Exposição Introdução História Arte Brasileira tem visitação gratuita aos domingos. - Foto Por: Lucas Nave (Grupophoto)
Instalação no Itaú Cultural reúne 168 capas de discos de LPs brasileiros onde música e artes visuais se encontram em capas criadas por nomes como Hélio Oiticica, Rubens Gerchman e Regina Vater
Música e arte são o tipo de coisa que não há como separar, o momento de ver e ouvir é a mesma vivência. A capa de um disco ilustra o conteúdo, assim como a música contempla a imagem. As duas experiências andam juntas, se potencializam, criam uma terceira coisa.
E é sobre este encontro, entre som e imagem, entre Gal e Oiticica, que Bruno Faria coloca em evidência na exposição Introdução à História da arte brasileira 1960-90, em cartaz no Itaú Cultural até 15 de fevereiro. A instalação reúne 168 discos de vinil brasileiros lançados entre os anos 60 e 90, mostrando que a história da arte no Brasil também foi escrita (e cantada, e desenhada) nesses objetos que circularam em milhões de mãos.
A ideia talvez seja olhar para a capa de Tropicália ou Panis et Circencis e perceber a sinestesia da imagem virar som e o som virar cor. A psicodelia não está só na música ou só no design do Rubens Gerchman, ela está no encontro dos dois. Aquele caranguejo do Da lama ao caos não é ilustração decorativa, é manguebeat traduzido em recorte e colagem. A ilustração não acompanha a música, ela é a música por outros meios.
Dispostos em ordem cronológica em prateleiras que desenham um “U” no segundo piso do Itaú Cultural, os discos selecionados por Bruno Faria formam um percurso pela história cultural brasileira. Caetano, Chico, Milton, Elza, Titãs, embalados por capas assinadas por Guto Lacaz, Regina Vater, Décio Pignatari, Samico, Rubens Gerchman. Arte e música sempre andaram juntas.
O acervo da exposição não existia antes, foi construído especialmente para a obra, no processo de pesquisa de Bruno Faria. O ponto de partida era simples: identificar discos cujas capas tivessem sido feitas por artistas visuais. Mas aí a coisa complicou.
“A produção de discos nesse período é imensa, e foi necessário estabelecer um recorte numérico”, conta o artista. Durante a pesquisa, surgiam novos álbuns que pareciam indispensáveis o tempo todo. O fechamento do conjunto não foi uma decisão arbitrária, mas um reconhecimento de que a pesquisa poderia se estender indefinidamente. “Acredito que o recorte se concluiu justamente quando a pesquisa foi finalizada; se ela continuasse, novos discos surgiriam naturalmente”.
Essa impossibilidade de esgotar o tema está inscrita no próprio título da instalação. Ao incluir a palavra “introdução”, o trabalho não tenta estabelecer um cânone fechado. “Por se tratar do universo artístico, o título funciona como um elemento simbólico”, explica Bruno. “A obra se apresenta como um recorte possível, quase como uma homenagem às relações entre as artes visuais e a música brasileira”.
A cronologia que se vê nas prateleiras é também uma linha do tempo da história cultural brasileira. O disco mais antigo é A bossa negra (1961), segundo álbum de Elza Soares, com capa do Cesar G. Villela, pintor e programador visual carioca que se tornaria referência no design da bossa nova. Dele também é a capa de Nara (1964), álbum de estreia de Nara Leão.
Outras capas viraram tão icônicas quanto as músicas que compõem os discos. O disco Secos e Molhados (1973), por exemplo, traz aquela imagem perturbadora de cabeças servidas em pratos, trabalho do Décio Duarte Ambrósio que habita no imaginário brasileiro junto com a voz do Ney Matogrosso.
As capas carregam vestígios de seu próprio tempo. Calabar, o elogio da traição (1972), do Chico Buarque, mostra uma pichação branca em muro cinza, criação da Regina Vater para um álbum que foi censurado pelo regime militar. “Essa relação se revela em cada período e década representados pelos discos”, observa Bruno.
“A música popular brasileira ajuda a contar a história do país e de sua produção artística em diferentes momentos. Questões centrais da nossa história, como a ditadura militar – período em que muitos discos foram censurados – ou temas como a epidemia de AIDS, presente, por exemplo, em um disco de Léo Jaime, aparecem como camadas narrativas fundamentais.”
