Noporn resiste ao retrocesso em clima de pista no álbum “Contra Dança”

 Noporn resiste ao retrocesso em clima de pista no álbum “Contra Dança”

Noporn lança o quarto álbum “Contra Dança” – Foto Por: Gleeson Paulino

Noporn lança o quarto álbum de estúdio, Contra Dança, em Premiere no Hits Perdidos

Formado em 2002, na cidade de São Paulo, o Noporn denomina seu som como Spoken-word electronic dance music e está prestes de apresentar grandes planos para as comemorações de 20 anos de banda. Além do single duplo “Nome Sujo + Estranha e Louca”, o duo divulgou recentemente uma extensa turnê europeia para comemorar o feito (saiba mais).

Na bagagem eles já contavam com os discos NoPorn (2006), BOCA (2016) e SIM (2021) e agora Contra Dança integra a discografia.

Liana Padilha e Lucas Freire agora apresentam nesta sexta-feira (02/09) seu quarto álbum de estúdio, Contra Dança, Com a noite e as pistas dos clubes como plano de fundo, o material conta com 12 faixas e o personagem principal é a noite onde o sexo é faz parte do diálogo.

“Quando pensamos em lançar o disco #4 do Noporn, vários assuntos pularam nas nossas cabeças. Pensei nas mulheres deste século, e no meu próprio papel de ser uma mulher há vinte anos criando música, abrindo espaço no charme e no microfone, em festas, bares e mini casas noturnas do começo do século XXI até agora, tocando para públicos, em palcos maiores, nos grandes festivais. A força de criar junto com outras pessoas, de continuar me divertindo, criando mundos únicos e particulares de poesia e som”, explica Liana Padilha.

“Meu encontro com o Lucas Freire (meu parceiro desde 2018), produtor com faro e sensibilidade de buscar essência e ritmo para as minhas frases. E o próprio público do Noporn, cada dia mais jovem, que eventualmente descobre e curte músicas antigas, como se tivessem sido feitas ontem. Enfim, as relações entre pessoas, trocas, territórios, sempre estiveram no meu universo pessoal”, completa Padilha sobre a arte dos encontros.


Noporn lança Contra Dança - Foto de Gleeson Paulino
Noporn lança o quarto álbum “Contra Dança” – Foto Por: Gleeson Paulino

Noporn Contra Dança

A complexidade do momento ímpar vivido na pandemia acabou criando novas dinâmicas em todos nós, e com a sensibilidade dos artistas isso não foi diferente, resultando em um disco que trás para o primeiro plano toda essa perspectiva pelos corpos.

“Nos últimos dois anos, vivemos uma experiência brutal de isolamento físico e ao mesmo tempo de superexposição nas redes. O que fizemos com isso? O que aprendemos sobre os outros e sobre nós? Abrimos a caixinha de perguntas e contamos tudo? Abrimos a câmera e mostramos o que estava entre quatro paredes? Ou fugimos da realidade com joguinhos, drogas, e pornografia? Nunca sentimos tanta coisa em comum com as outras pessoas e ao mesmo tempo, nunca estivemos tão sozinhos. Temos pressa. O mundo ficou maior, o mundo ficou menor, como ficou o seu mundo? Seu corpo, habitado por milhões de seres microscópicos, gira em um universo lotado de estrelas e planetas que ainda nem têm nome. Como está esse corpo agora?”, reflete Padilha

O lado experimental e a mensagem para bater de primeira acabaram influenciando no processo de criação segundo Lucas Freire.

“Contra Dança é um álbum direto. Compusemos ele em sessões intensas, procurando em nós algo elementar. Trouxemos novos instrumentos e parceiros de trabalho para mudar um pouco a perspectiva de criação. Buscamos o cru e o explosivo, mesmo vivendo sentimentos antagônicos.”

Entrevista: Noporn sobre Contra Dança

O último disco tem o apelo mais de autoconhecimento – e processo de cura – e este novo já direciona para a vida noturna e a sexualidade, refletindo a retomada da vida e do fervo das pistas de dança. Como veem essa guinada e o que esperam dos reencontros aos palcos neste novo momento que também coroa os 20 anos de trajetória?

Noporn: “O Noporn mudou nesses 20 anos, mudamos todos, o mundo mudou muito rápido nos últimos anos também.

As pessoas precisam de escape. As festas voltaram fortes e com muito material estético e emocional, depois de tanto isolamento e tragédia. Temos muita história pra contar.

