Como os agentes do mercado da música observam os line-ups dos festivais brasileiros na retomada

 Como os agentes do mercado da música observam os line-ups dos festivais brasileiros na retomada

Gorillaz no Mita Festival 2022 – Foto Por: Alex Woloch

Conversamos com agentes do mercado da música para saber como eles observam os line-ups dos festivais brasileiros no período da retomada de shows

No momento da retomada dos festivais, decidimos primeiro conversar com os organizadores de alguns dos principais Festivais Brasileiros para saber mais sobre sobre os critérios que tiveram para montar seus respectivos line-ups após um longo período sem shows presenciais. Naquele momento o questionamento central foi Quais foram os critérios para montar o line-up após um longo período sem shows presenciais?

Entre outros assuntos, eles puderam se estender e comentar mais sobre a particularidades, demandas regionais, características, e entrar em outras nuances que acabam direta e indiretamente influenciando nas escolhas.

Organizadores de Festivais Brasileiros revelam quais foram os principais critérios para a escolha dos line-ups na retomada

Os testemunhos serviram como começo de uma rica discussão sobre a curadoria dos line-ups que se estendeu para as redes sociais por meio de debates.





Agora chamamos outros agentes do mercado da música para saber público em geral espera destes encontros que sentimos tanta falta ao longo dos últimos anos. E o que se encaixa dentro da realidade. Procuramos, claro, opiniões divergentes para enriquecer ainda mais a discussão.


Gorillaz no Mita Festival 2022 - foto por Alex Woloch - line-ups dos festivais brasileiros 2022
Gorillaz no Mita Festival 2022Foto Por: Alex Woloch

Como os agentes do mercado da música observam o line-up dos festivais brasileiros na retomada

Flora Miguel (jornalista/assessora/produtora cultural)

“É muito animador ver os festivais nacionais voltando com tudo, depois de um período tão longo sem possibilidade de acontecer, e outros que têm surgido agora. Mas, naturalmente, o contexto pesa mais negativamente pra o artista independente, pras propostas pouco usuais e as bandas novíssimas.
Como muita programação de festival estava sendo negociada desde o período pré pandemia, me dá certa sensação de “congelamento” dos line-ups, como se tivessem, de certa forma, parado no tempo.
Outro ponto negativo, mas pouco contestável, é que os festivais precisam agora “correr atrás do prejuízo”, priorizando atrações que já têm público formado na busca de sucesso em suas bilheterias.
Acho que o grande trunfo, nesse contexto, é a equação entre atrações com público formado, aquelas que vão levar gente até o festival e chamar atenção pra ele, e propostas alternativas – aquelas que o festival vai apresentar pro público, que é um dos papéis essenciais de um festival, afinal.”

Cassiano Geraldo (Eu Te Amo Records)

“Esse período pós auge da pandemia é complicado porque existe a necessidade de retomar a cultura e os espaços, mas a maioria dos espaços individuais de pequeno e médio porte foram extintos. Muitos artistas de grande porte hoje em dia tem sua agenda composta 90% de festivais, o que é ótimo pelo alcance do público, mas também mostra o déficit pela falta de lugares e estruturas fora do eixo Rio-São Paulo, e nessa cadeia, o artista pequeno-médio porte acaba sendo engolido.

O Boom dos festivais cria um espaço que dura um, dois dias, e reúne milhares de pessoas celebrando música e arte, que é uma alternativa positiva, mas sinto que é justamente essa demanda por público (e sucesso) – alinhada a uma economia completamente desvalorizada, que reflete em uma curadoria mais conservadoras nos artistas a fim de ter certeza da adesão do público, o que acaba condensando os mesmos nomes nos line-up dos festivais ao redor do Brasil.”

Maria Luísa (Minuto Indie)

“Curadoria é uma tarefa complexa, acho que principalmente para os festivais que de fato dependem dos nomes no line-up para vender ingresso e conseguirem cobrir o seu custo – que não é o caso do Rock In Rio, por exemplo. Para festivais menores como o 5 Bandas ainda temos a confiança e predisposição do público em acreditar que a curadoria ali vai ser maneira, ainda que não conheça os artistas anteriormente. Eles vão para descobrir música ao vivo.

