China “Caça Joias” da música independente em novo programa; confira entrevista

 China “Caça Joias” da música independente em novo programa; confira entrevista

China Ina apresenta o programa Caça Joia no Canal Futura – Crédito: Pamella Gachido

No início de novembro, estreou no Canal Futura a série Caça Joia. Apresentado pelo músico Flávio Augusto Câmara, mais conhecido como China Ina (@chinaina), o programa convida artistas de todo o Brasil para revelar uma “joia rara” da cena indie brasileira.

A cada episódio, os participantes puderam falar sobre seu trabalho, ter o videoclipe reproduzido e receber dicas para a gestão de carreira, além de construir pontes com grandes nomes do mercado, como Zé Ricardo, curador do Palco Sunset do Rock in Rio, Gutie, curador do festival Recbeat; e músicos como Max B.O, Pedro Luís, Céu e Tulipa Ruiz.

Para quem nasceu quase ou após a virada do século e não viveu a era de ouro da MTV na adolescência, China Iina é um músico pernambucano que chamou a atenção do público no final dos anos 90 com sua banda Sheik Tosado, em seguida com sua carreira solo e VJ da MTV quando se consagrou como apresentador.

China é um apoiador declarado da cena independente brasileira. E conta que o principal objetivo do programa é revelar novos talentos da música sem levar em conta número de seguidores.

“Confesso que me surpreendi quando o Canal Futura abraçou a proposta do Caça Joia. Falei “não tô preocupado com o número de seguidores dos artistas e nem com o hype. O som deles e discurso desses artistas é o que importa” – e eles, assim como eu, acreditam na força da música e que a qualidade artística supera questões numéricas, afinal de contas trabalhamos com arte e não com números.”, relata o apresentador.


China Ina- Caça Joia - crédito Pamella Gachido
China Ina apresenta o programa Caça Joia no Canal FuturaCrédito: Pamella Gachido

As Mudanças no “modus-operandi” da Indústria Fonográfica

A indústria fonográfica sofreu grandes mudanças com a chegada das plataformas de streaming e transformou o consumo. A popularização das redes sociais ditou a nova era do algoritmo, onde o sucesso muitas vezes, depende de números de seguidores, assunto já debatido aqui no Hits Perdidos.

“Como trazer a música independente para mais perto do público final sem o mecanismo de jabá rádio e TV? Ficaremos reféns, e dependentes, de modismos, influencers e das próximas ondas no digital?, provoca Rafael Chioccarello em “Jornalismo Cultural, algoritmo, TikTok e o Pós-Pandemia

Em meio a tantos fatores que transformam a indústria, China relata o quão prejudicial podem ser os algoritmos para a música brasileira e afirma que é mais do que necessário fugir dele.

“Com a quantidade de artistas diversos que temos no país, restringir essa diversidade sonora em apenas aspectos tecnológicos de IA me parece raso, sem profundidade. É claro que não podemos ignorar as plataformas digitais, é a bola da vez na indústria da música, mas quem perde é o próprio mercado fonográfico num médio longo prazo em não apostar na diversidade.”, critica o músico

O ranking do Spotify Brasil do primeiro semestre de 2021 trouxe os artistas mais ouvidos na plataforma, entre eles, além de artistas internacionais, a pisadinha e o sertanejo seguiram firmes nas primeiras posições.

O algoritmo se baseia em padrões do usuário para recomendar novas músicas, e há tempos se discute se tais recomendações privilegiam ou prejudicam alguns artistas.

Segundo divulgado no UOL Splash, pesquisadores europeus analisaram os hábitos de escuta de 330.000 pessoas ao longo de nove anos, e descobriram que apenas 25% dos artistas ouvidos em todo esse período foram mulheres, por exemplo.

