Festivais mexicanos e a desigualdade de gênero: quando a curadoria define quem pode existir
O México é hoje um dos mercados musicais mais relevantes da América Latina, com forte presença digital, circulação internacional e uma cena independente vibrante. Ainda assim, quando se observa quem ocupa os palcos dos principais festivais do país, o retrato é outro — e ele é sistematicamente desigual.
O estudo ¿Y Dónde están las Músicas? Estudio de Brecha de Género de Festivales Mexicanos 2025 oferece uma radiografia detalhada dessa disparidade (leia o estudo completo).
Dos 2.243 atos analisados:
1.742 são compostos exclusivamente por homens
501 incluem participação feminina relevante
O que é equivalente a 22,7% do total. Em termos práticos, quase 77% das atrações são compostas exclusivamente por homens.
Em 2022 e 2023, 25% dos line-ups eram compostos por atrações femininas.
Em 2024, dos 71 festivais mexicanos, 17 foram descontinuados.
No ano de 2024, o número de presença feminina caiu, o que evidenciou como a redução do número de festivais não veio acompanhada de uma melhor redistribuição mais equitativa dos cenários.
Christina Rosenvinge é ainda mais enfática ao afirmar que “um festival sem mulheres não deveria receber subsídios públicos”.
O levantamento acontece anualmente desde 2022 e tem como função diminuir a pouca representação das mulheres nos line-ups dos festivais mexicanos. Como estratégia para impactar, os cartazes dos festivais apagavam as atrações masculinas e mistas para evidenciar as lacunas que se diluem em programações extensas e em discursos de diversidade.
O estudo aponta que, mesmo o México sendo um dos principais mercados globais de música ao vivo, apenas 10% das artistas locais que lançam discos e/ou singles alcançam os principais portais de música e entram nos line-ups dos festivais.
Essa brecha entre a criação e a visibilidade evidencia que o problema não é a falta de musicistas, e sim filtros que determinam o que alcança as curadorias, o que se difunde e o que se legitima.
“Aqui os dados não funcionam como encerramento de discussão e sim como um ponto de partida para discutir responsabilidades, políticas culturais e as formas como a exclusão segue se reproduzindo – ou se transforma – nas cenas mexicanas.”, afirma Karina Cabrera, criadora do SororidadeMX
O estudo evidencia que a desigualdade de gênero nos festivais mexicanos não apresenta trajetória linear de melhora. Em anos anteriores, o percentual de participação feminina havia se aproximado de 25%. Em 2024, o índice caiu para 22,7%.
Essa oscilação desmente o discurso de “progresso natural”. A equidade não está se consolidando espontaneamente. Sem mecanismos estruturais, a tendência é a manutenção do desequilíbrio — e, eventualmente, o retrocesso.
Essa constatação é central nas páginas finais do relatório: o mercado não se autorregula em direção à paridade.
Se a presença geral já é limitada, a hierarquia dos cartazes revela um cenário ainda mais restritivo.
Entre os 2.243 atos analisados, apenas 19 projetos liderados por mulheres ocuparam posições de headliner.
Isso representa menos de 1% do total.
Essa diferença entre participação global (22,7%) e protagonismo máximo evidencia o caráter vertical da desigualdade. Quanto maior for o palco, maior o orçamento e maior a visibilidade, menor a presença feminina.
Maior cachê
Maior tempo de palco
Maior exposição midiática
Maior poder de negociação
Maior capacidade de consolidação internacional
Quando mulheres não ocupam essas posições, a desigualdade deixa de ser apenas simbólica e passa a ser econômica.
O estudo também faz um recorte por nacionalidade. Dos 501 atos com participação feminina, apenas 220 eram de artistas mexicanas — cerca de 9,8% do total geral de atrações.
Esse dado amplia a análise: não é apenas uma questão de gênero, mas também de estrutura de mercado interno. Artistas mexicanas enfrentam uma dupla barreira — gênero e posição dentro de circuitos dominados por redes consolidadas.
Em um país que celebra sua cena independente e promove festivais como vitrines culturais, menos de 10% do total de atrações corresponde a mulheres locais.
Um dos pontos mais reveladores do estudo está na comparação entre festivais. A desigualdade não é homogênea.
Entre os eventos com maior participação feminina em 2024 estão:
Asiste o Muere — 100%
Tecate Emblema — 62%
Catharsis — 50%
Akamba — 46%
Salín aro Fest — 44%
Remind GNP — 41%
Heineken Silver Live Out — 38%
Indie Fest Yucatán — 33%
M Jazz — 33%
Festival Amigo — 30%
O estudo revela variações significativas entre festivais.
Alguns eventos apresentam índices superiores a 40% ou até 50% de participação feminina. Outros permanecem abaixo de 30%.
Isso demonstra que a desigualdade não é inevitável. Ela é resultado de decisão.
Festivais que adotam postura ativa de inclusão apresentam resultados concretos.
O argumento da “falta de artistas mulheres” perde força diante desses exemplos.