Acho que o terreno da curadoria fica ainda mais incerto quando falamos nos festivais de médio porte. Festivais que precisam atrair grande público através dos nomes do line-up, mas que ainda precisam apresentar elementos de surpresa para manter sua relevância e de fato trazer uma experiência diferente das outras. Acredito que vemos menos surpresas por isso, com curadores não querendo arriscar nas escolhas em um momento que tanta coisa já é incerta. Precisam tentar ao máximo garantir que o evento vai dar certo e se pagar. Mas aí caímos nessa inflação de festivais, juntando nomes consagrados e revelações, porém todos com os mesmos artistas no line-up, como se o Brasil tivesse 20 novos nomes para ficarem rodando ao lado dos gigantes nacionais.

Tanto se fala na experiência sendo a nova moeda, que não vamos aos festivais pela música mais. Não acredito que esse seja o caso, mas ainda que a música fique em segundo plano, as pessoas ainda querem ter certeza de que será um segundo plano agradável. Ninguém gosta de um som incômodo ao fundo, né? Imagina você ouvir as mesmas músicas em todo rolê, uma hora cansa. A música faz parte da experiência. Ficar curioso para o anúncio de line-up e reclamar depois também (risos). Sempre falta alguém ou fulano já veio demais ou esse nome aqui não gosto… Reclamar está na agenda nesse contexto que a gente vive.

Mas acho que temos reclamações válidas do público e que os curadores escolhem ignorar enquanto podem. Os nossos festivais ainda são majoritariamente masculinos, ainda tem pouco espaço para ritmos periféricos nos grandes festivais (e fora de espaços delimitados para tais, tipo Palco Favela no RiR) e para os artistas de fato pequenos – que não são influenciadores e tem poucos ouvintes, mas muito potencial.
O mesmo acontece em festivais que fogem o eixo do pop-indie-rock, como com os novos festivais de rap que tem surgido como o Rep Festival, Alma e Cena, também perpetuando a maldição do line-up repetido e com pouquíssimas mulheres. Não sei se é falta de pesquisa por parte dos curadores ou receio de fazer apostas, mas acho que pagar vários festivais diferentes para ver os mesmos nomes realmente não é o caminho que o público vai escolher.
Acho que cabe aos festivais repensar o que eles querem oferecer ao público além de uma fala genérica de ‘a música brasileira de agora’ como se ela fosse única. Existem várias músicas brasileiras deixadas de fora desses festivais e que poderiam trazer nomes para diversificar esses line-ups. Entendo o receio dos curadores, mas receio o futuro desses eventos também.”

Carlo Bruno Montalvão (MGMT / Booking / PR / Music Label)

“Menos Hype, Mais Substância”

“Dias desses eu estava tentando vender um show de um artista internacional no Brasil para um venue e a resposta deles foi que apesar de gostarem da banda, ela não estava na bolha deles. Mal se deu ao trabalho de pesquisar, de ouvir os links que mandei, de ver os números (que eram gigantes, se comparados aos Hypes forjados daqui)… Isso é preguiça? Conforto demais? Ou apenas falta de interesse (ou visão)?

Porque repetem tantos artistas assim? A desculpa é sempre a mesma: O público quer aqueles artistas – os hypados – e não aposta em novidades. Será que não mesmo?? Ou será que não conseguem ou nem tem a oportunidade de testar algo novo?

É óbvio que você pode engajar e fazer um artista acontecer usando fórmulas, mas eu não quero usar fórmulas, eu quero ver o artista me CONTAR UMA HISTÓRIA. Eu acredito que o papel do artista, quando cria sua obra, é criar um mundo. O seu mundo, ou a sua ótica do mundo. E convidar o ouvinte para entrar e sentir e viver nesse mundo. O que falta para sentirmos o nosso mundo? A nossa cena? O que falta para sentirmos e fazermos a nossa cena ganhar força aqui dentro e fora do Brasil também? A resposta é simples: falta diversidade nos line-ups!