Somos otimistas, somos corajosos e esperamos públicos quentes e abertos pro que temos criado, pessoas animadas e dispostas a celebrar um mundo melhor, pra dançar e brilhar.”

Aliás, os clubbers, que os que se resguardavam na pandemia e não foram para as festas clandestinas, dentro da cultura dos eventos foram os últimos a terem uma experiência próxima do público. Como veem a resistência da cultura neste período, seja pelas festas digitais, como nas últimas décadas e sua constante renovação de público e tendências sonoras?

Noporn: “Houve muitas festas on-line durante a pandemia. Nós participamos de algumas, foram divertidíssimas. Foi forte viver todo esse momento de incerteza e insegurança e ver as pessoas se juntarem como podiam para extravasar, dançar e se conectar com os outros.”

Como veem a mudança de comportamento e ativismo nas pistas de dança com o passar dos anos? Quais causas observam que mais ganharam corpo e quais ações neste sentido tem observado tanto no Brasil como no exterior?

Noporn: “Muito importante que os núcleos criem cenas onde possam se expressar livremente. A música, a dança, a cultura em geral, devem ser ambientes livres e seguros. Hoje a maioria das festas tem performers e visuais, que criam algo perto de cinema ou do teatro. Nesses lugares, as pessoas podem sonhar e criar personagens, isso é muito importante pra auto valorização. Desse caldo, nascem artistas incríveis. As festas LGBTQI+ são territórios livres para expressão da cultura dos mais jovens.”

Como as mulheres deste século inspiraram direta e indiretamente a concepção do quarto disco?

Noporn: “Quando separamos as músicas desse álbum, inicialmente tínhamos material pra dois álbuns. Separamos as músicas mais de celebração pra esse disco e guardamos outras mais introspectivas para um outro momento. Dessas músicas depois percebemos que a grande maioria falava de mulheres ou para mulheres.

Ano passado, quando começamos a ver a necessidade de um disco mais animado, mais dançante, estávamos em Lisboa que achamos uma cidade muito feminina, as mulheres de todas as idades, andam nas ruas a qualquer hora, com a roupa que querem, sem assédio.

O mundo precisa de mais energia feminina. O feminino é uma pauta, presente e necessária nesse momento. Ser mulher é difícil em todos os lugares, alguns mais que outros. O Brasil é um lugar violento para ser mulher. Enfim, foi um acaso que se tornou assunto.

O processo de pesquisa por referências sonoras, artísticas e visuais é sempre algo que os fãs ficam curiosos. Como funcionou isso desta vez para vocês?

Noporn: “Na verdade é tudo bem orgânico. A gente ouve muita música diferente, busca muito se instigar a conhecer coisas novas. Nos permitimos fazer isso com instrumentos musicais e processos novos, que normalmente não estavam no nosso alcance por vários motivos. Foi bom poder adentrar espaços sonoros e visuais até então sem precedentes para nós. Desde o uso de guitarra elétrica e de versos rápidos até o fato de termos colaborado com outros artistas visuais para criar as fotos, o material gráfico do álbum e as imagens para divulgação e mídias sociais. Foi tudo intenso e interessante. Conseguimos nos expressar de uma forma bem direta nas músicas, acredito que nas imagens também.

A pesquisa é mais dentro do que orbita o nosso dia-a-dia, dentro das nossas anotações, rascunhos, Jams, improvisos, sonhos. A gente vai juntando, bagunçando e organizando essas ideias até chegar num sentido. Nos inspiramos muito ouvindo música e histórias, assim como ouvindo amigos tocarem. Às vezes também saímos para ouvir música, mas está mais raro. O lugar para onde mais vamos é a nossa própria cabeça mesmo (risos). A gente é insistente na busca e no aprendizado desse caminho invisível. O resultado é este novo álbum.”

Como observam o momento político do Brasil e a necessidade de se posicionar ativamente neste momento pré-eleições?

Noporn: “O Brasil decaiu décadas nos últimos quatro anos, todo o atraso que estava escondido em comentários idiotas, virou uma metralhadora de ódio contra os mais livres. Toda situação repressora aparece disfarçada de “bons costumes”, ”pessoas de bem” fiscalizando a vida sexual dos outros, o útero das mulheres, a roupa das meninas, o sexo das pessoas. Isso é perigoso e cafona.

Já estávamos, ou pensávamos estar, num grau de civilidade mais sofisticado, só que não. Colocar a violência como normalizada, a grosseria como livre expressão, deixou muita gente vulnerável. Junta nisso a miséria e a fome no Brasil, o eterno fracasso da guerra anti drogas, a corrupção e o descaso e você tem o caldo perfeito para uma sociedade doente e deprimida. Nesse ponto, o que assistimos em algumas festas e shows, é algo milagroso e com poder de cura.