A diferença está nas escolhas curatoriais.
As páginas finais do estudo apontam que a exclusão feminina dos line-ups não é apenas um problema de representação.
Ela impacta:
Distribuição de cachês
Acesso a patrocinadores
Convites para turnês internacionais
Permanência na indústria
Consolidação de carreira
Se headliners concentram recursos e mulheres quase não ocupam essas posições, a desigualdade se retroalimenta financeiramente.
A brecha de gênero nos festivais mexicanos reorganiza o fluxo de capital cultural.
Na divulgação do estudo, as responsáveis reforçaram que o objetivo não é apenas denunciar números, mas evidenciar um problema estrutural.
Uma das reflexões centrais apontadas no debate público em torno do relatório é que festivais frequentemente adotam discursos de diversidade, mas não transformam esses compromissos em metas verificáveis.
A crítica recorrente é clara: iniciativas simbólicas não alteram a estrutura se não houver políticas permanentes de inclusão, transparência e monitoramento.
O relatório sintetiza sua análise em pontos centrais:
• A desigualdade é estrutural e recorrente
• Não há progresso consistente sem política explícita
• A hierarquia dos cartazes concentra exclusão
• Festivais moldam o mercado e as narrativas culturais
• Transparência é condição para mudança
O estudo também afirma que a ausência de dados históricos consolidados favorece a invisibilização da brecha.
Monitorar é politizar.
O estudo enfatiza que a brecha de gênero não pode ser interpretada como resultado de uma edição específica ou de um festival isolado. O padrão se repete ao longo dos anos e atravessa diferentes formatos de evento.
A concentração masculina nos line-ups revela um modelo consolidado de programação que reproduz redes de booking históricas, agentes consolidados e circuitos predominantemente masculinos. Não se trata de exceção — trata-se de estrutura.
O relatório deixa claro que a repetição do padrão ao longo dos anos indica ausência de mecanismos internos de correção.
Um dos pontos mais relevantes das últimas páginas é a desconstrução da narrativa de “evolução natural”.
Os dados mostram que a participação feminina já esteve próxima de 25% em anos anteriores, mas caiu para 22,7% em 2024
Isso demonstra que o mercado não corrige sozinho a desigualdade.
Sem políticas explícitas ou compromissos assumidos, a tendência é a manutenção — ou até o retrocesso — da disparidade.
O estudo insiste que equidade não é subproduto do tempo; é resultado de decisão.
A diferença entre presença geral (22,7%) e headliners (menos de 1%) revela um ponto estrutural crucial: a desigualdade se intensifica no topo.
As páginas finais sublinham que headliners concentram:
Maior investimento financeiro
Maior visibilidade midiática
Maior tempo de palco
Consolidação de carreira
Quando mulheres não ocupam essas posições, a desigualdade se perpetua economicamente. Não se trata apenas de representação simbólica, mas de distribuição de renda e oportunidades.
O estudo dedica parte importante de sua conclusão à crítica do discurso frequentemente usado por organizadores: “não há artistas mulheres suficientes”.
O relatório aponta que a cena mexicana é diversa e ativa, com mulheres atuando em múltiplos gêneros — do alternativo ao eletrônico, do pop ao experimental. A baixa presença nos festivais não reflete ausência de produção, mas ausência de inclusão.
Além disso, os festivais que apresentam percentuais superiores a 40% ou 50% demonstram que a oferta existe quando há busca ativa e compromisso curatorial
Um dos pontos mais fortes das últimas páginas é a compreensão de que festivais não apenas refletem a indústria — eles a moldam.
Ao selecionar determinados artistas, os eventos:
Influenciam circuitos de contratação
Definem quem ganha visibilidade internacional
Determinam quais nomes entram no radar de marcas e patrocinadores
Criam referências para novas gerações
Portanto, a desigualdade nos line-ups não é neutra. Ela reorganiza o mercado e reforça hierarquias.
As recomendações finais não são genéricas. Elas apontam direções práticas e estruturais.
O estudo propõe que festivais estabeleçam metas explícitas de inclusão de gênero, acompanhadas de divulgação anual de dados.
A transparência é vista como ferramenta de pressão social e de responsabilização institucional.
Sem métricas públicas, não há como medir avanço — nem identificar retrocesso.
O relatório destaca que a diversidade não pode ser ação pontual associada ao 8 de março ou campanhas sazonais.
A perspectiva de gênero precisa integrar o processo de programação desde o início:
Definição de headliners
Divisão de horários
Seleção de artistas emergentes
Composição de painéis e atividades paralelas
Isso implica revisar redes de contatos, critérios de escolha e mecanismos tradicionais de booking.
O próprio estudo se apresenta como ferramenta de monitoramento.
A recomendação é que a coleta de dados seja contínua e padronizada, permitindo acompanhar a evolução ano a ano. A ausência de dados históricos consolidados favorece a invisibilização do problema.
O monitoramento transforma percepção em evidência.
Outro ponto importante é a necessidade de busca ativa por artistas mulheres, especialmente fora dos circuitos mais centrais.