Você está satisfeito em ouvir sempre os mesmos artistas? Em ir nos festivais e ver line-ups repetidos? Em ligar a TV, a rádio, meter uma Playlist e ter sempre os mesmos nomes. Ou você gostaria de descobrir algo novo, como faz quando você descobre um artista gringo e saí por aí contando para todo mundo? E por que só valorizamos os que cantam em inglês e também não damos o mesmo valor para os artistas latinos, por exemplo? Há tantos artistas latinos bons, no indie mesmo, as cenas do México e da Argentina estão nadando de braçada na frente do Brasil nesse quesito, há artistas indie desses países tocando em festivais de todo o mundo, assinando com selos grandes… a Sub Pop vai lançar a Margaritas Podridas (do México), por exemplo. Las Ligas Menores (da Argentina) já tocou no Coachella, o El Mató (também da Argentina) é do selo do Primavera Sound e roda o mundo tocando em diversos festivais gigantes, além de fazer turnês por toda parte.

Artistas indie do México tem MILHARES de views, e de ouvidas no spotify, tem um carinha mesmo chamado Ed Maverick que é um fênomeno com Milhões de seguidores, tem a Bratty, uma cantora novinha que também tem Milhões de seguidores. A cena do México é incrível e diversificada e isso aconteceu porque os grandes festivais de lá apostaram em novos nomes e fizeram a cena indie ficar cada vez mais forte lá e no mundo. E aqui, no Brasil? Aqui, temos os mesmo nomes de sempre repetidos em quase todos os festivais. Isso cansa. Além de fortalecer a poucos, em detrimento da cena em si. A gente pensa e sente, não há cena, o que há é uma “ação entre amigos”. Poucos se favorecem, muitos ficam com as migalhas que sobram do banquete.

Eu trabalho com um nicho muito segmentado que é o indie alternativo, e encontro dificuldade de bookar meus artistas nos line-ups dos festivais nacionais, mesmo que eles toquem em festivais mundialmente respeitados e consolidados como o SXSW, Treefort Music Fest, Freakout (de Seattle), Pop Montreal, façam tours gigantes na Europa (a The Baggios esse ano fez 25 shows passando por 04 países, a Atalhos vai fazer +29 shows passando por +08 países), as coisas aqui demoram muito para engatar, parece que os Festivais daqui nem se preocupam com isso.

Os line-ups repetem a artista X, Y e o Z mil vezes, mas não abre espaço para algo novo, de qualidade, porque se não tivesse qualidade não tocaria no SXSW, nem gravaria sessions para a Paste Magazine (a Atalhos foi e é o único artista do Brasil a fazer isso), KEXP ou teria tour com +29 shows pela Europa. O que falta pros festivais no Brasil apostarem em novos artistas? O que falta para furarmos essa bolha?

A BRAIN (minha agência de shows, booking e management) já realizou shows de inúmeros artistas internacionais no Brasil (Mac DeMarco, Sebadoh, Allah Las, Acid Mothers Temple, The Holydrug Couple, Shabbaz Palaces, The Helio Sequence, Jonathan Richman etc) e desenvolve projetos em quase todo o mundo. Recentemente, em Março de 2022, realizamos uma temporada de 22 shows no SXSW (Austin, Texas), 10 shows no Treefort Music Fest (Boise, Idaho) e 05 shows no Freakout Weekender (Seattle, WA), mas aqui não conseguimos emplacar nossos artistas nos festivais como deveríamos e fico me perguntando quase sempre: 

“Será que sou incompetente para lidar com o que acontece em meu próprio País? Será que não há espaço para meus artistas aqui?” Ou será que a maioria do festivais tem quase sempre a mesma metodologia de escolha de seus line-ups e não esteja disposta a abrir mão do comodismo e dar mais espaço para novidades?

