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The Adicts em São Paulo: o último show foi tudo, menos uma despedida

Despedidas nunca são fáceis. Nem para o artista que encerra uma carreira longeva, muito menos para o fã que carrega consigo um envolvimento emocional. Por isso, esta resenha recai muito mais sobre formas diferentes de absorver e lidar com esse momento. Acompanho o The Adicts há 20 anos. De lá para cá, tive que lidar com shows cancelados e com apresentações às quais não pude comparecer… mas foi com o show de despedida do The Adicts em São Paulo, na quarta (18), no Carioca Club, que tive a oportunidade de assisti-los ao vivo em três ocasiões.

Sinto que ainda é difícil cair a ficha de que a Adios Amigos Tour é a última turnê. Depois de 51 anos, um comeback soa praticamente impossível. Isso me fez repensar não apenas a minha própria história com o grupo de Ipswich, cidadezinha de pouco mais de 233 mil habitantes no sudeste da Inglaterra, mas também como essa narrativa de despedida tem seus próprios termos.

Se observarmos as redes sociais e os comunicados sobre os shows, fica claro que o apelo da despedida se concentra no momento da divulgação. É um mercado e, no fim do dia, vender ingressos continua sendo uma necessidade.


Monkey surge com capa em formato de asas de borboleta, reforçando o caráter teatral e lúdico do show do The Adicts no Carioca Club. – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Como foi o show de despedida do The Adicts em São Paulo

Conhecidos por transformar seus shows em um circo aberto, o The Adicts sempre teve uma preocupação hoje em dia muito valorizada no mercado da música. Esse papo de super fãs e de gerar experiências emblemáticas sempre esteve na entrega e trocas ao longo da jornada. E isso vai muito além do papo de marketing musical. Existe verdade, conexão, relações construídas e um nível de customização que extrapola qualquer tipo de fórmula que coaches tentam vender para os artistas.

Um espetáculo que vai além da música

Como recurso, utilizando a vestimenta de palhaço, e toda a narrativa cinematográfica que envolve a construção do universo da banda durante as apresentações, o vocalista, Monkey, tira da cartola diversos recursos e se dedica aos fãs nos mínimos detalhes. Na única apresentação no país, iniciou o espetáculo de costas com uma capa que, ao ser levantada, parecia asas de uma borboleta, sua fantasia ainda contava com um terno de brilhantes com elementos de baralho, maquiagem, além do clássico chapéu coco e uma série de penduricalhos, entre munhequeiras, infláveis, canhões de serpentina e outros recursos.

Esse apelo visual engrandece o espetáculo de tal forma que detalhes como pular linhas de guitarra e solos durante as músicas, emendar uma na outra para otimizar o set e entregar o máximo de hits possíveis, deixa até mesmo quem nunca tenha ouvido a banda antes hipnotizado. Claro que o elemento carisma e a capacidade de interagir, seja sensualizando, sendo explícito, bebendo e servindo cerveja para o público, jogando cartas entre outras estripulias, fazem parte da atuação do frontman.

Entre a performance e o tempo

É bem verdade que ele já não é o mesmo de outrora. Afinal de contas, seria injusto lutar contra o tempo. A idade chega e esses recursos, quando bem utilizados, ajudam a contornar as falhas na voz, que é coberta por um dos backing vocals, sobretudo, o fôlego já não é mais o mesmo.

O recurso dos telões com cenas do filme Laranja Mecânica, assim como os desenhos animados e programas de TV antigos, que aparecem desde a faixa de abertura ao encerramento da apresentação, ajudam a criar no imaginário de quem está presente imagens de um outro tempo de consumo da cultura pop.

Nada ali está por acaso. A conexão vem de memórias de infância, em que o consumo de mídias era passivo e os encontros eram mais valorizados do que são hoje.

Nada disso é mera casualidade e, nos dias de hoje, merece maior reflexão. Isso acontece porque, em muitos casos, o cuidado e até os milagres de estúdio não se traduzem no palco com a mesma fidelidade ou qualidade.

A força da experiência coletiva

Durante a apresentação no Carioca Club do The Adicts, o que vemos é o resultado de uma construção coletiva, de tratar a experiência e o imaginário do fã como prioridade. Por mais simplista que seja o som do grupo, afinal de contas, é uma mistura de punk rock com new wave e rock’n’roll sessentista por essência. Crueza que fica clara, principalmente nos discos mais prestigiados pelo público mais purista (Songs Of Praise, de 1981, e Songs Of Music, de 1982).