O relatório sugere:
Fortalecimento de redes independentes
Aproximação com coletivos locais
Investimento em talentos emergentes
Descentralização geográfica
A desigualdade também está relacionada à concentração de poder nas mesmas estruturas e agentes.
As páginas finais indicam que mudanças estruturais podem envolver incentivos públicos, editais e mecanismos que privilegiem festivais comprometidos com a diversidade.
Embora o estudo não imponha um modelo único, ele sugere que o mercado, sozinho, não demonstrou capacidade de corrigir a brecha.
Com 22,7% de participação feminina e menos de 1% de headliners mulheres
A desigualdade de gênero nos festivais mexicanos deixa de ser debate abstrato.
Ela impacta:
Distribuição de renda
Consolidação de carreira
Visibilidade internacional
Formação de público
Sustentabilidade profissional
O estudo demonstra que a questão central não é a existência de artistas mulheres, mas quem ocupa as posições de decisão.
No fim, a pergunta que orienta o relatório não é retórica.
As músicas existem.
A estrutura que define quem pode ocupar o palco principal é que continua desigual.
Na parte final do estudo sobre a brecha de gênero nos festivais mexicanos, o foco deixa de ser apenas estatístico. A discussão passa a mirar diretamente os agentes que moldam o mercado: programadores, bookers, produtores, direção artística e meios de comunicação.
A desigualdade não é tratada como um acidente. Ela é resultado de decisões.
E decisões têm responsáveis.
O estudo é direto ao apontar que a programação dos festivais não é neutra. Ela nasce de redes já consolidadas, de contatos recorrentes, de agentes que trabalham com determinados catálogos há anos.
Quando os programadores recorrem sempre às mesmas estruturas de booking, o resultado tende a reproduzir um circuito predominantemente masculino.
O argumento de que “não há artistas mulheres suficientes” é confrontado pelo próprio levantamento: existem artistas, existem projetos, existem cenas ativas. Falta mesmo é a busca ativa e revisão de critérios.
O estudo sugere que os programadores precisam ampliar suas bases de dados, sair das redes habituais, investir em pesquisa e incorporar a perspectiva de gênero como critério permanente — não como ação pontual.
Sem isso, a desigualdade se mantém quase por inércia.
A desigualdade não acontece apenas na escolha artística. Ela também se consolida na distribuição de orçamento.
Os maiores cachês continuam concentrados nos mesmos nomes — que, em sua maioria, são homens. Isso cria um ciclo difícil de romper: artistas homens recebem mais investimento, ganham mais visibilidade, tornam-se apostas mais “seguras” e voltam a ser contratados.
O estudo deixa claro que a brecha de gênero também é econômica.
Se mulheres quase não ocupam posições de headliner — menos de 1% entre os 2.243 atos analisados — elas também ficam fora da principal concentração de recursos.
Não é apenas uma questão de palco. É uma questão de dinheiro, poder de negociação e permanência na indústria.
Outro ponto importante é o papel da direção artística.
Festivais não são apenas eventos; são plataformas de narrativa cultural. Eles ajudam a definir quem representa uma geração, quem é visto como referência e quais estéticas ganham centralidade.
Quando as equipes de direção artística são homogêneas — tanto em gênero quanto em redes de relacionamento — o resultado tende a ser igualmente homogêneo.
O estudo sugere que ampliar a diversidade nas equipes de decisão é tão importante quanto ampliar a diversidade nos line-ups.
Sem diversidade no processo, dificilmente haverá diversidade no resultado.
O relatório também provoca a imprensa especializada.
A cobertura de festivais costuma reproduzir os cartazes como fatos consumados: anuncia headliners, celebra números de público, destaca experiências e estrutura. Raramente questiona quem está ausente.
Quando a mídia não problematiza a composição dos line-ups, acaba reforçando a ideia de que aquela distribuição é natural.
O estudo sugere que monitorar e publicar dados sobre desigualdade não é papel exclusivo de pesquisadores — também é responsabilidade do jornalismo cultural.
Dar visibilidade ao problema é parte do processo de transformação.
Uma das ideias mais fortes do estudo é que transparência é ferramenta política.
Sem divulgação sistemática de dados, a desigualdade permanece diluída em percepções vagas. Quando os números aparecem — 22,7% de participação feminina, menos de 1% de headliners mulheres — o debate deixa de ser subjetivo.
O levantamento defende metas públicas, divulgação anual de percentuais e monitoramento contínuo. Não como gesto simbólico, mas como mecanismo de responsabilização.
Talvez a conclusão mais contundente seja esta: o mercado não corrige desigualdades sozinho.
Sem compromissos explícitos, revisão de redes de poder, redistribuição de investimento e acompanhamento constante, a estrutura permanece praticamente intacta.
A brecha de gênero nos festivais mexicanos não é fruto do acaso. É fruto de decisões repetidas ao longo do tempo.
E decisões podem ser revistas.
This post was published on 19 de fevereiro de 2026 7:01 pm
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