Ainda em Março de 2022, quando fui pro Treefort Music Fest na pequenina Boise (capital do Idaho), uma cidadezinha de menos de 300 mil habitantes, vi um festival com mais de 500 atrações que durava 04 dias, com mais de 20 palcos espalhados pela cidade em teatros, cinemas, salões maçônicos, clubes, venues e bares, além do palco principal, e tinha mais de 70% do lineup formado por novos artistas de todo o mundo, promessas, apostas da curadoria (aqui – no Brasil – a palavra curadoria parece que existe apenas para manter o status de jornalistas e donos de festival, óbvio que há exceções, mas são poucas, falarei delas mais adiante).

Em Boise, no Treefort, eles não têm medo de apostar em novidades porque sabem que o público norte-americano quer isso mesmo: conhecer novos artistas! Se surpreender com o NOVO! E isso me intriga demais… será que daqui há 15 anos (ou 10, sendo muito otimista) isso acontecerá no Brasil? Do jeito que as coisas caminham por aqui, esse parece um sonho inimaginável, mas quem sabe, sonhar não custa nada não é mesmo? Impossível ir ao Treefort Music Fest e não se surpreender com pelo menos 15 ou 20 novos artistas que você NUNCA OUVIU FALAR, mas que te deixaram de queixo caído. Isso é incrível!!!

Menos Hype, Mais Substância” – essa frase é do jornalista Adrian Spinelli, brasileiro radicado nos Estados Unidos, que escreveu um artigo gigante e belíssimo sobre o Treefort Music Fest. Um festival que não tem medo de apostar no novo! Em criar Tendências, em surpreender o público, em tirar as pessoas da zona de conforto.

O que falta para termos uma curadoria de verdade no Brasil? Por que se baseiam tanto em números, likes, streamings de apps, viralizações, hypes e menos em qualidade musical ou apostas em novas tendências, novos nomes? Precisamos furar essa bolha e sair dessa zona de conforto!!! Precisamos apresentar algo novo de uma vez por todas, senão a cena do Brasil vai ficar fadada ao Brasil apenas, nunca se renovará, nunca evoluirá para fora daqui. Nunca abrirá espaço para quem está pedindo passagem.

Os artistas que acontecem aqui dessa forma, em sua maioria, é porque tem bons “padrinhos” ou conseguem pagar uma boa assessoria que os infla nos médios musicais e faz com que as pessoas acreditem que X ou Y é bom. Vejo muita coisa copiada de fórmulas do passado, por exemplo, bandas que emulam e até imitam artistas como Novos Baianos, Gal Costa, Clube da Esquina na fase áurea dos anos 70, mas com uma roupagem atual. Ou imitam os artistas gringos na cara dura. O público gosta mesmo disso ou é induzido a gostar?