Em um país com uma imensa diversidade musical, China já há muito tempo faz críticas a indústria, “Vamos deixar de pagar pau pra gringo” disse ele quando se apresentou no Rock in Rio em 2001 e segundo ele, quem sai perdendo muitas vezes é a própria indústria

“A indústria cultural brasileira é enorme, movimenta a economia e emprega milhões de pessoas, imagina se tivesse um investimento maciço do Estado, desde a base?!”, afirma China

“A arte é “imorrível” e os artistas vão se adaptando”

O músico surgiu e segue como um artista independente. A banda pernambucana, Sheik Tosado formada em 96 que misturava frevo, maracatu, metal e hardcore, se apresentou na terceira edição do Rock in Rio e na época, foi apontada como sucessora de Chico Science.

“A arte é “imorrível” e os artistas vão se adaptando. Acho incrível como os artistas de hoje tem mais conhecimento sobre o gerenciamento das próprias carreiras. Eu aprendi isso na porrada, demorou preu (sic) tomar as rédeas do meu trabalho. A turma que chega agora já tem essa noção e se transformam nas suas próprias gravadoras.”, destaca China

A Importância da Cadeia Produtiva na Música Independente

“Muita gente me ajudou e hoje tento fazer o mesmo com quem tá chegando. Precisamos nos fortalecer juntos. A troca de experiências nos deixa mais fortes.”.

E como um artista independente pode escapar do algoritmo e alcançar a outra ponta? Entre tantas iniciativas, vale destacar o Mapeamento de mulheres e pessoas não-binárias na música independente da PWR, selo de música independente. A planilha reúne cerca de 400 artistas do Brasil inteiro.

O Mapeamento é feito de forma colaborativa e destaca a importância do senso de comunidade de artistas independentes no Brasil. Alternativa levantada pelo apresentador: “Planejem cada passo da carreira. Criem pequenos festivais com outras bandas para agregar público. É trabalho de formiguinha mesmo. Não dá pra ficar esperando ser convocado por festival A ou A, tem que correr e fomentar o próprio público.”

“Sempre que possível, investir em assessoria de imprensa para os lançamentos de discos. Nos dias de hoje acho que tem que pensar o trabalho artístico para além da música e usar a tecnologia disponível a nosso favor.”, ressalta.


China Ina - primeira temporada do Caça Joia na TV Futura - crédito Pamella Gachido
ChinaFoto Por: Pamella Gachido

Furando a bolha com “Caça Joia”

Já para quem quer furar a própria bolha, o programa Caça Joia revelou os nomes Karola Nunes, Raidol, Mateus Fazeno Rock, Tamara Franklin, Héloa, Luana Flores, Banda Pelados, Ovo ou Bicho, Marina Peralta, Marilia Parente, Roça Sound, Tavin, Kaê Guajajara. Artistas cheios de autenticidade e mensagem com trabalhos honrosos.

A busca pelos talentos teve início nas redes sociais, com enquetes que pediam dicas de novos artistas de diversas regiões do país. A curadoria foi muito cuidadosa ao selecionar a dedo os 13 artistas da primeira temporada.

O principal critério utilizado foram as histórias e qualidades das músicas, questões como número de seguidores em redes sociais, por exemplo, não foram consideradas, já que o objetivo é descobrir talentos.

Outra recomendação do apresentador é… não clicar nas recomendações e de fato, garimpar.

“Nunca clico nas indicações que o algoritmo me dá. Não vicio a plataforma. Pesquiso em blogs de música, dicas de amigos e vou caçando. Faço questão de deixar meu algoritmo maluco com tanta coisa diferente que escuto.”

A primeira temporada do programa Caça Joia já chegou ao fim, porém os 13 episódios exibidos no Canal Futura estão disponíveis na Globo Play. Para quem acredita na cena independente brasileira e quer encontrar uma “joia rara” vale conferir para conhecer os artistas entrevistados e fugir das recomendações do Spotify.



Playlist: Hits Perdidos x Caça Joia

Para fechar o post preparamos uma playlist com os artistas que participam da temporada.
Confira e viaje nos sons da “selecta” do China.

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Fernanda Decaris

Jornalista e colaboradora do Hits Perdidos. Gosto de descobrir coisas novas enquanto ouço música boa, tenho 23 anos de muita curiosidade, curto séries, gatos e já gostei de fazer poesia. Nas horas vagas me arrisco a fazer arte.

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