Esse aprendizado fica justamente não por uma questão de implicância ou de falta de recurso, mas principalmente por potencializar a arte do encontro e quão múltiplos são os interesses de quem assiste. Falar que foi um show de pura nostalgia seria um tanto quanto redundante. Basta ver que as músicas mais recentes do set são justamente, “Fucked Up World”, do álbum And It Was So! (2017) e “Horrorshow”, presente em All The Young Droogs (2012).

O ponto aqui é que em momento algum eles citaram ou deixaram evidente que era um show de despedida. Os integrantes do The Adicts optaram por viver aquele momento.


The Adicts durante apresentação no Carioca Club, em São Paulo, transformando o show de despedida em uma celebração coletiva. – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Uma despedida que não quis parecer despedida

Não teve drama. Não teve discurso. Teve entrega, dedicação, olho no olho, dancinha torta, trocadilho e sentimento de felicidade. A dinâmica de funcionar como uma grande família é um diferencial visível. Os guitarristas e o baixista ficam o tempo todo servindo de apoio e permitem que Monkey brilhe sem forçar um solo a mais, sem ao menos fazer uma firula além da gravação. Muito pelo contrário, quando a voz falha, eles sobrepõem. Feito um time de futebol. Esse espírito de coletividade acima de tudo é um dos grandes ensinamentos dos músicos que se vestem como droogs podem passar para quem assiste.

O show como experiência viva

O show tem música, tem entretenimento, tem customização e recursos que nos prendem. Seja um guarda-chuva que solta serpentina, quatro canhões que jogam fumaça e criam chuvas de papel picado, ou um inflável de cerveja preparado para a icônica “Who Split My Beer?” que o vocalista abre uma cerveja customizada e enche ele antes de devolver para o público se estapear para tomar. Em “I am Yours”, única balada do Fifth Overture (1986) presente no set, disco da era new wave do grupo, ele tira um coração brilhante customizado com o nome da música e faz questão de mostrar para os presentes.

Até a pontaria, que tem seus momentos de riso coletivo, visto que em inúmeras tentativas eles não conseguem acertar o teto do Carioca Clube, para deixar suas serpentinas com as cores da bandeira do Brasil bem postadas, acaba entregando uma experiência do nível: quem sabe faz ao vivo. Em “Chinese Takeaway”, Monkey senta no palco, pega uma caixinha de comida chinesa e começa a fingir comer a serpentina colorida que a recheava durante os momentos sem vocais.


Mesmo nos momentos mais melódicos, o The Adicts mantém a conexão intensa com o público. – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Quando a memória fala mais alto

Mesmo sem falar propriamente em despedida, não faltam declarações de amor durante a apresentação. Seja ao tocar “Angel”, “Tango”, a canastrona “Bad Boy” ou no clássico cover de “You’ll Never Walk Alone” no qual um coração gigante e bolas são atiradas no público em meio a um emaranhado de serpentinas e outros adereços para lá de circenses. A música originalmente composta por Rodgers & Hammerstein acabou sendo adotada pela torcida do Liverpool e vive no imaginário hooligan, o que tem tudo a ver com o espírito rueiro do punk inglês.

Talvez tecnicamente o disco mais bem elaborado da carreira do The Adicts, Smart Alex (1985), que completou 40 anos no ano passado, teve canções presentes no set, estas que costumam ser momentos marcantes das apresentações. Baladas como “Bad Boy”, “Troubadour” e “You’re Fools” não poderiam ficar de fora. “Crazy” talvez tenha ganhado um apelo ainda maior, com versão estendida, o vocalista se dedicou a, conforme o andamento ficava cada vez mais ‘doido’, o que resultou em deixar o arquétipo de palhaço e da saga do protagonista do Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, ainda mais visual.


Interação direta com o público marca momentos icônicos do show, como em “Who Split My Beer?” – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

O dançar do último tango

Até mesmo nas mais clichês como “Joker in the Pack”, o emendar de “4321” com “Numbers”, o simular de um dueto em “Tango” e o momento sempre épico de talvez seu maior hit, “Viva la revolution”, acabam empolgando quem reencontra os integrantes como velhos amigos que estiveram presentes como parte da trilha sonora da vida por tanto tempo.