Curadoria de Festivais Brasileiros

Há Festivais com boa curadoria no Brasil? Claro que há, alguns exemplos merecem louvor como o Picnik Festival (em Brasília), que completa 10 anos em 2022 e movimenta a cena na Capital brasileira sempre apresentando novos artistas que são mesclados com medalhões da cena nacional. Há o Rec Beat, que acontece durante o Carnaval de Recife e sempre apostou em artistas latinos, por exemplo, antes de muitos aqui apostarem. Além disso, também sempre abriu espaço para novidades, talvez por ser gratuito e no carnaval, quando o público está mais propenso a aceitar novidades, talvez por um capricho da curadoria refinada de Guttie.
Tem o Porão do Rock, também em Brasília, que sempre mesclou nomes consagrados com novidades da cena BR e apostas independentes, além de abrir espaço para artistas internacionais em seu line-up. Tem o novíssimo e a cada vez mais legal Rock The Mountain, que também mescla medalhões do passado com novidades atuais, muitas apostas e alguns hypes repetidos também, mas pelo menos mescla. E isso é um trunfo!
Ainda poderíamos citar o No Ar: Coquetel Molotov, que tem curadoria refinada e aposta sempre em novidades, artistas internacionais e mexe com a cabeça da juventude pernambucana e dos artistas de lá, incentivando a cena local a continuar evoluindo, criando e querendo o novo (de novo). Tem o Bananada, em Goiânia, que também sempre mesclou e sempre abriu espaço para os novos artistas de toda parte do Brasil.
Outro festival bem interessante é o DoSol, em Natal (RN), que também aposta em mesclar novos nomes com artistas mais consagrados e ajudar a criar uma nova cena em Natal. Além de espalhar shows pela cidade, gerando uma movimentação que vai além dos palcos do Festival em si.
Tem muitos outros festivais, mas é melhor parar por aqui para que os que não foram citados não se ofendam e nem achem que meu comentário é pessoal, pois não é (é apenas meu ponto de vista, eu posso estar errado? sim, posso).
Enfim, há alguns oásis no Brasil, mas são poucos se pensarmos que existem centenas de novos festivais surgindo que se apóiam em fórmulas antigas, nome repetidos nos line-ups e zonas de conforto (de novo a bolha que precisa ser furada). Além dos festivais de marcas, que em nada ajudam a cena e dos festivais que dependem de marcas para sobreviver, para se bancar. E, muitas vezes, deixam com que essas marcas ditem boa parte do line-up. Outra vez a curadoria no Brasil some, se apequena por interesses que não sabemos quais são. Ou sabemos, e preferimos nem comentar.
Não quero, com meus comentários, abrir guerra contra ninguém, não é essa minha intenção. O que quero mesmo é abrir um diálogo claro, franco e democrático, onde existam e/ou possam surgir novos espaços para as centenas de novos artistas que ainda surgem no Brasil, dia após dia. Nossa música é rica, sim, e talvez seja a mais rica do mundo em termos de diversidade e gêneros, porém não há uma cena BR consolidada fora daqui. Eu não vejo a música do Brasil sendo exportada para o mundo da maneira como deveria ser, e isso não é somente culpa da falta de apoio governamental, da ausência de um Ministério da Cultura ou políticas públicas de apoio e fomento à cena, nem é somente porque os festivais não abrem espaço para mais artistas (ou se diversificam mais em seus line-ups), a culpa também é nossa (artistas, profissionais do mercado musical, managers, produtores etc) que não nos unimos em bloco, nem lutamos por nossos espaços aqui e fora daqui, que não nos ajudamos e trocamos mais.
Também há de se mencionar o medo que temos de desagradar aos outros, hoje em dia, comentários ofendem demais a qualquer um. Pessoas vestem carapuças que não lhes servem, todo mundo quer ser amigo de todo mundo, e o mundo fica falso demais, soa falso demais. A cena fica frouxa, falsa, rasa, não existe. Espero que isso mude em algum momento, espero mesmo que mais e mais artistas do Brasil apostem em tocar fora daqui (como já está começando a acontecer), porque se não há espaço nos line-ups do Festivais do Brasil para os artistas novos, há festivais em toda a parte do mundo que estão de olho neles e prontos para lhes abrirem espaço em seu line-ups.
Mas, e aí Brasil? Vamos apostar no novo? Ou vamos ficar com o MAIS DO MESMO de sempre? “Menos Hype e Mais Substância”, esse vai ser meu lema de agora em diante, em todas as minhas curadorias. E boa sorte para todos nós, que estamos lutando para sobreviver numa cena tão dispersa e que favorece tão poucos.”

Miguel Galvão (Organizador do PicniK e do selo Quadrado Mágico)

“Tenho alguns “chapéus” de atuação no mercado musical, o que me permite ver a questão da curadoria de diferentes frentes. Como idealizador do PicniK, que completou 10 anos em 2022 com mais de 35 edições em Brasília, 05 em Goiânia e 01 em São Paulo, entendo que a cada edição do evento em formato festival (com 2 dias de duração e atrações musicais variadas), é que conseguimos oferecer ao público uma experiência estética mais completa, vinculando linguagens e fortalecendo nosso propósito – ser uma grande vitrine de talentos alternativos buscando por experiências íntimas, exclusivas, divertidas e intensas. Assim, o festival consegue comportar nomes de Mac DeMarco à Hermeto Pascoal e de Anelis Assumpção à Thee Oh Sees, por exemplo, sempre numa levada psych.

