como breves interlúdios. Essa construção de ambiências, grooves e diálogos deixa a experiência psicodélica/progressiva ainda mais sensorial e conectada às nossas raízes. Em tempos de múltiplas telas e atenção limitada, se permitir entrar de cabeça neste oceano de referências é uma provocação por si só.
Uma construção sonora guiada por experimentação e camadas
“O processo de criação desse álbum foi de muito aprendizado. Na sede de desenvolver os aspectos técnicos e estéticos das minhas criações, nos últimos quatro anos, estudei música e produção musical ao mesmo tempo em que reorganizei canções antigas e compunha novas. Essas composições foram como projetos de pesquisa e laboratório, onde eu explorava as possibilidades estéticas que se abriam a partir das minhas pesquisas e descobertas sonoras.
E assim fui introduzindo elementos de tradições musicais muito diferentes entre si (que na minha cabeça têm muito em comum e levam o corpo e a mente para os mesmos lugares): afrobeat, música eletrônica erudita, pagodão/arrocha, funk, rock progressivo brasileiro; construindo os arranjos de forma que cada música fosse um universo em si, mas que se conectassem com uma linguagem geral — a sonoridade que estou desenvolvendo.
Enquanto isso, seguia na jornada de trabalho como musicista, circulando nas noites da cidade e me conectando com artistas de esferas diversas. Dessas conexões frutificaram as participações especiais do disco, grandes referências musicais de Maceió.”
Ouça o novo disco de Pedro Salvador aqui
A nova cena alagoana: 11 artistas para conhecer agora
Devido à sua relação com a cena alagoana intensificada na construção do álbum, pedimos a Pedro Salvador uma lista com 11 artistas que mostram a força da nova cena alagoana que o Brasil precisa conhecer.
Não é a primeira vez que abrimos o espaço para uma lista abrangendo artistas do estado, por aqui, em 2021, a banda Mopho indicou 9 artistas da cena local (saiba mais), agora é a vez de amplificar com 11 novos nomes.
Quem assume a partir daqui é o artista que frisa:
“Essa cidade tem uma cena imensa e, além das pessoas que estão no álbum tem muita gente criando obras incríveis.”
1) Mary Alves
Compositora que canta com potência e doçura a realidade da negritude periférica através do rap, soul, coco e batuques. Tive a oportunidade de produzir e tocar no seu EP Amor Preto Cura.
2) Ana Gal
Paulistana radicada em Maceió, Ana Gal vem trabalhando numa brasilidade-futurista-dançante há anos na banda Divina Supernova, e seu EP de 2021 leva o conceito ainda mais adiante.
3) Arielly Oliveira
Uma das pioneiras do rap em Alagoas, Arielly Oliveira é a referência máxima do soul no estado. Indico seu álbum Sem Papas na Língua para começar a conhecer sua discografia.
4) Diogo Oliveira
É um artista singular, acadêmico da música erudita e da voz, domina as técnicas do canto lírico e alia esse conhecimento à sua sensibilidade rock e pop. Também tive a chance de produzir e tocar no seu álbum Flor do Deserto.
5) Dinho Zampier
Bruxo das teclas, talvez o músico mais requisitado do estado. O álbum visual Outros Mares (onde toco guitarra) é a porta de entrada para seu universo sofisticado repleto de parcerias.
6) Chau do Pife
Virtuoso do pífano, artista visionário e pioneiro. Seu álbum Meu Pife Meu Amigo é a coisa mais linda que você vai ouvir.
Outros nomes da cena alagoana para conhecer
7) Chico Torres
Compositor e violonista genial. Seu álbum Segunda Navegação é um compêndio de bonitezas.
8) Julia Soares
Grande guitarrista e produtora, lançou agora o EP Julia for Babies do seu projeto infantil Tia do Rock, de muita alegria e sensibilidade.
9) Jurema Juice
Safra novíssima do rock ‘n’ roll alagoano, bebendo forte da psicodelia blueseira. Contribuí com seu álbum de estreia gravando os baixos.
10) Telma César
Compositora, cantora e pesquisadora de sonoridades universais. Telma finca raízes profundas no chão da música ancestral nordestina e leva tudo para o futuro no seu recente EP Sambadeira.
11) Os Sabiás
Banda nova do compositor e baterista Alef, que esteve comigo na banda Necro e em tantas outras aventuras musicais. Agora, em parceria com uma fina trupe de musicistas de SP e do RJ, ele desenvolve um rock ‘n’ roll com sotaque brasileiro fortíssimo que pode ser ouvido no EP Caretice.
Quais artistas da nova cena alagoana você adicionaria na lista?
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