No fim, “How Sad” é o sentimento que fica. A tristeza e a certeza de que aquele era mesmo o adeus… a última oportunidade de ouvi-los abrir o show com “Let’s Go”, ver a casa vir abaixo e uma grande rodinha punk ganhar forma. Talvez seja esse o momento que ficará na minha memória como fã de música e ouvinte de punk rock desde muito cedo.

De repente é como se todos tivéssemos sido atropelados (“My Baby Got Run Over by a Steamroller”) e pudemos viver uma noite em que todos os sonhos são possíveis (“Daydreamers Night”). Peço perdão de antemão pelos trocadilhos com o nome das músicas, mas quem é fã vai entender o que significa o dançar desse último e merecido tango.

20 anos da despedida dos Ramones

Não pude estar no Aeroanta, em 1996, para ver o Adiós Amigos, dos Ramones, mas pude assistir ao vivo à última passagem pelo Brasil daquela banda que foi, para mim, como os Ramones. A vida tem esses presentes, em meio a lágrimas que não pude soltar ao vivo, é reconfortante lembrar como a arte do encontro, a lucidez das memórias e o amor à música, nos atravessa de tantas formas. Assim como o álbum 27 (1993), o show teve 27 canções. Superstição? Nunca saberemos…

Fato é que “We Look Back”, faixa do Rise And Shine (2002), canção que eles não tocaram no show, ficou na minha cabeça a semana toda justamente por seu teor autobiográfico e como encerraria a trajetória vitoriosa de punks que saíram de uma cidade pequena para ganhar o mundo.

Meu muito obrigado por todas as memórias e emoções que pude viver nesses raros encontros que a vida nos permitiu. Foi realmente uma grande e maravilhosa jornada. Para sempre serão lembrados nas minhas listas de shows favoritos da vida, mas, mais do que isso, nos mais variados momentos agridoces que a vida nos permite viver. E como é boa a sensação de sair de um show se sentindo mais vivo do que nunca.

“We started playing at seventeen
Another part of a bigger scene
We used to wear a shirt back then
Said fuck you man we don’t care

We looked back
We didn’t see you following
We looked back
Where did you go
We looked back
We didn’t see you following
We looked back
A rivers gonna flow

There were times as good as it gets
And there were those disastrous sets
We always had a story to tell
Maybe you tell it as well

We looked back

Thanks for coming if you were there
It is something that we will always share
We’re sorry if we let you down
It ain’t always funny being a clown

We looked back on times gone by

A song for you all”, “We Look Back”, The Adicts

Fotos do show do The Adicts em São Paulo


Monkey viveu momento de garçom durante “Who Split My Beer?” – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Com dinâmica coletiva, banda sustenta o show enquanto Monkey assume o protagonismo no palco. – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Público responde à altura e transforma o último show do The Adicts em São Paulo em uma despedida sem clima de despedida. – Foto Por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Em “I Am Yours”, Monkey desacelera o espetáculo e cria um dos momentos mais íntimos do show do The Adicts, reforçando a conexão com o público no Carioca Club. – Foto Por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Com serpentinas saindo do guarda-chuva, o show do The Adicts ganha mais um elemento do seu universo circense. – Foto por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Setlist: The Adicts em São Paulo (18 de março de 2026)

William Tell Overture (Gioachino Rossini)
Let’s Go
Joker in the Pack
Horrorshow
Tango
Don’t Exploit Me
Johnny Was a Soldier
How Sad
4321
Numbers
Troubadour
I Am Yours
Angel
Telepathic People
Daydreamers Night
Fucked Up World
You’re All Fools
Rockin’ Wrecker
The Odd Couple
My Baby Got Run Over by a Steamroller
Just Like Me
Who Spilt My Beer?
Fuck It Up
Crazy
Chinese Takeaway
Bad Boy
Viva la revolution
You’ll Never Walk Alone (Rodgers & Hammerstein cover)
Symphony no. 9 in D minor, op. 125 – IV. Finale (“Ode to Joy”) (Ludwig van Beethoven)

This post was published on 19 de março de 2026 9:57 pm

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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