Já como dono do selo Quadrado Mágico, que está desativado desde início da pandemia (spoiler: pretendemos retomar no segundo semestre do ano), enxergo os festivais como oportunidades de comunicar a música com públicos que, em geral, dificilmente viriam os artistas com quem trabalhamos, por serem de nichos mais específicos e, também, pela cena indie ainda estar bastante em desenvolvimento no país, sobretudo quando falamos de nomes que estão se consolidando regionalmente. Por fim, pensando como uma casa de shows (abrimos o espaço Infinu, aqui em Brasília, para 300 pessoas, em 2020), esse perfil de evento nos ajuda a qualificar o rolê e entender quais nomes estão mais fortes para um show solo em outro momento, quem tem mais potencial de público na região ou que tem uma performance foda na qual vale a pena investir.

Ao olhar os line-ups de festivais nacionais me sinto um peixe fora d’água, principalmente no que diz respeito aos eventos mais mainstream. Vejo nomes que sequer conheço como headliners e algumas misturas, confesso, me dão náuseas. A tendência de pegar um artista relativamente grande para somar a outro nome parecido, buscando rechear um pôster e vender alguns ingressos a mais, em geral não me parece cumprir o desejado, que é gerar uma experiência memorável. Certa falta de coerência seria minha maior crítica a esses eventos que buscam públicos gigantes.

O Coala é um que se destaca, estando mais alinhado com o propósito de “passar bastão” entre gerações de artistas. Por fazer seu trampo muito bem feito, o que rolar nele será massificado nos festivais país afora (algoritmo do mundo real?), mostrando uma homogeneidade um tanto endêmica que se reflete na repetição de line ups que, ao meu ver, gera desequilíbrio e concentração, e mesmo uma dificuldade latente dos players em ousar ou inovar.

As propostas que tem me chamado mais atenção positivamente o fizeram mais por conta de suas linguagens visuais, como o Sensacional, que faz alusão a enteógenos e à diversidade de público de forma bem divertida, ou o nosso parceiro Coma com seu flerte ao cosmos intergalático. Acho também legal ver algumas cidades usando os eventos como uma forma de placemaking, ou seja, de trazer atenção e público qualificado para suas cidades, o que entendo como uma tendência que tem potencial de servir como caminho de expansão de algumas marcas.

Me chama atenção também a cena mineira, que está forte, refletindo um bom processo de trabalho de base, que envolve casas de pequeno porte, eventos de qualificação eficientes (como o Música Mundo, onde fui painelista em 2019) e cultura por parte de público consumidor em gastar com atrações locais e alternativas.”

Gustavo Koch (Produtor de eventos, comunicador e gestor cultural e artístico. Na música, trabalha com nomes como Bruna Mendez, Dan Stump, Renan Cavolik e Thiago Pethit, além de ter idealizado o festival Jundiaí Rocks)

“A equação que os eventos de música precisam fazer agora é bastante complexa. Para muitos, são dois anos de contas atrasadas. Também é compreensível que negociações já estavam em andamento e ficaram suspensas, sem definição até o “momento mágico” em que tudo voltou desesperadamente a acontecer. Era natural esperar meia dúzia de figurinhas carimbadas, mas o que temos visto faz pensar… Parece que são todos o mesmo festival, mas em diferentes regiões. A premissa da pluralidade musical defendida por muitos ficou para depois, algumas vezes até colocando a qualidade da curadoria em risco.

Penso que precisamos de uma reflexão sincera e de algum esforço coletivo para mudanças estruturais nos próximos anos. Sabemos que fazer e circular música está caríssimo assim como todo o resto, mas será mesmo que só os mesmos 26 artistas, como aponta a pesquisa feita pelo Coquetel Molotov, são os únicos capazes de mobilizar público e fazer a roda girar nesse momento? Só eles lançaram trabalhos notórios desde 2019? São só esses os nomes que estão bombando nas playlists do público de festivais? E diálogo entre os eventos da mesma região, rolou? Ainda, tem esse movimento esquisito de bandas recém surgidas que começam a carreira escaladas nos palcos dos maiores festivas… Várias questões.