A instalação não se limita à contemplação. A cada dia, um disco diferente toca no espaço, na ocasião da visita, tocava Drama: Anjo Exterminado (1972), da Maria Bethânia. Do lado das prateleiras, 28 discos ficam disponíveis para o manuseio ao lado de uma vitrola, onde é possível escolher um dos discos e escutar ali mesmo, com fones de ouvido.
Acredito que esse é o elemento mais especial da exposição, onde acontece a experiência tátil e sensorial de ouvir um disco ao mesmo tempo, em que se olha e contempla a capa. Existe uma diferença brutal entre ouvir a música em um streaming e segurar o disco dos Mutantes enquanto escuta “Balada do Louco”. A materialidade do vinil, o peso, a textura, o ritual de tirar da capa, colocar no prato, abaixar a agulha, cria uma relação com a música que vai além da escuta.
As capas não são decoração, são quase um portal. Elas te guiam em uma direção antes mesmo da primeira nota soar. A capa direciona a escuta, amplia a interpretação, vai além da letra.
“A ideia surgiu a partir do desejo de criar um elemento de participação direta do espectador”, conta Bruno sobre a vitrola interativa. Na primeira vez que a obra foi exposta, numa galeria com menos movimento, qualquer pessoa podia tirar um disco da parede, descobrir no adesivo colado atrás o nome do artista visual responsável pela capa e levar até a vitrola para escutar. “Essa interação é fundamental para a experiência total da obra e pode, sim, ser entendida como um gesto quase performático dentro da instalação.”
No Itaú Cultural, devido ao fluxo maior de gente e questões de segurança, a obra precisou ser adaptada, mas a essência permanece. A seleção tem 28 discos que seguem o mesmo eixo conceitual: álbuns com capas criadas por artistas visuais e que têm peso cultural na música brasileira. Entre eles, Tim Maia, Itamar Assumpção, Clube da Esquina.
Segundo Bruno, “As capas de discos funcionam como um espaço onde a arte visual circula amplamente, alcançando públicos diversos e rompendo as fronteiras entre o circuito institucional da arte e a indústria cultural.”
Mas a questão vai além da “arte saindo do circuito”, é sobre reconhecer que a música sempre foi arte, e que as capas de disco são tão legítimas quanto qualquer tela pendurada em museu. Um álbum do Caetano com capa do Hélio Oiticica não é “arte disfarçada de produto”, é arte, ponto. Arte que chegou em milhões de casas, que foi tocada até arranhar, que virou trilha sonora de vidas inteiras.
A instalação reposiciona essas capas não como design aplicado ou arte comercial, mas como capítulo essencial da produção visual brasileira. A diferença é que agora a gente para pra olhar com a atenção que elas pedem.
O motivo de encerrar a curadoria dos discos em 1990 é simples: foi nesse momento que o vinil começou a sumir, com a chegada do CD. “Essa mudança de suporte implicou uma perda significativa na visualidade, principalmente pela redução do espaço destinado à criação artística das capas”, explica Bruno.
O tamanho encolheu de 31×31 cm para 12×12 cm. Mas, a geração também mudou, o jeito de escutar, a velocidade do mundo mudou. É natural. Faz parte da evolução da tecnologia, da mesma forma que o CD deu lugar ao MP3, que deu lugar ao streaming. Cada época tem seu formato, cada formato pede um tipo de atenção.
O interessante é que hoje o vinil voltou, ressignificado, revalorizado.
“O público que já teve contato com o vinil reencontra um objeto presente em sua memória afetiva, enquanto as gerações mais jovens se deparam com algo que é, ao mesmo tempo, novo e antigo”, diz Bruno.
Talvez porque, no meio de tanta música fragmentada em playlists infinitas, tem gente redescobrindo o prazer de ouvir um disco inteiro enquanto olha pra capa. De ver e ouvir como partes de uma mesma experiência.
Onde: Itaú Cultural – Sala Multiuso, piso 2, Avenida Paulista, 149, São Paulo
Quando: Até 15 de fevereiro de 2026, de terça a sábado, das 11h às 20h | Domingos e feriados, das 11h às 19h
Ingressos: Entrada gratuita
Mais Informações: www.itaucultural.org.br
This post was published on 29 de janeiro de 2026 7:30 am
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