Por tudo isso, temos que nos posicionar o tempo todo. Nós por falarmos de sexualidade e liberdade, já deixamos claro nossa posição. Somos contra o Fascismo, racismo, homofobia, transfobia e contra qualquer governo que interfira na liberdade individual. Somos a favor do estado Laico e da educação sexual nas escolas. E somos radicalmente contra o atual governo do Brasil.

Noites melhores virão!!!”

Noporn Contra Dança



Faixa a Faixa por Liana Padilha

Saiba mais nuances de cada faixa de Contra Dança em faixa a faixa escrito pela própria Liana Padilha.

1. Ouriço (Intro)

Sobre oceanos, paixões e Ouriços. Esta música abre o disco com a lembrança do barulho das ondas do mar, misturado com os trens passando na nossa janela na Barra Funda, em São Paulo.

2. Sereia

Ainda no mar, a Sereia não consegue dormir sem gozar. Ela transborda e precisa viver as suas fantasias de rendinhas e derretimento puro.

3. Contra Dança

“Não consigo mudar, tenho que mudar, vou mudar”. A vida não é um programa de tv, você não está num filme. Você não é tão importante. Você está sozinho. Sexo e solidão. O mundo tem cada vez mais gente. O oposto da morte é o sexo. Ninguém pediu a sua opinião.

4. Lilith

A Lilith é uma entidade mitológica “do contra”. Nunca entendemos direito o que significa, mas adoramos o mito da mulher que não veio da costela de Adão.

A letra fala de um encontro de duas pessoas: uma tem Marte conjunto à lua da outra e as duas têm Lilith em escorpião. Encontros do nada que mudam o rumo da sua vida para sempre — e também fala de coisas que têm tudo para dar errado, mas no fim dão certo.

5. Antropofagia do Amor

Tem a ver com Índios canibais, Modernistas de 22 (semana de arte moderna), Zé Celso Martinez Corrêa e seu teatro Oficina. Tem a ver com o amor e a mistura de átomos entre nós e os seres amados, entre nós e todos os seres. Sobre cheiros, gostos, sentidos e movimento. E também sobre Não-Drama. “Tentando aplacar o desejo  com o cheiro do suor na camiseta que o objeto do amor esqueceu na sua casa.”

6. Estranha e Louca

E sobre a estranheza de ser Mulher. Para as mulheres livres, nuas, soltas e que ainda acreditam no amor como força de cura. A letra se apropria da pecha da loucura para tratar de uma liberdade ainda estranha para a maioria das mulheres. É mais um desejo de acolher a estranheza, loucura e mágica de ser mulher hoje no mundo.

7. Adoro Djs

Tem gente que tem tesão em drinks, outros em roupas caras, há os que gostam de loiras, os que amam pés, carros. Pessoas que preferem inteligentes, falantes, calados. Eu adoro DJs, adoro.

8. Drinks Ruins

“Eu estava numa festa, um menino tomou um drink com uma bala dentro e a língua dele ficou AZUL!!! Ele me beijou e começou um filme na minha cabeça. As notas da música tocavam dentro do meu corpo.” Também pode falar de alguém que te domina sexualmente e vira um drink ruim.

9. Perigo

É sobre ser mulher e poder andar livremente pelo mundo, sem ter que encarar uma guerra diária de assédio e desrespeito. Sem faca na bota nem canivete no bolso. É sobre mandar no próprio corpo — sobre escolhas.

“Eu vi garotas num verão em Lisboa, andando pelos becos sozinhas sem medo, de top e shortinho, sendo sexy em paz.”

10. A Boca e Mais Nada

É sobre sexo, calor, suor e corpos se esfregando. É sobre desejo de uma parte específica de outro corpo, no caso a Boca. Muito tesão nessas noites quentes, de dormir pelada.

11. Dezembro

Parece, mas não é dezembro, nem é carnaval, mas é sempre quente no lado debaixo do Equador. Verões intermináveis e as festas do Rio de Janeiro.

Essa letra fala do Rio e de como lá é sempre verão. Festas de rua em lugares perigosos, vistas absurdas, tudo ao mesmo tempo, num looping de Dezembro.

12. Nome Sujo

“Qual o valor das coisas? Quanto tempo de vida te resta? Você fica esperando o futuro lá longe pra ser feliz? O futuro é agora. Foge enquanto é tempo.”

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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