Enfim, eu acredito que a saída para a retomar o mínimo de estabilidade no mercado musical vai ser através do trabalho conjunto dos pequenos e médios festivais. Grandes produtoras, com dinheiro suficiente para investir na hora certa, já sacaram a demanda crescente por música brasileira autoral e criaram os próprios eventos. Isso pode ser perigoso para o ecossistema daqui algum tempo… Porque elas vão jogar seguro, apostar no som mais quente do momento. E o que vai sobrar para os festivais independentes? Dividir a mesma meia dúzia de nomes porque o público desacostumou a ir aos eventos para conhecer novos artistas?

Também acho é importante incluir no radar curatorial as cenas fora dos circuitos tradicionais. Dava pra fazer um baita festival só com artistas de Manaus e Goiás, por exemplo. Mas ainda é nítida a presença massiva de artistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia – ainda que com muitas reservas para os dois últimos. Falta investimento no produto local. E não é só sobre dinheiro. Parece que a gente perdeu o brilho nos olhos de apostar em quem está no mesmo corre que a gente. Eu entendo essa desmotivação, esse medo de arriscar… Mas não dá pra seguir assim.”

Letícia Tomás (PWR Records)

“Em 2021 – 2022 ainda vimos line-ups montados em 2019 – 2020, com algumas adaptações à realidade (ou ao hype) de um cenário “pós” pandêmico.

Acho que só nesse segundo semestre vemos line-ups montados em 2022, e o que observo são programações mais enxutas – menos atrações e quase uma farofa do que deu certo na internet nos últimos anos, sem muito espaço para ineditismo. Sem muito espaço para descobrir música nova, sinto que até outras pautas como diversidades nos line-ups que vinham numa ascensão interessante até 2020 foram esquecidas enquanto os números de redes sociais predominam e são “critério de curadoria”.

Entendo que as produções estão precisando ser um pouco mais conservadoras para fazer a conta fechar. Mas o que estamos oferecendo para o público: a playlist da rádio e os line-ups mais alinhados com um mainstream?”.



Tomás Bertoni (Festival CoMa / Scalene)

Essa questão dos line-ups dos festivais ela é bem complexa e é difícil dar uma perspectiva  porque cada pessoa que olha pra esses line-ups seja do mercado ou público, tem uma perspectiva, tem um gosto musical e mora em uma cidade diferente, né?

Então a primeira coisa que me vem na cabeça quando existe o comentário de que os line-ups estão ficando muito parecidos é de que isso me parece que é uma percepção de quem acompanha muito o mercado que é do mercado ou é um fã de música entusiasta assim que não só ouve por alto as canções mas que acompanha, segue festivais, vê lançamentos, vê as novas tendências e tal. Porque eu sinto que não está tão parecido assim. E também eu não acho que é de todo ruim o quanto de fato é parecido, se tratando de estados diferentes, de cidades diferentes né e  num país como o Brasil, do tamanho que é, tipo, eu não vejo muito problema do line-up dum festival em Maceió ser parecido com de Brasília, que é parecido com de São Paulo, né?

Eixo Rio São Paulo e, hoje de São Paulo, naturalmente dita um pouco a tendência das coisas, né? E mais menos do que as pessoas imaginam, eu sinto e tem um lado bom de artistas, né? Isso já acontece há um tempo. Eu brinco que todo ano tem dois, três artistas que fazem todos os festivais. Sei lá, em 2016 eu posso errar um pouco o ano, mas por 2016 eu lembro que o Rincon (Sapiência) foi um desses artistas aí depois teve o ano da Duda Beat e tem essas coisas assim mas que não é de todo ruim porque isso consolida artistas e geralmente esses nomes que ficam um pouco repetidos em um ou dois anos nos festivais eles estarem nesses festivais é uma forma de consolidar, de colocar esses artistas num novo nível que é bom pro mercado porque quanto mais nomes a gente tiver nesse meio streaming brasileiro, batendo na porta do mainstream com um trabalho de qualidade, com uma música boa, com letras importantes pro momento e tudo mais eu acho que não é de todo ruim e é claro, tem muita gente que gosta de viajar pra festivais e  seria interessante, talvez, que os line-ups variassem um pouco mais, mas qual que é a porcentagem de pessoas que viajam mesmo, sabe?

