Nietts traz à tona o momento político e sanitário do país em “Doloribus”

 Nietts traz à tona o momento político e sanitário do país em “Doloribus”

Da esquerda para direita, Andre Guimarães, Caio Felipe (Sky Down) e Allan Colosso – Foto Por: Daniely Simões

Quem no finzinho de 2021 voltou a apresentar um novo material foi o duo Nietts que anteriormente havia lançado Disco Inferno (2020) – ainda na formação de power trio com o baixista Luiz (Lata do Lixo da História). Encabeçado por André Guimarães (Muff Burn Grace), nas guitarras e vocais, e Allan Colosso (bateria), o projeto tem entre as principais referências eles trazem elementos de post-punk, new wave, grunge, rock alternativo e a disco music. Em seu novo EP, Doloribus, eles contaram com a participação de Caio Felipe (Sky Down) na banda base além de participações de Ale Labelle (The Mönic) (nos backing vocals de “Shame”) e Cint Murphy (In Venus) (nos backing vocals de “Freeze”).

Como conceito central do compacto eles trazem à tona o momento político e sanitário no Brasil (e no mundo) e foi praticamente inteiro composto e produzido durante a pandemia. Aliás, “Doloribus”, é Dores em latim e a escolha se deve as doses de sentimentalismo presentes no disco.


Nietts - Doloribus - foto por Daniely Simões
Da esquerda para direita, Andre Guimarães, Caio Felipe (Sky Down) e Allan Colosso – Foto Por: Daniely Simões

Nietts Doloribus (2021)

O material que conta com 4 canções e aproximadamente 12 minutos de duração, é intenso assim como o registro anterior e busca através da crueza, e da transgressão, mostrar as cicatrizes de um momento marcado pelo luto, medo, descontentamento e todos os problemas físicos, materiais e psicológicos que o envolvem. É um grito pela reação mesmo quando a vontade para lutar oscila entre dias de ira e dias marcados pelo puro sentimento de apatia.

“Blame”, como relatam os integrantes em seu material de apresentação, “crítica o modelo de Deus “cristão” fundamentalista, sádico e narcisista”. Com vocal rasgado, guitarras dissonantes, no estilo Gang Of Four, e bateria pulsante e baixo frenético o descontentamento perante a imposição reverbera.

Na sequência temos “Shame”, com participação de Ale Labelle, em que André relata como “Um conflito em meio a descobertas, onde você tem um peso moral, um peso social, contra aquilo que você é de fato, onde você põe em xeque o seu caráter, a sua existência. Tem uma ressalva da importância política da existência do “diferente”, do afronte. Ser, existir e resistir”. Mais energética, a canção faz uma ponte entre o dark pop do The Cure e o espírito noventista, para explicitar o conflito.

“Y.P.M.M.S.” traz como curiosidade ser a única canção composta anteriormente ao resto do material. Com o espírito das guitar bands e a batida na caixa do post-punk, ela reflete sobre as relações tóxicas seja no campo dos relacionamentos amorosos como das amizades que não nos fazem bem mas temos que manter por perto. Sentimento esse que acaba consumindo nossa fé no mundo aos poucos.

A dor em seu estado mais bruto aparece em “Freeze”, canção que conta com a participação de Cint Murphy nos backin vocals. Também é a que mais se aproxima a estética caótica de duas das influências contemporâneas do duo, Shame e IDLES. O quebrar o silêncio ganha ainda mais força nos vocais na vocalista do In Venus que se complementam nos vocais de Caio com aquele espírito catártico de grupos como Mudhoney.

O EP foi gravado e produzido por Thiago Babalu no Estúdio Sucursal (SP) em Julho de 2021. Já a mixagem e a masterização foram realizadas por Anderson Kabula em seu Home Studio (Aracaju/SE).


Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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