Letrux lança “SadSexySillySongs” e aposta em leveza e liberdade criativa

Cada disco tem uma história, uma intenção e uma intrínseca vontade de adentrar um novo universo artístico. No caso de Letrux, em seu novo álbum SadSexySillySongs, como ela mesma aponta na audição, cada um dos seus quatro discos revela uma faceta do seu exercício criativo: Noite de Climão, sexy; Aos Prantos, sad; e A Mulher Girafa, muito silly.

Sobre o conceito do disco

O nome do álbum, anotado em um caderninho em 2023, guiou o processo de composição de um trabalho que aposta em soluções mais leves e despretensiosas, bebendo do pop, do rock, da música eletrônica e do folk ao longo de suas curvas sonoras. Letrux lança seu novo álbum, SadSexySillySongs, nesta sexta, 27 de março, via Coala Records. O trabalho marca seu retorno e abre espaço para novas possibilidades de circulação. A audição, por aqui, soou como uma trilha sonora de momentos vividos em diferentes fases da vida.

“É importante fazermos o que gostamos, o que nos dá tesão. Eu faço música pra mim, pra me resolver, pra elaborar minhas idiossincrasias. Tenho sorte que há pessoas que gostam das minhas músicas. Mas eu realmente faço música pra mim, e depois, com muita cara de pau e curiosidade e, claro, alguma vontade de criar conexões, eu lanço essas músicas para o mundo”, comenta Letrux no material de divulgação.

Em “I wrote this when I was 22”, a artista explicita o tom de uma música bobinha, escrita em meio à maturidade dos seus 22 anos. É fácil imaginar várias dessas canções, sorrateiras em sua essência, ganhando espaço em trilhas de minisséries e filmes — muito por esse caminho emocional, delicado e adaptável, pronto para novos contextos narrativos.

Tudo parte de uma proposta mais minimalista, que não tem medo de se mostrar frágil, delirante e essencialmente cancioneira. Essa tensão entre o orgânico e o imperfeito molda sua linguagem estética.


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Letrux lança o álbum SadSexySillySongs e aposta em uma sonoridade mais leve e minimalista. – Foto por: Bruna Latini

Um disco entre o minimalismo e a expansão

“Comecei a sonhar com um disco voz e violão, que acho que é o princípio de quase tudo. Muitas das minhas músicas nasceram assim, de forma mais crua e minimalista, e eu queria revisitar esse lugar. Mas, no processo, o sonho foi se expandindo.

O álbum tem 12 faixas, uma delas é uma vinheta de um minuto, inspirada por Laurie Anderson e, embora essa essência mais orgânica esteja presente, quatro músicas trazem batidas eletrônicas. No fim, aquele desejo inicial de um disco mais cru acabou dando origem a um trabalho diverso em suas produções musicais”, comenta a artista em release enviado à imprensa.

O disco, produzido por Thiago Rebello, baixista da sua banda desde os tempos de Noite de Climão, ainda conta com parcerias de composição com Jadsa, Bruno Capinan e Mahmundi, além de Thiago Borges, Luiz Felipe Reis, Thiago Vivas, Yasmin Zoran e Gabriel Viegas (da banda Nouvella), Theo Machado, Leïlah Accioly e Arthur Braganti.

“Ele (Thiago) é ultra talentoso, rebuscado, chic. Eu já queria criar algo só com ele havia um tempo e senti que esse projeto mais minimalista era perfeito para ele mostrar toda a sua finesse e talento.

São pessoas que eu admiro muito musicalmente e fiquei com desejo de mandar um ‘alô’, sabe? E essas pessoas responderam com muito entusiasmo. Parecia um trabalho em grupo da escola, que você caiu num grupo bom, então dava prazer criar e fazer. Eu mandava algo, a galera respondia, fomos trocando e trocando até chegar nas canções finais”, contou sobre o processo.

Letrux e o gesto de resistência

O que fica é justamente como essa leveza e o descompromisso com a lógica do “hit pelo hit” fazem desta nova jornada uma afirmação autêntica. Em um mercado que mói artistas com cobranças constantes, fazer o que se tem vontade é, por si só, um gesto de resistência.

Entre o folk, o pop e o imaginário audiovisual

Na primeira audição, fui a lugares distintos — de Joni Mitchell à música pop/rock dos anos 80 —, com a eletrônica surgindo como uma espécie de aconchego imaterial. Há uma densidade folky, imersiva, que intensifica o rústico dos acordes de violão, especialmente nas faixas mais sad e reflexivas, como “Ciúme me dá frio”.

Esse espírito descontraído do processo também se reflete nos títulos: “It’s Like Kurt Cobain Songs”, “Caligrafia Tarada” e a ironia de “Nessa data querida”.

“Essa cidade é complicada” ressoa como um desabafo sincero daqueles agridoces, repletos de nostalgia, entre o ar de mistério, memórias visuais, fragmentos e frangalhos. Letrux flerta com a bossa e a psicodelia em “Caligrafia Tarada”, emula seu lado mais confessional silly em “I wrote when I was 22” e traz consigo memórias nubladas em “By my side, in my house”.

Recentemente, reassisti Twin Peaks, e o refrão de “Life is too something”, ecoando “let’s start a fire / from those who don’t know / fire walks with me”, me levou diretamente ao universo de David Lynch e Mark Frost — entre a luxúria, o mistério e o jogo de entonações que Letrux constrói.

“Over my dead body” fecha o disco e é, facilmente, um dos pontos altos. A faixa equilibra arranjos folk, guitarras precisas, elementos eletrônicos e uma entrega vocal que sustenta uma balada atmosférica, cheia de camadas e nuances. Aqui, tudo soa sem filtro — e funciona.

Algo que pode surpreender na promoção do disco são os videoclipes. As composições de Letrux frequentemente ganham novas camadas quando transpostas para o audiovisual, justamente por abrirem caminhos para diferentes leituras e ressignificações por parte dos diretores.

É, inclusive, um tema que já levei em palestras sobre videoclipes independentes, como na Universidade Federal de Uberlândia, onde discuti esse potencial a partir de exemplos nacionais.

Durante a audição do álbum de Letrux, SadSexySillySongs, realizada nos escritórios da Coala Music, ela mesma pontuou que esse tipo de escuta não oferece uma percepção definitiva — e o mesmo vale para qualquer resenha: servir como ponto de partida, nunca como conclusão.

Permitir-se ser vulnerável, frágil e evitar se levar a sério demais são marcas da sua discografia. Aqui, Letícia expande esse gesto, deixando cada faceta ainda mais evidente.

Ficha Técnica: SadSexySillySongs

1- Sad, sexy, silly
2- Ciúme me dá frio
3- It’s like Kurt Cobain songs
4- Essa cidade é complicada
5- Ornamentais
6- Caligrafia tarada
7- I wrote this when I was 22
8- By my side, in my house
9- Nessa data querida
10- Life is too something
11- We never know
12- Over my dead body

Produção Musical: Thiago Rebello
Gravado no Estúdio Marasmo
Engenheiro de som: Lucas Vasconcellos
Mix e master: Paulo Emmery

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