Clarea fala sobre nova fase como trio e desabafa sobre a pressão por viral na música

Em entrevista, Clarea fala sobre saída de integrante e nova fase da banda como trio

Em meio a mudanças na formação, a Clarea vive uma nova fase após se consolidar como trio — e está repensando desde o processo criativo até a forma de se posicionar na cena independente brasileira.

Nesse contexto, o lançamento de “TELA” surge como marco dessa transição e da nova fase do grupo paulista que passa por uma série de mudanças significativas. O antigo quarteto, agora, se solidifica como um trio, André Vinco (ex-Ceano), presente no projeto desde o início, agora além das composições, assume os vocais.

“TELA” discorre ao longo da sua temática justamente sobre os anseios e dinâmicas da vida nas redes sociais. Questionando, em si, o dilema moderno do uso excessivo e os malefícios do hábito de rolagem.

“Quando eu escrevo eu tô sempre contando uma história minha, de um jeito ou de outro. E apesar da Clarea ter tido outro vocalista, são letras e composições que eu mesmo escrevi, então de certa forma, pela primeira vez eu consigo interpretar essas músicas com a gravidade necessária, sem intermediários, como eu fazia na época da Ceano.

Acho que foi justamente isso que me colocou no caminho da música lá quando eu tinha 11 anos de idade: essa capacidade de expressão, de fazer uma coisa absolutamente pessoal mas que pode ressoar com outras pessoas, reflete Vinco em papo com o Hits Perdidos.


Banda Clarea em nova fase como trio durante entrevista ao Hits Perdidos
Em nova fase, a Clarea assume o formato de trio e reforça postura independente. – Foto por: Gabriel Freitas (@insallubre)

Clarea fala sobre saída de integrante e nova fase da banda como trio

Outra mudança é o avanço de uma postura ainda mais faça você mesmo (DIY), em relação aos lançamentos anteriores, já que desta vez os próprios integrantes, André, Vinícius Martone (baixo) e Flávio Catini (bateria e guitarra) assinam a gravação, a mixagem e a produção.

A saída de um integrante é sempre algo desafiador, ainda mais quando os planos, a divisão das atividades internas e os custos estavam bem divididos para a próxima etapa do projeto. No caso deles, um disco estava a caminho, como Vinco explica na conversa.

“É bastante desafiador. Não só a saída foi num momento em que todos os planos para o ano e para a banda já estavam praticamente prontos como também implica uma mudança total de estrutura no projeto: menos pessoas, mais contas a serem divididas, mais “quebras de contrato” pra mitigar, entre outros.

Tivemos que dar um 180º na direção da banda. Mas, ao mesmo tempo, abrem-se novas possibilidades criativas agora que o “core” da banda tá mais enxuto, esse processo também serviu pra que a gente se unisse e também quebrasse vários paradigmas que na nossa cabeça já eram dados como verdade absoluta, principalmente no jeito de enxergar e divulgar a banda e as músicas. Tá sendo um resgate da nossa vontade de fazer música simplesmente porque a gente ama isso. Eu, particularmente, não sentia isso há muito tempo.”

Mas como em toda dificuldade existe uma oportunidade de reavaliar escolhas: a mudança de rota fez com que a Clarea repensasse os caminhos escolhidos e a identidade dos próximos passos sem perder a autonomia e vontade de ressignificar os movimentos.

“Acho que chega um momento na vida de todo artista que sonha viver de arte em que a gente se pergunta: o que eu posso fazer pra que a minha arte “dê certo”? E isso, apesar de uma questão absolutamente válida (vivemos no capitalismo e arte não enche a barriga de ninguém), também é uma baita duma armadilha.

Então dessa vez a gente tá deixando nossas influências convergirem naturalmente, sem essa pressão de “ter que fazer um som que seja viável” e isso é muito gratificante e transformador. A gente continua ouvindo bastante rock alternativo (Movements, Boston Manor, Citizen, Balance & Composure, Basement) mas entendendo que somos o que somos e, se a gente quiser fazer uma música que beba até do fusion e do trip-hop a gente pode, porque faz parte desse caldeirão e o objetivo é, como dito anteriormente, a expressão”, revela Vinco.