Falando de público para tantos festivais que os line-ups estão tão repetidos que isso é ruim, sabe? Então e vindo de pandemia eu acho que tem uma uma certa sensação de os festivais estarem garantindo a existência, saca? Então acho que é bem capaz que eu posso falar que o CoMa fez isso, que é segurar um pouquinho o arrojamento, sabe? A gente ainda seguiu todas as nossas premissas e os nossos valores e sem dar nenhum passo pra trás mas também a gente não investiu muita grana em coisas não muito certas sacou?

O CoMA, e essa é a realidade da maioria dos festivais, principalmente os fora de São Paulo e Rio, é se tomar um prejuízo, acabou o festival, sacou? Então é complicado também, é importante lembrar que por trás dessas curadorias e desses festivais existem seres humanos com famílias e que precisam pagar aluguel, sacou? Então acho que tem que ter uma certa compreensão também de que “ah, está tudo repetido”. Mas é porque a galera precisa de segurança e de sono à noite de que vai conseguir vender o tanto de ingresso que precisa, saca?

Então eu acho que ainda tem alguns festivais que dão espaço, eu gosto que o CoMA é um desses festivais. A gente tem muito slot para bandas locais, né? Bandas do Distrito Federal, bandas de Brasília e aposto em nomes tão um pouco mais fora. E tem um outro ponto também que muito festival já tava com contratos fechados e que foram cancelados, que tiveram eventos cancelados por conta da pandemia, né?

Isso dificultou assim, muitos festivais já estavam praticamente com os line-ups fechados e aí não teve muito espaço pra tipo dar uma renovada pro momento de novos lançamentos porque já tinha coisa fechada de antes. Então tem isso e tem um último ponto também sobre a maioria dos artistas do Brasil, pelo menos os conhecidos, headliners, moram em São Paulo e Rio.

Então fazer festivais nesse momento em que as passagens de avião estão no preço que estão é bem complicado. O que a gente está gastando de dinheiro para levar os artistas pro CoMA não é brincadeira. E é incomparavelmente maior do que antes. E não necessariamente a gente está com mais patrocínio. Então é complicado o custo de levar artistas pra outras cidades tipo Brasília, nordeste, norte e até Porto Alegre, festivais que não estão tão perto aqui de São Paulo e Rio. E tem mais um ponto, se você quiser também entrar nesse lugar, que é cada vez mais tem festival, e tem alguns festivais como o Rock The Mountain que tão vindo com uma capacidade de investimento muito grande, aí do nada surgiu também o MITA com a capacidade de investimento muito grande, que não sei como é que isso vai ser construído a longo prazo. Isso dá uma certa inflada em cachês e da percepção do mercado de quanto vale os shows dos artistas de toda música brasileira, saca?



De forma alguma é uma crítica direta a esses festivais mas isso tem a ver com outros eventos também que não só festivais e não só esses não é mesmo uma coisa direta com eles mas os cachês pós-pandemia estão muito mais caros e o que também é legal pros artistas, né? E tem a ver com a própria inflação da economia brasileira, o mercado tá ficando saturado do modelo de evento festival. E o público meio mal acostumado com o que um festival oferece, saca?

Eu acho muito importante que a galera tenha consciência que festival é a experiência como um todo. Então, por exemplo, o próprio CoMA a gente vai ter uma “Ballroom”, a gente vai mergulhar de vez em arte contemporânea, tanto na cenografia, quanto na nas performances, então não é só sobre line up, não é só sobre o headliner, é sobre a experiência como um todo, né?

E é importante não ficar o peso nas costas de ninguém sobre o quão o festival é legal e o quanto de ingresso vende. Não é responsabilidade só do artista, não é responsabilidade só da comunicação, não é responsabilidade do atendimento, é o conjunto todo.”

E você como tem visto os line-ups dos festivais brasileiros?

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Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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