Integrantes da Clarea em registro recente após mudanças na banda
Entre mudanças e recomeços, a banda segue em reconstrução. – Foto por: Gabriel Freitas (@insallubre)

Os desafios da produção independente na música hoje

Em relação à capacidade de produção independente e seus paradoxos dentro da indústria de conseguir fazer com que a sua música ganhe a visibilidade merecida, ele desabafa.

“É um paradoxo muito interessante. O acesso “fácil” a DAWs e plug-ins e tutoriais na internet, somado à possibilidade de compra de equipamentos viáveis de entrada (instrumentos e hardware baratos) fez com que fosse possível produzir tudo dentro de um quarto com uma qualidade jamais vista.

Ao mesmo tempo, mais acessibilidade virou mais produtividade, e hoje em dia exige-se um mínimo de qualidade de qualquer projeto que tá começando que é surreal se comparado a anos anteriores.

Sua primeira música tem que ter uma gravação excelente, um clipe bem gravado, conteúdo de pré e pós lançamento, redes sociais, plano de marketing.

Tudo isso custa dinheiro e tempo, mesmo que na teoria dê pra fazer tudo isso de maneira independente. Então é difícil manter tudo isso funcionando de forma independente, sem injeção de grana. Por isso, a gente escolhe nossas batalhas e tenta fazer o máximo que é possível fazer com qualidade.

No caso de “Tela“, produzir, gravar, mixar e masterizar a música deu à gente um controle criativo inédito, já que não tinha um intermediário ali e nem um “taxímetro de estúdio” rodando enquanto fazíamos tudo. Dá orgulho ver o produto pronto que você fez com seus próprios recursos e criatividade”.



“O viral é o que faz o artista acontecer”

A Clarea, como muitos almejam, teve um momento viral nas redes sociais — um dos principais caminhos para artistas independentes ganharem visibilidade hoje — após um vídeo brincando com a realidade, e o fardo do artista independente, ter viralizado após um repost nas redes do Hits Perdidos.

O vídeo soma quase 800 mil views até o momento desta reportagem.



Apesar de ser ótimo para alcançar pessoas fora do próprio nicho que normalmente não seriam impactadas… nem sempre ele vem como a banda gostaria e o momento não foi o mais propício para sustentar, como o próprio vocalista nos admite.

“Cara, então! Foi bastante surpreendente e foi bem legal ver a repercussão. O problema é que aconteceu num momento onde a gente não tinha nada pra mostrar!

Ali a banda tinha acabado de perder o vocalista, não tinha lançamento programado, houve um certo tráfego mas não dava pra explorar muito porque não fazia muito sentido divulgar as músicas com um vocalista que não ia mais aparecer, fora o que eu já disse antes, estávamos reconstruindo tudo. Mas foi massa fazer e massa colher frutos de uma coisa tão espontânea“, lamenta Vinco.

Clarea fala sobre redes sociais, algoritmo e a pressão por viral

Ao ser questionado sobre a pressão para ter um viral hoje em dia, e conseguir sustentá-lo, para gerar conversão, ele finaliza.

Hoje em dia o viral é o que faz o artista acontecer. Pelo menos essa é a impressão que temos e que a indústria ajuda a fomentar. Tá tudo tão nichado, segmentado e isolado que a única maneira de ser visto e ganhar destaque é viralizando com alguma coisa.

Eu particularmente acho isso uma merda, porque me sinto pendurando uma melancia no pescoço pra ver se chamo a atenção, enquanto a arte fica em terceiro plano. Mas é a economia e sociedade em que a gente vive, dá pra lutar contra isso mas não muito, por enquanto.

Mas, uma vez viralizado, existem caminhos bem legais pra sustentar a atenção e colher todos os frutos possíveis, principalmente com lançamentos, um plano abrangente de marketing digital, e acima de tudo autenticidade e foco em mostrar que a banda não é “só o viral”!”

Ao longo da entrevista ao Hits Perdidos, a banda deixa claro um cenário comum na cena independente brasileira, onde artistas lidam com pressão por resultados rápidos nas redes sociais. Entre incertezas, reconstruções e novas possibilidades, a Clarea encara essa fase como um recomeço — menos guiado por fórmulas e mais pela necessidade de expressão artística.

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